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Você lembra da primeira vez em que viu um palhaço?

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Ver um palhaço ou palhaça pela primeira vez é uma experiência inusitada.

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Talvez o circo seja o lugar que mais foi palco do encontro entre crianças e palhaços. Mais recentemente a televisão, com seus personagens memoráveis, ocupou este espaço de encontro. E ambos os lugares têm em comum a distância: da cadeira na plateia ao sofá de casa, palhaços e crianças permanecem afastados, interagindo somente por meio da risada conquistada com uma gag clássica. Um ou outro pequenino tem a chance de dividir o palco, se unindo às trapalhadas do palhaço de circo.

No hospital, o palhaço se aproxima da criança, vai ao seu encontro.

Neste movimento, precisa se livrar da maquiagem e do figurino pesados (que, bem, são ótimos para quem os enxerga à distância!) e compor um personagem menos caricato, que possa se aproximar de um leito de hospital sem causar tanto estranhamento. Muitos dos palhaços do Doutores da Alegria, com suas origens no circo, passaram por este processo antes de incorporar o elenco. Surge o besteirologista, uma figura inusitada naquele ambiente.

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E é assim que alguns milhares de crianças (e adultos) tomam contato pela primeira vez com um palhaço: no hospital. Podemos dizer que a situação de adversidade traz esse “privilégio”? A possibilidade de um encontro potente, olho no olho, em um momento em que as emoções estão à flor da pele, carrega uma vivência única e sublime.

Palhaços e crianças estão, ali, mais próximos do que nunca. À distância de um toque. 

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O resultado desta união pode ser uma experiência de alegria. Mas também pode ser uma descoberta, uma pulga atrás da orelha, um momento poético ou até um choro contido – como muitas das histórias contadas neste Blog revelam.

E você, lembra-se do seu primeiro contato com um palhaço ou palhaça? Conte pra gente como – e onde! – foi.

As lições do mais longo estudo sobre a vida adulta

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Manter hábitos saudáveis certamente melhora a nossa vida: alimentar-se bem, dormir o suficiente, manter o check-up em dia, fazer exercícios e tudo o mais. Acontece que um novo ingrediente foi adicionado ao balaio: manter relacionamentos saudáveis.

Pelo menos é isso que traz um estudo – possivelmente o mais longo feito sobre a vida adulta – feito pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Eles investigam, há mais de 75 anos, o que nos mantêm saudáveis e felizes enquanto passamos pela vida.

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O Estudo de Desenvolvimento Adulto, coordenado hoje pelo psiquiatra e psicanalista Dr. Robert Waldinger acompanhou a vida de 724 homens, dos quais 60 ainda estão vivos e participam do estudo. E há dez anos, as esposas destes homens também participam do estudo. O próximo passo é incluir os mais de dois mil filhos destas pessoas. Veja aqui o estudo completo.

Nesta palestra de 2015 no TED Talks, ele explica a descoberta. “Ouvimos constantemente que devemos priorizar o trabalho, dar nosso melhor e conquistar mais coisas. E nos dão a impressão que essas são as coisas que devemos correr atrás para se ter uma vida boa.”, conta Dr. Waldinger.

 

A cada dois anos, os pesquisadores enviam questionários, entrevistam alguns participantes, conversam com suas esposas e filhos, recebem seus boletins de saúde e até escaneiam seus cérebros.  O volume de informações gerado é impressionante e certamente trará novas descobertas.

Mas Dr. Waldinger é categórico quanto ao aprendizado principal extraído do estudo. “Quais são as lições que extraímos das dezenas de milhares de páginas de informação que geramos sobre essas vidas? Bem, as lições não são sobre riqueza ou fama ou trabalhar mais e mais. A mensagem mais clara que tiramos desse estudo de 75 anos é esta: bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis. Ponto final.”

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E ele lista três grandes lições sobre relacionamentos durante a vida:

Conexões sociais são muito boas para nós, a solidão é tóxica

Estar conectado com a família, amigos e comunidade manteve os participantes fisicamente mais saudáveis e mais felizes do que as pessoas com poucas conexões. Já pessoas mais isoladas do que elas gostariam de estar tem uma experiência de vida diferente: descobrem que são menos felizes, sua saúde decai precocemente na meia idade, seu cérebro se deteriora mais cedo e vivem vidas mais curtas do que aqueles que não são solitários. 

O que importa é a qualidade dos seus relacionamentos mais próximos

Não se trata apenas do número de amigos que você tem, ou se você está ou não em um relacionamento sério, mas sim da qualidade dos seus relacionamentos mais próximos. Casamentos muito conflituosos, por exemplo, sem muito afeto, podem afetar a saúde em longo prazo, enquanto que viver em meio a relações boas e reconfortantes parecem nos proteger durante o envelhecimento.

“Nossos homens e mulheres mais felizes em uma relação relataram, aos 80 anos, que nos dias que tinham mais dor física, seu humor continuava ótimo. Mas as pessoas que estavam em relacionamentos infelizes, nos dias que tinham mais dor física, esta era intensificada pela dor emocional”, conta o pesquisador.

Relações saudáveis protegem não apenas nossos corpos, mas também nossos cérebros

As pessoas em relacionamentos nos quais sentem que realmente não podem contar com a outra pessoa são as que acabam tendo declínio de memória mais cedo. E esses relacionamentos bons não precisam ser tranquilos o tempo todo. 

“Alguns de nossos casais octogenários podiam discutir um com o outro dia sim, dia não, mas contanto que sentissem que poderiam contar um com o outro quando as coisas ficavam difíceis, aquelas discussões não prejudicavam suas memórias.”, finaliza. 

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Cultivar bons relacionamentos ao longo da vida é mesmo um trabalho incansável.

Demanda energia para passar por momentos conflituosos e nada tem a ver com fama, riqueza ou grandes conquistas. Bem, e se você já praticou seu exercício preferido hoje ou dormiu bem nesta noite, que tal encontrar aquele amigo de infância ou convidar seu parceiro para um passeio inesperado?

Um encontro de culturas no hospital

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Estávamos na pediatria, que fica no 3º andar do hospital, subindo as escadas, virando à esquerda, quando encontramos duas angolanas, uma mãe e sua filha de dois anos.

A filha adorou a música que eu, Dr. Mané, e Dr. Mingal tocávamos no quarto.

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- Ela gosta muito de música! Costumo cantar para ela…, disse a mãe.

Pedimos então uma palhinha, mas a mãe disse que só sabia músicas de Angola. 
- Tipo o kuduro?, perguntou Dr. Mingal.
- Sim!, riu a mãe.
- Canta pra mim que eu sei dançar o kuduro!, pediu o besteirologista. 

Kuduro é um gênero musical e um gênero de dança que surgiu em Angola. É um ritmo influenciado por outros gêneros como kizomba, semba, reggae, afro house e rap. E então ficou assim: a mãe cantava com a filha, eu ajudava com a melodia e o Dr. Mingal dançava o kuduro com toda a sua malemolência.

A demonstração estava tão boa que muitos pacientes de outros quartos foram ver o que estava acontecendo ali. Um grande encontro de culturas.

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Ao final da música, sob aplausos e risos de todos, a menina olhou para o besteirologista balançando a cabeça.

- Não é assim, Mingal! Você não sabe dançar!
- Então como é?
, perguntou ele. 

E a menininha mostrou a dança da sua Angola ao som da mãe, que cantava rindo e chorando. Uma cena daquelas realmente inesquecíveis.

Márcio Douglas, conhecido como Dr. Mané Pereira, escreve do Hospital Santa Marcelina, em São Paulo

As três principais tendências em saúde para 2018

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Enquanto fazemos uma pausa no trabalho dos hospitais neste início de ano, pesquisamos o que nos aguarda em 2018 no campo da saúde.

Já falamos sobre o salto de qualidade técnica da Medicina nos últimos anos, que teve a tecnologia e os avanços científicos a seu favor. Também colocamos na mesa os dilemas envolvendo o sistema único de saúde no Brasil, um dos únicos no planeta que se coloca à disposição para toda a sua população.

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Pois bem: segundo especialistas em saúde, o ano de 2017 foi marcado por crises na área ao mesmo tempo em que trouxe transformações que devem continuar nos próximos anos. Vejamos então as três tendências em saúde importantes apontadas por eles para 2018:

Avanços tecnológicos relacionados à longevidade

O número de pessoas acima dos 60 anos no Brasil, hoje em 12,5%, deverá quase triplicar até 2050, ultrapassando a média mundial, de acordo com o Relatório Mundial de Saúde e Envelhecimento. Essa realidade vem trazendo uma mudança no perfil de óbitos: as maiores causas de mortalidade no país são doenças cardiovasculares (33%), câncer (20%) e mortes violentas (13%).

O avanço tecnológico já permitiu o desenvolvimento da robótica da Medicina, trouxe qualidade e nitidez a exames de imagens e tornou as cirurgias mais assertivas. Agora, com foco na longevidade, vem trazendo respostas e novos medicamentos para doenças crônicas e degenerativas como o Alzheimer, a esclerose múltipla e o câncer, além de estudar por que envelhecemos e como retardar esse processo.

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Para Frank Pok, chefe de tecnologia no conglomerado farmacêutico AstraZeneca, “será a tecnologia dentro da sua casa, e não aquela em hospitais, que mudará a forma como lidamos com saúde”. Segundo ele, dados obtidos graças a sensores, smartphones e outros produtos podem ser uma fonte poderosa na mão de cientistas e a digitalização vai nos preparar para novos tratamentos, terapias e, claro, para prevenção

Foco na prevenção, diagnóstico precoce e a recuperação da saúde

Cuidar das pessoas antes de precisarem de hospitalização deixou de ser um ideal e vem se tornando uma prática. A preocupação com a saúde está cada vez mais evidente, ainda que mais fortemente entre as classes sociais mais ricas, e se manifesta por meio da alimentação, da atividade física e de hábitos saudáveis.

Recuperar a saúde significa mais qualidade para uma vida cada vez mais longeva. Para os hospitais, o tratamento crônico implica em maiores custos de assistência, e por isso a Medicina preventiva ganha espaço no trabalho e nos investimentos das operadoras de saúde e das empresas.

E o consumo de bens e serviços de saúde só cresce. Segundo levantamento do IBGE divulgado em 2017, as despesas nesta área oscilaram entre 18,5% e 19,6% do total do consumo do governo, entre 2010 e 2015. Já no caso das famílias, as despesas com consumo de bens e serviços de saúde passaram de 7,3% do total de seu consumo, em 2010, para 8,2%, em 2015.

Melhorar a experiência de internação

É certo que durante a internação há um distanciamento do cotidiano e de tudo que nos cerca – objetos, cheiros, hábitos, bichos de estimação, familiares. “Intimidade, identidade, controle sobre a vida, quase tudo vai pro espaço.”, como lembra Soraya Saide, atriz e palhaça do Doutores da Alegria.

Mas muitos hospitais já cruzaram a fronteira de locais frios e sisudos, em que a autoridade do médico e a necessidade de regras e padrões ficam acima de qualquer outra percepção. Se antes acreditava-se que ter qualidade exigia custos elevados e retorno improvável, hoje é claro que somente por meio dela é que as instituições atingirão sua sustentabilidade financeira e perenidade. Isso inclui investimento na formação dos profissionais e nas condições estruturais dos hospitais.

E ações de humanização e práticas artísticas elevam a percepção da qualidade de internação. Alguns exemplos disso são as obras de arte dispostas em todos os corredores do Chelsea and Westminster Hospital, brinquedotecas bem articuladas com as pediatrias e a presença permanente de palhaços profissionais.

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Bem, e se a contribuição do Doutores da Alegria para a saúde envolve melhorar a experiência de internação, ficamos à espreita para saber como estas outras tendências vão impactar no dia a dia de hospitais públicos. Muitos ainda enxergam um grande abismo entre o futuro que se apresenta e as condições presentes, agravadas pela falta de recursos para manter o básico com qualidade.

Que venha 2018!

Estes foram os textos mais lidos em 2017

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O universo da saúde domina os assuntos discutidos neste Blog. Está em cada história narrada pelos artistas e em cada reflexão trazida pela organização. De forma concreta, como na série sobre o sistema único de saúde, ou entrelaçada em diálogos com palhaços e crianças.

E como 2017 está chegando aos seus últimos suspiros, preparamos uma retrospectiva com os textos mais lidos do ano envolvendo o tema. Você tem um tempinho? 

Entre a ciência e o coração

Nas escolas de Medicina, onde Doutores da Alegria também atua formando estudantes para uma nova atitude, é comum o questionamento: os médicos, ao ganharem em ciência, perdem em coração? 

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Eu sei muito bem com quem você está agora, viu?

Soubemos de sua partida. Assim… Rápida… E a Dra Baju só queria que você soubesse que ela acreditava em você.

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Sentidos e sentimentos

Parece que os adultos acreditam que é perigoso sentir. A criança não tem medo de sentir. Fomos tentar entender na prática e na teoria o que significam alguns sentimentos e outras palavras que o tempo todo batem aqui no coração.

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Desapego: quem consegue, afinal?

Quando um de nossos pequenos pacientes tem alta e vai embora, deixa as boas lembranças dos encontros. Do que brincamos, dos risos trocados. Mas tem partidas que são definitivas e, às vezes, percebemos que nem sempre estamos tão preparados como pensamos…

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Alojamento conjunto: mães e bebês juntos até a alta

Mãe e bebê devem permanecer juntos desde o nascimento até a alta. Essa é a recomendação do Ministério da Saúde, que reforça a importância do alojamento conjunto nos hospitais. O texto aborda o tema e traz fotos sensacionais de pequeninos, suas mães e palhaços.

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O luto e o que vem antes

Um papo sobre iniciativas que abrem caminho para uma reflexão mais consciente sobre a morte. E trazem um espaço acolhedor, seja ele real ou virtual, para que pessoas se conectem em busca de um recomeço para suas vidas.

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Fotografia dos Doutores da Alegria no Hospital do Campo Limpo/SP.

Quem manda aqui

É muito raro ouvirmos hoje em dia: “quem manda aqui…”, mas não é invenção, nem ficção. Ainda há médicos que se colocam no patamar da inexistência.

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SUS, capítulo 3: o HU resiste

O Hospital Universitário da USP é essencial para a comunidade local e para a formação de alunos das áreas da saúde. Mas nos últimos anos este hospital de excelência vem agonizando.

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Uma sabiá no isolamento

Soubemos que tinha uma superbactéria no quarto em isolamento. Mas também tinha uma menina. E, pasmem, tinha até uma sabiá.

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É sério: rir faz bem à saúde

Inúmeros estudos, de universidades e instituições relevantes, comprovam que o ato de dar risada e, principalmente o de gargalhar, ativam substâncias em nosso corpo que trazem sensações benéficas.

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Itaci - Lana Pinho-47

O que é ser enfermeira

Enfermeiros e enfermeiras enfrentam batalhas intensas no seu dia a dia e nem sempre saem ilesos. E não só fisicamente, mas da alma e do coração. Assim como palhaços.

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5 coisas que você não sabia sobre Doutores da Alegria

Está lançado o desafio: você sabia de todas essas particularidades do nosso trabalho?

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E você: qual foi o seu texto preferido neste ano?

Nos embalos de um sono no ambulatório

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- Alguém para a Besteirologia? O senhor é paciente? É pra Besteirologia? 

Entramos no ambulatório lotado mandando essas perguntas em voz alta para que todos escutassem, evitando que alguém perdesse a consulta. Foi quando vimos, na primeira fila de cadeiras, mãe e filha encostadinhas, cabeça com cabeça, dormindo sono profundo.

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Imediatamente baixamos o volume e passamos a pedir o mais absoluto silêncio para todas as pessoas ali sentadas. Fomos passando pelas dorminhocas pé ante pé, com muito controle e cuidado para não acordá-las. E quanto mais nos esforçávamos para fazer esse caminho em silêncio, mais riam de nós; e sempre precisávamos parar para reprimir aquela bagunça inaceitável com gestos, olhares, acenos de mãos e até ameaças de jogar o sapato. E… BIIIIIPPPPPP!!!!! 

Sim, no meio de nossos esforços hercúleos para não fazer barulho, a TV que mostra a senha apitou um silvo que despertaria até um elefante. E como se um fosse pouco, a TV resolveu fazer dois. BIIIIIPPPPPP!!!!! Para o nosso absoluto desespero, quanto mais pedíamos silêncio, mais o sinal tocava. A filha seguiu dormindo, mas a mãe logo acordou.

Todos ali testemunharam que não tivemos culpa alguma! Quando tentamos explicar àquela senhora que não fomos nós que a acordamos, e sim o famigerado bipe, ninguém se prontificou a nos defender. Resultado: eu, Dra. Monalisa, tive que voltar e tentar fazê-la dormir de novo. Entoei um “nana neném” e, gentilmente, cerrei as pálpebras daquela mãe com dois dedos da minha mão direita. Pronto, já dormiu de novo. 

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Mas era só eu retirar o dedo de cima dos olhos e parar de cantar que ela acordava. Dr. Dud Grud tentou explicar que não podíamos ficar ali o dia inteiro, que havia mais duas alas pra gente atender, que ela tratasse de dormir logo, mas foi em vão.

Percebemos, então, um rapazinho de uns doze anos sentado logo na fila de trás.
- Ei, você tá ocupado? Vem aqui ajudar a gente. Senta aqui do lado e fica balançando ela assim, tá? Agora canta: Nana neném…
- Ah, não… EU NÃO VOU CANTAR!

Como assim, não vai cantar? Custava nada! A propósito, foi só ele começar o balancinho cadenciado que a mãe voltou a fechar os olhos e se encostou… Mas ainda era preciso encontrar alguém que soubesse cantar. Saímos procurando:
- Você sabe cantar? Por favor, a gente precisa terminar o plantão e o menino ali não sabe cantar. Opa, não para de balançar! Moço, o senhor pode cantar pra ela dormir?  

Até que uma senhorinha parou a conversa com a sua acompanhante, se peneirou toda na cadeira, nos encarou e disse:
- Eu sei cantar Agnaldo Timóteo.

Nessa hora o rapaz, sem parar de balançar, arregalou os olhos e girou a cabeça para trás para ver quem dividiria com ele a função de pôr aquela senhora para dormir. Ora, que ajuda bem-vinda!
- Canto aqui? Agora?
- Sim, agora mesmo, pra ela poder voltar a dormir. Olha lá na primeira fila. 

Nós nos ajoelhamos aos pés da senhora, que cantou “Os verdes campos de minha terra”. Mas ela não cantou acanhada, não. Cantou dando uns “dó de peito” que faria inveja a qualquer Pavarotti! Cantou se doando mesmo, sabe?

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Foi aí que nossa alma pairou dois segundinhos acima do corpo só para apreciar esse quadro. A senhora, na quarta fila de cadeiras, cantando a plenos pulmões uma música para ninar uma mãe sentada lá na primeira fila. O rapaz, sentado ao lado da dorminhoca, balançava o seu ombro, enquanto ela se mantinha de olhos fechados recebendo aquele carinho e aquela música.

Eu e Dr. Dud Grud ajoelhados, só admirando a cantora e, ao mesmo tempo, incentivando o rapaz a não parar sua tarefa. Os demais presentes olhando tudo atentamente. Ninguém se conhecia naquele salão, aquelas pessoas todas estavam ali antes de chegarmos e talvez saíssem sem se olhar nos olhos.

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O que te faz levantar da cama? O que te faz sair de casa? 

Naquele dia, tivemos certeza de que saímos de casa só para chegar naquele ambulatório e encontrar uma senhorinha para cantar uma música, para que um garoto embalasse uma mãe que precisava dormir. Embora eles nunca tivessem se visto antes. Ninguém gastou sequer um real e, tampouco, se teve motivo para temer a pessoa que estava ao lado. 

Greyce Braga, conhecida como Dra. Monalisa, escreve do Hospital Barão de Lucena, no Recife.

7 sugestões para seu amigo secreto

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Final de ano sempre tem aquele amigo secreto da firma, da família, da vizinhança. Até no hospital tem amigo secreto. 

E como bons besteirologistas e palpiteiros, queremos deixar aqui a nossa listinha de sugestões para as confraternizações deste ano. Vamos lá:

Para o amigo que anda desanimado, uma porção de injeção de ânimo.

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Para o amigo fitness que adora frango com batata doce: um pesinho de leve.

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Para o amigo em busca de um amor: um cupido de plantão.

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Para o amigo esquecido (esquece do seu aniversário, de pagar aquele boleto e até de buscar o paciente depois da alta, tsc tsc): um lembrete de dedo.

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Para o amigo que reclama do guarda-roupa (e já pediu antecipadamente uma “brusinha” de presente): um look de arrasar o quarteirão.

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Para o amigo que anda sem grana até pro picolé: uma nota alta.

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Para o amigo que virou mamãe ou papai neste ano: um ursinho ursão.

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E se nada certo, ou se o seu amigo não gostar do presente, mande ele escrever uma cartinha pro Papai Noel e ser mais claro da próxima vez, tá? :) 

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Eu sei muito bem com quem você está agora, viu?

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Pense numa criança com a resposta na ponta da língua. Pensou? Agora multiplique por oitenta e sete.

A danada nunca deixava passar uma e toda a sua implicância se voltava para o Dr. Marmelo. A menina se dizia minha amiga e sempre queria me ver derrotando Marmelo. Acontece que, um dia desses, ela achou de cismar comigo e de ficar do lado dele – não entendi nada!

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Cumprimentamos a menina assim que entramos em sua enfermaria. Eu fui perguntar  alguma coisa a ela, que me respondeu sonoramente:

- Vai ajeitar esse cabelo de vassoura!

Eu não pude acreditar. Marmelo caiu na risada junto com toda a enfermaria. E eu fiquei pas-sa-da! Ela silenciou, mas ficou segurando o riso com a mão na boca. Fui tirar satisfações com a mãe dela, e daí ela não se segurou:

- Não fale assim com a minha mãe que ela tá grávida! Minha irmãzinha tá dentro da barriga dela…

Mais uma vez, eu fiquei passada e fui pra mãe dela:

- Tem uma criança aí dentro? E o que ela fez com a senhora pra senhora engolir a pobrezinha? – e olhei pra menina – Isso é coisa que se faça?
- Foi Deus que colocou ela aí dentro!
– ela respondeu, toda segura. 

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O quarto todo se enterneceu: sua mãe, as outras mães, Marmelo… Mas eu fiquei com aquilo na cabeça:

- Pois cadê Deus? Quero falar com ele! Onde ele tá? – procurei pelo quarto.
- Ele tá no céu, né?

Fui até a janela, olhei para o céu e:
- Não tô vendo!
- Ele tá na nuvem.
- Mas a nuvem é fofa, não aguentaria ele…
 

A discussão foi longa. A menina parou, ficou observando, balançou a cabeça. Em sua testa dava pra ler: “Mas é mesmo uma besta!”. Marmelo ficou o tempo todo do lado da menina, ajudando em algumas respostas e comemorando a cada uma que ela me dava.

Semana passada, soubemos de sua partida. Assim… Rápida… E eu queria que ela soubesse que, na realidade, eu acreditava nela, que eu não duvidava das informações dela e que eu só fiquei de implicância porque ela arrumou briga comigo. Foi de criança pra criança.

- Viu, menina?! A gente tava tudo brincando, né? Até porque eu sei bem onde você tá agora e com quem!

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Tô mandando meu beijo de jatinho pra que ele chegue bem rápido aí no céu. Ah! Dá esse beijo no nosso amigo aí de cima, tá bom?

Juliana de Almeida, conhecida como Dra. Baju,
escreve do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, em Recife.

O médico mudou. E, bem, o palhaço também.

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Lá pelos anos 90, quem tinha maior autoridade e prestígio dentro de um hospital era o médico. O profissional era o detentor do conhecimento, em seu julgamento e em suas mãos repousavam o destino de muitos. A seriedade era quase que lhe imposta, uma vez que qualquer erro podia lhe custar uma vida.

Foi neste cenário que surgiu o Doutor da Alegria, sujeito com um jaleco cheio de cacarecos, uma aparência questionável, entendido de Besteirologia, sem autoridade nenhuma e fadado ao erro. A ideia era justamente contrapor a autoridade médica, trazendo um novo olhar para as relações e a hierarquia dentro de um ambiente em que a saúde e a doença caminham juntas.

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Pois bem. Quem acompanha a rotina de um hospital hoje, quase 30 anos depois, sabe que o poder da figura médica perdeu fôlego, apesar de histórias recentes como esta.

O oncologista Drauzio Varella ajuda a entender pra quem está do lado de fora: “A lógica de mercado invadiu o sistema de saúde. Administradores alheios à profissão trouxeram palavras de ordem às quais [nós, médicos] não estávamos habituados: produtividade, racionalização da mão de obra, economia de escala, lucratividade, fusões, corporações, capital de risco.”

Em um artigo para a Folha de S.Paulo sobre os últimos 50 anos da Medicina no país, Drauzio conta como a figura médica foi absorvida pela indústria e pelo avanço da ciência. Se, por um lado, o profissional testemunhou um salto de qualidade técnica da medicina, por outro “o desinteresse dos colegas frustrados com os salários e as condições de trabalho fizeram perder parte do prestígio que tínhamos na sociedade”, escreve ele. O artigo inteiro pode ser lido aqui.

Os meios de comunicação modernos, que trazem conteúdo à ponta do dedo, abriram as portas do conhecimento para o paciente de hoje, que é muito mais informado que há 50 anos. “Os médicos que nos precederam transmitiam mensagens de saúde ao encontrar as pessoas nas ruas, nas praças, nas festas da comunidade. As praças de hoje são as estações de rádio, os canais de televisão, o Facebook, o Google, o YouTube e os sites da internet. Muitos dos que nos introduziram na profissão eram médicos autoritários, que impunham suas condutas sem levar em conta as idiossincrasias individuais.”, conta Drauzio Varella.

E se a função do médico moderno é a de trazer alternativas para que o paciente possa decidir – sim, ele mesmo! – sobre qual delas se adapta melhor às suas necessidades e desejos particulares, qual seria a função do palhaço que atua no hospital?

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Contrapor a figura de um médico empoderado parece não fazer mais sentido. Em muitos relatos neste Blog fica clara a parceria que o palhaço estabelece com o médico, como nesta história em que a equipe de saúde pediu aos palhaços que dessem a tão almejada alta hospitalar a uma criança. Ou nesta organização, em que palhaços são autorizados a acompanhar procedimentos cirúrgicos, reduzindo o estresse e facilitando o diagnóstico pela equipe médica.

A aliança entre médicos e palhaços que atuam de maneira profissional foi conquistada aos poucos, com profundo respeito aos saberes de cada um.

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E se na nova ordem o paciente deixou de ser o centro das atenções no sistema de saúde, como bem lembra Drauzio, para médicos e palhaços ele continua sendo a razão pela qual decidimos entrar pelas portas de hospitais todos os dias. Com jalecos ou cacarecos, com diagnósticos difíceis ou sorrisos inesperados.

Quem manda aqui…

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A vida toda a gente segue aprendendo, como na canção do eterno Gonzaguinha. Mas nem todo mundo se coloca nesse lugar, mesmo quem esteja ainda na escola, cursinho ou faculdade. Quem ensina e quem aprende?

A vida é um jogo eterno das aprendizagens, os papéis se misturam e se invertem o tempo inteiro. Aprendemos muito com as crianças. E essa abertura é um caminho sem volta, onde não há imposições, e sim a percepção para caminhar junto numa experiência única e efêmera, onde os papéis serão definidos na hora da brincadeira.

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É muito raro ouvirmos hoje em dia: “quem manda aqui…”, mas não é invenção, nem ficção. Ainda há médicos que acreditam nesse subterfúgio do conhecimento e se colocam no patamar da inexistência. Eles parecem viver em outro mundo, mas nós não. Muitos pensam que não vemos e não ouvimos por estarmos de palhaço, mas a realidade é que vemos e sentimos mais, como uma lente de aumento, como um ouvido supersônico, como se o mar enchesse e secasse constantemente. 

Era dia e a enfermaria estava cheia esperando a hora da visita do médico. E na cama ao lado, compartilhando uma presença inexistente, pudemos ouvir:

- Por que não está tomando o remédio?
- A enfermeira que tirou!, respondeu a mãe.
- Quem manda aqui sou eu! 

Foi difícil ver e ouvir, difícil esquecer e ter que continuar. A sua afirmação fazia sentido para ele. Respirei e tentei seguir, sabendo que os ponteiros do tempo caminham diferente para cada um. Mas era inacreditável ter presenciado aquela cena e contando parece até coisa inventada, mas não foi: era real como respirar. E se mentisse ao ponto da invenção, era porque mesmo que surreal pareça, isso ainda é uma prática comum de uns tantos poucos médicos. 

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A mãe ouviu o que ele disse e comentou em um olhar cúmplice conosco, como se estivéssemos no mesmo barco da indiferença sem poder gritar. Passada a situação e tentando dar conta do acontecido, saímos seguindo com o poder que nos cabe, aprendendo que ser ainda é um caminho longo a ser percorrido, sem recair na armadilha da imposição.

Mas há quem use dos seus artifícios para ser ouvido e respeitado, como a dose certa de achar que é o correto. 

Luciano Pontes, conhecido como Dr. Lui,
escreve do Hospital da Restauração, em Recife.