Palhaços acompanham procedimentos médicos em Israel

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Ao redor do planeta, há muitas iniciativas diferentes de palhaços que atuam em hospitais. Elas nascem de uma ideia genuína ou inspiradas em projetos que prosperaram e se adaptam à cultura local e, como é de se esperar, ao sistema de saúde. 

Uma destas iniciativas se chama The Dream Doctors Project, e nasceu em Israel há quinze anos. Por lá, mais de 110 palhaços se revezam em 29 hospitais e centros médicos com uma incumbência: atuar junto aos profissionais de saúde durante os procedimentos médicos.

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Os palhaços se envolvem em mais de 40 procedimentos, acompanhando crianças em exames como tomografia, ressonância magnética, quimioterapia, radioterapia, fisioterapia e reabilitação; além de procedimentos dolorosos e complexos, como injeções nas articulações, terapias de queimaduras e acompanhamento de cirurgias.

A presença dos Dream Doctors, como são chamados, reduz o estresse e aumenta o bem-estar da criança, facilitando o diagnóstico pela equipe médica. A organização investe em pesquisas científicas para avaliar o impacto das suas ações nos hospitais. Eles já provaram, por exemplo, que o trabalho diminui a dor e alivia a depressão – e pode até tornar desnecessária a utilização de sedação em alguns casos.

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Em 2011, a organização promoveu uma conferência para falar sobre suas pesquisas.Dream Doctors Project First International Conference on Medicine and Medical Clowning atraiu 250 participantes de 22 países a Israel. Em 2013, membros da equipe estiveram no Brasil junto a outras iniciativas, a convite de Doutores da Alegria, para discutir o futuro deste trabalho.

Na ocasião também esteve Michael Christensen, ator americano pioneiro em levar o palhaço a atuar sistematicamente em hospitais. “Os palhaços do Dream Doctor são totalmente e completamente inspiradores. Eles têm a integração mais profunda com a palhaçaria dentro do sistema médico de qualquer programa que eu já visitei – e essa integração tem incentivado a todos nós, como artistas, a se esforçar para esse mesmo tipo de unidade, respeito e comunicação”, afirma ele.

E se Wellington Nogueira, fundador do Doutores da Alegria, já dizia que a Besteirologia é profissão de futuro, o Dream Doctors Project trabalha ativamente para obter um reconhecimento oficial da profissão do palhaço que atua em hospitais, com padrões estabelecidos e reconhecidos pelo Ministério da Saúde de Israel.

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Mais recentemente, a organização criou um programa de intervenção em locais com emergências e desastres naturais, prevenindo o desenvolvimento de pós-trauma.

Esta iniciativa de Israel desenvolveu um modelo de atuação único. E embora tenham o palhaço como figura central, as iniciativas ao redor do planeta se diferem em seus objetivos e ações, mas convergem em uma certeza: a de que a arte inserida no universo da saúde veio para ficar.

O espetáculo que criou um hospital dos nossos sonhos

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Chegamos ao final da temporada de estreia do Numvaiduê, o espetáculo de comemoração dos 25 anos de Doutores da Alegria. 

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Ficamos em cartaz em setembro e outubro no Teatro Eva Herz, em São Paulo, com 11 palhaços em cena. Foram dois meses de apresentação com, felizmente, casa lotada.

Além disso, passamos por dois meses de intensa criação e ensaios. E, antes disso, muito tempo para conseguirmos apoios e projetos para que o espetáculo saísse do papel para as nossas cabeças. 

Confesso a vocês que algumas vezes tive receio da estreia.

O processo de criação requer tempo e muitas coisas criadas são descartadas no produto final, um trabalho de abandono do ego de cada um dos palhaços, um eterno pensar no bem de um todo, e não só no individual. Aliás, fiquei muito feliz com o produto que resultou desse trabalho. Reflete e muito, na minha opinião, o que fazemos no hospital.

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Em nosso trabalho pontual, deixamos a graça de lado, algumas vezes, para vivermos momentos graciosos, onde o que interessa não é o riso por si só, mas um riso que possui qualidade na relação com o outro. No teatro, apresentamos para 200 pessoas e, no hospital, muitas vezes apenas para paciente e mãe.

A arte ajudando a entender a vida, em Bora.ai/Estadão
- Doutores voltam ao palco com elenco impecável, em Revista Crescer
- Numvaiduê, em Revista Veja
- Doutores da Alegria é indicação de críticos infantis, em Folha 

Como transportar esse encontro do leito para o palco? 

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Essa era a minha apreensão e acredito que de todos que participaram do processo. Como representar 25 anos de trabalho de todos os palhaços que já passaram pela instituição Doutores da Alegria? Como transportar para o palco as nuances das mudanças de 25 anos de trabalho? A delicadeza, o poético e o gracioso juntos, sem cair no piegas…? 

Acredito que conseguimos. No palco, saímos um pouco da graça do picadeiro, sem desvalorizá-la, e habitamos a graça hospitalar. Sensível, sem pressa, cuidadosa, com olhar apurado e música. 

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O hospital está lá: em cada seringa, garrote, máscara, luva, enfermaria, berçário, sala de espera…

Por sinal, como retratar uma sala de espera de hospital de uma forma leve, poética e teatral? Eu e Dr. Zequim nos trocamos todas as segundas e quartas em uma salinha colada à “triagem”, onde costumamos falar que se tivéssemos um botão de invisibilidade para passar por lá seria sensacional!

Sabemos que as pessoas que lá estão talvez não queiram nem ver uma dupla de seres estranhos. Dor e apreensão imperam no ar. E respeitamos isso, sem nunca desrespeitar quem tem interesse naquela dupla que por lá passa. Isso requer uma escuta e um olhar apurado e treinado para isso e, principalmente, calma.

Mas não só calma. Todos os dias visitamos as alas que passaremos antes de nos caracterizarmos. Isso nos permite saber se a “triagem” está cheia, vazia, confusa, violenta… E acredito que em Numvaiduê, a presença da “sala de espera” e/ou “triagem” é fundamental. E lá está ela, em duas cenas! 

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E não tem como deixar de agradecer a todos do Hospital M’boi Mirim que foram nos ver no teatro: médicos, enfermeiros, pessoas da Administração e muitos outros setores. Aos que não puderam ir, não se sintam tristes, pois foram muito bem representados.

E bem, há de haver uma nova temporada ano que vem!

Duico Vasconcelos, conhecido como Dr. Pysthollinnha,
escreve do Hospital do M"boi Mirim, em São Paulo.

O que vai ter nesse mundo tão azul?

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Você imagina um ser humano pesando menos de um quilo? 

Bem, não é fácil de imaginar, não. Um ser humano que pesa menos que o prato do almoço da Dra. Juca! Mas sim, estas pequenas pessoas existem e muitas delas estão lá no berçário do Hospital Universitário. Ou no berçário do Hospital Barão de Lucena, em Recife.

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Todas as semanas as vemos crescer, engordar, aprender a mamar e, muitas vezes, aprender a respirar sozinhas! São pequenos heróis e heroínas que saem das barrigas das mamães antes do previsto e precisam lutar muito pra sobreviver.

E para isso, contam com uma equipe de profissionais de saúde que, além de muito carinho, possui um conhecimento e uma habilidade enormes para lidarem com essa batalha pela vida. Pais e mães também estão lá diariamente na luta com seus pequenos. Ah, eles ainda contam conosco, besteirologistas! 

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E é incrível vê-los crescer e sair do aquário, quero dizer, da incubadora… É que gostamos de chamar as incubadoras de aquário, ainda mais quando elas estão azuis e nossos pequenos usando óculos escuros. Muito lindos! 

Aproveitamos para fazer uma homenagem a estes pequeninos e aos profissionais de saúde no espetáculo Numvaiduê, que está em temporada até 29 de outubro no Teatro Eva Herz, em São Paulo. A música da cena é mais ou menos assim:

Como vai ser? O que vai ter nesse mundo tão azul?
O que será que tem detrás daquela porta
Uma estrada reta ou uma estrada torta?
Como vai ser? O que vai ter nesse mundo tão azul?

Tenho medo e tenho vontade
E a barriga da minha mãe já dá saudade
Como vai ser? O que vai ter nesse mundo tão azul?

Eu ouvi que nada é perfeito
Mas colo é colo, beijo é beijo e peito é peito!
Como vai ser? O que vai ter nesse mundo… Multicor?

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Juliana Gontijo, mais conhecida como Dra. Juca Pinduca, escreve do Hospital Universitário da USP, em São Paulo.

Onde já se viu palhaço no hospital?

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Batemos na porta do quarto. Abrimos. O menino nos olha e diz:

- Eu não gosto de palhaço!
- Nós também não!
, respondemos. Onde já se viu palhaço no hospital? Que falta de absurdo! Ridículo! O que palhaço vai fazer no hospital?

E a conversa segue nesse ritmo. O menino não entendendo e acompanhando o raciocínio, se é que existia algum, nos olhando com cara de espanto e alegria.

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No primeiro dia fomos embora com o gosto do “não” na boca, no ar. Na outra visita já chegamos dizendo pra todo mundo que estava no quarto:

- Olha gente, ele ODEIA PALHAÇO, não gosta mesmo. 
O menino com cara de espanto. Continuamos:
- Mas o Dr De Derson e o Dr Valdisney… Ele adora!

O jogo foi entendido. De fato, o menino gosta muito de não gostar de palhaço. E, bem, a gente adora falar que ele gosta da gente. Com cara feia e carinho, cada encontro é um acontecimento.

Val Pires, conhecido como Dr. Valdisney no Hospital Santa Marcelina, em São Paulo.

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Além dos hospitais: um retrato do que bate à nossa porta

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O que entra pela porta de um hospital público é o reflexo da comunidade. Falta de saneamento básico, descuido com a alimentação, poucos espaços de lazer, violência doméstica, sexual, de identidade, intelectual: está tudo ali. 

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E o que entra pela porta da sede do Doutores da Alegria, há precisamente 14 anos, também é um retrato da cidade de São Paulo. 

Todos os dias, pouco mais de 20 jovens de diversos cantos desta metrópole se encontram aqui para ter aulas profissionalizantes de palhaço. O curso é gratuito e focado em jovens com o sonho de ganhar o mundo com seu nariz vermelho. Adolescentes, quase adultos, que não têm garantidos os direitos mais básicos nas comunidades em que vivem, mas apostam numa formação de qualidade e na arte como seu ofício. 

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E se o que entra pelo hospital se torna matéria prima para o palhaço besteirologista, o que entra pela porta da nossa sede é alimento para Doutores da Alegria enquanto instituição. Pois bem, um destes estudantes trouxe uma experiência que faz parte da rotina de jovens e pobres da periferia: uma abordagem policial. Eis o seu relato: 

“Hoje fui abordado pela polícia e tinha tudo pra ser uma enquadro “normal”
Perguntou onde eu moro, onde trabalho e o que estava fazendo ali.
Respondi tudo da melhor forma possível
O policial me revistou, revistou minha mochila deixou uma zona.
Até que ele pediu para ver meu celular e pediu para eu desbloquear para que ele visse em que nome o iMei do celular estava.
Perguntou de quem era o celular 
Eu disse que era meu 
Ele perguntou quem me deu já que eu não trabalho 
(Pobre e preto de iPhone é uma ofensa)
Eu disse que comprei
Ele perguntou como
Eu tive que explicar que trabalhei 
Perguntou em que loja eu comprei
Eu disse que comprei de um amigo
Ele insinuou que meu amigo roubou e foi para o carro 
Chegando lá ele viu que o celular não foi eu que comprei, que foi comprado por outra pessoa 
Foi em minha direção pegou meu punho de uma forma grosseira e ignorante ao ponto de fazer meu relógio sair do pulso
Ele pisou no meu relógio ao ponto de quebrar e arranhar 
Me colocou no porta mala da viatura disse que eu iria para delegacia 
Eu implorei perguntando se eu poderia ligar ou mandar msg para a pessoa que comprou. 
Ele disse para eu mandar msg na frente dele
Eu mandei meu amigo respondeu rapidamente 
O policial foi para o rádio e confirmou o cpf 
Depois de um tempo ele me liberou como se nada tivesse acontecido. 
Meu relógio quebrado não era meu maior problema. 
O problema é que amanhã vou passar nessa rua novamente e sei como vou ser lembrado por aquelas pessoas que viram.”
 

É sabido que jovens e negros são as principais vítimas de violência no país. 

O Brasil registrou*, em 2015, quase 60 mil homicídios. Foram 60 mil assassinatos em um ano. Os homens jovens (15 a 29 anos) continuam sendo as principais vítimas: mais de 92% dos homicídios representam essa parcela da população. A cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras, sendo que os negros possuem 23,5% mais chances de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças, já descontados os efeitos da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência.

[* dados do Atlas da Violência 2017, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. ]

Os números e casos como o deste estudante ilustram uma realidade que às vezes esquecemos ou tentamos fingir que não está ali, mas que bate à porta todos os dias. A violência contra a população jovem e negra cria marcas profundas que vão sendo reeditadas na sua pele todos os dias. A situação é ainda agravante para as mulheres negras, que sofrem com o racismo e com o machismo em nossa sociedade.

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A história do Brasil é carregada de violência contra a população negra, desde a violência que foi socialmente aceita, como a escravidão e as políticas de branqueamento da população (a serem tratadas no próximo capítulo), até a violência implícita que se dá através do preconceito racial. Negros ocupam os maiores bolsões de pobreza do país, são maioria nas penitenciárias e sofrem por não ter representatividade. 

A nossa sociedade precisa agir de maneira efetiva para diminuir estas pequenas e grandes tragédias. Movimentos sociais e coletivos se mobilizam para exigir políticas públicas para frear a discriminação em todas as esferas de poder, sobretudo pautadas na educação de base, trazendo luz à história africana do ponto de vista dos negros. 

A arte é outro campo que pode contribuir com este movimento, desconstruindo conceitos e questionando a visão eurocêntrica. A Escola dos Doutores da Alegria se ocupa em formar artistas engajados, com capacidade de ler a realidade em que estão inseridos e propor uma intervenção crítica. 

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E se inspirar políticas públicas é nosso dever como organização, é preciso beber da fonte de movimentos sociais e dialogar com estes jovens. O caminho para uma sociedade responsável e de relações saudáveis já bate à porta de todos nós.