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É preciso inventar uma maneira de existir

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Palcos e plateias diversos têm recebido os jovens artistas formados pela nossa Escola. Na última etapa do Programa de Formação de Palhaço para Jovens, eles circulam pelo estado de São Paulo com “O que dizer de tudo isso? Ou…”.

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O exercício cênico traz um pouco da trajetória de cada um dos vinte e um jovens, que frequentaram durante dois anos e meio a nossa casa em busca de uma formação artística.

Destinado a jovens em situação de vulnerabilidade social, o Programa se propõe a formar artistas que produzam arte a partir da vivência e da reflexão do cotidiano. O resultado é um experimento poético, sensível, mas também carregado de significados, que traduzem uma juventude marcada pelas desigualdades da nossa sociedade.

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IMG_3565fotos: Danilo Lima

Em julho, a turma se despede da Escola e avança para o mercado artístico, onde exerce de forma íntegra, profissional e, claro, apaixonante o ofício do palhaço. A despedida fica por conta de Heraldo Firmino, coordenador do programa.

É preciso inventar uma maneira de existir

Um percurso e tanto trilhado pela turma 7, feita de jovens artistas oriundos das periferias de São Paulo e outras cidades. E, quando falo de periferia, quero ampliar o olhar para a sociedade em que vivemos, que estrutural e sistematicamente tenta impedir que rompam essa escrita decretada em suas vidas.

Jovens que saem de suas “quebradas” para ganhar o mundo, pessoas comuns, que na busca de algo novo para suas carreiras e seus anseios dentro da arte, trazem em suas histórias as marcas de uma vivência na exclusão social e política. Mas este lugar talvez propicie possibilidades de criar algo novo para si e para os outros. Os excluídos inventam sua maneira de existir e, nesta busca, escolhem e chancelam sua escolha profissional: palhaçx.

Esta figura que não se adequa aos mundos sociais vigentes, que critica, transforma, encanta, alegra, revela o humano de cada um. Uma nova geração de artistas, eu diria, que inventa outra maneira de existir, fura o sistema, vai quebrando paradigmas.

Parabéns, jovens! O ofício da arte deve ser exercido sempre com dignidade e, em dois anos e meio de convivência, posso afirmar que isso vocês têm de sobra!”

Quando os nossos mundos se cruzam

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Dizem que cada pessoa é um mundo povoado de sonhos e desejos. Como se coubesse dentro de nós um cadinho de tantos que somos e das coisas que temos e queremos.

Se assim acreditamos, vivemos rodeados de uma constelação planetária de mundos que se esbarram no trânsito louco dos encontros. Confesso que o mundo dos outros, às vezes, me deixa mais encantado do que o meu. E sou flagrado querendo aquele mundo pra mim.

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A cama da enfermaria parecia maior do que ela. Era como uma cama king size gigante, maior do que um carro onde se pega carona. Ela parecia gostar dali, não havia queixa, sem expressões de dor, era como um colinho bom de mãe. Sua cama estava bem perto de onde a gente lava as mãos pra começar o trabalho dentro da UTI pediátrica. E mesmo parecendo os estranhos no ninho, com tanta coisa diferente (chapéu, maquiagem, nariz vermelho, camisa florida), não obtivemos sequer um olhar dela. Contemplava o branco infinito do teto como se meditasse. 

Chegamos batendo na porta, chamando pelo seu nome, que estava escrito numa prancha acima da cama. Ela tinha cinco anos e estava imóvel, com um olhar atento, escutando o chamado. Tudo era bem delicado e pedia menos do que a gente costuma pensar que criança gosta. Às vezes, crianças não curtem ver vídeo de bonecos coloridos dançando e cantando ao mesmo tempo.

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A voz da gente era sussurrada, igual a um passarinho aprendendo a cantar. Quando o tempo daquela conversa mole nos pareceu suficiente, veio a vontade de mergulhar nas águas tranquilas e agitar um pouco, fazer uma baderna boa. 

Dr. Marmelo retira do bolso um chocalho em forma de ovo de galinha. Como era fácil brincar com ele! Como se movesse céus e terras, ela aceita tocar conosco, sem nada dizer com palavras, apenas gestos. E de posse do instrumento, ela balança sem parar, fazendo o som chamar a atenção da equipe médica e de técnicos que estudavam os casos mais graves do dia. Agora eu entendia o fascínio que os pequenos mundos nos movem.

Ela fazia uma translação de mundos, como um móbile pendurado no teto se movendo ao balanço do vento. Seu mundo girou rápido depois de tanta calmaria e, para não agitar muito e virar um redemoinho, marcamos para continuar na próxima visita. 

Assim foram mais de quatro encontros, entre sins e nãos, sempre sem falas; apenas olhares e mover de olhos e cabeça. Aquela rotação de mundo nos fascinava. Era do tamanho de uma grandeza que assusta, mas um assustado bom.

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Para surpresa nossa, a pequena já não se encontra na UTI e foi para o 4ª andar da Enfermaria, o que significa que seu quadro evoluiu, como se ela entrasse numa outra esfera dos planetas alinhados, para uma dimensão melhor. Em breve ela deve ter alta e desbravar com seu mundo os outros mundos que lhe esperam.

No último encontro, ela não quis nem brincar e nem fizemos cara feia feito meninos birrentos. Mas deixamos marcada uma próxima visita e repetimos várias vezes o combinado, para ela não esquecer. E, assim, a vida gira entre asteroides, planetas, mundos que se cruzam e que fazem o universo estrelar das coisas pequenas e grandes dentro do hospital. 

Marcelo Oliveira e Luciano Pontes, conhecidos como Dr. Marmelo e Dr. Lui escrevem do Hospital da Restauração, em Recife. 

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A gente tem saudades de vocês no hospital

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Dizem que as despedidas são momentos difíceis. E pelo menos para mim são mesmo.

Mas há vezes que não temos nem a chance de nos despedirmos e, quando chegamos no outro dia de visita, as crianças já ganharam alta e só nos resta a lembrança do que vivemos. Neste mês alguns pacientes tiveram alta e não conseguimos dar “tchau”.

E acho que foi melhor assim. Eu não saberia o que falar. É o momento em que você tem quase certeza de que não vai mais ver a pessoa e tem um misto de sentimentos egoístas de querer vê-la mais uma vez.

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Só que o hospital não é o melhor lugar para encontrar os amigos, né? Rsrs.

Uma que teve alta e nos deixou este mês foi a J., garota doce e de uma imaginação incrível. Lembro-me do dia que ela disse pra gente pegar um avião pra voar perto de Deus e poder conversar com ele. Disse também que Deus não existia até ele criar ele mesmo – meio confuso, mas faz sentido.

Dia desses eu e a Vera Abbud estávamos passando nos setores de cara limpa (quer dizer, sem estar de palhaço) e a chefe da Enfermagem perguntou se iríamos fazer a visita de palhaço naquele dia, pois J. estava perguntando sobre nós desde a hora em que acordou. Nós nos olhamos e decidimos fazer a visita, mesmo sem maquiagem. A pequena enxergava apenas vultos, e o que importava pra ela era nossa presença, e não a roupa ou a maquiagem.

Tereza Gontijo, nossa colega Dra Guadalupe, já tratou deste tema aqui. Ela lembra que no Instituto da Criança quase sempre encontramos as mesmas crianças, pois são alas de tratamento contínuo. E nas internações, costumamos acompanhar uma mesma família por longos períodos. 

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“Assim, quando começamos o dia de trabalho, já temos uma ideia das crianças que vamos encontrar pelo caminho e, de certa maneira, já esperamos por esse encontro.”, conta ela “Com cada paciente desenvolvemos uma profunda relação de intimidade e contamos encontrá-las para saber como estão naquele dia e continuar as histórias que iniciamos há dias, semanas ou meses atrás. Temos muita saudade dos nossos encontros, mas como sentir saudade de uma internação hospitalar?” 

+ leia aqui: Saudade de uma internação

Bem, quando chegamos e esses pequenos já receberam alta é um misto de alegria e saudade. Alegria porque, claro, eles não estão mais no hospital; e a saudade é das bobeiras que vivemos. É egoísta, eu sei, mas a potência do encontro entre crianças e palhaços nos levam a estes sentimentos.

Henrique Rìmoli, conhecido como Dr. Dus"Cuais, escreve do Instituto da Criança, São Paulo.

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O que você carrega no seu vazio?

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O vazio existe? Tenho a impressão de que não.

No trabalho, nós, palhaços, aprendemos a trabalhar o vazio. É o que acontece muitas vezes na porta de uma Enfermaria, por exemplo, pois não dá pra saber o que está por vir. Cada encontro é único – igual à cada pessoa – e é preciso estar, simplesmente, aberto. 

Acontece que isso não é nada fácil. De repente, estamos ali, parados, sem acontecer patavina e todos estão nos olhando, esperando que algo aconteça.

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Às vezes, o estímulo vem de dentro da Enfermaria, por meio da criança, de seu acompanhante ou de quem quer que seja que esteja ali naquela hora. Outras vezes, somos nós que levamos alguma proposta. E, outras vezes, aparece o vazio. Ao longo dos treinamentos e da prática, entendemos que esse vazio também faz parte do nosso exercício e é precioso ao trabalho.

É o vazio que nos faz dar espaço às surpresas, ao risco, ao novo. E, por isso mesmo, ele nos dá um pouco de medo porque é como estar de olhos vendados e, ainda assim, dar o próximo passo. Por outro lado, o vazio também nos fortalece, pois vamos ganhando confiança à medida em que nos aventuramos nele. Pode dar tudo errado – e a gente sobrevive. E também pode dar muito certo, e é uma delícia. Nas duas formas, ganhamos. 

A questão é que esse vazio não me parece nada oco. Ele tá preenchido de alguma coisa.

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Quando não, de algumas coisas. Se ele está ali, está ocupando algum lugar no espaço, ainda que não o vejamos, concorda? Entrar na enfermaria do M. é tudo isso pra mim. Mesmo cada vez mais debilitado, a sua disponibilidade se agiganta diante da minha limitação.

- M., a gente pode tocar uma música pra você?

Ele responde que sim, articulando pouco a sua fala e com um volume que faz o encontro ser ali, bem de pertinho com ele, campo de muita intimidade. Continuo:

- Você quer que a gente toque aquela ou a outra?
- Aquela.

Tocamos uma música e, no fim, ele disse “Miau!”, resposta de grande reflexo para a canção Atirei o pau no gato, mas que muitos se intimidam de dar. Ele não. 

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Acho que M. tem uns oito anos e, diante dele, me sinto zerada, sem saber fazer nada. Mas cheia de coisa dentro.

Os físicos, astrofísicos e tantos outros sabidos deverão falar de coisas como oxigênio, gases, partículas, etc. Eu, Baju – doutora em Besteirologia – tô falando de algo que não se pode medir. Talvez seja assim: cada um sabe o que carrega no seu vazio. 

Juliana de Almeida, conhecida como Dra. Baju,
escreve do Hospital Universitário Oswaldo Cruz e Procape, no Recife.

Um visita a ala adulta

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Depois de um ano muito brabo no Hospital Universitário da USP, com os palhaços se equilibrando em meio ao desmonte que o hospital vem sofrendo, tomamos uma decisão inédita e que veio ao encontro dos anseios dos profissionais de saúde. 

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Os Doutores da Alegria agora passam visitas na ala adulta do HU.

Em toda a nossa história, nunca havíamos ultrapassado a fronteira da Pediatria na posição de besteirologistas. E a tarefa ficou com os artistas Monique Franco e Nilson Domingues, que agora fazem o trajeto pela Clínica Médica Adulta todas as quintas-feiras. As terças continuam com as crianças, que seguem em número reduzido em função da falta de médicos (essa história a gente já contou aqui). 

Monique e Nilson contam, a partir de suas reflexões, como tem sido atuar com pacientes adultos nestes últimos meses. 

Mês 1, por Monique Franco

As paredes dos corredores não eram coloridas e nem havia choro de criança levando injeção. Quanto menos barulho, menos incômodo. Melhor assim.

Antes de entrar neste novo universo, eu e Nilson nos olhamos nos olhos, pegamos nas mãos e, assim, com a cara e a coragem que só o palhaço nos dá, começamos a atender os adultos do Hospital Universitário. 

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Com toda a delicadeza do mundo, abrimos a porta. Começamos do jeito que sabemos:

- A gente pode entrar?, falando baixinho sem querer incomodar e achando chão para pisar. E ouvimos bem alto:
- Filho, fala mais alto que eu não escuto direito!

Ali já deu pra sacar que entramos em um território totalmente diferente, que necessita de uma nova abordagem e de um novo olhar para os nossos pacientes não tão novos assim. Fomos de quarto em quarto com bastante medo. Mas como dizia a vó do Dr. Chicô: “Tá com medo? Vai com medo mesmo.” Fomos de peito aberto pra nova história que está começando para nós como pessoas, como besteirologistas, e também para a instituição Doutores da Alegria. 

Em outro quarto, duas senhoras. Duas Marias.

Uma sorridente, a outra com dificuldade pra sorrir, ambas admiradas com os novos doutores de caras pintadas. Uma das Marias propõe um dilema pra gente em forma de desabafo:
- Nesses últimos tempos não tenho muito motivo pra me alegrar…

Então o quarto rachou ao meio. Um lado quer música, quer rir, quer vida. Do outro lado da vida, um “tanto faz”. Nós, no meio, ficamos com a Maria da vida, pra ver se o outro lado se contaminava e se deixava viver. Conseguimos um leve sorriso, um sorriso tímido. 

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De um lado as crianças, as paredes coloridas e os médicos que já nos reconhecem como parte do hospital; do outro, adultos e suas histórias, seus jeitinhos de brincar. As paredes podem ainda ser frias, para os médicos ainda somos estranhos.

Só que no fundo ainda é como atender as crianças.

Entrando no quarto, pedindo licença, escutando o que o encontro nos propõe, buscando ali o que está sadio, trabalhando com o que pulsa e vive para além da doença, com esse outro lado da vida, que também é vida.

+ leia aqui: O Hospital Universitário da USP resiste 

Mês 2, por Monique Franco

O frio na barriga ainda esta lá, mas já não há mais medo, já não nos parece mais tão hostil, nem tão cinzas as paredes. Deve ter muito a ver com o sorriso que agora a equipe nos recebe, que vai nos dando confiança e força. Talvez eles nem saibam o quanto fazem parte da energia que temos que ter para entrar em cada porta de quarto. 

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E se fossem vocês, parados ali diante da porta, olhando a placa com o nome de quem está lá dentro?

Algumas poucas informações sobre precauções, não está escrito se o paciente esta só, se ele gosta de música, qual a sua religião, nem nada. Só aquela pequena placa com nome. Você bate de leve na porta, entra e dá de cara com os olhos dos adultos em um grande ponto de interrogação. 

Ambos sabemos que você não está ali para dar alta, que não veio amenizar a sua dor.

Ambos sabemos que você está ali pelo simples propósito da relação – e eles nem sempre querem se relacionar, nem sempre querem rir, nem sempre querem cantar, dançar ou ouvir bobagens. Mas pela sobrevivência no hospital, há sempre meios de cantar, há sempre meios de conversar, há sempre modos de sorrir. 

Essa distância entre o vazio da expectativa de abrir a porta e o alívio de fechá-la, tendo vivido um encontro, é esse caminho que se faz caminhando. E sem querer o vazio é preenchido com histórias, com uma trilha para acessar o outro, um caminho. 

Mês 3, por Nilson Domingues 

Entramos no corredor da ala adulta para pegar dados dos pacientes. Vi um casal sentado que assistia a um programa de futebol. Faço uma saudação:
- VAI CORINTHIANSSSSS!

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E o rapaz logo grita:
- VAI PALMEIRASSSSS!
- Isso aqui é hospital, não um chiqueiro!
, retruquei.
- Isso mesmo, isso aqui é hospital, não um galinheiro! 

Ao perceber que íamos entrar em seu quarto, o paciente correu e deitou em sua cama.

Entramos, Ele olhou pro outro paciente e comentou:
- Olha, aqui é quarto de palmeirense.
- VAI PALMEIRAS!, gritou o outro.
- Olha, tudo bem, eu nem gosto muito de futebol – disse eu ao perceber que estava em desvantagem – então desculpa pelo vacilo. Eu posso cantar uma música de amor, pra demonstrar meu arrependimento a vocês?
- Se arrependeu, né? Então tudo bem, pode cantar a música de amor aí!
, bradaram os pacientes.
- Essa música de amor eu dedico a vocês, meus amigos: SALVE O CORINTHIANSSS, O CAMPEÃO DOS CAMPEÕES… 

Corremos para o outro quarto e uma senhora que estava na cama nos recebeu com uma piada. Mas não ficamos só nas piadas, pois ela queria um ultrassom.

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Bem, nós somos especialistas em pagode, som é conosco mesmo. Começamos a cantar e outra paciente surgiu e começou a cantar também. Fui pra porta e, no corredor, gritei:
- Aqui no quarto tá rolando feijoada com pagode! Só chegar!

Fizemos a festa no quarto da senhora. Foi demais cantar com os pacientes. Um ultrassom bem sucedido. Em outro quarto, fomos recebidos por pacientes já conhecidos:
- Isso é uma palhaçada!
- Aqui nesse quarto não entra palhaço!, ajudou o outro.
- Então os dois têm que sair do quarto, já que os dois são palhaços!, respondi.
- Olha que eu vou aí!
- E eu só não vou aí por que eu tô aqui.
- Que falta de absurdo! Vamos isolar esse quarto. É muita palhaçada e isso pode ser contagioso. 

Dra. Nina Rosa entrou no banheiro, pegou papel higiênico e isolou os pacientes diagnosticados com excesso de bobeira. E antes de sairmos do quarto, tiramos uma selfie para deixar registrado como o nosso isolamento de papel higiênico na porta é eficaz contra o combate da epidemia de bobeira. 

Entre brigas de torcidas, piadas, ultrassom de pagode com feijoada e isolamento de excesso de besteira, fica acentuada a minha certeza de que a Besteirologia é a medicina desnecessária mais necessária que existe. 

As crianças, que são nossos mestres e mestras, nos dão uma aula de como ver a vida por uma ótica mais leve do que os adultos. Quando estamos com os adultos, precisamos relembrar que, brincando, a gente pode dar risada e tornar a vida um pouco mais divertida diante de todas as adversidades.

E como está sendo bom relembrar aquela energia de criança que vive em todos e que a gente esquece de vez em quando.

Um dia de cada vez e desbravamos a ala adulta. Em breve mais histórias.

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Mãe é tudo igual? Conheça estas do hospital

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Já ouviram aquela: “Mãe é tudo igual”? Pois bem, as mães que encontramos nos hospitais merecem um estudo aprofundado. E foi o que fizemos.

Acreditem: cada ala do hospital tem sua mãe característica. Em comum, elas têm força e dedicação. Algumas nos provocam, outras desconfiam, muitas nos pegam emprestado e brincam feito crianças. Em homenagem ao Dia das Mães, vamos apresentar quatro tipos mais frequentes que estudamos.

Mãe da neonatal

Tem cara de sono e dorme na primeira oportunidade. Se a gente não tomar cuidado, pode dormir no meio do atendimento. Não entendemos o motivo, pois aqueles anjinhos vivem dormindo, não choram, não comem feito pintinhos, não fazem caquinha na fralda, não dão o menor trabalho… 

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Mãe da enfermaria

Divide espaço com outras diversas mães. Todas se chamam pelo nome (“Olha, Ana, os palhaços estão mangando de tu!”), conhecem as preferências umas das outras (“Toca sofrência, palhaço, que ela gosta!”) e entendem muito de Psicologia Social (“Foi aquela ali que falou, palhaço! Ela é barraqueira!”).

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É a mais animada, falante, dançante e implicante. Não sabemos bem como ela desenvolve essa capacidade, mas consegue simultaneamente arrumar o cabelo, passar sermão no marido, trocar fralda, falar ao celular com a comadre, prestar atenção no que estamos fazendo e, se desconfiar que estamos falando dela, pode, do nada, correr atrás da gente. Ou seja, precisamos estar sempre alertas!

Mãe do canguru

Está sempre às voltas com as seringas de leite. Típica mãe do “coma só esse pouquinho, meu filho”. Todas as vezes que chegamos lá, está alimentando o bebê. Agora sabemos de onde vem essa coisa das mães sempre acharem que os filhos estão magrinhos e precisando comer mais: vem lá do canguru. 

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Ah, sim, todas as “canguretes” amam usar um sutiã gigante especial onde carregam os bebês. Já virou moda por lá.

Mãe da UTI

A mais silenciosa… Quando está lá dentro.

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Contudo, outro dia encontramos com a… Bem, vamos poupar a sua identidade, chamaremos de Celinha. Encontramos a Celinha sentada em uma cadeira, apartada de todos, num canto da UTI. Estava de castigo, entendemos logo. Fizemos exames e liberamos a Celinha para o convívio social! Quando estão do lado de fora, as mães da UTI se juntam em grupos que parecem reunião de bazar.

Mãe quebrada

É a mãe que acabou de perder seu filho. Não sabemos outro nome para designar essa mãe, porque quando a olhamos podemos ver um vaso partido, quebrado em mil cacos. Por uma força inominável, ela não se desfaz. Não sabemos narrar essa mãe, temos ausência de palavras.

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Mas Eliane Brum, escritora e jornalista, achou palavras no escuro do silêncio:

“Só naquele momento, ao apalpar a dor das mulheres cujas crianças viveram mais no seu desejo do que na vida, alcancei a soleira da dor da minha mãe por aquela filha (já morta). Maninha não tinha vivido apenas cinco meses, já que o tempo de um filho não se mede por dias, meses ou anos. Um filho é mundo sem tempo. Eu estava diante de mulheres empaladas pela dor. O resto era mal-entendido. Há mal-entendidos demais numa vida humana.” (Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum).

Uma homenagem a todas as mães. Iguais ou não.

Eduardo Filho, mais conhecido como Dr. Dud Grud, e Greyce Braga, a Dra. Monalisa, escrevem do Hospital Barão de Lucena, em Recife.

Dois pais, dois bebês e uma TV que precisava de cirurgia

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Parecia um dia normal de consultas e exames besteirológicos na rotina de Dr. Sandoval e Dr. Valdisney. Mas apenas parecia…

Entram os dois os dois médicos besteirologistas num quarto da Pediatria. Lá estavam dois pais, dois bebês e uma televisão. E tinha um clima de frustração no ar, assim como uma TV, fora do ar.

Os pais fizeram uma vaquinha para comprar um aparelho que aparentemente faria funcionar o sinal da TV, que estava ruim, para poderem assistir a desenhos animados (os bebês!) e jogos de futebol (os pais!). Tentaram de todas as formas, mas nem a TV e nem o aparelho funcionavam. Eis então a grande ideia: cirurgia na televisão.

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Sim, Sandoval e Valdisney fizeram pequenos exames de avaliação na paciente televisão. Valdisney entrelaça seus cabelos à antena da TV. Nada. Sandoval dá pequenos tapinhas delicados. Nada. Diversos procedimentos sem sucesso. Enquanto isso, os pais observam, esperançosos e intrigados, as ações dos besteirologistas. 

Então começa a parte mais delicada da cirurgia: desmontar tudo e religar o aparelho à TV. O silêncio toma conta do quarto e o suor toma conta de Valdisney e Sandoval, pois estava um calor danado! Não foram 1 ou 2 minutos dedicados à saúde e melhora da TV, e sim 10 minutos de tentativas incansáveis. Tudo religado, cabos devidamente encaixados, antena posicionada, agora bastava fazer o teste. Ligamos a TV e… Nada, nada e nada de imagem e som. 

De repente, próximo à mesa onde servem o almoço para os pacientes, Valdisney avista o controle da TV. Rapidamente passa para as mãos de Sandoval. Começa mais um procedimento. Corrida contra o tempo, pois o programa de futebol iria começar a qualquer instante. A paciente televisão não reagia, será que estaria tudo perdido? Pausa dramática!

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Valdisney faz mais uma troca de cabo e Sandoval segura o controle da TV apertando, incansavelmente, todos os botões. E eis que o que parecia impossível vira realidade: a bendita televisão funciona e se recupera bem após a cirurgia.

Todos se abraçam e comemoram a volta da TV como se fosse um gol do Brasil na Copa do Mundo! Dr. Sandoval e Dr. Valdisney talvez sejam os primeiros besteirologistas a operarem, com sucesso, um aparelho de televisão. 

Sandro Fontes, mais conhecido como Dr. Sandoval, escreve do Hospital do Campo Limpo, em São Paulo.

Quem cuida de nós enquanto os médicos adoecem?

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Quem cuidará de nós, na condição de pacientes, quando os médicos estiverem doentes?

Essa pergunta pode parecer incoerente, uma vez que a figura médica é frequentemente vista como impedida de apresentar sinais de fragilidade humana. Mas acontece. E a doença pode se dar de forma sutil, às vezes imperceptível – como o estresse ou a depressão –, ou de um sobressalto, como a síndrome de burnout (esgotamento) e o suicídio.

Desde a entrada na faculdade, o profissional de Medicina já carrega um fardo pesado, que alia uma rotina intensa de estudos à maturidade forçada para lidar com a vida e a morte. No início da carreira, muitas vezes precisa se sujeitar a jornadas de plantões, pressão por produtividade, poucas horas de descanso e afastamento do seu círculo social. 

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“Entre os profissionais hospitalares, o médico é visto como personagem revestido de muito poder, crítica e racionalidade. Seu poder – consolidado ao longo da história e de difícil revisão – emana justamente das decisões cruciais que toma.”, conta a psicóloga Morgana Masetti no livro Boas Misturas, A Ética da Alegria no Contexto Hospitalar. O oncologista Drauzio Varella, em um artigo para a Folha de S.Paulo sobre os últimos 50 anos da Medicina no país, ajuda a entender: “A lógica de mercado invadiu o sistema de saúde. Administradores alheios à profissão trouxeram palavras de ordem às quais [nós, médicos] não estávamos habituados: produtividade, racionalização da mão de obra, economia de escala, lucratividade, fusões, corporações, capital de risco.”

E como evidenciamos nos hospitais em que atuamos, a crise na saúde pública compõe mais um capítulo desta história. Médicos e médicas lidam com condições de trabalho inadequadas para oferecer atendimento aos pacientes, como falta de materiais básicos, aparelhos, remédios, leitos. No Hospital Universitário da USP, que vem sofrendo sucateamento nos últimos anos, mais de 25 médicos pediram demissão, sem reposição de profissionais. Serviços foram cortados e os horários de atendimento dos prontos-socorros adulto e infantil foram restringidos, além da redução de 21% no número de leitos.

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Uma matéria especial do UOL Tab tratou do suicídio de estudantes e profissionais de Medicina – um assunto tão delicado e cercado de preconceitos que a própria classe tem dificuldade de compreender. “O suicídio por si só já é um tabu. Na classe médica, é mais ainda. É muito comum esses médicos não serem atendidos adequadamente nos serviços de emergência porque há um certo desrespeito pelas tentativas. Por ser um ato intencional, é como se a pessoa tivesse liberdade plena da escolha que fez. Muitas vezes, não têm. No momento que faz a escolha, ela tem uma distorção da percepção”, explica Alexandrina Meleiro, doutora em Psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da USP.

Excluídas as mortes por causas externas, como doenças, tirar a própria vida foi a segunda causa da morte de médicos paulistas entre 2000 e 2009, só ficando atrás de acidente de carro: o suicídio é a causa da morte de 18% dos homens e 21% das mulheres. O levantamento foi feito pela Unifesp (Universidade Federal do Paraná) e Uniad (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas), com o apoio do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo). 

Segundo a matéria, universidades, conselhos regionais de Medicina, sociedades e associações médicas têm promovido palestras e simpósios sobre o tema, com a perspectiva de reduzir o anseio e a vergonha dos profissionais em debater sobre sua própria saúde. E para nós, artistas, que habitamos os hospitais e nos relacionamos com diversos profissionais de saúde, fica a tarefa de compreender a fragilidade humana por trás de um jaleco e uma postura mais séria.

A linguagem do palhaço cria uma atmosfera empática: mães e pais de crianças hospitalizadas estabelecem uma intimidade imediata com os artistas por meio da brincadeira e da delicadeza da relação imposta pela doença. Extravasar este jogo para a relação com médicos, em nosso dia a dia, é um caminho que já estamos percorrendo há algum tempo e obtendo resultados: quando fica estabelecido um laço de confiança entre palhaços e profissionais de saúde, este elo se amplia para todas as relações que se dão no ambiente hospitalar, criando uma condição de convivência mais potente entre todos ali.

Talvez este seja um pequeno grande passo que revela que somos todos humanos, temos todos nossas fragilidades e somos todos capazes de cuidar uns dos outros.

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Congresso Internacional de Palhaços em Hospital: estivemos lá

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A intervenção do palhaço no hospital sob a ótica da cultura, da saúde e da ciência foi o tema discutido em um congresso internacional na cidade de Viena, na Áustria.

Thursday Plenary Session

O Health Clowning International Meeting, organizado neste ano pela Red Noses Clowndoctors, aconteceu nos dias 4, 5 e 6 de abril e conseguiu atrair organizações (gestores e artistas) do mundo inteiro, além de profissionais de saúde e pesquisadores – 400 pessoas de 50 países trocaram experiências em um empolgante encontro.

As pautas foram as diferenças e semelhanças entre as intervenções de palhaço mundo afora, as ações do ponto de vista dos pacientes, o papel do palhaço na sociedade, o estudo científico da intervenção e os desafios que as organizações devem enfrentar no futuro.

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Thursday 1400-1545 Parallel Session

Nossos diretores Daiane Carina, Ronaldo Aguiar e Thais Ferrara representaram Doutores da Alegria na companhia da psicóloga e pesquisadora Morgana Masetti. A equipe participou das plenárias, com assuntos diversos e de interesse comum, das sessões paralelas com apresentações de temas específicos e também das oficinas práticas.

Thais Ferrara apresentou a Escola dos Doutores da Alegria em uma sessão sobre modelos de educação e profissionalização. Apresentar a nova governança da associação Doutores da Alegria ficou sob a responsabilidade de Daiane Carina.

1100-1230 Parallel Session Friday

Morgana Masetti falou sobre as mais recentes pesquisas sobre o palhaço na saúde. Já Ronaldo Aguiar conduziu uma oficina cujo tema foi o corpo cômico dentro do hospital.

0900-1030 Parallel Session Friday

1100-1230 Parallel Session Friday

O criador do movimento – o ator americano Michael Christensen, fundador do The Clown Care Unit – também esteve presente: “Isso aqui supera todas as minhas expectativas! Sou muito grato e orgulhoso pelo que nosso movimento se tornou. Este é apenas o começo de algo muito maior, já que o humor pode ser benéfico para muitas áreas fora do ambiente hospitalar.”, expressou ele.

Wednesday Opening Plenary

A convergência entre arte, saúde e ciência se deu nas falas de profissionais de saúde, que dividiram o palco com artistas. Dr. Peter Ahlburg, anestesista do Hospital da Universidade de Aarhus, vê os palhaços como colegas e os consulta regularmente antes de cirurgias na Pediatria. “O aspecto psicológico, emocional, infelizmente, é frequentemente negligenciado no cotidiano do hospital. Médicos e cuidadores não têm tempo e também o conhecimento para isso. Essa é mais uma das razões pelas quais sou muito grato por meus colegas palhaços, pois eles me ajudam e permitem que eu me concentre mais em meu trabalho, criando uma atmosfera relaxada que tem um efeito positivo sobre todos os envolvidos.”, disse ele.

Outra questão levantada foi o impacto do trabalho, assunto de relevância para doadores, patrocinadores, instituições e para a sociedade que apoia as causas. Essa é a razão pela qual mais e mais organizações estão entrando no campo científico e alguns resultados foram compartilhados por Morgana Masetti e pesquisadoras que constituem um núcleo internacional de pesquisa (Itália, Portugal e Brasil).

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O tom austríaco se fez presente pela precisão dos horários em cada evento, o que foi temperado com leveza e bom humor, principalmente pelo mestre de cerimônias, extremamente sério e divertido, e as intervenções de três palhaças.

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Além do encontro, um cabaré de palhaços de vários países e um jantar imperial contribuíram para estreitar os laços entre os participantes. Neste último, os convidados aguardavam por um imperador que “não chegava” e, durante a espera, cada organização era convidada a trazer uma lembrança de seu país para a autoridade.

Doutores da Alegria entrou ao som do kazoo, com duas sombrinhas de frevo: Ronaldo e Daiane dançavam, enquanto Thais comandava o kazoo e Morgana levava uma tiara com nosso miolo mole em sua cabeça – que acabou ficando, claro, com o mestre de cerimônias.

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De volta ao Brasil, a equipe ficou com a missão de preparar um documento com as principais conclusões do encontro, que será apresentado em breve.

E, assim como no encontro realizado há dois anos em Portugal, voltamos convictos de que Doutores da Alegria é uma organização forte e referenciada mundialmente, com uma enorme responsabilidade em função disso.

| fotos: Jakob Polacsek, Angelika Goldmann e Luis Harmer |

Doenças graves, reações surpreendentes

Tempo de leitura: 3 minuto(s)

O Instituto da Criança tem uma dinâmica diferente dos outros hospitais que atuamos. Enquanto nos outros temos a sazonalidade das doenças, um período de distúrbios intestinais e outro de problemas pulmonares, no ICr temos uma gama de processos que desconhecemos.

Nos outros hospitais o mais impactante é a situação social das crianças, no ICr é a gravidade das doenças. Muitas vezes não sabemos avaliar, ficamos com muitas dúvidas sobre o estado geral delas e às vezes, por não ter informação suficiente, subestimamos seu estado. Mas neste mês tivemos boas surpresas e quero contar algumas delas.

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Um olhar diz muita coisa

O B. fica sempre na cama, com movimentos reduzidos. Não é muito reativo, mexe os olhos, mas não fala. Ele tem uma deformação na coluna e uma traqueostomia. 

Já tínhamos entrado em seu quarto antes, mas por conta de um procedimento, apenas fizemos algumas bolhas de sabão e saímos. No outro dia estava dormindo. No terceiro dia, eu e Dr. Dus’Cuais entramos e ele começou a olhar para o violão.

- Quer uma música?, pergunto.

Ele faz um “não” com a cabeça. Tiro o violão da frente e ele olha para um bolso. Mostro o que está no bolso e ele faz outro não. Olha para outro bolso. Mostro o que tem lá. Não! B. olha de novo para o bolso e depois para o teto, repetidas vezes. Entendo que são as bolhas. 

Quando as tiro do bolso, ele abre um sorriso. Faz “sim” com a cabeça. Assim que soltamos bolhas, seus braços, lentamente, levantam para tentar agarrar algumas, com certa descoordenação. Ao pegar umas delas, abre um sorriso inesperado.

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Para mim foi tudo inesperado, pois naquele momento se revelou que ele tinha plena cognição, que se comunica, que se mexe. Da nossa primeira avaliação, bem equivocada, ele deu um salto. 

Pisca pra ela!

Na UTI outra surpresa. Entramos e uma mãe nos chamou:

- Vem ver a G.! Toca pra ela. Ela adora música. 

A menina estava imóvel, com os olhos prostrados. Ficamos na dúvida se estava sedada. Tocamos um pouco, a G. se contorceu e virou para o lado da mãe.

- É dor. Mas ela adora música, né filha? Pode continuar.

Continuamos. E a menina permaneceu com os olhos fixados em nós. A mãe de novo:

- Fala, G., que você gostou. Se você gostou pisca pra eles.

E a menina, que até então não tinha reagido, nos olhou e piscou pra gente.

- Pisca você pra ela, ela entende!, pediu a mãe.

Piscamos. Ela novamente piscou de volta. Demos tchau e nova piscadinha. Surpreendente de novo. O que parecia uma mãe querendo palhaços mais que a filha, pois a princípio a G. não parecia consciente, era uma mãe extremamente atenta com a filha. 

Uma palavra inesperada

O outro é o A., que tem uma cirurgia enorme na cabeça. E uma mãe e uma vó muito carinhosas, espetaculares e presentes. Da primeira vez, não parecia que ele seria tão reativo, mas a vó pediu para tocarmos, pois antes de adoecer o menino tocava violino.

Quando ouviu a música, seus olhos arregalaram e um sorriso torto saiu. 

Aos poucos, os assuntos foram aumentando. Ele adora Star Wars, Toy Story e seu quarto é cheio de bonecos dessas duas histórias. Dr. Dus’Cuais fez aparecer e desaparecer um monte de coisa no quarto e o A. fez cara de surpresa, abriu a boca e colocou a mão na frente, numa reação sincera de espanto. Adorou a mágica.

Em nosso último encontro, numa brincadeira entre os palhaços, perguntei se o Dr. Sandoval estava tirando uma com a minha cara. E ele, pela primeira vez, falou bem claramente, em apoio ao Sandoval:

- Não! 

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Bate-papo

E por fim a J., que é uma menina que não vê.

No quarto dela sempre conversamos muito e é das coisas mais interessantes conversar com crianças seguindo seu raciocínio. O assunto era Deus. Algo como:

-  Quem fez você tão bonita?, perguntamos.
-  Meu pai e minha mãe.
-  E quem será que me fez?
-  Ora, foi Deus!
-  E quem será que fez Deus? O pais Deus e a mães Deus?
-  Claro que não! Deus fez ele mesmo!
-  Mas como se ele não existia?
-  Deus fez ele antes de ele existir, oras! 

Estamos tentando entender até hoje.

Vera Abbud, mais conhecida como Dra. Emily, escreve do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

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