O São Joãozinho e a festa dentro do hospital

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Festejar o São João nos hospitais, junto a crianças, seus pais e profissionais de saúde, não é só uma celebração. Pra gente, também é uma forma de levar a cultura popular brasileira, que tem suas raízes nas festas de rua, para quem está hospitalizado.

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Ao passar pelos corredores das enfermarias com trajes caipiras e fazendo música ao vivo, com ajuda da sanfona e da zabumba, os palhaços convidam as pessoas para saírem dos quartos e se relacionarem.

Para cantarem, dançarem. E, principalmente, para olharem o hospital de outra forma – não como um espaço frio e sisudo, e sim como um ambiente de acolhimento e de relações.

São Joãozinho do Doutores da Alegria

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No Recife, a companhia de Dudu do Acordeon (ou “São Foneiro”!) deu o tom da festa, que culminou com a apresentação de um cordel.

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Em São Paulo, o cortejo formado por dez artistas contou com uma quermesse e um show de calouros em pleno hospital. E no Rio de Janeiro, a música foi a principal atração, com a presença do grupo Conexão do Bem e músicos da Orquestra Voadora, da Sinfônica Ambulante e do Grupo Milongas.

E depois de passar por dezoito hospitais públicos, temos uma certeza: a festa do hospital não perde em nada pra festa da rua.

É preciso inventar uma maneira de existir

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Palcos e plateias diversos têm recebido os jovens artistas formados pela nossa Escola. Na última etapa do Programa de Formação de Palhaço para Jovens, eles circulam pelo estado de São Paulo com “O que dizer de tudo isso? Ou…”.

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O exercício cênico traz um pouco da trajetória de cada um dos vinte e um jovens, que frequentaram durante dois anos e meio a nossa casa em busca de uma formação artística.

Destinado a jovens em situação de vulnerabilidade social, o Programa se propõe a formar artistas que produzam arte a partir da vivência e da reflexão do cotidiano. O resultado é um experimento poético, sensível, mas também carregado de significados, que traduzem uma juventude marcada pelas desigualdades da nossa sociedade.

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IMG_3565fotos: Danilo Lima

Em julho, a turma se despede da Escola e avança para o mercado artístico, onde exerce de forma íntegra, profissional e, claro, apaixonante o ofício do palhaço. A despedida fica por conta de Heraldo Firmino, coordenador do programa.

É preciso inventar uma maneira de existir

Um percurso e tanto trilhado pela turma 7, feita de jovens artistas oriundos das periferias de São Paulo e outras cidades. E, quando falo de periferia, quero ampliar o olhar para a sociedade em que vivemos, que estrutural e sistematicamente tenta impedir que rompam essa escrita decretada em suas vidas.

Jovens que saem de suas “quebradas” para ganhar o mundo, pessoas comuns, que na busca de algo novo para suas carreiras e seus anseios dentro da arte, trazem em suas histórias as marcas de uma vivência na exclusão social e política. Mas este lugar talvez propicie possibilidades de criar algo novo para si e para os outros. Os excluídos inventam sua maneira de existir e, nesta busca, escolhem e chancelam sua escolha profissional: palhaçx.

Esta figura que não se adequa aos mundos sociais vigentes, que critica, transforma, encanta, alegra, revela o humano de cada um. Uma nova geração de artistas, eu diria, que inventa outra maneira de existir, fura o sistema, vai quebrando paradigmas.

Parabéns, jovens! O ofício da arte deve ser exercido sempre com dignidade e, em dois anos e meio de convivência, posso afirmar que isso vocês têm de sobra!”

Quando os nossos mundos se cruzam

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Dizem que cada pessoa é um mundo povoado de sonhos e desejos. Como se coubesse dentro de nós um cadinho de tantos que somos e das coisas que temos e queremos.

Se assim acreditamos, vivemos rodeados de uma constelação planetária de mundos que se esbarram no trânsito louco dos encontros. Confesso que o mundo dos outros, às vezes, me deixa mais encantado do que o meu. E sou flagrado querendo aquele mundo pra mim.

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A cama da enfermaria parecia maior do que ela. Era como uma cama king size gigante, maior do que um carro onde se pega carona. Ela parecia gostar dali, não havia queixa, sem expressões de dor, era como um colinho bom de mãe. Sua cama estava bem perto de onde a gente lava as mãos pra começar o trabalho dentro da UTI pediátrica. E mesmo parecendo os estranhos no ninho, com tanta coisa diferente (chapéu, maquiagem, nariz vermelho, camisa florida), não obtivemos sequer um olhar dela. Contemplava o branco infinito do teto como se meditasse. 

Chegamos batendo na porta, chamando pelo seu nome, que estava escrito numa prancha acima da cama. Ela tinha cinco anos e estava imóvel, com um olhar atento, escutando o chamado. Tudo era bem delicado e pedia menos do que a gente costuma pensar que criança gosta. Às vezes, crianças não curtem ver vídeo de bonecos coloridos dançando e cantando ao mesmo tempo.

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A voz da gente era sussurrada, igual a um passarinho aprendendo a cantar. Quando o tempo daquela conversa mole nos pareceu suficiente, veio a vontade de mergulhar nas águas tranquilas e agitar um pouco, fazer uma baderna boa. 

Dr. Marmelo retira do bolso um chocalho em forma de ovo de galinha. Como era fácil brincar com ele! Como se movesse céus e terras, ela aceita tocar conosco, sem nada dizer com palavras, apenas gestos. E de posse do instrumento, ela balança sem parar, fazendo o som chamar a atenção da equipe médica e de técnicos que estudavam os casos mais graves do dia. Agora eu entendia o fascínio que os pequenos mundos nos movem.

Ela fazia uma translação de mundos, como um móbile pendurado no teto se movendo ao balanço do vento. Seu mundo girou rápido depois de tanta calmaria e, para não agitar muito e virar um redemoinho, marcamos para continuar na próxima visita. 

Assim foram mais de quatro encontros, entre sins e nãos, sempre sem falas; apenas olhares e mover de olhos e cabeça. Aquela rotação de mundo nos fascinava. Era do tamanho de uma grandeza que assusta, mas um assustado bom.

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Para surpresa nossa, a pequena já não se encontra na UTI e foi para o 4ª andar da Enfermaria, o que significa que seu quadro evoluiu, como se ela entrasse numa outra esfera dos planetas alinhados, para uma dimensão melhor. Em breve ela deve ter alta e desbravar com seu mundo os outros mundos que lhe esperam.

No último encontro, ela não quis nem brincar e nem fizemos cara feia feito meninos birrentos. Mas deixamos marcada uma próxima visita e repetimos várias vezes o combinado, para ela não esquecer. E, assim, a vida gira entre asteroides, planetas, mundos que se cruzam e que fazem o universo estrelar das coisas pequenas e grandes dentro do hospital. 

Marcelo Oliveira e Luciano Pontes, conhecidos como Dr. Marmelo e Dr. Lui escrevem do Hospital da Restauração, em Recife. 

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A gente tem saudades de vocês no hospital

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Dizem que as despedidas são momentos difíceis. E pelo menos para mim são mesmo.

Mas há vezes que não temos nem a chance de nos despedirmos e, quando chegamos no outro dia de visita, as crianças já ganharam alta e só nos resta a lembrança do que vivemos. Neste mês alguns pacientes tiveram alta e não conseguimos dar “tchau”.

E acho que foi melhor assim. Eu não saberia o que falar. É o momento em que você tem quase certeza de que não vai mais ver a pessoa e tem um misto de sentimentos egoístas de querer vê-la mais uma vez.

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Só que o hospital não é o melhor lugar para encontrar os amigos, né? Rsrs.

Uma que teve alta e nos deixou este mês foi a J., garota doce e de uma imaginação incrível. Lembro-me do dia que ela disse pra gente pegar um avião pra voar perto de Deus e poder conversar com ele. Disse também que Deus não existia até ele criar ele mesmo – meio confuso, mas faz sentido.

Dia desses eu e a Vera Abbud estávamos passando nos setores de cara limpa (quer dizer, sem estar de palhaço) e a chefe da Enfermagem perguntou se iríamos fazer a visita de palhaço naquele dia, pois J. estava perguntando sobre nós desde a hora em que acordou. Nós nos olhamos e decidimos fazer a visita, mesmo sem maquiagem. A pequena enxergava apenas vultos, e o que importava pra ela era nossa presença, e não a roupa ou a maquiagem.

Tereza Gontijo, nossa colega Dra Guadalupe, já tratou deste tema aqui. Ela lembra que no Instituto da Criança quase sempre encontramos as mesmas crianças, pois são alas de tratamento contínuo. E nas internações, costumamos acompanhar uma mesma família por longos períodos. 

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“Assim, quando começamos o dia de trabalho, já temos uma ideia das crianças que vamos encontrar pelo caminho e, de certa maneira, já esperamos por esse encontro.”, conta ela “Com cada paciente desenvolvemos uma profunda relação de intimidade e contamos encontrá-las para saber como estão naquele dia e continuar as histórias que iniciamos há dias, semanas ou meses atrás. Temos muita saudade dos nossos encontros, mas como sentir saudade de uma internação hospitalar?” 

+ leia aqui: Saudade de uma internação

Bem, quando chegamos e esses pequenos já receberam alta é um misto de alegria e saudade. Alegria porque, claro, eles não estão mais no hospital; e a saudade é das bobeiras que vivemos. É egoísta, eu sei, mas a potência do encontro entre crianças e palhaços nos levam a estes sentimentos.

Henrique Rìmoli, conhecido como Dr. Dus"Cuais, escreve do Instituto da Criança, São Paulo.

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