O que você carrega no seu vazio?

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

O vazio existe? Tenho a impressão de que não.

No trabalho, nós, palhaços, aprendemos a trabalhar o vazio. É o que acontece muitas vezes na porta de uma Enfermaria, por exemplo, pois não dá pra saber o que está por vir. Cada encontro é único – igual à cada pessoa – e é preciso estar, simplesmente, aberto. 

Acontece que isso não é nada fácil. De repente, estamos ali, parados, sem acontecer patavina e todos estão nos olhando, esperando que algo aconteça.

Barão de Lucena - Lana Pinho-82

Às vezes, o estímulo vem de dentro da Enfermaria, por meio da criança, de seu acompanhante ou de quem quer que seja que esteja ali naquela hora. Outras vezes, somos nós que levamos alguma proposta. E, outras vezes, aparece o vazio. Ao longo dos treinamentos e da prática, entendemos que esse vazio também faz parte do nosso exercício e é precioso ao trabalho.

É o vazio que nos faz dar espaço às surpresas, ao risco, ao novo. E, por isso mesmo, ele nos dá um pouco de medo porque é como estar de olhos vendados e, ainda assim, dar o próximo passo. Por outro lado, o vazio também nos fortalece, pois vamos ganhando confiança à medida em que nos aventuramos nele. Pode dar tudo errado – e a gente sobrevive. E também pode dar muito certo, e é uma delícia. Nas duas formas, ganhamos. 

A questão é que esse vazio não me parece nada oco. Ele tá preenchido de alguma coisa.

Barão de Lucena - Lana Pinho-9

Quando não, de algumas coisas. Se ele está ali, está ocupando algum lugar no espaço, ainda que não o vejamos, concorda? Entrar na enfermaria do M. é tudo isso pra mim. Mesmo cada vez mais debilitado, a sua disponibilidade se agiganta diante da minha limitação.

- M., a gente pode tocar uma música pra você?

Ele responde que sim, articulando pouco a sua fala e com um volume que faz o encontro ser ali, bem de pertinho com ele, campo de muita intimidade. Continuo:

- Você quer que a gente toque aquela ou a outra?
- Aquela.

Tocamos uma música e, no fim, ele disse “Miau!”, resposta de grande reflexo para a canção Atirei o pau no gato, mas que muitos se intimidam de dar. Ele não. 

Barão de Lucena - Lana Pinho-20

Acho que M. tem uns oito anos e, diante dele, me sinto zerada, sem saber fazer nada. Mas cheia de coisa dentro.

Os físicos, astrofísicos e tantos outros sabidos deverão falar de coisas como oxigênio, gases, partículas, etc. Eu, Baju – doutora em Besteirologia – tô falando de algo que não se pode medir. Talvez seja assim: cada um sabe o que carrega no seu vazio. 

Juliana de Almeida, conhecida como Dra. Baju,
escreve do Hospital Universitário Oswaldo Cruz e Procape, no Recife.

Um visita a ala adulta

Tempo de leitura: 5 minuto(s)

Depois de um ano muito brabo no Hospital Universitário da USP, com os palhaços se equilibrando em meio ao desmonte que o hospital vem sofrendo, tomamos uma decisão inédita e que veio ao encontro dos anseios dos profissionais de saúde. 

RT_017_180320

Os Doutores da Alegria agora passam visitas na ala adulta do HU.

Em toda a nossa história, nunca havíamos ultrapassado a fronteira da Pediatria na posição de besteirologistas. E a tarefa ficou com os artistas Monique Franco e Nilson Domingues, que agora fazem o trajeto pela Clínica Médica Adulta todas as quintas-feiras. As terças continuam com as crianças, que seguem em número reduzido em função da falta de médicos (essa história a gente já contou aqui). 

Monique e Nilson contam, a partir de suas reflexões, como tem sido atuar com pacientes adultos nestes últimos meses. 

Mês 1, por Monique Franco

As paredes dos corredores não eram coloridas e nem havia choro de criança levando injeção. Quanto menos barulho, menos incômodo. Melhor assim.

Antes de entrar neste novo universo, eu e Nilson nos olhamos nos olhos, pegamos nas mãos e, assim, com a cara e a coragem que só o palhaço nos dá, começamos a atender os adultos do Hospital Universitário. 

Foto_25

Com toda a delicadeza do mundo, abrimos a porta. Começamos do jeito que sabemos:

- A gente pode entrar?, falando baixinho sem querer incomodar e achando chão para pisar. E ouvimos bem alto:
- Filho, fala mais alto que eu não escuto direito!

Ali já deu pra sacar que entramos em um território totalmente diferente, que necessita de uma nova abordagem e de um novo olhar para os nossos pacientes não tão novos assim. Fomos de quarto em quarto com bastante medo. Mas como dizia a vó do Dr. Chicô: “Tá com medo? Vai com medo mesmo.” Fomos de peito aberto pra nova história que está começando para nós como pessoas, como besteirologistas, e também para a instituição Doutores da Alegria. 

Em outro quarto, duas senhoras. Duas Marias.

Uma sorridente, a outra com dificuldade pra sorrir, ambas admiradas com os novos doutores de caras pintadas. Uma das Marias propõe um dilema pra gente em forma de desabafo:
- Nesses últimos tempos não tenho muito motivo pra me alegrar…

Então o quarto rachou ao meio. Um lado quer música, quer rir, quer vida. Do outro lado da vida, um “tanto faz”. Nós, no meio, ficamos com a Maria da vida, pra ver se o outro lado se contaminava e se deixava viver. Conseguimos um leve sorriso, um sorriso tímido. 

hu

De um lado as crianças, as paredes coloridas e os médicos que já nos reconhecem como parte do hospital; do outro, adultos e suas histórias, seus jeitinhos de brincar. As paredes podem ainda ser frias, para os médicos ainda somos estranhos.

Só que no fundo ainda é como atender as crianças.

Entrando no quarto, pedindo licença, escutando o que o encontro nos propõe, buscando ali o que está sadio, trabalhando com o que pulsa e vive para além da doença, com esse outro lado da vida, que também é vida.

+ leia aqui: O Hospital Universitário da USP resiste 

Mês 2, por Monique Franco

O frio na barriga ainda esta lá, mas já não há mais medo, já não nos parece mais tão hostil, nem tão cinzas as paredes. Deve ter muito a ver com o sorriso que agora a equipe nos recebe, que vai nos dando confiança e força. Talvez eles nem saibam o quanto fazem parte da energia que temos que ter para entrar em cada porta de quarto. 

Barão de Lucena -  Lana Pinho_-30

E se fossem vocês, parados ali diante da porta, olhando a placa com o nome de quem está lá dentro?

Algumas poucas informações sobre precauções, não está escrito se o paciente esta só, se ele gosta de música, qual a sua religião, nem nada. Só aquela pequena placa com nome. Você bate de leve na porta, entra e dá de cara com os olhos dos adultos em um grande ponto de interrogação. 

Ambos sabemos que você não está ali para dar alta, que não veio amenizar a sua dor.

Ambos sabemos que você está ali pelo simples propósito da relação – e eles nem sempre querem se relacionar, nem sempre querem rir, nem sempre querem cantar, dançar ou ouvir bobagens. Mas pela sobrevivência no hospital, há sempre meios de cantar, há sempre meios de conversar, há sempre modos de sorrir. 

Essa distância entre o vazio da expectativa de abrir a porta e o alívio de fechá-la, tendo vivido um encontro, é esse caminho que se faz caminhando. E sem querer o vazio é preenchido com histórias, com uma trilha para acessar o outro, um caminho. 

Mês 3, por Nilson Domingues 

Entramos no corredor da ala adulta para pegar dados dos pacientes. Vi um casal sentado que assistia a um programa de futebol. Faço uma saudação:
- VAI CORINTHIANSSSSS!

_MG_4498

E o rapaz logo grita:
- VAI PALMEIRASSSSS!
- Isso aqui é hospital, não um chiqueiro!
, retruquei.
- Isso mesmo, isso aqui é hospital, não um galinheiro! 

Ao perceber que íamos entrar em seu quarto, o paciente correu e deitou em sua cama.

Entramos, Ele olhou pro outro paciente e comentou:
- Olha, aqui é quarto de palmeirense.
- VAI PALMEIRAS!, gritou o outro.
- Olha, tudo bem, eu nem gosto muito de futebol – disse eu ao perceber que estava em desvantagem – então desculpa pelo vacilo. Eu posso cantar uma música de amor, pra demonstrar meu arrependimento a vocês?
- Se arrependeu, né? Então tudo bem, pode cantar a música de amor aí!
, bradaram os pacientes.
- Essa música de amor eu dedico a vocês, meus amigos: SALVE O CORINTHIANSSS, O CAMPEÃO DOS CAMPEÕES… 

Corremos para o outro quarto e uma senhora que estava na cama nos recebeu com uma piada. Mas não ficamos só nas piadas, pois ela queria um ultrassom.

_MG_4548

Bem, nós somos especialistas em pagode, som é conosco mesmo. Começamos a cantar e outra paciente surgiu e começou a cantar também. Fui pra porta e, no corredor, gritei:
- Aqui no quarto tá rolando feijoada com pagode! Só chegar!

Fizemos a festa no quarto da senhora. Foi demais cantar com os pacientes. Um ultrassom bem sucedido. Em outro quarto, fomos recebidos por pacientes já conhecidos:
- Isso é uma palhaçada!
- Aqui nesse quarto não entra palhaço!, ajudou o outro.
- Então os dois têm que sair do quarto, já que os dois são palhaços!, respondi.
- Olha que eu vou aí!
- E eu só não vou aí por que eu tô aqui.
- Que falta de absurdo! Vamos isolar esse quarto. É muita palhaçada e isso pode ser contagioso. 

Dra. Nina Rosa entrou no banheiro, pegou papel higiênico e isolou os pacientes diagnosticados com excesso de bobeira. E antes de sairmos do quarto, tiramos uma selfie para deixar registrado como o nosso isolamento de papel higiênico na porta é eficaz contra o combate da epidemia de bobeira. 

Entre brigas de torcidas, piadas, ultrassom de pagode com feijoada e isolamento de excesso de besteira, fica acentuada a minha certeza de que a Besteirologia é a medicina desnecessária mais necessária que existe. 

As crianças, que são nossos mestres e mestras, nos dão uma aula de como ver a vida por uma ótica mais leve do que os adultos. Quando estamos com os adultos, precisamos relembrar que, brincando, a gente pode dar risada e tornar a vida um pouco mais divertida diante de todas as adversidades.

E como está sendo bom relembrar aquela energia de criança que vive em todos e que a gente esquece de vez em quando.

Um dia de cada vez e desbravamos a ala adulta. Em breve mais histórias.

Você também pode gostar:

Mãe é tudo igual? Conheça estas do hospital

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Já ouviram aquela: “Mãe é tudo igual”? Pois bem, as mães que encontramos nos hospitais merecem um estudo aprofundado. E foi o que fizemos.

Acreditem: cada ala do hospital tem sua mãe característica. Em comum, elas têm força e dedicação. Algumas nos provocam, outras desconfiam, muitas nos pegam emprestado e brincam feito crianças. Em homenagem ao Dia das Mães, vamos apresentar quatro tipos mais frequentes que estudamos.

Mãe da neonatal

Tem cara de sono e dorme na primeira oportunidade. Se a gente não tomar cuidado, pode dormir no meio do atendimento. Não entendemos o motivo, pois aqueles anjinhos vivem dormindo, não choram, não comem feito pintinhos, não fazem caquinha na fralda, não dão o menor trabalho… 

Barão de Lucena - Lana Pinho-133

Mãe da enfermaria

Divide espaço com outras diversas mães. Todas se chamam pelo nome (“Olha, Ana, os palhaços estão mangando de tu!”), conhecem as preferências umas das outras (“Toca sofrência, palhaço, que ela gosta!”) e entendem muito de Psicologia Social (“Foi aquela ali que falou, palhaço! Ela é barraqueira!”).

Foto_65

Grajaú - Lana Pinho-102

É a mais animada, falante, dançante e implicante. Não sabemos bem como ela desenvolve essa capacidade, mas consegue simultaneamente arrumar o cabelo, passar sermão no marido, trocar fralda, falar ao celular com a comadre, prestar atenção no que estamos fazendo e, se desconfiar que estamos falando dela, pode, do nada, correr atrás da gente. Ou seja, precisamos estar sempre alertas!

Mãe do canguru

Está sempre às voltas com as seringas de leite. Típica mãe do “coma só esse pouquinho, meu filho”. Todas as vezes que chegamos lá, está alimentando o bebê. Agora sabemos de onde vem essa coisa das mães sempre acharem que os filhos estão magrinhos e precisando comer mais: vem lá do canguru. 

Auto de Natal - Doutores - Lana Pinho-59

Barão de Lucena - Lana Pinho-34

Ah, sim, todas as “canguretes” amam usar um sutiã gigante especial onde carregam os bebês. Já virou moda por lá.

Mãe da UTI

A mais silenciosa… Quando está lá dentro.

Itaci - Lana Pinho-180

RT_040_180320

Contudo, outro dia encontramos com a… Bem, vamos poupar a sua identidade, chamaremos de Celinha. Encontramos a Celinha sentada em uma cadeira, apartada de todos, num canto da UTI. Estava de castigo, entendemos logo. Fizemos exames e liberamos a Celinha para o convívio social! Quando estão do lado de fora, as mães da UTI se juntam em grupos que parecem reunião de bazar.

Mãe quebrada

É a mãe que acabou de perder seu filho. Não sabemos outro nome para designar essa mãe, porque quando a olhamos podemos ver um vaso partido, quebrado em mil cacos. Por uma força inominável, ela não se desfaz. Não sabemos narrar essa mãe, temos ausência de palavras.

IMIP - Lana Pinho-114

Mas Eliane Brum, escritora e jornalista, achou palavras no escuro do silêncio:

“Só naquele momento, ao apalpar a dor das mulheres cujas crianças viveram mais no seu desejo do que na vida, alcancei a soleira da dor da minha mãe por aquela filha (já morta). Maninha não tinha vivido apenas cinco meses, já que o tempo de um filho não se mede por dias, meses ou anos. Um filho é mundo sem tempo. Eu estava diante de mulheres empaladas pela dor. O resto era mal-entendido. Há mal-entendidos demais numa vida humana.” (Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum).

Uma homenagem a todas as mães. Iguais ou não.

Eduardo Filho, mais conhecido como Dr. Dud Grud, e Greyce Braga, a Dra. Monalisa, escrevem do Hospital Barão de Lucena, em Recife.

Dois pais, dois bebês e uma TV que precisava de cirurgia

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Parecia um dia normal de consultas e exames besteirológicos na rotina de Dr. Sandoval e Dr. Valdisney. Mas apenas parecia…

Entram os dois os dois médicos besteirologistas num quarto da Pediatria. Lá estavam dois pais, dois bebês e uma televisão. E tinha um clima de frustração no ar, assim como uma TV, fora do ar.

Os pais fizeram uma vaquinha para comprar um aparelho que aparentemente faria funcionar o sinal da TV, que estava ruim, para poderem assistir a desenhos animados (os bebês!) e jogos de futebol (os pais!). Tentaram de todas as formas, mas nem a TV e nem o aparelho funcionavam. Eis então a grande ideia: cirurgia na televisão.

IMG_8297

Sim, Sandoval e Valdisney fizeram pequenos exames de avaliação na paciente televisão. Valdisney entrelaça seus cabelos à antena da TV. Nada. Sandoval dá pequenos tapinhas delicados. Nada. Diversos procedimentos sem sucesso. Enquanto isso, os pais observam, esperançosos e intrigados, as ações dos besteirologistas. 

Então começa a parte mais delicada da cirurgia: desmontar tudo e religar o aparelho à TV. O silêncio toma conta do quarto e o suor toma conta de Valdisney e Sandoval, pois estava um calor danado! Não foram 1 ou 2 minutos dedicados à saúde e melhora da TV, e sim 10 minutos de tentativas incansáveis. Tudo religado, cabos devidamente encaixados, antena posicionada, agora bastava fazer o teste. Ligamos a TV e… Nada, nada e nada de imagem e som. 

De repente, próximo à mesa onde servem o almoço para os pacientes, Valdisney avista o controle da TV. Rapidamente passa para as mãos de Sandoval. Começa mais um procedimento. Corrida contra o tempo, pois o programa de futebol iria começar a qualquer instante. A paciente televisão não reagia, será que estaria tudo perdido? Pausa dramática!

IMG_8202

Valdisney faz mais uma troca de cabo e Sandoval segura o controle da TV apertando, incansavelmente, todos os botões. E eis que o que parecia impossível vira realidade: a bendita televisão funciona e se recupera bem após a cirurgia.

Todos se abraçam e comemoram a volta da TV como se fosse um gol do Brasil na Copa do Mundo! Dr. Sandoval e Dr. Valdisney talvez sejam os primeiros besteirologistas a operarem, com sucesso, um aparelho de televisão. 

Sandro Fontes, mais conhecido como Dr. Sandoval, escreve do Hospital do Campo Limpo, em São Paulo.