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Onde já se viu palhaço no hospital?

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Batemos na porta do quarto. Abrimos. O menino nos olha e diz:

- Eu não gosto de palhaço!
- Nós também não!
, respondemos. Onde já se viu palhaço no hospital? Que falta de absurdo! Ridículo! O que palhaço vai fazer no hospital?

E a conversa segue nesse ritmo. O menino não entendendo e acompanhando o raciocínio, se é que existia algum, nos olhando com cara de espanto e alegria.

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No primeiro dia fomos embora com o gosto do “não” na boca, no ar. Na outra visita já chegamos dizendo pra todo mundo que estava no quarto:

- Olha gente, ele ODEIA PALHAÇO, não gosta mesmo. 
O menino com cara de espanto. Continuamos:
- Mas o Dr De Derson e o Dr Valdisney… Ele adora!

O jogo foi entendido. De fato, o menino gosta muito de não gostar de palhaço. E, bem, a gente adora falar que ele gosta da gente. Com cara feia e carinho, cada encontro é um acontecimento.

Val Pires, conhecido como Dr. Valdisney no Hospital Santa Marcelina, em São Paulo.

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Além dos hospitais: um retrato do que bate à nossa porta

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O que entra pela porta de um hospital público é o reflexo da comunidade. Falta de saneamento básico, descuido com a alimentação, poucos espaços de lazer, violência doméstica, sexual, de identidade, intelectual: está tudo ali. 

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E o que entra pela porta da sede do Doutores da Alegria, há precisamente 14 anos, também é um retrato da cidade de São Paulo. 

Todos os dias, pouco mais de 20 jovens de diversos cantos desta metrópole se encontram aqui para ter aulas profissionalizantes de palhaço. O curso é gratuito e focado em jovens com o sonho de ganhar o mundo com seu nariz vermelho. Adolescentes, quase adultos, que não têm garantidos os direitos mais básicos nas comunidades em que vivem, mas apostam numa formação de qualidade e na arte como seu ofício. 

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E se o que entra pelo hospital se torna matéria prima para o palhaço besteirologista, o que entra pela porta da nossa sede é alimento para Doutores da Alegria enquanto instituição. Pois bem, um destes estudantes trouxe uma experiência que faz parte da rotina de jovens e pobres da periferia: uma abordagem policial. Eis o seu relato: 

“Hoje fui abordado pela polícia e tinha tudo pra ser uma enquadro “normal”
Perguntou onde eu moro, onde trabalho e o que estava fazendo ali.
Respondi tudo da melhor forma possível
O policial me revistou, revistou minha mochila deixou uma zona.
Até que ele pediu para ver meu celular e pediu para eu desbloquear para que ele visse em que nome o iMei do celular estava.
Perguntou de quem era o celular 
Eu disse que era meu 
Ele perguntou quem me deu já que eu não trabalho 
(Pobre e preto de iPhone é uma ofensa)
Eu disse que comprei
Ele perguntou como
Eu tive que explicar que trabalhei 
Perguntou em que loja eu comprei
Eu disse que comprei de um amigo
Ele insinuou que meu amigo roubou e foi para o carro 
Chegando lá ele viu que o celular não foi eu que comprei, que foi comprado por outra pessoa 
Foi em minha direção pegou meu punho de uma forma grosseira e ignorante ao ponto de fazer meu relógio sair do pulso
Ele pisou no meu relógio ao ponto de quebrar e arranhar 
Me colocou no porta mala da viatura disse que eu iria para delegacia 
Eu implorei perguntando se eu poderia ligar ou mandar msg para a pessoa que comprou. 
Ele disse para eu mandar msg na frente dele
Eu mandei meu amigo respondeu rapidamente 
O policial foi para o rádio e confirmou o cpf 
Depois de um tempo ele me liberou como se nada tivesse acontecido. 
Meu relógio quebrado não era meu maior problema. 
O problema é que amanhã vou passar nessa rua novamente e sei como vou ser lembrado por aquelas pessoas que viram.”
 

É sabido que jovens e negros são as principais vítimas de violência no país. 

O Brasil registrou*, em 2015, quase 60 mil homicídios. Foram 60 mil assassinatos em um ano. Os homens jovens (15 a 29 anos) continuam sendo as principais vítimas: mais de 92% dos homicídios representam essa parcela da população. A cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras, sendo que os negros possuem 23,5% mais chances de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças, já descontados os efeitos da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência.

[* dados do Atlas da Violência 2017, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. ]

Os números e casos como o deste estudante ilustram uma realidade que às vezes esquecemos ou tentamos fingir que não está ali, mas que bate à porta todos os dias. A violência contra a população jovem e negra cria marcas profundas que vão sendo reeditadas na sua pele todos os dias. A situação é ainda agravante para as mulheres negras, que sofrem com o racismo e com o machismo em nossa sociedade.

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A história do Brasil é carregada de violência contra a população negra, desde a violência que foi socialmente aceita, como a escravidão e as políticas de branqueamento da população (a serem tratadas no próximo capítulo), até a violência implícita que se dá através do preconceito racial. Negros ocupam os maiores bolsões de pobreza do país, são maioria nas penitenciárias e sofrem por não ter representatividade. 

A nossa sociedade precisa agir de maneira efetiva para diminuir estas pequenas e grandes tragédias. Movimentos sociais e coletivos se mobilizam para exigir políticas públicas para frear a discriminação em todas as esferas de poder, sobretudo pautadas na educação de base, trazendo luz à história africana do ponto de vista dos negros. 

A arte é outro campo que pode contribuir com este movimento, desconstruindo conceitos e questionando a visão eurocêntrica. A Escola dos Doutores da Alegria se ocupa em formar artistas engajados, com capacidade de ler a realidade em que estão inseridos e propor uma intervenção crítica. 

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E se inspirar políticas públicas é nosso dever como organização, é preciso beber da fonte de movimentos sociais e dialogar com estes jovens. O caminho para uma sociedade responsável e de relações saudáveis já bate à porta de todos nós.

O que é ser enfermeira

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Andei pensando muito sobre algumas semelhanças entre os palhaços e os profissionais de Enfermagem. 

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Enfermeiros e enfermeiras enfrentam batalhas intensas no seu dia a dia e nem sempre saem ilesos. E não digo só fisicamente, mas digo da alma e do coração.

Tem um poema muito lindo do grande mestre palhaço Picolino (Roger Avanzi) que diz o que é ser palhaço. Resolvi fazer uma homenagem aos profissionais de saúde, então mudei e adaptei algumas palavras. Depois de pronto, dei uma olhada novamente e me espantei com a semelhança dessas duas profissões tão distintas em alguns aspectos…

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Não vou dizer mais nada, esse poema vai falar por mim. Aliás, por vocês. 

Peço licença poética pois às vezes algumas palavras não rimam. Espero que gostem, pois é de coração e admiração! Ah, quero dedicá-lo à minha esposa enfermeira, Íris Lima.

 

“Eu quero explicar a vocês
O que é ser uma Enfermeira
O que é ser o que eu sou
E fazer isso o que eu faço
Ser Enfermeira é saber distribuir
Cuidados e bom humor
E com esforço auxiliar
O paciente espectador

Muita gente diz Enfermeira
Quando quer chamar alguém
E esse nome pronunciam
Com escárnio e desdém

E ao ouvir esta palavra
Outros sentem até pavor
Como se Enfermeira fosse
Criatura inferior

Mas de uma coisa fiquem certos
Para ser uma boa enfermeira
É preciso alma forte
E também nervos de aço

E além de tudo é preciso
Ter um grande coração
Para sentir isso o que eu sinto
Grande amor à profissão

   

A Enfermeira também tem
Suas noites de vigília
Pois lá na sua casa
Ela tem a sua família

Enfermeira, meus amigos,
Não é nenhum repelente
Enfermeira não é bicho
Enfermeira também é gente

Falo isso em meu nome
E em nome de outros enfermeiros e enfermeiras
Que muitas vezes trabalham
Com a alma em pedaços

Ser enfermeira
É saber disfarçar a própria dor
É saber sempre esconder
Que também é sofredor

Porque se a Enfermeira está sofrendo
Ninguém deve perceber
Pois a enfermeira nem tem
O direito de sofrer”

 

  

 

Sandro Fontes, mais conhecido como Dr. Sandoval,
escreve do Instituto da Criança, em São Paulo.

O que nos faz rir?

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“O que nos faz rir?” Foi a partir desta indagação que o dramaturgo Luis Alberto de Abreu desenvolveu uma conversa na última semana na nossa sede.

Luis Alberto de Abreu é dramaturgo e roteirista, autor de mais de sessenta peças teatrais. Desenvolve roteiros para cinema, microsséries e, mais recentemente, colaborou para a novela Velho Chico.

falamos aqui sobre o riso e sua passagem pelo tempo. Diante de uma plateia cheia, o dramaturgo trouxe a ideia de que o riso é uma atividade humana, fundamentalmente desorganizada, desestruturada.

palestra O que nos faz rir

“A postura de quem ri não tem padrão, pois o riso é caótico. É uma expressão de alegria, rimos porque estamos relaxados e estamos relaxados porque vivemos em grupo, em segurança, desde a revolução agrária.”, iniciou ele.

O riso também pode ser agressivo. Para o filósofo Mikhail Bakhtin, o riso é um instrumento de combate ao autoritarismo, à intolerância e à falsa moral da sociedade. Durante a Idade Média, rir era subversivo, era um ato de rebeldia, uma característica essencial da cultura popular – e, por isso, vulgarizado. “Mas nos períodos de colheita, que também eram períodos de festas, o sagrado se unia ao profano. A seriedade convivia com o riso.”, aponta Luis Alberto.

O dramaturgo analisou as obras do filósofo francês Henri Bergson, que propõe que o riso tenta coagir certas manifestações potencialmente nocivas à sociedade. Segundo ele, tudo o que é mecânico, rígido e repetitivo – principalmente em nosso corpo – é material para o riso. Basta lembrar-se de cenas de palhaço. Quantos deles possuem um andar que foge das nossas expectativas? Pois o riso seria justamente uma frustração da nossa expectativa.

O médico neurologista Sigmund Freud também foi alvo da conversa. “Freud acreditava que o riso é uma liberação de neuroses e só existe porque a sociedade reprime nossos instintos primários. O riso é a liberação de alguma repressão. Vamos ao teatro e vemos o que não fazemos em público, vemos a repressão ali ilustrada, e então damos risada daquela situação.”, argumenta ele.

Outras características inerentes ao ato de dar risada estariam relacionadas à parte inferior do corpo humano, a partir da barriga. Assim, também estariam ligadas à comida, às excreções, ao sexo.

O estudo do riso é amplo e a palestra trouxe uma pequena e importante dimensão dele. Há muitos materiais e livros sobre o assunto na Midiateca dos Doutores da Alegria, localizada em nossa sede, em São Paulo. É possível consultá-los agendando um horário pelo telefone (11) 3061-5523.

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Como assim, bebê?

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A rotina da Besteirologia é não ter rotina. Cada dia é cada dia.

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A gente se prepara para fazer uma porção de coisas e aí o hospital “dá uma rasteira na gente” e muda tudo que foi programado: não aparece oportunidade para cantar a música que você ensaiou todo o final de semana, mas alguém pede aquela que você cantou a última vez quando tinha dez anos de idade; a criança que você ia dar alta já não está mais na enfermaria, foi pra casa; o médico que você investe há meses na paquera muda de plantão e já não o encontra mais dia nenhum. 

É assim… Haja desapego. E que bom que é assim! Não podia ser diferente, porque a Besteirologia é igualzinha à vida. A gente:

- Pensa que está no comando, mas no fundo não comanda nada
– Não tem a menor ideia do que vai acontecer depois que põe o nariz vermelho
– É mais feliz quando abre o coração para o que nos chega de repente (ou seria de presente?)

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Essas lições aprendemos todos os dias, pelos corredores, nas enfermarias, nos ambulatórios, nas emergências, nas copas e cozinhas. Vocês querem ver como funciona? 

Outro dia, depois de muitas idas e vindas, conseguimos alistar 5 mães com 5 bebês acoplados para compor um coral de frevo. Às vezes não é fácil conseguir adesão espontânea, então comemoramos muito quando formamos todos os naipes! Tudo estava pronto para finalmente começar o ensaio do coral: cada mãe com seu bebê, todas alinhadas, afinadas, preparadas. Só faltava ensinar a música.

Bem nessa hora um dos bebês tomou o leme de nossa mão e, como um pirata, tomou de assalto o controle do navio. Ele desatou o mais retumbante “UÑÑÑEÉÉÉÉ” já ouvido no universo, assim, do nada. Em um segundo ele estava ótimo, quietinho, quentinho, embaladinho no colinho e no outro estava igual o Capitão Gancho levando nosso coral com leme, vela e tudo para o fundo do oceano.

Como assiimm, bebê? Não dá pra ensaiar com essa sirene ligada.

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Bom, tudo perdido, toda a mobilização, todo o convencimento das mães, tudo indo choro abaixo… Não, claro que não! Fizemos uma “pequena adaptação” no frevo e a partitura das mães e dos bebês passou a ser exatamente essa. Elas faziam  e nós fazíamos GUGU-DADA! Formou-se aí o primeiro frevo em língua de bebê.

- UÑÑÑÉÉÉÉÉ, faziam as mamães.
- GUGU DADÁ, fazíamos nós.

Eita, vida velha sem controle e cheia de imprevistos. É assim nas pequenas coisas e nas grandes também. Dá medo perceber que o leme desse navio nunca está realmente em nossas mãos.

“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria, 
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”
(Guimarães Rosa)
 

Eduardo Filho, conhecido como Dr. Dud Grud, e Greyce Braga, a Dra. Monalisa,
escrevem do Hospital Barão de Lucena, em Recife

Previsão do tempo

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Nunca dei muito ouvido à moça do tempo. Se ela diz que a previsão é de chuva, eu levo um casaco e deixo o guarda-chuva.

A moça não falou na TV, mas eu sei que estamos passando por uma alta pressão atmosférica. E do jeito que a coisa anda nebulosa, a previsão é de nuvens carregadas com fortes pancadas. Pessoas frias em pleno aquecimento global. Chuva molhando gente completamente seca. Lares que desabam. Cadê minha casa? Não tirem minha vida! 

Olho para o lado e uma coreografia de “mãos para o alto, é um assalto!”. Parem essa música! Crianças fazendo coisas de gente grande. Pais sentados na calçada enquanto seus filhos arrumam o dinheiro da feira. Água no vidro do carro. Falei que não quero! Mas as coisas não vão mesmo do jeito que a gente quer. Nó na garganta, rouca. Sem voz ativa. Sem indiretas. Falo de coração. Saudade do tempo em que brincadeira de criança era na rua e não nas ruas.

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Moça do tempo, que clima é esse? Amanhã quero acordar com o sol brilhando na janela. Tirar o mofo. Regar as plantas e aquecer a alma. 

Os encontros com F. têm sido gotículas de esperança. Sol quando aparece no inverno que a gente quer aproveitar ao máximo. Menina, de 8 anos aproximadamente. Sempre acompanhada de sua mãe, que dessa vez nos chamou: 

- Venham falar com F. Ela vai hoje para sua terceira cirurgia e quer levar um pouco da alegria de vocês. 

Fomos. E nosso papo é totalmente musical. Desde o primeiro dia de encontro ela já foi cantando “Alecrim dourado”. E nesse dia não foi diferente. Ela cantando com um microfone improvisado de seringa, Dr. Lui e eu fazendo o acompanhamento com nossos instrumentos e sua mãe sentada vendo aquela cena que antecedia o momento da cirurgia.

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F. estava inteira, sem nem se preocupar em acertar o tom, a letra, essas coisas de adulto. Sua mãe estava aos pedaços, mesmo fingindo que não, essas coisas de mãe. Vi passar um filme nos seus olhos. Um filme do maior amor do mundo. Daquele que de tão grande aperta e dói. 

A moça do tempo não me falou, mas sei que a qualquer momento ia chover naquele olhar.

Luciano Pontes, mais conhecido como Dr. Lui, e Luciana Pontual, a Dra. Svenza,
escrevem do Hospital da Restauração, em Recife.

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Eu tinha esquecido dessa tal humanidade. O hospital me fez lembrar.

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É muito genuíno o sentimento de humanidade que a situação de internação num hospital traz.

Talvez seja o momento da vida em isso mais aflora. Ou quem sabe seja o fato de termos que parar de nos preocupar com coisas da vida mundana para realmente sentir e viver o presente. Porque não importa mais se o trânsito está pesado ou se acabou o arroz em casa, importa agora se vou aguentar o tranco.

E, para isso, é preciso contar com pessoas. Estrutura também, remédios, um pouco de sorte, mas principalmente pessoas.

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Recentemente passei uma semana entre o quarto e a UTI. Duas ambulâncias, dois hospitais, muitos exames, picadas, diagnósticos, corredores. O termo “paciente” é mesmo pra justificar o tempo que se espera e a condição de entrega, sem muita reação, ao tratamento. Etimologicamente, “paciente” deriva do latim pati e do grego pathe, que significam “sofrer” ou “aguentar”. 

Mas eu volto à humanidade.

Assim que sofri o acidente, abri meus olhos e vi à volta dezenas de pessoas em plena rodovia. Você está bem, Gabi? Não se mexa. Calma que a ambulância já vai chegar. Quer que avise algum parente? Reclamavam de quem passava de carro devagarzinho só pra olhar. Faziam sombra para que o sol não atingisse os machucados já doloridos. Uma pena que, deitada, não pude enxergar o rosto de nenhum deles.

Durante esta semana recebi, talvez como em nenhum aniversário, o carinho de muitas pessoas. Em forma de palavras, de visitas, de lembranças e até de posts no Facebook, e foi incrível como isso ajudou no meu fortalecimento. Eu realmente senti a energia que esses amigos passavam.

Mas o que mais me tocou – e ainda toca – foi o que recebi dos profissionais de saúde. A humanidade de cada um em gestos simples como trocar a fralda, dar um banho numa cadeira de rodas depois de dias no leito ou trocar o acesso às veias de forma gentil. Lembro-me da fisioterapeuta que me guiava delicadamente pelos corredores, do rapaz que me ofereceu um cobertor na sala da tomografia, do motorista da ambulância que pedia desculpas após passar na lombada, do médico que me deu alta com um sorriso no rosto.

Na clausura da UTI, só me restava me apegar a estas pessoas. Desejar que estivessem felizes por deixar a família e trabalharem durante a madrugada fria naquele lugar, me fazendo companhia. Cuidando. Nunca fui de me apegar à metafísica, prefiro me apoiar no que posso ver e tocar.

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Ali também entendi, de forma verdadeira e forte, o significado do trabalho dos Doutores da Alegria. A falta que a imaginação despreocupada, a brincadeira e o riso fazem durante a internação – e a importância de manter uma atitude positiva. Pensei na poesia que é preciso ter para quebrar algumas barreiras e tentei supor como seria passar por isso enquanto criança ou idoso e, claro, lembrei do caso do Mateus e da Gabi, moradores de uma UTI, cujo sonho era ver a lua.

Nas duas semanas seguintes, já fora do hospital, valorizei cada pequena vitória e também o privilégio de ter uma família para me amparar naquele momento frágil. Agradeci por poder tomar um solzinho, olhei como pela primeira vez a grama verdinha que nascia na terra, me encantei com a sabedoria do corpo humano.

O tempo passou rápido.

Aos poucos, a vida vai puxando para o centro da roda de novo e o futuro começa a fazer mais parte dos pensamentos que o presente. Mas em tempos tão esquisitos, com hospitais sucateados e a saúde do país agonizando, essa brutal experiência me levou a acreditar neste fio invisível que nos liga: a humanidade. Obrigada a todos.

Gabi, da equipe de Comunicação do Doutores da Alegria.

Também tem muita coisa boa acontecendo

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Sempre saímos muito pensativos depois de um dia de trabalho no hospital. São várias as reflexões. A última foi sobre ser feliz.

Ser feliz não é questão de não ter problema ou de ter uma vida perfeita. Ou de ter uma vida onde tudo parece ser favorável. Hoje percebo que ser feliz é saber lidar com o que a vida nos oferece, mesmo sendo algo não muito agradável. Até porque, tenho quase certeza, não existe só coisa ruim acontecendo.

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Nossa função enquanto besteirologistas é entrar em contato com esse lado saudável da vida. E como é que eu consigo me conectar com o positivo da existência? Poderíamos fazer um pequeno exercício de olhar pra tudo de bom que está acontecendo. O que está surgindo de bom agora na sua vida?

No hospital, por exemplo, tem muita coisa boa acontecendo! Existe uma pessoa que acorda todos os dias pra olhar pra nossa saúde, pessoa que faz nosso almoço, pessoa que pensa nossa dieta, que limpa nosso quarto, que nos dá carinho, que ora pela gente. Pessoa que lava nossa roupa, pessoa que conserta o ar condicionado, pessoa que nos faz rir, profissionais que desenham e pintam com a gente, pessoa que estuda pra nossa cura e mais, mais, mais pessoa pra tudo!

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É muita coisa, né? E muita coisa boa! Então, por que não agradecer mais e pedir menos?

É um grande passo pra uma conexão com um turbilhão de coisas legais e que estão presentes em nossas vidas. A gente sabe que o mar não tá pra peixe. Ôps! A gente sabe ou nos disseram isso? A gente foi lá olhar, tirar nossas próprias conclusões? Hum… Tenho certeza de que muitos de nós nem sequer se deram ao trabalho.

Se alegrar com o simples…

Mas o que fazer com esse lado negativo que muitas vezes nos afoga e nos deixa tristes?

Certa vez, estávamos em um atendimento com uma criança que não andava e que se encontrava há 5 anos morando na UTI. Parece pesado, né? Mas pra esta criança, não era! Ela se alegrava porque a sua cama ia mudar de lugar, ia pra mais perto da janela e, assim, iria conseguir ver o nascer do sol. Ela se alegrava com a chegada dos palhaços, com o carinho dado pela sua mãe, com a nova cor estranha do cabelo da médica, e por aí vai. 

Nesse dia, em uma cadeira de rodas, ela segurava um copo de iogurte. No meio da conversa, ela deixou cair o copo no chão. Fiquei um pouco assustada, tentei segurar o copo e não consegui. Ela olhou pra mim, com o olhar leve e tranquilo, e disse:

- Tem nada não, é que eu sou assim mesmo!

Essa frase ecoou na cabeça. “É que eu sou assim mesmo”. Acho que um bom começo para saber lidar com o que consideramos negativo em nossa vida e aceitar a condição atual.

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Se no momento eu estou doente, eu aceito a doença, trago ela pra perto de mim, olho com amor pra ela, sem aversão e entendo que eu não SOU uma doença, mas que ESTOU doente. Começo a entender que além da doença, para qual estou olhando com muito afeto, existe uma possibilidade de coisas acontecendo de positivo bem pertinho. Por exemplo: o sol nasce todos os dias, depois vem a lua, já ouvi várias vezes som de pássaros de dentro do hospital, já vi, de dentro da enfermaria, o vento bater em árvores… 

É uma questão de escolha. Não está nada fora do lugar porque é assim que tinha de ser. No frigir dos ovos, está tudo bem pra menina, está tudo bem pra nós e está tudo bem pra você. Tá tudo certo!

Juliana de Almeida, mais conhecida como Dra. Baju,
e Marcelo Oliveira, o Dr. Marmelo, 
escrevem do Hospital Oswaldo Cruz, em Recife.

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Evento discute a presença negra no teatro e conta com Heraldo Firmino

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Nas próximas duas semanas, o Espaço Clariô realiza uma mostra gratuita com apresentações, rodas de conversa, shows e oficinas dedicados ao debate sobre a força política exercida por grupos e coletivos fora do eixo cultural.

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A 7° Mostra Mario Pazini de Teatro do Gueto acontece em Taboão da Serra, em São Paulo, e reflete sobre a produção do gueto, estéticas e discursos, além de compartilhar as experiências de coletivos artísticos que desenvolvem seus trabalhos exclusivamente nas periferias ou trazem em sua linguagem e discurso afinidades com o tema.

Para abrir a Mostra, Heraldo Firmino (palhaço formador do Doutores da Alegria) participa da mesa “A pele negra no teatro paulistano” junto ao jornalista e ator Oswaldo Faustino e a atriz Cleyde Queiroz. O encontro acontece nesta quinta, 31 de agosto, às 20h30 na Rua Santa Luzia, 96, em Taboão da Serra.

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A Trupe Dunavô, já citada neste Blog, também se apresenta no local dia 7 de setembro às 16h com o espetáculo “Beto Carreto”  e às 20h30 com “Refugo Urbano”. Veja aqui toda a programação da mostra, que acontece de 31 de agosto a 11 de setembro. Doutores recomenda!

O Espaço Clariô é mantido pelo Grupo Clariô de Teatro desde 2005. Hoje é um pólo de referência na região, carente de equipamentos culturais. No espaço há atividades de formação, produção e elaboração de pensamento junto à comunidade.

Doutores recomenda: A Deus Dará, espetáculo de ex-alunos da Escola

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Tão especial quanto indicar espetáculos de artistas do elenco do Doutores da Alegria é recomendar espetáculos com alunos formados pela nossa Escola. 

Jovens artistas que enveredaram pelo caminho da arte do palhaço e levam suas criações a espaços pela cidade. Quatro deles, formados pelo Programa de Formação de Palhaço para Jovens, integram o Grupo Manada e apresentam neste mês a peça A Deus Dará.

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O mote é um mundo devastado pela guerra, onde três palhaços sobreviventes celebram o ano novo dentro de um bunker, no subsolo de um deserto. Entre as tentativas frustradas de realizar uma festa no limite da precariedade, variando do cômico ao trágico, surgem reflexões sobre a desesperança, a ingenuidade, a sobrevivência e a pequenez humana.

A Deus Dará é apresentado de 5 a 13 de agosto, sábado às 21h e domingo às 19h, na Cia do Pássaro – Voo e Teatro (Rua Álvaro de Carvalho, 177 – Centro, São Paulo). O ingresso custa R$ 20 e a classificação é 14 anos.

Mais informações em 
https://www.facebook.com/events/141772079741075
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