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Como assim, bebê?

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A rotina da Besteirologia é não ter rotina. Cada dia é cada dia.

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A gente se prepara para fazer uma porção de coisas e aí o hospital “dá uma rasteira na gente” e muda tudo que foi programado: não aparece oportunidade para cantar a música que você ensaiou todo o final de semana, mas alguém pede aquela que você cantou a última vez quando tinha dez anos de idade; a criança que você ia dar alta já não está mais na enfermaria, foi pra casa; o médico que você investe há meses na paquera muda de plantão e já não o encontra mais dia nenhum. 

É assim… Haja desapego. E que bom que é assim! Não podia ser diferente, porque a Besteirologia é igualzinha à vida. A gente:

- Pensa que está no comando, mas no fundo não comanda nada
– Não tem a menor ideia do que vai acontecer depois que põe o nariz vermelho
– É mais feliz quando abre o coração para o que nos chega de repente (ou seria de presente?)

Barão de Lucena - Lana Pinho-37

Essas lições aprendemos todos os dias, pelos corredores, nas enfermarias, nos ambulatórios, nas emergências, nas copas e cozinhas. Vocês querem ver como funciona? 

Outro dia, depois de muitas idas e vindas, conseguimos alistar 5 mães com 5 bebês acoplados para compor um coral de frevo. Às vezes não é fácil conseguir adesão espontânea, então comemoramos muito quando formamos todos os naipes! Tudo estava pronto para finalmente começar o ensaio do coral: cada mãe com seu bebê, todas alinhadas, afinadas, preparadas. Só faltava ensinar a música.

Bem nessa hora um dos bebês tomou o leme de nossa mão e, como um pirata, tomou de assalto o controle do navio. Ele desatou o mais retumbante “UÑÑÑEÉÉÉÉ” já ouvido no universo, assim, do nada. Em um segundo ele estava ótimo, quietinho, quentinho, embaladinho no colinho e no outro estava igual o Capitão Gancho levando nosso coral com leme, vela e tudo para o fundo do oceano.

Como assiimm, bebê? Não dá pra ensaiar com essa sirene ligada.

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Bom, tudo perdido, toda a mobilização, todo o convencimento das mães, tudo indo choro abaixo… Não, claro que não! Fizemos uma “pequena adaptação” no frevo e a partitura das mães e dos bebês passou a ser exatamente essa. Elas faziam  e nós fazíamos GUGU-DADA! Formou-se aí o primeiro frevo em língua de bebê.

- UÑÑÑÉÉÉÉÉ, faziam as mamães.
- GUGU DADÁ, fazíamos nós.

Eita, vida velha sem controle e cheia de imprevistos. É assim nas pequenas coisas e nas grandes também. Dá medo perceber que o leme desse navio nunca está realmente em nossas mãos.

“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria, 
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”
(Guimarães Rosa)
 

Eduardo Filho, conhecido como Dr. Dud Grud, e Greyce Braga, a Dra. Monalisa,
escrevem do Hospital Barão de Lucena, em Recife

Previsão do tempo

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Nunca dei muito ouvido à moça do tempo. Se ela diz que a previsão é de chuva, eu levo um casaco e deixo o guarda-chuva.

A moça não falou na TV, mas eu sei que estamos passando por uma alta pressão atmosférica. E do jeito que a coisa anda nebulosa, a previsão é de nuvens carregadas com fortes pancadas. Pessoas frias em pleno aquecimento global. Chuva molhando gente completamente seca. Lares que desabam. Cadê minha casa? Não tirem minha vida! 

Olho para o lado e uma coreografia de “mãos para o alto, é um assalto!”. Parem essa música! Crianças fazendo coisas de gente grande. Pais sentados na calçada enquanto seus filhos arrumam o dinheiro da feira. Água no vidro do carro. Falei que não quero! Mas as coisas não vão mesmo do jeito que a gente quer. Nó na garganta, rouca. Sem voz ativa. Sem indiretas. Falo de coração. Saudade do tempo em que brincadeira de criança era na rua e não nas ruas.

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Moça do tempo, que clima é esse? Amanhã quero acordar com o sol brilhando na janela. Tirar o mofo. Regar as plantas e aquecer a alma. 

Os encontros com F. têm sido gotículas de esperança. Sol quando aparece no inverno que a gente quer aproveitar ao máximo. Menina, de 8 anos aproximadamente. Sempre acompanhada de sua mãe, que dessa vez nos chamou: 

- Venham falar com F. Ela vai hoje para sua terceira cirurgia e quer levar um pouco da alegria de vocês. 

Fomos. E nosso papo é totalmente musical. Desde o primeiro dia de encontro ela já foi cantando “Alecrim dourado”. E nesse dia não foi diferente. Ela cantando com um microfone improvisado de seringa, Dr. Lui e eu fazendo o acompanhamento com nossos instrumentos e sua mãe sentada vendo aquela cena que antecedia o momento da cirurgia.

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F. estava inteira, sem nem se preocupar em acertar o tom, a letra, essas coisas de adulto. Sua mãe estava aos pedaços, mesmo fingindo que não, essas coisas de mãe. Vi passar um filme nos seus olhos. Um filme do maior amor do mundo. Daquele que de tão grande aperta e dói. 

A moça do tempo não me falou, mas sei que a qualquer momento ia chover naquele olhar.

Luciano Pontes, mais conhecido como Dr. Lui, e Luciana Pontual, a Dra. Svenza,
escrevem do Hospital da Restauração, em Recife.

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Eu tinha esquecido dessa tal humanidade. O hospital me fez lembrar.

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É muito genuíno o sentimento de humanidade que a situação de internação num hospital traz.

Talvez seja o momento da vida em isso mais aflora. Ou quem sabe seja o fato de termos que parar de nos preocupar com coisas da vida mundana para realmente sentir e viver o presente. Porque não importa mais se o trânsito está pesado ou se acabou o arroz em casa, importa agora se vou aguentar o tranco.

E, para isso, é preciso contar com pessoas. Estrutura também, remédios, um pouco de sorte, mas principalmente pessoas.

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Recentemente passei uma semana entre o quarto e a UTI. Duas ambulâncias, dois hospitais, muitos exames, picadas, diagnósticos, corredores. O termo “paciente” é mesmo pra justificar o tempo que se espera e a condição de entrega, sem muita reação, ao tratamento. Etimologicamente, “paciente” deriva do latim pati e do grego pathe, que significam “sofrer” ou “aguentar”. 

Mas eu volto à humanidade.

Assim que sofri o acidente, abri meus olhos e vi à volta dezenas de pessoas em plena rodovia. Você está bem, Gabi? Não se mexa. Calma que a ambulância já vai chegar. Quer que avise algum parente? Reclamavam de quem passava de carro devagarzinho só pra olhar. Faziam sombra para que o sol não atingisse os machucados já doloridos. Uma pena que, deitada, não pude enxergar o rosto de nenhum deles.

Durante esta semana recebi, talvez como em nenhum aniversário, o carinho de muitas pessoas. Em forma de palavras, de visitas, de lembranças e até de posts no Facebook, e foi incrível como isso ajudou no meu fortalecimento. Eu realmente senti a energia que esses amigos passavam.

Mas o que mais me tocou – e ainda toca – foi o que recebi dos profissionais de saúde. A humanidade de cada um em gestos simples como trocar a fralda, dar um banho numa cadeira de rodas depois de dias no leito ou trocar o acesso às veias de forma gentil. Lembro-me da fisioterapeuta que me guiava delicadamente pelos corredores, do rapaz que me ofereceu um cobertor na sala da tomografia, do motorista da ambulância que pedia desculpas após passar na lombada, do médico que me deu alta com um sorriso no rosto.

Na clausura da UTI, só me restava me apegar a estas pessoas. Desejar que estivessem felizes por deixar a família e trabalharem durante a madrugada fria naquele lugar, me fazendo companhia. Cuidando. Nunca fui de me apegar à metafísica, prefiro me apoiar no que posso ver e tocar.

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Ali também entendi, de forma verdadeira e forte, o significado do trabalho dos Doutores da Alegria. A falta que a imaginação despreocupada, a brincadeira e o riso fazem durante a internação – e a importância de manter uma atitude positiva. Pensei na poesia que é preciso ter para quebrar algumas barreiras e tentei supor como seria passar por isso enquanto criança ou idoso e, claro, lembrei do caso do Mateus e da Gabi, moradores de uma UTI, cujo sonho era ver a lua.

Nas duas semanas seguintes, já fora do hospital, valorizei cada pequena vitória e também o privilégio de ter uma família para me amparar naquele momento frágil. Agradeci por poder tomar um solzinho, olhei como pela primeira vez a grama verdinha que nascia na terra, me encantei com a sabedoria do corpo humano.

O tempo passou rápido.

Aos poucos, a vida vai puxando para o centro da roda de novo e o futuro começa a fazer mais parte dos pensamentos que o presente. Mas em tempos tão esquisitos, com hospitais sucateados e a saúde do país agonizando, essa brutal experiência me levou a acreditar neste fio invisível que nos liga: a humanidade. Obrigada a todos.

Gabi, da equipe de Comunicação do Doutores da Alegria.

Também tem muita coisa boa acontecendo

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Sempre saímos muito pensativos depois de um dia de trabalho no hospital. São várias as reflexões. A última foi sobre ser feliz.

Ser feliz não é questão de não ter problema ou de ter uma vida perfeita. Ou de ter uma vida onde tudo parece ser favorável. Hoje percebo que ser feliz é saber lidar com o que a vida nos oferece, mesmo sendo algo não muito agradável. Até porque, tenho quase certeza, não existe só coisa ruim acontecendo.

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Nossa função enquanto besteirologistas é entrar em contato com esse lado saudável da vida. E como é que eu consigo me conectar com o positivo da existência? Poderíamos fazer um pequeno exercício de olhar pra tudo de bom que está acontecendo. O que está surgindo de bom agora na sua vida?

No hospital, por exemplo, tem muita coisa boa acontecendo! Existe uma pessoa que acorda todos os dias pra olhar pra nossa saúde, pessoa que faz nosso almoço, pessoa que pensa nossa dieta, que limpa nosso quarto, que nos dá carinho, que ora pela gente. Pessoa que lava nossa roupa, pessoa que conserta o ar condicionado, pessoa que nos faz rir, profissionais que desenham e pintam com a gente, pessoa que estuda pra nossa cura e mais, mais, mais pessoa pra tudo!

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É muita coisa, né? E muita coisa boa! Então, por que não agradecer mais e pedir menos?

É um grande passo pra uma conexão com um turbilhão de coisas legais e que estão presentes em nossas vidas. A gente sabe que o mar não tá pra peixe. Ôps! A gente sabe ou nos disseram isso? A gente foi lá olhar, tirar nossas próprias conclusões? Hum… Tenho certeza de que muitos de nós nem sequer se deram ao trabalho.

Se alegrar com o simples…

Mas o que fazer com esse lado negativo que muitas vezes nos afoga e nos deixa tristes?

Certa vez, estávamos em um atendimento com uma criança que não andava e que se encontrava há 5 anos morando na UTI. Parece pesado, né? Mas pra esta criança, não era! Ela se alegrava porque a sua cama ia mudar de lugar, ia pra mais perto da janela e, assim, iria conseguir ver o nascer do sol. Ela se alegrava com a chegada dos palhaços, com o carinho dado pela sua mãe, com a nova cor estranha do cabelo da médica, e por aí vai. 

Nesse dia, em uma cadeira de rodas, ela segurava um copo de iogurte. No meio da conversa, ela deixou cair o copo no chão. Fiquei um pouco assustada, tentei segurar o copo e não consegui. Ela olhou pra mim, com o olhar leve e tranquilo, e disse:

- Tem nada não, é que eu sou assim mesmo!

Essa frase ecoou na cabeça. “É que eu sou assim mesmo”. Acho que um bom começo para saber lidar com o que consideramos negativo em nossa vida e aceitar a condição atual.

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Se no momento eu estou doente, eu aceito a doença, trago ela pra perto de mim, olho com amor pra ela, sem aversão e entendo que eu não SOU uma doença, mas que ESTOU doente. Começo a entender que além da doença, para qual estou olhando com muito afeto, existe uma possibilidade de coisas acontecendo de positivo bem pertinho. Por exemplo: o sol nasce todos os dias, depois vem a lua, já ouvi várias vezes som de pássaros de dentro do hospital, já vi, de dentro da enfermaria, o vento bater em árvores… 

É uma questão de escolha. Não está nada fora do lugar porque é assim que tinha de ser. No frigir dos ovos, está tudo bem pra menina, está tudo bem pra nós e está tudo bem pra você. Tá tudo certo!

Juliana de Almeida, mais conhecida como Dra. Baju,
e Marcelo Oliveira, o Dr. Marmelo, 
escrevem do Hospital Oswaldo Cruz, em Recife.

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Evento discute a presença negra no teatro e conta com Heraldo Firmino

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Nas próximas duas semanas, o Espaço Clariô realiza uma mostra gratuita com apresentações, rodas de conversa, shows e oficinas dedicados ao debate sobre a força política exercida por grupos e coletivos fora do eixo cultural.

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A 7° Mostra Mario Pazini de Teatro do Gueto acontece em Taboão da Serra, em São Paulo, e reflete sobre a produção do gueto, estéticas e discursos, além de compartilhar as experiências de coletivos artísticos que desenvolvem seus trabalhos exclusivamente nas periferias ou trazem em sua linguagem e discurso afinidades com o tema.

Para abrir a Mostra, Heraldo Firmino (palhaço formador do Doutores da Alegria) participa da mesa “A pele negra no teatro paulistano” junto ao jornalista e ator Oswaldo Faustino e a atriz Cleyde Queiroz. O encontro acontece nesta quinta, 31 de agosto, às 20h30 na Rua Santa Luzia, 96, em Taboão da Serra.

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A Trupe Dunavô, já citada neste Blog, também se apresenta no local dia 7 de setembro às 16h com o espetáculo “Beto Carreto”  e às 20h30 com “Refugo Urbano”. Veja aqui toda a programação da mostra, que acontece de 31 de agosto a 11 de setembro. Doutores recomenda!

O Espaço Clariô é mantido pelo Grupo Clariô de Teatro desde 2005. Hoje é um pólo de referência na região, carente de equipamentos culturais. No espaço há atividades de formação, produção e elaboração de pensamento junto à comunidade.

Doutores recomenda: A Deus Dará, espetáculo de ex-alunos da Escola

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Tão especial quanto indicar espetáculos de artistas do elenco do Doutores da Alegria é recomendar espetáculos com alunos formados pela nossa Escola. 

Jovens artistas que enveredaram pelo caminho da arte do palhaço e levam suas criações a espaços pela cidade. Quatro deles, formados pelo Programa de Formação de Palhaço para Jovens, integram o Grupo Manada e apresentam neste mês a peça A Deus Dará.

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O mote é um mundo devastado pela guerra, onde três palhaços sobreviventes celebram o ano novo dentro de um bunker, no subsolo de um deserto. Entre as tentativas frustradas de realizar uma festa no limite da precariedade, variando do cômico ao trágico, surgem reflexões sobre a desesperança, a ingenuidade, a sobrevivência e a pequenez humana.

A Deus Dará é apresentado de 5 a 13 de agosto, sábado às 21h e domingo às 19h, na Cia do Pássaro – Voo e Teatro (Rua Álvaro de Carvalho, 177 – Centro, São Paulo). O ingresso custa R$ 20 e a classificação é 14 anos.

Mais informações em 
https://www.facebook.com/events/141772079741075
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Doutores recomenda: dois espetáculos com artistas do elenco de Recife em SP

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Os pequenos pacientes de hospitais do Recife já devem estar com saudade de Dr. Ado e Dr. Lui. É que os besteirologistas fizeram as malas pra passar um tempinho em São Paulo…

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Mas calma, criançada, logo eles estão de volta! Durante o mês de agosto, Arilson Lopes e Luciano Pontes deixam o nariz vermelho de lado para encarnar outros personagens nos espetáculos As Travessuras de Mané Gostoso e Seu Rei Mandou, da Cia Meias Palavras. A companhia pernambucana usa recursos da literatura, da oralidade e da música de forma bem humorada e em diálogo com a plateia.

As Travessuras de Mané Gostoso é inspirado no teatro popular de bonecos do Brasil, o mamulengo, e na literatura de cordel. A história traz Mané Gostoso, um ‘inventador’ de causos que é apaixonado pela mocinha Anarinae, e Bibiu, um forasteiro que acaba causando uma grande disputa que envolve a fofoqueira Comadre Zuzinha e o cabo Zé Firmino. Os bonecos da peça foram concebidos por Rai Bento, artista pernambucano integrante do grupo Giramundo, e esculpidos em madeira de mulungu pelo mestre Tonho de Pombos. O mais divertido é que a plateia, no início da peça, é quem decide (de verdade!) qual dos atores vai encenar o personagem-título da história. 

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Seu Rei Mandou traz para o palco histórias que tratam do universo fabuloso dos reis através de releituras cômicas e poéticas, ora críticas, mas sempre lúdicas. A peça promove um diálogo entre a contação de histórias, a música e o teatro de formas animadas em três contos: A Lavadeira RealO Rato que roeu a Roupa do Rei de Roma e O Rei chinês Reinaldo Reis. O público é convidado a ser o coautor do espetáculo, ao participar de cenas ou cantar com o elenco, sempre acompanhado pela flauta e tambor do músico Gustavo Vilar.

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SERVIÇO

As Travessuras de Mané Gostoso
Sesc Consolação (Teatro Anchieta) – Rua Dr. Vila Nova, 245, São Paulo
12, 19 e 26 de agosto, sábados, às 11h
Ingressos: R$ 17; R$ 8,50 (meia); R$ 5 (credencial Sesc) e grátis para crianças até 12 anos
50 minutos
Especialmente recomendado para crianças a partir de 6 anos
280 lugares

Seu Rei Mandou
Sesc Pinheiros (auditório do 3º andar) – Rua Paes Leme, 195, São Paulo
13, 20 e 27 de agosto, domingos, às 15 e às 17h
Ingressos: R$ 17; R$ 8,50 (meia); R$ 5 (credencial Sesc) e grátis para crianças até 12 anos
45 minutos
Especialmente recomendado para crianças a partir de 5 anos
98 lugares

É sério: rir faz bem à saúde

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É sério: rir faz bem à saúde. Inúmeros estudos, de universidades e instituições relevantes, comprovam que o ato de dar risada e, principalmente o de gargalhar, ativam substâncias em nosso corpo que trazem sensações benéficas.

O riso aumenta os níveis de dopamina, substância ligada ao prazer e o responsável pela alegria. Ela age no cérebro e nos faz sentir prazer, diminuindo os níveis de estresse, e melhora a capacidade do corpo de combater infecções. E tem mais: dar uma gargalhada pode reduzir a sensação de dor. A endorfina liberada no corpo cria um estado leve de euforia e tem ação analgésica, amenizando a sensação de dor.

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Para o neurocientista cognitivo Scott Weems, o humor revela muito sobre nossa humanidade, sobre como pensamos, sentimos e nos relacionamos com o próximo, é a única forma que nosso cérebro encontra para lidar com diversas informações contraditórias ao mesmo tempo. Em suas pesquisas, ele mostra como estes hormônios nos tornaram seres em busca de emoção e de novas maneiras de melhorar a vida. Rindo, se possível.

 “O riso é o resultado da longa batalha cerebral entre emoções e pensamentos opostos. Ao chegar ao ápice da confusão, sem nenhuma alternativa de solucioná-la, rimos. E, assim, não só reconciliamos as ideias contrárias como enxergamos respostas. Rir nos conecta a outras pessoas para dividir nossas lutas, temores e confusões.”, diz ele.

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E, mais recentemente, um estudo finlandês trouxe a hipótese de que outras substâncias do nosso corpo, ativadas pelo riso, são capazes de promover laços afetivos entre todos os que compartilham a risada. Isso também explicaria por que a espécie humana foi capaz de estabelecer relações e vínculos sociais.

Nos hospitais, é fácil perceber como o riso modifica o ambiente e quebra barreiras, aproximando pessoas e criando laços. Não somos cientistas ou estudiosos do assunto, mas como besteirologistas – e bom observadores – seguimos confirmando a hipótese de que rir só traz benefícios à saúde.

Doutores recomenda: Refugo Urbano no Sesc Belenzinho

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A peça Refugo Urbano, já recomendada neste Blog, é apresentada na programação do Sesc, em São Paulo.

As apresentações acontecem neste final de semana, 5 e 6 de agosto, às 17h no Sesc Belenzinho, em São Paulo. Os ingressos são gratuitos e podem ser retirados com uma hora de antecedência na bilheteria (Rua Padre Adelino, 1.000, Belenzinho).

Foto 5 -  Patricia Nagano

Refugo Urbano é uma delicada fábula urbana que nasceu na experiência vivida com intervenções nas periferias da cidade. O palhaço na pele de um lixeiro e de uma moradora de rua. Entre o lixo e os restos de sobrevivência eles se conhecem e, juntos, descobrirão o que há de mágico na trágica crueza das ruas.

Contado pela Trupe Dunavô, o espetáculo foi eleito Melhor Espetáculo Infantil de 2015 pelos leitores do Guia Folha, venceu na categoria “sustentabilidade” o Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem e, nesta mesma premiação, teve Gabi Zanola indicada a melhor atriz. 

Foto 4 - Patricia Nagano

Gabi Zanola e Renato Ribeiro, integrantes da trupe, participaram do Programa de Formação de Palhaço para Jovens, iniciativa da Escola dos Doutores da Alegria. A dramaturgia é de Nereu Afonso e a preparação corporal é de Ronaldo Aguiar, ambos integrantes do elenco do Doutores da Alegria.

O espetáculo traz ainda brincadeiras circenses, corpo cômico, malabarismo e o divertido jogo do palhaço. Doutores recomenda! 

Serviço

Refugo Urbano
Sesc Belenzinho – Sala de Espetáculos 2 (Rua Padre Adelino, 1.000, Belenzinho)
Sábado, 5 e domingo, 6 de agosto
Duração: 55 minutos
Classificação: livre
Ingressos: gratuitos e retirados com uma hora de antecedência

Papeis trocados

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Já havíamos encontrado K. algumas vezes. Bem-humorado, portador de uma conversa fluida e inteligente e sempre com sua fiel (mãe) escudeira ao lado. Mas houve um dia em que nossa conversa enveredou pelas curiosidades do garoto: ele quis saber o que mais fazíamos além de sermos palhaços.

O Dr. Pinheiro contou-lhe sobre sua extensa jornada no circo, de suas viagens pelo mundo e de seu ingresso numa trupe de artistas, bem conhecida no meio, e emendou: 

- A Greta faz teatro, está até em temporada. Teatro sério, de adulto!
– Que legal! Eu também faço teatro.
– Sério? Onde? Na escola?
– É, na escola, mas não na escola, escola, numa escola de teatro mesmo, na Macunaíma.
– Caramba! Não acredito! Eu estudei teatro na Macunaíma, foi minha primeira escola, fiz aula com grandes mestres.

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Nos encontros que viriam a seguir, descobriríamos que o garoto estava ensaiando para apresentar a peça “Meu Malvado Favorito”. Ele faria um importante personagem, estava radiante. Perguntei se poderia ser um dos minions e ele deu risada, dizendo que pelo menos o tamanho deles eu já tinha garantido. 

Bem, depois disso o menino desapareceu por uns dias. Como sentimos falta do seu “bom papo”, perguntamos a uma das médicas que dia ele viria novamente. Ela nos disse que mais uma vez ele havia desistido do transplante, e que já era a terceira desistência. Ao questionarmos sobre essa decisão por parte do paciente, ela nos disse que se eles (os pacientes) assim desejassem, eles tinham que respeitar sua escolha. 

Ficamos surpresos e chegamos a comentar que talvez fosse por causa do teatro. Coincidentemente, na semana seguinte, lá estava ele. Ficamos muito felizes em vê-lo e mais felizes ainda quando ele contou de sua estreia, já marcada para o mês seguinte. E ele fez questão de nos convidar! 

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Como artistas, sempre conversamos muito sobre o trabalho e as relações nos hospitais. Os vínculos se dão, claro, afinal são muitos encontros; no entanto, há a indicação de que não nos apeguemos demais às crianças porque isso pode levar a uma desestabilização emocional, visto que perdemos muitas delas no decorrer do processo de visitas. Estamos sempre atentos a isso, porém há fatos que nos levam a quebrar as regras e não dá para explicar por que isso acontece. 

E foi a primeira vez, em 12 anos, que aconteceu comigo. Quando K. nos falou de sua apresentação, fiquei fascinada. Desde aquele momento não pensei em outra coisa senão em ir assisti-lo. Foi exatamente o que fiz. Não havia comprado ingresso, por isso cheguei bem mais cedo para ver se conseguia na bilheteria. Estava perambulando pelo foyer quando a mãe dele chega até mim, pergunta se eu não era aquela palhaça do hospital e diz: 

 O K. acabou de entrar no Teatro!
Ele estava nervoso?
Sim, andava de um lado para o outro, e antes de entrar me perguntou se você vinha.
Então não vá contar a ele que estou aqui, quero fazer surpresa!
Combinado. 

Eu estava com minha filha, da mesma idade que o garoto, e ela fez questão de acompanhar minha primeira visita a um paciente fora do hospital. Eu estava muito ansiosa… Enfim, chegou a hora! O espetáculo começou e quando ele entrou em cena fui tomada de tal emoção que não pude conter as lágrimas. A força daquele menino em cena foi algo que me tocou profundamente. 

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Quando a peça estava por terminar, me transportei de volta ao hospital – maquiagem, nariz, roupa – a Dra. Greta estava na sala de espetáculos. Foi uma experiência nova, sair de palhaço no meio do público, que se surpreendeu. 

O Teatro estava cheio, a família de K. o esperava na saída, pai, mãe, irmãzinha, tios, avós. Era o seu momento, por isso me apartei. Quando os atores saíram para cumprimentar o público, fiquei observando o garoto ser calorosamente abraçado por todos e, de repente, nossos olhares se cruzaram. Seu olhar era de surpresa. Ele saiu do meio das pessoas e veio em minha direção já de braços abertos, aquele abraço me dizia o quão grato ele estava por minha presença. Ele não disse nada. Tudo o que tinha que ser dito, foi dito naquele abraço que parecia não ter fim.

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Depois, entendemos que o show tinha que continuar… Ele voltou aos seus e eu, à minha casa. O garoto não está mais se tratando nos dias em que realizamos nossas visitas, porém, ao chegar ao hospital num dia desses, fui chamada pelas enfermeiras:

- Greta, o K. deixou um bilhete para você! 

O encontro significou muito para nós. O que havia no bilhete, bem, isso é segredo nosso <3

Sueli Andrade, mais conhecida como Dra. Greta Garboreta,
escreve do Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, em São Paulo.