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O maior e melhor aniversário de 15 anos de todos os tempos

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Recifense geralmente não tem problema com autoestima. Na verdade, ser bairrista é praticamente uma característica coletiva – não só de quem nasceu, mas de quem, por algum motivo, adotou Recife como cidade do coração. Talvez tenha a ver com a natureza exuberante, a diversidade e riqueza cultural ou a capacidade agregadora do povo. Ou com tudo isso junto e misturado. Quem visita a cidade logo percebe que recifense – pernambucano como um todo, mas aqui especificamente o recifense – adora usar os títulos de “o melhor” e “o maior do mundo”. O Galo da Madrugada? O maior bloco de carnaval do mundo! A mais longa avenida em linha reta do Brasil? Tem gente que vai jurar que é a Avenida Caxangá, uma das principais vias da cidade.

Alguns desses “troféus” já foram verdade, outros só compõem o imaginário popular do pernambucano. Então imagina só quando o orgulho tem toda razão de ser?! Quando Recife é a única cidade do Nordeste com uma sede do Doutores da Alegria? E que o trabalho está completando 15 anos de uma trajetória com muitas histórias lindas para contar?

Elenco pernambucano em 2018. Foto: Newman Homrich

 

Wellington Nogueira, fundador do Doutores da Alegria, conheceu Recife em 1998. “Fiquei encantado com a riqueza da cultura popular do estado. Já voltei pensando que não poderia construir a história do Doutores da Alegria sem que fôssemos influenciados por essa cultura tão importante, de humor e irreverência peculiares. Descobri, pouco tempo depois, a capacidade de mobilização social do Recife, um dos lugares mais socialmente engajados do país”, conta Wellington. Tão vendo que o bairrismo pernambucano pega mesmo?

A história no Recife começou no Hospital da Restauração (HR) e no Barão de Lucena – que, por coincidência, fica justamente na Avenida Caxangá! Logo depois vieram o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) e o Hospital Universitário Oswaldo Cruz/Procape. Só em 2017, os palhaços recifenses fizeram 33.816 intervenções artísticas junto a pacientes, seus acompanhantes e profissionais de saúde. Como esses hospitais são referência em diversas áreas, oncologia, por exemplo, muitos pacientes atendidos no Recife são, na verdade, de várias cidades do interior e até de estados próximos. Fica até difícil “medir” o impacto de toda essa besteirologia. Mas é certamente o maior do mundo! Quem aí é besta de duvidar?

Elenco pernambucano 2010

Hospital da Restauração_Foto Rogério Alves

 Para além das intervenções habituais nos hospitais, os palhaços também criaram espetáculos – Poemas esparadrápicos (2005), Dramalhaço (2006) e Palhaços em ConSerto (2010); colocaram na rua – e nos hospitais – um bloco de carnaval: o Bloco do Miole Mole, que sai na quinta-feira antes do carnaval oficial do Recife, e o Miolinho Mole, que leva o frevo às crianças internadas; arrastaram as sandálias de couro no São Joãozinho, com direito a sanfona, zabumba e triângulo; comemoraram as boas novas com o Auto de Natal; decidiram ocupar a cidade com bikes no passeio mais bobo do mundo – o Bobociclismo; e, pasmem, se aventuraram até pelas águas do Rio Capibaribe ano passado – calma, não nadando, passeando de catamarã. Aí também era demais, né?

Bloco do Miolinho Mole 2014_Foto Rogério Alves

São Joãozinho 2013_Foto Tiago França

Bobociclismo 2014_ Foto Luciana Serra

 

Este é só o primeiro post de uma série para comemorar o melhor aniversário besteirológico de 15 anos de todos os tempos! Vocês querem saber de alguma história em especial? Conta nos comentários quais as dúvidas e curiosidade sobre Doutores da Alegria no Recife que a gente vai tentar responder!

Todo artista tem de ir aonde o povo está

A cidade de São Paulo é principal polo cultural do país, mas grande parte da sua população não se aproveita disso. A distância dos espaços de cultura é tida como argumento decisivo, assim como o valor das atrações. Outro fator é o desinteresse.

A Pesquisa de Hábitos Culturais, realizada pela consultoria JLeiva Cultura e Esporte em parceria com o Datafolha entre junho e julho deste ano, entrevistou 10.630 pessoas em 12 das capitais mais populosas do Brasil.

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Ouvir música e ver filmes

Os paulistanos têm um hábito em comum: ouvir música (98%) e ver filmes (93%). Estas atividades não exigem deslocamento, como ir ao cinema ou ao teatro, podendo ser realizadas dentro de casa. Já fora de casa, ir ao cinema é a atividade mais praticada (60%).

Teatro

Ir ao teatro é um hábito cultural praticado por apenas 30% dos paulistanos. A pesquisa revelou que 38% das pessoas não se interessam por teatro, 20% não frequentam por questões econômicas e 15% por não encontrarem salas perto de casa.

E aqui outro dado: quanto menor a escolaridade, menor o interesse e maior a influência econômica. Além disso, 4 em cada 5 pessoas tem a comédia como gênero preferido – o que explica, por exemplo, o sucesso de gêneros como o stand’up comedy.

+ veja a pesquisa completa

Todo artista tem de ir aonde o povo está

Os resultados comprovam que o consumo de cultura esbarra na exclusão sociocultural. Além da dificuldade em chegar aos espaços culturais, quase um terço da população (32%) depende de acesso gratuito para ir.

Talvez esses fatores possam explicar o desinteresse de grande parte da população pelas artes. Embora existam diversas políticas públicas que promovam o acesso à cultura, como o Vale Cultura, as meias-entradas, as contrapartidas sociais e a construção de equipamentos culturais em locais afastados dos grandes centros, ainda há muito a ser feito.

Nas periferias, líderes comunitários e projetos sociais buscam formas de promover cultura e têm tido êxito, pois apostam na identidade da comunidade. Mas também é preciso criar novos palcos. Todo artista tem de ir aonde o povo está, já dizia Milton Nascimento.

Doutores da Alegria - Itaci - Créditos para Nego Júnior © 2018 - IMG_3987

É desta maneira que Doutores da Alegria promove cultura: contratando e remunerando artistas extremamente qualificados para se apresentarem diariamente em hospitais públicos e periféricos. O hospital, a nossos olhos, é um palco; os pacientes, seus acompanhantes e profissionais de saúde são a nossa plateia. E o espetáculo se dá de leito em leito, às vezes numa enfermaria, às vezes num corredor.

Ao longo de 27 anos, colecionamos histórias de pessoas que, inspiradas pela presença dos artistas durante seu tratamento, passaram a frequentar o teatro. Outras foram estudar Artes Cênicas. Foi pensando assim que criamos, há 14 anos, um curso gratuito de profissionalização artística para jovens em situação de vulnerabilidade social. Estes jovens palhaços e palhaças democratizam a cultura ao fazer teatro em suas comunidades de origem.

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É claro que, em pleno 2018, os números da pesquisa poderiam trazer uma realidade mais alegre: uma situação econômica pujante, uma política de igualdade social, uma educação que incentivasse hábitos culturais, um amplo investimento em cultura em toda a cidade.

Enquanto isso tudo não acontece, continuamos apostando que os encontros de artistas e crianças nos hospitais possam despertar a sensibilidade, o desejo e o gosto pelas artes. E se isso já acontece em um ambiente árido e em uma situação adversa, está aí, para nós, a prova de que outros palcos são possíveis e devem ser experimentados.

Eles não esperam a vida começar

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Outro dia fui ver um espetáculo que dizia que a gente está sempre esperando que nossa vida comece.

Tenho perguntado quando irá acontecer algo extraordinário para que, de fato, nossa vida comece. Lembrei-me da dieta, que enquanto houver segunda-feira, ela será adiada. De me imaginar magra, fazendo par romântico com Cauã Reymond, protagonizando a próxima novela das 21h. Aí sim, a vida começaria e eu seria finalmente feliz.

O cenário perfeito para compor essa imaginação seria na esteira da academia, mas como só estou imaginando e “minha vida ainda não começou”, me imagino sentada no sofá, comendo uma caixa de chocolate e sendo mais ou menos feliz por isso.

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O trabalho de palhaça no hospital me tira do “horário nobre”.

Começo às 9h30 da manhã, dando bom dia ao porteiro. Sem holofotes, sem filtro. Com uma realidade escancarada. Vendo gente de perto, gente queimada na maca, idoso sem acompanhante, dor, choro, medicamento, atadura, seringa, feridas nos feridos, feridos nas feridas. Por outro lado, no mesmo espaço, também encontramos poesia. 

E enquanto eu espero que minha vida comece, uma paciente de aproximadamente 4 anos surge no corredor com uma euforia que chega antes das pernas. Tem olhos sorridentes e apertadinhos e um sorriso que, de tão largo, dá volta no rosto e abraça sem precisar de abraço. Adora quando a gente toca uma música e, de súbito, para. Ela sabe que é hora de congelar e virar estátua. Ela dança e, na hora certa, abre os braços fazendo pose.

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Outro pequeno paciente, de uns dois anos, tem olhos arregalados e curiosos. Um sorriso que ora se mostra e ora se esconde. Assim que escuta a gente, ele arregala os olhos, dá uns pulinhos, corre para o colo da mãe e espera que a gente se aproxime. Gosta de estourar bolhas e dançar. Ah, também dá canja tocando percussão na nossa banda.

Os dois têm o dom de hipnotizar qualquer besteirologista. Os dois têm o dom de iluminar os dias. Os dois têm o dom de fazer lembrar que a vida já começou desde o começo.

E que extraordinário é perceber isso. 

Juliana de Almeida e Luciana Pontual, conhecidas como Dra. Baju e Dra. Svenza, escrevem do Hospital universitário Oswaldo Cruz e Procape, no Recife.

Me ajuda a encontrar o Dr. Artur?

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Quando comecei os plantões no Instituto da Criança, não fazia ideia de quem eu iria encontrar. Ali na Pediatria. Bem do lado esquerdo da enfermaria. 6º andar.

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Foi ali, bem pertinho do leito número 6, que encontrei alguém eu mesmo, euzinho, 27 anos depois, no mesmo lugar. Explico: nasci com alguns defeitos de fabricação e, depois de muitos diagnósticos, família me levando pra lá e pra cá, foi no ICr que descobriram o que eu tinha e acabei pousando naquele andar.

Fiquei internado ali dos 4 aos 6 anos. Apertei uns parafusos, fiz troca de óleo e tudo o mais. E só depois de três cirurgias na rebimboca da parafuseta é que a manutenção foi concluída. Sobrevivi com saúde e fui aproveitar a vida! 

O meu carinho por este hospital é muito grande e é impressionante porque parece que tudo está no mesmo lugar. O meu berço ainda está lá, o porta-soro que eu olhava o soro pingar, a janela pela qual eu observava a rua e contava os carros como uma forma de brincar. As mesinhas em frente ao balcão de Enfermagem também estão lá. As crianças desenhando, sentadas como eu desenhava, brincando umas com as outras como eu brincava e, às vezes, chorando com medo de injeção como eu chorava.

Relembrei muitas coisas trabalhando e observando o que acontece no hospital, principalmente na relação dos profissionais com os pacientes.

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O Dr. Artur

Esse relato, de 27 anos atrás, se repete todos os dias em vários hospitais. Mesmo em meio a uma rotina de muito trabalho e sobrecarga, vi vários momentos de afeto. Lembrei do dia em que minha mãe não pôde me visitar. Era um tempo em que os acompanhantes não podiam ficar 24 horas no hospital e chorei muito, sentindo a falta dela no horário de visitas. Daí veio o carinho de uma enfermeira. 

Lembrei também do medo que senti quando ouvi o médico dizer para minha mãe:

- Dona Sonia, vamos ter que fazer mais uma cirurgia… 

Fiquei desesperado, afinal, já era a terceira cirurgia e o problema não se resolvia. Comecei a chorar e, ao ver minha preocupação, o médico me confortou dizendo para eu ficar calmo, pois ele faria o possível para me deixar bom e ir logo para casa brincar. Me senti aliviado.

O nome do médico é Dr. Artur. Lembro como se fosse hoje dos seus óculos pretos, suas orelhas grandes. Eu já o procurei por todo hospital: na cirurgia, no ambulatório, até debaixo do colchão, mas me contaram que ele se aposentou há muitos anos. E ninguém tem mais notícias. Alguém viu ele por aí?

Pois bem, Dr.Artur, espero que este agradecimento chegue até você onde quer que esteja. Obrigado por ter acertado na cirurgia. Por ter brincado comigo. Tudo isso ficou em mim. Hoje sou um besteirologista inspirado por estas memórias.

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Tudo o que vivi nesse tempo ficou em mim e de alguma maneira me tornou um Doutor da Alegria. Sou muito grato por poder realizar este trabalho em parceria com profissionais que dedicam suas vidas a cuidar de outras vidas. Muito obrigado Instituto da Criança, muito obrigado Dr. Artur. 

Anderson Machado, conhecido como Dr. Cavaco, escreve do Instituto da Criança, em SP.

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Dois palhaços fora de campo

“Fora de campo” é uma expressão que decidi usar para exemplificar um dos casos vividos esse mês no Hospital M"boi Mirim.

À primeira vista, é possível que a expressão “fora de campo” nos remeta ao jargão esportivo. Se pensarmos no futebol, por exemplo, podemos imaginar a bola fora de campo, um jogador fora de campo, a torcida fora de campo.

Em todos esses exemplos, aquilo que está fora de campo não está apto a participar diretamente da decisão dos acontecimentos ou, em poucas palavras, não está em jogo.

Doutores da Alegria - M_Boi Mirim - Créditos para Nego Júnior © 2018 - IMG_4239

Mas tem outro conceito de “fora de campo” que nos será mais útil para contar o que aconteceu no hospital. É a noção utilizada pelo cinema. Nos filmes, “fora de campo” é o que não é visível aos olhos do espectador, é o que não aparece em seu campo de visão. É o que não está na tela.

No cinema, ao contrário do esporte, muitas vezes aquilo que não está na tela está de fato em jogo e contribui para o avanço da trama tanto quanto o que aparece na tela.

Lembrem-se do “tam-tam, tam-tam” do filme Tubarão.

A imagem da tela poderia ser a de uma praia tranquila, mas a simples evocação das notas do contrabaixo já fazia com que sentíssemos a presença do monstruoso peixe, mesmo ele ainda não estando na imagem! 

Doutores da Alegria - M_Boi Mirim - Créditos para Nego Júnior © 2018 - IMG_4467

Lembrem também dos filmes policiais, daquelas cenas clássicas onde um detetive particular persegue um bandido que se escondeu em um galpão escuro e abandonado… De repente, passamos a acompanhar a cena apenas do ponto de vista do detetive e o bandido não está mais em nosso campo de visão. Ele está fora de campo, escondido do detetive e de nós!

E é justamente essa sua ausência que faz o suspense aumentar. Nessa situação, qualquer som é suficiente para gelar nosso coração, mesmo com o bandido fora de campo.

E aí vocês perguntam: o que isso tudo tem a ver com a Pediatria do M"boi Mirim?

Tudo, eu responderia. Ou, para ser mais modesto, eu diria que a noção do “fora de campo” foi muito bem-vinda quando tentávamos estabelecer uma relação com uma garota de 4 anos.

Deitada sob os lençóis, ela já tinha deixado claro que não queria nos ver. Bem antes de nos aproximarmos, a menina já pedira à mãe para fechar a cortina. A mãe atendeu à menina e fechou a cortina quase que por completo. Elas ficaram do lado de dentro e nós (Dra. Manela e Dr. Zequim) do lado de fora.

Doutores da Alegria - M_Boi Mirim - Créditos para Nego Júnior © 2018 - IMG_4166

O leito ficava no fundo do quarto, encostado na janela. E foi justamente através do reflexo da janela que avistamos a menina deitada em sua cama. Para a menina, o único elemento perceptível de nossas presenças era, naquele momento, o som de nossas vozes.

De resto, nós estávamos fora de seu campo de visão. Continuamos então explorando nossa fala e fragmentos de música.

Monitorávamos sua reação pelo reflexo da janela.

Ela largou a chupeta e se sentou. Algo havia lhe incitado a curiosidade. Apostamos nessa pista e ousamos deslizar uma de nossas mãos pelo curto espaço que restava entre a cortina e a janela.

A curiosidade aumentou. Colocamos outra mão. Ela hesitou. Então tiramos uma das mãos. Ela pareceu se decepcionar. Voltamos com a segunda mão. E também com a terceira.
E finalmente com quatro mãos invadindo suavemente seu espaço privado.
Uma dança entre as mãos se insinuou.

De fora, acompanhávamos pelo reflexo o que se passava dentro. A menina olhava para sua mãe como se pedisse autorização para gostar, ou como se dissesse: “mãe, você está vendo o que eu estou vendo?”.

De repente, um de nossos pés apareceu embaixo da cortina. A menina se inclinou para vê-lo. A essa altura, o “fora de campo” já era parcial, mas ainda necessário para manter a confiança e o interesse da menina. Entoamos uma música. Mais pés surgiram por baixo da cortina. Um sapateado foi tomando forma, um pouco atrapalhado e pisoteado no início, mas cadenciado no final.

Doutores da Alegria - M_Boi Mirim - Créditos para Nego Júnior © 2018 - IMG_4669

A menina bateu palmas acompanhando o ritmo dos passos.

Ao final do sapateado, nossos pés, novamente atrapalhados e pisoteados, foram se retirando. Nossas mãos fazem tchau. Deixamos o “boxe” sem sequer ter entrado nele de corpo inteiro. Foi uma intervenção realizada tão-somente com nossos pés, mãos e vozes. Mais nada.

Seria mais bonito dizer que ela nos acenou um “tchau” em resposta, mas, se não me engano, ela simplesmente colocou a chupeta na boca e voltou à posição deitada. A mãe voltou às palavras cruzadas.

Partimos.

Para elas, agora estávamos definitivamente “fora de campo”. Com um pouco de sorte, habitaremos suas memórias durante um tempo. Talvez nem isso. Mas não importa.

O que conta é o que aconteceu no aqui e agora do quarto: nossa aceitação da resistência da menina para somente em seguida elaborarmos uma resposta a essa mesma resistência.

Uma resposta enviesada, indireta, que sai de campo para que o jogo entre em campo indiretamente, com sutileza, para daí avançar e, quem sabe, emocionar. 

Nereu Afonso, conhecido como Dr. Zequim Bonito, escreve do Hospital do M"boi Mirim, em São Paulo.

Ixi, é gato no pulmão!

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Todo ano, nessa época de frio, é o mesmo problema.

As crianças ficam com o peito chiando, tossindo sem parar e manhosas que só a gota. Mas nós, grandes estudiosos da bobeira e das teorias sem pé nem cabeça, sabemos que o motivo são os gatos. Isso mesmo, os gatos!

Com o frio, os bichanos que vivem perambulando pelas ruas precisam de um lugar mais quentinho para morar. E tem lugar mais aconchegante que o peito de uma criança? Então, ao cair a noite, quando os pimpolhos estão dormindo como anjinhos, eles entram sorrateiros e se aninham bem dentro do peito dos pequenos.

Doutores da Alegria - Santa Marcelina - Créditos para Nego Júnior © 2018 - IMG_5198

E gato morando no peito dá nisso mesmo: tosse e chiado.

O chiado vem do próprio ronronar do felino e a tosse vem de suas garrinhas afiadas que arranham a gargantinha das crianças, provocando as desagradáveis crises. O jeito manhoso vem da mistura do gato com a criança mesmo.

Por isso desenvolvemos um tratamento revolucionário para tirar esses gatos da jogada: soltar os cachorros! Soltem seus cachorros, minha gente, já que é de conhecimento de todos que os cachorros são inimigos dos gatos. Só assim nossas crianças poderão passar o inverno em paz. A campanha já começou e é sucesso.

#soltemoscachorros

Layla Ruiz, conhecida como Dra. Pororoca, escreve do Hospital Santa Marcelina, em São Paulo.

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O São Joãozinho e a festa dentro do hospital

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Festejar o São João nos hospitais, junto a crianças, seus pais e profissionais de saúde, não é só uma celebração. Pra gente, também é uma forma de levar a cultura popular brasileira, que tem suas raízes nas festas de rua, para quem está hospitalizado.

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Ao passar pelos corredores das enfermarias com trajes caipiras e fazendo música ao vivo, com ajuda da sanfona e da zabumba, os palhaços convidam as pessoas para saírem dos quartos e se relacionarem.

Para cantarem, dançarem. E, principalmente, para olharem o hospital de outra forma – não como um espaço frio e sisudo, e sim como um ambiente de acolhimento e de relações.

São Joãozinho do Doutores da Alegria

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No Recife, a companhia de Dudu do Acordeon (ou “São Foneiro”!) deu o tom da festa, que culminou com a apresentação de um cordel.

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Em São Paulo, o cortejo formado por dez artistas contou com uma quermesse e um show de calouros em pleno hospital. E no Rio de Janeiro, a música foi a principal atração, com a presença do grupo Conexão do Bem e músicos da Orquestra Voadora, da Sinfônica Ambulante e do Grupo Milongas.

E depois de passar por dezoito hospitais públicos, temos uma certeza: a festa do hospital não perde em nada pra festa da rua.

É preciso inventar uma maneira de existir

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Palcos e plateias diversos têm recebido os jovens artistas formados pela nossa Escola. Na última etapa do Programa de Formação de Palhaço para Jovens, eles circulam pelo estado de São Paulo com “O que dizer de tudo isso? Ou…”.

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O exercício cênico traz um pouco da trajetória de cada um dos vinte e um jovens, que frequentaram durante dois anos e meio a nossa casa em busca de uma formação artística.

Destinado a jovens em situação de vulnerabilidade social, o Programa se propõe a formar artistas que produzam arte a partir da vivência e da reflexão do cotidiano. O resultado é um experimento poético, sensível, mas também carregado de significados, que traduzem uma juventude marcada pelas desigualdades da nossa sociedade.

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IMG_3565fotos: Danilo Lima

Em julho, a turma se despede da Escola e avança para o mercado artístico, onde exerce de forma íntegra, profissional e, claro, apaixonante o ofício do palhaço. A despedida fica por conta de Heraldo Firmino, coordenador do programa.

É preciso inventar uma maneira de existir

Um percurso e tanto trilhado pela turma 7, feita de jovens artistas oriundos das periferias de São Paulo e outras cidades. E, quando falo de periferia, quero ampliar o olhar para a sociedade em que vivemos, que estrutural e sistematicamente tenta impedir que rompam essa escrita decretada em suas vidas.

Jovens que saem de suas “quebradas” para ganhar o mundo, pessoas comuns, que na busca de algo novo para suas carreiras e seus anseios dentro da arte, trazem em suas histórias as marcas de uma vivência na exclusão social e política. Mas este lugar talvez propicie possibilidades de criar algo novo para si e para os outros. Os excluídos inventam sua maneira de existir e, nesta busca, escolhem e chancelam sua escolha profissional: palhaçx.

Esta figura que não se adequa aos mundos sociais vigentes, que critica, transforma, encanta, alegra, revela o humano de cada um. Uma nova geração de artistas, eu diria, que inventa outra maneira de existir, fura o sistema, vai quebrando paradigmas.

Parabéns, jovens! O ofício da arte deve ser exercido sempre com dignidade e, em dois anos e meio de convivência, posso afirmar que isso vocês têm de sobra!”

Quando os nossos mundos se cruzam

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Dizem que cada pessoa é um mundo povoado de sonhos e desejos. Como se coubesse dentro de nós um cadinho de tantos que somos e das coisas que temos e queremos.

Se assim acreditamos, vivemos rodeados de uma constelação planetária de mundos que se esbarram no trânsito louco dos encontros. Confesso que o mundo dos outros, às vezes, me deixa mais encantado do que o meu. E sou flagrado querendo aquele mundo pra mim.

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A cama da enfermaria parecia maior do que ela. Era como uma cama king size gigante, maior do que um carro onde se pega carona. Ela parecia gostar dali, não havia queixa, sem expressões de dor, era como um colinho bom de mãe. Sua cama estava bem perto de onde a gente lava as mãos pra começar o trabalho dentro da UTI pediátrica. E mesmo parecendo os estranhos no ninho, com tanta coisa diferente (chapéu, maquiagem, nariz vermelho, camisa florida), não obtivemos sequer um olhar dela. Contemplava o branco infinito do teto como se meditasse. 

Chegamos batendo na porta, chamando pelo seu nome, que estava escrito numa prancha acima da cama. Ela tinha cinco anos e estava imóvel, com um olhar atento, escutando o chamado. Tudo era bem delicado e pedia menos do que a gente costuma pensar que criança gosta. Às vezes, crianças não curtem ver vídeo de bonecos coloridos dançando e cantando ao mesmo tempo.

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A voz da gente era sussurrada, igual a um passarinho aprendendo a cantar. Quando o tempo daquela conversa mole nos pareceu suficiente, veio a vontade de mergulhar nas águas tranquilas e agitar um pouco, fazer uma baderna boa. 

Dr. Marmelo retira do bolso um chocalho em forma de ovo de galinha. Como era fácil brincar com ele! Como se movesse céus e terras, ela aceita tocar conosco, sem nada dizer com palavras, apenas gestos. E de posse do instrumento, ela balança sem parar, fazendo o som chamar a atenção da equipe médica e de técnicos que estudavam os casos mais graves do dia. Agora eu entendia o fascínio que os pequenos mundos nos movem.

Ela fazia uma translação de mundos, como um móbile pendurado no teto se movendo ao balanço do vento. Seu mundo girou rápido depois de tanta calmaria e, para não agitar muito e virar um redemoinho, marcamos para continuar na próxima visita. 

Assim foram mais de quatro encontros, entre sins e nãos, sempre sem falas; apenas olhares e mover de olhos e cabeça. Aquela rotação de mundo nos fascinava. Era do tamanho de uma grandeza que assusta, mas um assustado bom.

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Para surpresa nossa, a pequena já não se encontra na UTI e foi para o 4ª andar da Enfermaria, o que significa que seu quadro evoluiu, como se ela entrasse numa outra esfera dos planetas alinhados, para uma dimensão melhor. Em breve ela deve ter alta e desbravar com seu mundo os outros mundos que lhe esperam.

No último encontro, ela não quis nem brincar e nem fizemos cara feia feito meninos birrentos. Mas deixamos marcada uma próxima visita e repetimos várias vezes o combinado, para ela não esquecer. E, assim, a vida gira entre asteroides, planetas, mundos que se cruzam e que fazem o universo estrelar das coisas pequenas e grandes dentro do hospital. 

Marcelo Oliveira e Luciano Pontes, conhecidos como Dr. Marmelo e Dr. Lui escrevem do Hospital da Restauração, em Recife. 

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A gente tem saudades de vocês no hospital

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Dizem que as despedidas são momentos difíceis. E pelo menos para mim são mesmo.

Mas há vezes que não temos nem a chance de nos despedirmos e, quando chegamos no outro dia de visita, as crianças já ganharam alta e só nos resta a lembrança do que vivemos. Neste mês alguns pacientes tiveram alta e não conseguimos dar “tchau”.

E acho que foi melhor assim. Eu não saberia o que falar. É o momento em que você tem quase certeza de que não vai mais ver a pessoa e tem um misto de sentimentos egoístas de querer vê-la mais uma vez.

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Só que o hospital não é o melhor lugar para encontrar os amigos, né? Rsrs.

Uma que teve alta e nos deixou este mês foi a J., garota doce e de uma imaginação incrível. Lembro-me do dia que ela disse pra gente pegar um avião pra voar perto de Deus e poder conversar com ele. Disse também que Deus não existia até ele criar ele mesmo – meio confuso, mas faz sentido.

Dia desses eu e a Vera Abbud estávamos passando nos setores de cara limpa (quer dizer, sem estar de palhaço) e a chefe da Enfermagem perguntou se iríamos fazer a visita de palhaço naquele dia, pois J. estava perguntando sobre nós desde a hora em que acordou. Nós nos olhamos e decidimos fazer a visita, mesmo sem maquiagem. A pequena enxergava apenas vultos, e o que importava pra ela era nossa presença, e não a roupa ou a maquiagem.

Tereza Gontijo, nossa colega Dra Guadalupe, já tratou deste tema aqui. Ela lembra que no Instituto da Criança quase sempre encontramos as mesmas crianças, pois são alas de tratamento contínuo. E nas internações, costumamos acompanhar uma mesma família por longos períodos. 

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“Assim, quando começamos o dia de trabalho, já temos uma ideia das crianças que vamos encontrar pelo caminho e, de certa maneira, já esperamos por esse encontro.”, conta ela “Com cada paciente desenvolvemos uma profunda relação de intimidade e contamos encontrá-las para saber como estão naquele dia e continuar as histórias que iniciamos há dias, semanas ou meses atrás. Temos muita saudade dos nossos encontros, mas como sentir saudade de uma internação hospitalar?” 

+ leia aqui: Saudade de uma internação

Bem, quando chegamos e esses pequenos já receberam alta é um misto de alegria e saudade. Alegria porque, claro, eles não estão mais no hospital; e a saudade é das bobeiras que vivemos. É egoísta, eu sei, mas a potência do encontro entre crianças e palhaços nos levam a estes sentimentos.

Henrique Rìmoli, conhecido como Dr. Dus"Cuais, escreve do Instituto da Criança, São Paulo.

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