As lições do mais longo estudo sobre a vida adulta

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Manter hábitos saudáveis certamente melhora a nossa vida: alimentar-se bem, dormir o suficiente, manter o check-up em dia, fazer exercícios e tudo o mais. Acontece que um novo ingrediente foi adicionado ao balaio: manter relacionamentos saudáveis.

Pelo menos é isso que traz um estudo – possivelmente o mais longo feito sobre a vida adulta – feito pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Eles investigam, há mais de 75 anos, o que nos mantêm saudáveis e felizes enquanto passamos pela vida.

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O Estudo de Desenvolvimento Adulto, coordenado hoje pelo psiquiatra e psicanalista Dr. Robert Waldinger acompanhou a vida de 724 homens, dos quais 60 ainda estão vivos e participam do estudo. E há dez anos, as esposas destes homens também participam do estudo. O próximo passo é incluir os mais de dois mil filhos destas pessoas. Veja aqui o estudo completo.

Nesta palestra de 2015 no TED Talks, ele explica a descoberta. “Ouvimos constantemente que devemos priorizar o trabalho, dar nosso melhor e conquistar mais coisas. E nos dão a impressão que essas são as coisas que devemos correr atrás para se ter uma vida boa.”, conta Dr. Waldinger.

 

A cada dois anos, os pesquisadores enviam questionários, entrevistam alguns participantes, conversam com suas esposas e filhos, recebem seus boletins de saúde e até escaneiam seus cérebros.  O volume de informações gerado é impressionante e certamente trará novas descobertas.

Mas Dr. Waldinger é categórico quanto ao aprendizado principal extraído do estudo. “Quais são as lições que extraímos das dezenas de milhares de páginas de informação que geramos sobre essas vidas? Bem, as lições não são sobre riqueza ou fama ou trabalhar mais e mais. A mensagem mais clara que tiramos desse estudo de 75 anos é esta: bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis. Ponto final.”

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E ele lista três grandes lições sobre relacionamentos durante a vida:

Conexões sociais são muito boas para nós, a solidão é tóxica

Estar conectado com a família, amigos e comunidade manteve os participantes fisicamente mais saudáveis e mais felizes do que as pessoas com poucas conexões. Já pessoas mais isoladas do que elas gostariam de estar tem uma experiência de vida diferente: descobrem que são menos felizes, sua saúde decai precocemente na meia idade, seu cérebro se deteriora mais cedo e vivem vidas mais curtas do que aqueles que não são solitários. 

O que importa é a qualidade dos seus relacionamentos mais próximos

Não se trata apenas do número de amigos que você tem, ou se você está ou não em um relacionamento sério, mas sim da qualidade dos seus relacionamentos mais próximos. Casamentos muito conflituosos, por exemplo, sem muito afeto, podem afetar a saúde em longo prazo, enquanto que viver em meio a relações boas e reconfortantes parecem nos proteger durante o envelhecimento.

“Nossos homens e mulheres mais felizes em uma relação relataram, aos 80 anos, que nos dias que tinham mais dor física, seu humor continuava ótimo. Mas as pessoas que estavam em relacionamentos infelizes, nos dias que tinham mais dor física, esta era intensificada pela dor emocional”, conta o pesquisador.

Relações saudáveis protegem não apenas nossos corpos, mas também nossos cérebros

As pessoas em relacionamentos nos quais sentem que realmente não podem contar com a outra pessoa são as que acabam tendo declínio de memória mais cedo. E esses relacionamentos bons não precisam ser tranquilos o tempo todo. 

“Alguns de nossos casais octogenários podiam discutir um com o outro dia sim, dia não, mas contanto que sentissem que poderiam contar um com o outro quando as coisas ficavam difíceis, aquelas discussões não prejudicavam suas memórias.”, finaliza. 

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Cultivar bons relacionamentos ao longo da vida é mesmo um trabalho incansável.

Demanda energia para passar por momentos conflituosos e nada tem a ver com fama, riqueza ou grandes conquistas. Bem, e se você já praticou seu exercício preferido hoje ou dormiu bem nesta noite, que tal encontrar aquele amigo de infância ou convidar seu parceiro para um passeio inesperado?

Um encontro de culturas no hospital

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Estávamos na pediatria, que fica no 3º andar do hospital, subindo as escadas, virando à esquerda, quando encontramos duas angolanas, uma mãe e sua filha de dois anos.

A filha adorou a música que eu, Dr. Mané, e Dr. Mingal tocávamos no quarto.

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- Ela gosta muito de música! Costumo cantar para ela…, disse a mãe.

Pedimos então uma palhinha, mas a mãe disse que só sabia músicas de Angola. 
- Tipo o kuduro?, perguntou Dr. Mingal.
- Sim!, riu a mãe.
- Canta pra mim que eu sei dançar o kuduro!, pediu o besteirologista. 

Kuduro é um gênero musical e um gênero de dança que surgiu em Angola. É um ritmo influenciado por outros gêneros como kizomba, semba, reggae, afro house e rap. E então ficou assim: a mãe cantava com a filha, eu ajudava com a melodia e o Dr. Mingal dançava o kuduro com toda a sua malemolência.

A demonstração estava tão boa que muitos pacientes de outros quartos foram ver o que estava acontecendo ali. Um grande encontro de culturas.

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Ao final da música, sob aplausos e risos de todos, a menina olhou para o besteirologista balançando a cabeça.

- Não é assim, Mingal! Você não sabe dançar!
- Então como é?
, perguntou ele. 

E a menininha mostrou a dança da sua Angola ao som da mãe, que cantava rindo e chorando. Uma cena daquelas realmente inesquecíveis.

Márcio Douglas, conhecido como Dr. Mané Pereira, escreve do Hospital Santa Marcelina, em São Paulo

As três principais tendências em saúde para 2018

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Enquanto fazemos uma pausa no trabalho dos hospitais neste início de ano, pesquisamos o que nos aguarda em 2018 no campo da saúde.

Já falamos sobre o salto de qualidade técnica da Medicina nos últimos anos, que teve a tecnologia e os avanços científicos a seu favor. Também colocamos na mesa os dilemas envolvendo o sistema único de saúde no Brasil, um dos únicos no planeta que se coloca à disposição para toda a sua população.

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Pois bem: segundo especialistas em saúde, o ano de 2017 foi marcado por crises na área ao mesmo tempo em que trouxe transformações que devem continuar nos próximos anos. Vejamos então as três tendências em saúde importantes apontadas por eles para 2018:

Avanços tecnológicos relacionados à longevidade

O número de pessoas acima dos 60 anos no Brasil, hoje em 12,5%, deverá quase triplicar até 2050, ultrapassando a média mundial, de acordo com o Relatório Mundial de Saúde e Envelhecimento. Essa realidade vem trazendo uma mudança no perfil de óbitos: as maiores causas de mortalidade no país são doenças cardiovasculares (33%), câncer (20%) e mortes violentas (13%).

O avanço tecnológico já permitiu o desenvolvimento da robótica da Medicina, trouxe qualidade e nitidez a exames de imagens e tornou as cirurgias mais assertivas. Agora, com foco na longevidade, vem trazendo respostas e novos medicamentos para doenças crônicas e degenerativas como o Alzheimer, a esclerose múltipla e o câncer, além de estudar por que envelhecemos e como retardar esse processo.

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Para Frank Pok, chefe de tecnologia no conglomerado farmacêutico AstraZeneca, “será a tecnologia dentro da sua casa, e não aquela em hospitais, que mudará a forma como lidamos com saúde”. Segundo ele, dados obtidos graças a sensores, smartphones e outros produtos podem ser uma fonte poderosa na mão de cientistas e a digitalização vai nos preparar para novos tratamentos, terapias e, claro, para prevenção

Foco na prevenção, diagnóstico precoce e a recuperação da saúde

Cuidar das pessoas antes de precisarem de hospitalização deixou de ser um ideal e vem se tornando uma prática. A preocupação com a saúde está cada vez mais evidente, ainda que mais fortemente entre as classes sociais mais ricas, e se manifesta por meio da alimentação, da atividade física e de hábitos saudáveis.

Recuperar a saúde significa mais qualidade para uma vida cada vez mais longeva. Para os hospitais, o tratamento crônico implica em maiores custos de assistência, e por isso a Medicina preventiva ganha espaço no trabalho e nos investimentos das operadoras de saúde e das empresas.

E o consumo de bens e serviços de saúde só cresce. Segundo levantamento do IBGE divulgado em 2017, as despesas nesta área oscilaram entre 18,5% e 19,6% do total do consumo do governo, entre 2010 e 2015. Já no caso das famílias, as despesas com consumo de bens e serviços de saúde passaram de 7,3% do total de seu consumo, em 2010, para 8,2%, em 2015.

Melhorar a experiência de internação

É certo que durante a internação há um distanciamento do cotidiano e de tudo que nos cerca – objetos, cheiros, hábitos, bichos de estimação, familiares. “Intimidade, identidade, controle sobre a vida, quase tudo vai pro espaço.”, como lembra Soraya Saide, atriz e palhaça do Doutores da Alegria.

Mas muitos hospitais já cruzaram a fronteira de locais frios e sisudos, em que a autoridade do médico e a necessidade de regras e padrões ficam acima de qualquer outra percepção. Se antes acreditava-se que ter qualidade exigia custos elevados e retorno improvável, hoje é claro que somente por meio dela é que as instituições atingirão sua sustentabilidade financeira e perenidade. Isso inclui investimento na formação dos profissionais e nas condições estruturais dos hospitais.

E ações de humanização e práticas artísticas elevam a percepção da qualidade de internação. Alguns exemplos disso são as obras de arte dispostas em todos os corredores do Chelsea and Westminster Hospital, brinquedotecas bem articuladas com as pediatrias e a presença permanente de palhaços profissionais.

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Bem, e se a contribuição do Doutores da Alegria para a saúde envolve melhorar a experiência de internação, ficamos à espreita para saber como estas outras tendências vão impactar no dia a dia de hospitais públicos. Muitos ainda enxergam um grande abismo entre o futuro que se apresenta e as condições presentes, agravadas pela falta de recursos para manter o básico com qualidade.

Que venha 2018!