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Eu sei muito bem com quem você está agora, viu?

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Pense numa criança com a resposta na ponta da língua. Pensou? Agora multiplique por oitenta e sete.

A danada nunca deixava passar uma e toda a sua implicância se voltava para o Dr. Marmelo. A menina se dizia minha amiga e sempre queria me ver derrotando Marmelo. Acontece que, um dia desses, ela achou de cismar comigo e de ficar do lado dele – não entendi nada!

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Cumprimentamos a menina assim que entramos em sua enfermaria. Eu fui perguntar  alguma coisa a ela, que me respondeu sonoramente:

- Vai ajeitar esse cabelo de vassoura!

Eu não pude acreditar. Marmelo caiu na risada junto com toda a enfermaria. E eu fiquei pas-sa-da! Ela silenciou, mas ficou segurando o riso com a mão na boca. Fui tirar satisfações com a mãe dela, e daí ela não se segurou:

- Não fale assim com a minha mãe que ela tá grávida! Minha irmãzinha tá dentro da barriga dela…

Mais uma vez, eu fiquei passada e fui pra mãe dela:

- Tem uma criança aí dentro? E o que ela fez com a senhora pra senhora engolir a pobrezinha? – e olhei pra menina – Isso é coisa que se faça?
- Foi Deus que colocou ela aí dentro!
– ela respondeu, toda segura. 

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O quarto todo se enterneceu: sua mãe, as outras mães, Marmelo… Mas eu fiquei com aquilo na cabeça:

- Pois cadê Deus? Quero falar com ele! Onde ele tá? – procurei pelo quarto.
- Ele tá no céu, né?

Fui até a janela, olhei para o céu e:
- Não tô vendo!
- Ele tá na nuvem.
- Mas a nuvem é fofa, não aguentaria ele…
 

A discussão foi longa. A menina parou, ficou observando, balançou a cabeça. Em sua testa dava pra ler: “Mas é mesmo uma besta!”. Marmelo ficou o tempo todo do lado da menina, ajudando em algumas respostas e comemorando a cada uma que ela me dava.

Semana passada, soubemos de sua partida. Assim… Rápida… E eu queria que ela soubesse que, na realidade, eu acreditava nela, que eu não duvidava das informações dela e que eu só fiquei de implicância porque ela arrumou briga comigo. Foi de criança pra criança.

- Viu, menina?! A gente tava tudo brincando, né? Até porque eu sei bem onde você tá agora e com quem!

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Tô mandando meu beijo de jatinho pra que ele chegue bem rápido aí no céu. Ah! Dá esse beijo no nosso amigo aí de cima, tá bom?

Juliana de Almeida, conhecida como Dra. Baju,
escreve do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, em Recife.

O médico mudou. E, bem, o palhaço também.

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Lá pelos anos 90, quem tinha maior autoridade e prestígio dentro de um hospital era o médico. O profissional era o detentor do conhecimento, em seu julgamento e em suas mãos repousavam o destino de muitos. A seriedade era quase que lhe imposta, uma vez que qualquer erro podia lhe custar uma vida.

Foi neste cenário que surgiu o Doutor da Alegria, sujeito com um jaleco cheio de cacarecos, uma aparência questionável, entendido de Besteirologia, sem autoridade nenhuma e fadado ao erro. A ideia era justamente contrapor a autoridade médica, trazendo um novo olhar para as relações e a hierarquia dentro de um ambiente em que a saúde e a doença caminham juntas.

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Pois bem. Quem acompanha a rotina de um hospital hoje, quase 30 anos depois, sabe que o poder da figura médica perdeu fôlego, apesar de histórias recentes como esta.

O oncologista Drauzio Varella ajuda a entender pra quem está do lado de fora: “A lógica de mercado invadiu o sistema de saúde. Administradores alheios à profissão trouxeram palavras de ordem às quais [nós, médicos] não estávamos habituados: produtividade, racionalização da mão de obra, economia de escala, lucratividade, fusões, corporações, capital de risco.”

Em um artigo para a Folha de S.Paulo sobre os últimos 50 anos da Medicina no país, Drauzio conta como a figura médica foi absorvida pela indústria e pelo avanço da ciência. Se, por um lado, o profissional testemunhou um salto de qualidade técnica da medicina, por outro “o desinteresse dos colegas frustrados com os salários e as condições de trabalho fizeram perder parte do prestígio que tínhamos na sociedade”, escreve ele. O artigo inteiro pode ser lido aqui.

Os meios de comunicação modernos, que trazem conteúdo à ponta do dedo, abriram as portas do conhecimento para o paciente de hoje, que é muito mais informado que há 50 anos. “Os médicos que nos precederam transmitiam mensagens de saúde ao encontrar as pessoas nas ruas, nas praças, nas festas da comunidade. As praças de hoje são as estações de rádio, os canais de televisão, o Facebook, o Google, o YouTube e os sites da internet. Muitos dos que nos introduziram na profissão eram médicos autoritários, que impunham suas condutas sem levar em conta as idiossincrasias individuais.”, conta Drauzio Varella.

E se a função do médico moderno é a de trazer alternativas para que o paciente possa decidir – sim, ele mesmo! – sobre qual delas se adapta melhor às suas necessidades e desejos particulares, qual seria a função do palhaço que atua no hospital?

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Contrapor a figura de um médico empoderado parece não fazer mais sentido. Em muitos relatos neste Blog fica clara a parceria que o palhaço estabelece com o médico, como nesta história em que a equipe de saúde pediu aos palhaços que dessem a tão almejada alta hospitalar a uma criança. Ou nesta organização, em que palhaços são autorizados a acompanhar procedimentos cirúrgicos, reduzindo o estresse e facilitando o diagnóstico pela equipe médica.

A aliança entre médicos e palhaços que atuam de maneira profissional foi conquistada aos poucos, com profundo respeito aos saberes de cada um.

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E se na nova ordem o paciente deixou de ser o centro das atenções no sistema de saúde, como bem lembra Drauzio, para médicos e palhaços ele continua sendo a razão pela qual decidimos entrar pelas portas de hospitais todos os dias. Com jalecos ou cacarecos, com diagnósticos difíceis ou sorrisos inesperados.

Quem manda aqui…

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A vida toda a gente segue aprendendo, como na canção do eterno Gonzaguinha. Mas nem todo mundo se coloca nesse lugar, mesmo quem esteja ainda na escola, cursinho ou faculdade. Quem ensina e quem aprende?

A vida é um jogo eterno das aprendizagens, os papéis se misturam e se invertem o tempo inteiro. Aprendemos muito com as crianças. E essa abertura é um caminho sem volta, onde não há imposições, e sim a percepção para caminhar junto numa experiência única e efêmera, onde os papéis serão definidos na hora da brincadeira.

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É muito raro ouvirmos hoje em dia: “quem manda aqui…”, mas não é invenção, nem ficção. Ainda há médicos que acreditam nesse subterfúgio do conhecimento e se colocam no patamar da inexistência. Eles parecem viver em outro mundo, mas nós não. Muitos pensam que não vemos e não ouvimos por estarmos de palhaço, mas a realidade é que vemos e sentimos mais, como uma lente de aumento, como um ouvido supersônico, como se o mar enchesse e secasse constantemente. 

Era dia e a enfermaria estava cheia esperando a hora da visita do médico. E na cama ao lado, compartilhando uma presença inexistente, pudemos ouvir:

- Por que não está tomando o remédio?
- A enfermeira que tirou!, respondeu a mãe.
- Quem manda aqui sou eu! 

Foi difícil ver e ouvir, difícil esquecer e ter que continuar. A sua afirmação fazia sentido para ele. Respirei e tentei seguir, sabendo que os ponteiros do tempo caminham diferente para cada um. Mas era inacreditável ter presenciado aquela cena e contando parece até coisa inventada, mas não foi: era real como respirar. E se mentisse ao ponto da invenção, era porque mesmo que surreal pareça, isso ainda é uma prática comum de uns tantos poucos médicos. 

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A mãe ouviu o que ele disse e comentou em um olhar cúmplice conosco, como se estivéssemos no mesmo barco da indiferença sem poder gritar. Passada a situação e tentando dar conta do acontecido, saímos seguindo com o poder que nos cabe, aprendendo que ser ainda é um caminho longo a ser percorrido, sem recair na armadilha da imposição.

Mas há quem use dos seus artifícios para ser ouvido e respeitado, como a dose certa de achar que é o correto. 

Luciano Pontes, conhecido como Dr. Lui,
escreve do Hospital da Restauração, em Recife.

Além dos hospitais: uma nova visão sobre o preconceito racial

Nos primeiros capítulos da série sobre o preconceito racial, demos um panorama da sociedade brasileira e trouxemos histórias de pessoas da esfera da organização Doutores da Alegria. 

Hoje, Dia da Consciência Negra, seguimos com uma reflexão histórica e teorias bastante novas que vêm surgindo no meio acadêmico. Que este 20 de novembro seja um dia essencial para que mais pessoas tomem conhecimento de que o preconceito racial não é natural, e sim político, imposto como forma de dominação. E que possamos exigir políticas públicas que o enfrentem. 

eduardo-kobra-mural-grafite-com-limao-06-620x350Parte de mural grafitado por Eduardo Kobra

“Há negros de todas as cores. Existem, porém, muitos negros que não sabem que são negros. Mais do que necessária, a consciência negra é uma condição para impedir que nossa sociedade racista aponte do pior jeito a cor da nossa pele, nossos traços ou nossa origem. Neste país, todo negro é um sobrevivente. Sobrevivemos a toda sorte de adversidade, ao descaso, à violência, à miséria, às doenças, às piores condições de trabalho, aos piores salários, à falta de assistência, à discriminação. Sobrevivemos à escravidão, ao massacre da nossa cultura, à perseguição da nossa religião, a humilhações históricas e cotidianas. Precisamos do Dia da Consciência Negra para que todos os brasileiros possam pensar no país que querem construir. Precisamos deste dia para simplesmente celebrar o orgulho do povo negro: o orgulho de ter sobrevivido!”
Rodney de Oxóssi, antropólogo, escritor e babalorixá que há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e religiões de matriz africana 

Trazendo luz à história africana do ponto de vista dos negros, diversos movimentos e coletivos sociais vêm se mobilizando para exigir políticas públicas que possam frear a discriminação em todas as esferas de poder, sobretudo pautadas na educação de base.

+ leia o capítulo 1 da série: Um retrato do que bate à nossa porta
+ leia o capítulo 2 da série: Um relato sobre uma vida de luta na pele negra

Neste sentido, convidamos o filósofo Ricardo Benedicto, mestre em Filosofia pela PUC-SP e doutor em Educação pela USP, que já esteve em nossa sede em março com a palestra “Reflexões Contemporâneas sobre o Racismo”, para contribuir com a superação de ideias equivocadas sobre o racismo. O objetivo é que este seja corretamente compreendido e enfrentado. 

O racismo como um sistema social,
por Ricardo Matheus Benedicto

“Não é, pois, na sequência de uma evolução dos espíritos que o racismo perde a sua virulência.” Frantz Fanon

A despeito dos excelentes estudos sobre o racismo realizados por Carlos Moore (2007), Racismo e Sociedade, e por Vulindlela Wobogo (2011), Cold Wind For the North, ainda persistem no imaginário dos afro-brasileiros entendimentos equivocados sobre este complexo fenômeno. Este breve texto pretende contribuir para a superação destas concepções com o intuito de que o racismo seja corretamente compreendido e enfrentado.

Antes de tratarmos destas visões errôneas, é preciso definir nosso objeto de análise. De acordo com Moore, o “racismo é um fenômeno eminentemente histórico ligado a conflitos reais ocorridos na história dos povos” (MOORE, 2007, p. 38). Para o etnólogo “desde seu início, na antiguidade, o racismo sempre foi uma realidade social e cultural pautada única e exclusivamente no fenótipo, antes de ser um fenômeno político e econômico pautado na biologia” (MOORE, 2007, p. 22). Já para Wobogo “o racismo branco é o abuso racialmente motivado baseado no reconhecimento do fenótipo ou ancestralidade praticado por brancos/europeus, suas instituições e seus aliados.” (WOBOGO, 2011, p. 23).

Os autores concordam, a despeito das diferenças existentes em suas definições, que o racismo pode ser compreendido como um sistema social estruturado para distribuir privilégios políticos, econômicos, culturais ao grupo racialmente hegemônico. Concordam também que este sistema produz ideologias que, para justificar esta modalidade de dominação, desumanizam o grupo considerado racialmente inferior.

Agora que definimos nosso objeto, podemos tratar dos equívocos mais comuns que ocorrem na análise e compreensão desta chaga que assola a humanidade. O primeiro deles consiste na explicação tradicionalmente aceita sobre origem do racismo. Esta explicação sustenta que o racismo é uma ideologia que nasceu na modernidade com o objetivo de justificar a escravização dos africanos e o imperialismo europeu. Para os defensores desta tese, o racismo teria vindo a luz por causa de razões meramente econômicas ditadas pelo desenvolvimento do capitalismo.

Esta tese, no entanto, não se sustenta, visto que não consegue explicar, por exemplo, algumas sentenças do Rig-Veda – escritas há pelo menos um milênio antes de Cristo –  como as que seguem: “o Indra protegeu seus súditos arianos durante as batalhas, subjugou a gente sem leis para o bem de Manu e conquistou a pele negra”; “você Indra, matador de Vrittra, destruidor das cidades, tem dispersado os dasyu gestados por um ventre negro”; “a cor negra é ímpia” (MOORE, 2007, p. 52). Também não pode explicar a referência abaixo retirada dos escritos dos sábios do Talmude escrita no século VI depois de Cristo: 

E já que você me desrespeitou […] fazendo coisas feias na negrura a noite, os filhos de Canaã nascerão feios e negros! Ademais, porque você torceu a cabeça para ver minha nudez, o cabelo de seus netos será enrolado em carapinhas, e seus olhos vermelhos; outra vez, porque seus lábios ridicularizam a minha má fortuna, os deles incharão; e porque você descuidou da minha nudez, eles andaram nus e seus membros masculinos serão vergonhosamente alongados! Os homens dessa raça serão chamados de negros, seu ancestral Canaã os mandou amar o roubo e a fornicação, se juntar em bandos para odiar os seus senhores e nunca dizer a verdade.* 

* Citação extraída da obra de Elisa Nascimento Pan-Africanismo na América do Sul, São Paulo: Vozes, 1981, p. 26. 

Além do mais, Moore demonstra que a origem do racismo é histórica e não ideológica, ou seja, seu surgimento não está relacionado com o pensamento de um – ou mais –  determinado autor, mas sim com conflitos reais pela posse de recursos ocorridos na história dos povos.

2parte da obra Mulheres Facetadas, de Di Cavalcanti

O segundo equívoco consiste em reduzir o racismo às manifestações discriminatórias que ocorrem no âmbito das relações interpessoais. Esta posição é incorreta, pois, além de confundir os conceitos de racismo e discriminação, ignora ou nega toda estrutura de poder historicamente existente nestes sistemas organizados para distribuir privilégios com base no fenótipo. Além do mais, este entendimento estimula a crença ingênua – ou nem tanto – de que o racismo, entendido não como um sistema social, mas como ato discriminatório praticado apenas por indivíduos, ainda existe por causa de pessoas ignorantes, sem instrução e que, desse modo, tende a desaparecer com o avanço educacional e científico no país.

Para mostrar que esta crença não tem fundamento, basta lembrar que Rui Barbosa e José Veríssimo defenderam a política nacional de branqueamento, que Fernando de Azevedo defendeu e implementou no país um sistema educacional fundamentado na eugenia, que Anísio Teixeira considerava as culturas africanas primitivas e que Darcy Ribeiro considerava que no Brasil nunca houve barreiras de ordem cultural e linguística reforçando, assim, o mito da democracia racial. Estes pensadores, que ao longo da história do país deram sustentação ao sistema de dominação racial – ainda hoje vigente no país – estão longe de serem pessoas ignorantes e sem instrução. Por fim, parece muita ingenuidade acreditar que um fenômeno que surgiu há mais de três milênios tendo, portanto, que se ajustar a diversas mudanças sociais, políticas e econômicas ao longo da história vá simplesmente desaparecer devido ao avanço da educação como se os sistemas educacionais oriundos de sociedades racistas, aqui vale recordar a definição de Wobogo, não estivessem comprometidos com este sistema social. 

Diante destas considerações, é urgente abandonar estas concepções simplistas sobre o racismo afim de que, inspirados nas tradições africanas e afro-brasileiras, possamos organizar instituições econômicas, sociais, culturais e políticas, pois somente desta forma poderemos enfrentar adequadamente o sistema racista vigente.”

O vídeo completo da palestra, que traz argumentos sobre a tese:

Notas de rodapé:
- artigo A Convenção Fatal: Dois Pontos de Vista. In: A Imprensa. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, Vol. XXVI Tomo VII, 1899, p. 94. E seu Discurso pronunciado na sessão cívica de 28 de maio de 1917, no Teatro Municipal. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1999, p. 35-36.

- obra a Educação Nacional Rio de Janeiro: Topbooks; Belo Horizonte: PUC Minas, 2013 e o artigo O País Extraordinário In: Jornal do Comércio, 04 de dezembro de 1899.

- obra Da educação física: o que ela é, o que tem sido e o que deveria ser. São Paulo: Melhoramentos, 1960.e a obra de Jerry Dávila Diploma de Brancura Política Social e Racial no Brasil 1917-1945. São Paulo: UNESP, 2006.

- Tiago Ferreira, O que o foi o movimento da eugenia no Brasil: tão absurdo que é difícil de acreditar. Disponível em: https://www.geledes.org.br/o-que-foi-o-movimento-de-eugenia-no-brasil-tao-absurdo-que-e-dificil-acreditar e o livro de Pietra Diwan: Raça Pura. Uma história da eugenia no Brasil e no mundo. São Paulo: Contexto, 2007. 

- artigo Educação e unidade nacional. In: Educação no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976, p. 326.

- obra Nossa Escola é uma Calamidade, Rio de Janeiro: Salamandra, 1984, p. 22 e seu artigo A América Latina existe? In: Ensaios Insólitos. Rio de Janeiro: Ludens, 2011.

- Charles Mills em sua obra The Racial Contract escreve: “A supremacia branca é o sistema político não nomeado que fez do mundo moderno o que ele é hoje. Você não encontrará este termo em textos introdutórios ou avançados de teoria política. Um curso padrão de graduação em filosofia começará com Platão e Aristóteles, talvez diga algo sobre Agostinho, Tomás de Aquino e Maquiavel, seguirá em direção a Hobbes, Locke, Mill e Marx, e então termina com Rawls e Nozick. O curso apresentará noções de aristocracia, democracia, absolutismo, liberalismo, governo representativo, socialismo, capitalismo de bem-estar, e libertarianismo. Mas, embora ele cubra mais de dois mil anos do pensamento político ocidental e trate ostensivamente de uma variedade de sistemas políticos, não há menção ao sistema político básico que moldou o mundo nos últimos séculos. E esta omissão não é acidental. Ao contrário, ela reflete o fato de que os livros de referência e os cursos foram escritos e planejados por brancos que tomam seu privilégio racial como natural e não o veem como político, como uma forma de dominação. Ironicamente, o mais importante sistema político da história global recente – o sistema de dominação pelo qual os povos brancos têm historicamente governado e, de certo modo continuam a governar os povos não brancos – não é visto como sistema político (MILLS, 1997, p.1-2).

Referências:

FANON, Frantz. Racismo e Cultura. In: Em Defesa da Revolução Africana. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1980, p. 32-48.

MILLS, Charles W. The Racial Contract. Ithaca: Cornell University Press, 1997.

MOORE, Carlos. Racismo & sociedade: novas bases epistemológicas para entender o racismo. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.

NASCIMENTO, Elisa L. Pan-africanismo na América do Sul: emergência de uma rebelião negra, São Paulo: Selo Negro, 1981.

WOBOGO, Vulindlela. Cold Wind From the North: The Prehistoric European Origin of Racism Explained by Diop’s Two Cradle’s Theory. Charleston: Books on Demand, 2011.

8 coisas que deveriam nos parar durante o dia

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Quero pedir desculpa, mas tenho que ser rápida. Parei agora pra escrever. Na verdade, parei agora para pensar o que vou escrever. Só que também não tenho muito tempo pra pensar e começo a escrever antes do pensamento.

Tenho notado uma aceleração interna. Em mim e no outro. Mas vou me ater a falar de mim, já que o outro não está aqui para se defender e dizer se concorda ou não com o que estou dizendo. Quero falar muitas coisas, mas já são 18h17 e, às 20h, tenho ensaio. 

Sabemos que tudo tem sua hora, mas nunca tinha passado pela minha cabeça que a CULPA tinha hora marcada. E ela escolheu o travesseiro para nos tirar da vertical, dos pés no chão. Durante o dia corremos freneticamente para resolver nossas muitas coisas, mas é à noite que, deitados, damos descanso ao corpo e voz aos pensamentos. 

Primeiro, lembro de respirar. Agradeço! E me arrependo por não ter parado durante o dia para fazer isso. Penso que na hora que fui ao banheiro, tinha que ter sentado, feito o que tinha que fazer e só quando acabasse é que deveria pegar o papel higiênico. Mas assim que entro, já logo pego o papel pensando em terminar, achando que aquela necessidade é desnecessária e estou perdendo tempo.

Culpa de ter passado pela minha cabeça a vontade de dar um abraço apertado, mas como tinha que ir ao dentista, dei um abraço frio de protocolo. Queria ter sentado com meu filho para montar seu quebra cabeça. Mas a minha cabeça estava noutro lugar. Queria ter dito “eu te amo” para minha mãe, mas estava procurando a chave do carro e achei melhor deixar para depois. Depois. Depois? Depois… 

Elenquei 8 coisas que deveriam nos parar durante o dia:

1. Perceber a respiração

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2. Abrir a janela

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3. Abraçar

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4. Sorrir

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5. Ver de que cor está o céu

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6. Ligar para dizer que está com saudade

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7. Ouvir o outro e perceber o quanto ele é você

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8. Chegar em casa 
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E antes que hoje já seja amanhã… Quero falar sobre a alegria que é encontrar todos no hospital. Falar da importância da parceria diária com os profissionais de saúde, de como cada encontro nos torna melhores, mais sensíveis e mais fortes. Agradecer a cada “mico” que vocês pagam quando a gente se esbarra nos corredores e vocês dançam com a gente.

Esse tempo é precioso e necessário. Nos sentimos vivos e bobos. Eita, tá chegando a hora do ensaio. Mas antes…. Vou ali dar um abraço demorado. 

Luciana Pontual, conhecida como Dra. Svenza,
escreve do Hospital da Restauração, em Recife.

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Pequenas grandes coisas

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Às vezes, coisas grandes parecem tão distantes e, às vezes, coisas pequenas até parecem impossíveis.

Hoje, no quarto do L., aconteceu uma pequena grande surpresa. O que para muitos pode ser um pequeno gesto para a realidade, para ele foi uma grande conquista: ele bateu palmas!

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Pode até parecer tão pouco, mas para a realidade dele foi um verdadeiro aplauso. O L. vive num mundo que é bem dele e até mesmo para nós, besteirologistas, não é fácil atravessar essa fronteira. Na verdade, não sabemos onde começam ou terminam os limites desse mundo, mas o simples fato de ele bater palma mostrou-se como um grande aplauso, pois por um instante o muro que separa o mundo dele abriu suas fronteiras e nos permitiu a migração para um breve encontro.

Simples assim.

Num mundo cada vez mais dividido, esses momentos mostram de fato que o instante é breve e que tudo vale a pena. Há sempre uma preparação nessa vida para pequenas e grandes coisas, todas necessitam de um preparo. Nós nos preparamos para atender nossos pacientes e, a partir de cada encontro, pode surgir um mote para os próximos atendimentos, e isso vai fortalecendo os vínculos e criando possibilidades.

Mas tem dias que somos surpreendidos. Foi o que aconteceu com a P. 

Em uma de nossas passagens pelo ambulatório, ela descobriu que o Dr. Eu tem medo de um ratinho de estimação do Dr. Micolino. A diversão estava garantida. Passaram-se alguns dias e a P. estava numa enfermaria. Como de costume, chegamos, pedimos licença, entramos… E já dava pra perceber que havia algo no ar: a menina e a mãe dela cruzavam olhares, com um sorriso de canto de boca. O que poderia acontecer?

- Temos uma surpresa para os Doutores!, disse a mãe. 

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Elas falaram que era um livro e que o Dr. Eu precisava ler uma estória. Ele mal conseguia disfarçar a ansiedade, era sorriso de canto a canto. Nem sabia de que lado segurar o livro, que foi entregue nas mãos dele pela própria menina. Estava bem fechadinho e já marcado na página onde deveria ser aberto para a leitura!

Elas começaram uma série de recomendações: para abrir com muito cuidado, que era frágil, e que abrisse devagar, etc e tal. Nossa, quanta coisa pra uma leitura rápida de uma estória! E as duas sempre trocando olhares, o riso quase saltando.

Quando o livro foi aberto, dentro estava um ratinho de borracha! Dr. Eu mudou de cor, o choro ficou preso enquanto os risos da P., da mãe dela e do pai ecoavam soltos pelo quarto! E quanto mais o palhaço chorava, mais eles riam…

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E assim, de surpreendedores, passamos para surpreendidos. Essa história nos faz acreditar que vale a pena deixar que as pequenas coisas nos surpreendam, pois assim elas podem tomar um grande sentido em nossas vidas. 

Marcelino Dias, mais conhecido como Dr. Micolino, escreve do IMIP, no Recife.

Além dos hospitais: um relato sobre uma vida de luta na pele negra

Tempo de leitura: 6 minuto(s)

Quando optamos por estar em hospitais periféricos, sabíamos que nos depararíamos com uma realidade bem diferente do que encontramos em hospitais privados nos grandes centros urbanos. 

Estas áreas de fronteira são habitadas, em geral, por uma população negra e pobre, destituída de seus direitos básicos. Pessoas que atravessam a cidade, todos os dias, para trabalhar em empregos refutados pela população mais privilegiada. E neste cotidiano sofrem com a discriminação velada, por vezes negada, em função da cor de sua pele. 

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“As diferenças entre brancos e negros estão nas estatísticas sobre educação, saúde, emprego e várias outras áreas, mas em nenhum outro lugar ela é tão clara como na geografia e na distribuição de raças. A casa grande e a senzala seguem firmes e fortes, mas agora aparecem como centro e a periferia”, conta o repórter Rodrigo Bertolotto em matéria especial sobre racismo.

E mesmo alcançando posições de prestígio na sociedade, estas pessoas precisam lutar para reiterar suas conquistas. Dando continuidade à série sobre racismo, convidamos o ator, diretor, dramaturgo e educador Heraldo Firmino, coordenador do Programa de Formação de Palhaço para Jovens da nossa Escola, para falar sobre essa experiência – ou, como ele mesmo diz, “sobre essas marcas profundas, que vão sendo reeditadas na pele todos os dias”. 

Pra quem se interessar pelo tema e pela luta, no próximo dia 11 de novembro, sábado às 15h, Heraldo participa de um evento sobre a presença negra na comicidade no Sesc Santo Amaro, em São Paulo. Mais informações aqui.

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“A tempo”, por Heraldo Firmino

Neste escrito fui misturando, propositalmente, o que sinto e o que sentimos.
No fim, é um pouco da história dos negros e negras em luta. Por apenas ser, só isso. 

A tempo de perceber, após 50 anos de existência, alguns porquês. A pele negra nos fez e faz passar por tantas coisas cruéis, injustas, desnecessárias, desagradáveis. “Aquilo que não mata, fortalece”. Sim, e deixa mais cascudo, bravo, com raiva, beligerante.

A sensação cotidiana é de estar em um lugar que não lhe pertence ou, pelo menos, que não querem que pertença. De olhar em volta e não se reconhecer ou tentar um reconhecimento onde não há. Ter uma condição ruim normatizada pelo sistema e reproduzida até por aqueles que nos querem bem, mas que também não enxergam. Assim é durante muito tempo, ficamos quietos e muitas vezes aceitando calado o destino, à sombra da sociedade, comendo pelas beiradas e continuando a viver. Viver? 

Durante muito tempo nos enganamos pensando que fazíamos parte, que éramos da turma, que estávamos na onda. Ilusão. A arte, aqui, nos aponta um caminho, nos coloca frente a frente com a situação. Questionei e questiono agora até esta arte. Há algum tempo fui beber na fonte dos derrotados, dos esquecidos, dos de menos valia. O conhecimento em curso me coloca em cheque, convicções caem às pencas, livros lidos agora são uma grande face maquiada que perde a cor, desbota, está bem borrada. É catastrófico por que é tudo o que sei, tudo o que aprendi. Por outro lado, abre um novo mundo de possibilidades. 

Agora, me cabe recuperar este mundo sequestrado de maneira tão vil, deixar emergir dentro de mim o melhor dos dois mundos. Uma tarefa dificílima, já que os meus pares simplesmente ignoram ou, por tão sensíveis que são, estão no máximo empáticos a esta atualização. Não falam, mas percebemos a estranheza com que somos ouvidos, as atitudes, a vontade de falar determinados assuntos e ter sempre uma comparação com alguma situação vivida por outro, como se esta situação tivesse alguma semelhança. Eu percebo que, quanto mais me aprofundo, mais distante vou ficando. É sufocante, não consigo explicar o que é inexplicável, só quem é, sabe. 

Sei que tentar entrar neste mundo pode ser muito dolorido, porque talvez as pessoas sintam um pouquinho do que temos que carregar diariamente. Nunca saberão, mas poderiam tentar, tenho certeza que é mais confortável ser favorável à causa porque, para muitos, é uma questão de princípios. Mas, ao virar a esquina, nossos mundos se separam. Sei que muitos nem estarão com outros como nós. Amanhã, talvez, quando nos encontrarmos em um fraterno abraço de bom dia. 

A tempo, continuo me aprofundando, entendendo que este não é um problema de negros e negras, ele é de toda sociedade. E visto deste lugar, porque tantos soldados apostos, e tão poucos dispostos a ir para o campo de batalha? Cansaço. Acho que a palavra mais apropriada neste momento. Não somos exóticos, aparentamos ter a idade que temos, vivemos nos mesmos espaços que você, mas somos tratados de maneira diferente. Seu olhar condescendente não ajuda, de diferença também não. Tampouco achar que somos iguais perante a sociedade, os governos, as instituições, o mundo. Saiba que não queremos nada, na verdade, só igualdade, só escuta sem interrupção, sem julgamentos. 

A cada esquina que viramos, tem uma pessoa que muda de calçada. Durante o dia, com o sol rachando, as pessoas nos olham passeando com nossa família e logo vem alguém oferecendo comida ou uma roupa velha para nossos filhos. Somos mal atendidos nos restaurantes, seguranças se movimentam e falam no rádio quando entramos em um mercado, banco ou qualquer um destes lugares. Ou somos parados pela polícia, na frente da nossa própria casa, e somos indagados sobre o que estamos fazendo ali. 

Ser tratado como bandido, e ter que fazer o jogo do policial porque não tem ninguém vendo, “ninguém vendo”, e posso ser rapidamente jogado dentro de um camburão porque eles não foram com a minha cara. Desde criança tenho medo da polícia. Fui maltratado naquela época, depois e agora ainda corro este risco e meus filhos também. É um lugar bem ruim de ficar, sempre alerta e sempre alerta mesmo! Dia desses, meu filho foi chamado de negrinho porque olhava uma vitrine, um brinquedo… Um brinquedo… A vontade era de… Ficou no pensamento… O ódio não pode ser a resposta para o ódio. Um gosto amargo fica na boca, quando parece que vai sair, acontece de novo, e de novo, e de novo… 

A tempo, sei que há vinte e cinco séculos esta opressão racista vem sendo construída e que está longe de ter uma solução. A desconstrução vai muito além de querer discutir posições neste momento. Atenção aos fatos, acredito que seja um bom caminho.

Um grande roubo da dignidade, dos afetos, das crenças, da arte, da cultura, das origens. E o que não é extinto, é absorvido sem dar a menor importância aos verdadeiros criadores, coisas banais que foram dadas ao mundo como a filosofia e o início do mundo “civilizado”. As mentes mais brilhantes que já andaram na terra vêm do Egito antigo, e eles eram negros. 

A tempo de perceber a grande alegria de ser, onde ser, com quem ser, sem ser invisível, sem ser vulnerável, ser menosprezado, sem ser julgado pelo fenótipo (aparência). A tempo de olhar nos olhos e ver que alguns (muito poucos) começam a enxergar, e a proximidade cria uma espécie de irmandade que é percebida em uma troca de olhares.

A tempo de perceber que é uma desconstrução difícil, porque o mundo é constituído assim, e que a maioria das pessoas vai achar muito cansativo, dolorido, psicologicamente aterrador, e talvez seja mais simples fingir que não aconteceu, não está acontecendo e não vai acontecer. 

Mas existe a ciência de saber e a escolha de esquecer, e você sabe! Sabe, porque não se importa se seu filho vai à escola “paga” e lá não haverá os filhos da diáspora africana, não se importa de viver num ambiente de trabalho e não ter parceiros de trabalho que tenham pigmentação da pele mais escura que a sua, e também acha normal que, quando eles aparecem, estão na condição de serviçais e são praticamente invisíveis. “Na boa”,um sorriso e bom dia, apenas, não muda muita coisa. Talvez não se importe, porque passou por muitas coisas na vida também e tem muita história triste pra contar. É a vida,e todos passaram por isso, mas ouvir isso não ameniza a falta de dignidade com que somos tratados toda vez em que tentamos contar o que nos acontece diariamente. 

Tem gente brigando por direitos, nós brigando pelo direito de ter direitos. Talvez, pra você ter uma ideia desta condição, pegue algumas dessas histórias tristes e, num exercício de empatia, coloque uma ou duas em todos os dias de sua vida. Talvez, então, comece a entender o que falo. Depois deste exercício, se tiver coragem de fazê-lo, talvez pense: pra viver assim tem que ser forte, determinado, viver um psicológico muito abalado, ter muito medo, vegetar, viver em abuso, sofrer e chorar, chorar muito. Mas um conselho: não chore na frente dos outros, pois vai levar mais porrada. Ser ignorado, preterido, trocado, vendido, explorado, ser objeto, invisível, saco de pancada. Desabafo? Não, constatação de alguém que as lágrimas escolhem por quem cair. Sou filho do acaso, do descuido institucionalizado, do olhar da mediocridade, em nosso simulacro fazemos o jogo de cena, seguimos nossos caminhos e vamos chegando, mas não nos garante nada. Podemos ser destituídos rapidamente dos lugares em que conseguimos chegar. Não foi fácil, não é fácil, não vai ser fácil. 

Os meus são todos, e não é nenhum. Pertenço, não sei. Tanta coisa subtraída que só nos resta seguir em frente e buscar o encontro. E eles acontecem, aos poucos, lentamente, na força e na sutileza. É duro pensar que o tempo está acabando, sinto isso, quero aproveitar mais, mas na minha jornada muitos olham e se identificam. Fiz parecer muralha, fiz parecer porto seguro, fiz parecer segurar tudo com retidão, mas a tempo de perceber que outros vem, como eu vim, e outros virão depois de mim. Vale e faria tudo novamente. Talvez desse mais tempo para mim, talvez! 

UBUNTU! É uma filosofia, fala da grandiosidade do ser humano, do poder matriarcal, da xenofilia, do coletivo. Talvez um caminho para acalmar a alma. O corpo pede dança e quando faz é feliz, quando canta é feliz, quando ama é feliz, quando goza é muito feliz. Corpo que ri muito, que brinca muito, precisa de espaço, cativa, festeja, abraça e beija, que recebe bem, cuida de alguém, eleva a alma, entra em êxtase com som de tambor, que joga capoeira. Erudito e popular? Para nós existe apenas o movimento. E todos esses atributos pertencem a uma cultura, “cultura do ser humano”, não à guerra.

Palhaços acompanham procedimentos médicos em Israel

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Ao redor do planeta, há muitas iniciativas diferentes de palhaços que atuam em hospitais. Elas nascem de uma ideia genuína ou inspiradas em projetos que prosperaram e se adaptam à cultura local e, como é de se esperar, ao sistema de saúde. 

Uma destas iniciativas se chama The Dream Doctors Project, e nasceu em Israel há quinze anos. Por lá, mais de 110 palhaços se revezam em 29 hospitais e centros médicos com uma incumbência: atuar junto aos profissionais de saúde durante os procedimentos médicos.

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Os palhaços se envolvem em mais de 40 procedimentos, acompanhando crianças em exames como tomografia, ressonância magnética, quimioterapia, radioterapia, fisioterapia e reabilitação; além de procedimentos dolorosos e complexos, como injeções nas articulações, terapias de queimaduras e acompanhamento de cirurgias.

A presença dos Dream Doctors, como são chamados, reduz o estresse e aumenta o bem-estar da criança, facilitando o diagnóstico pela equipe médica. A organização investe em pesquisas científicas para avaliar o impacto das suas ações nos hospitais. Eles já provaram, por exemplo, que o trabalho diminui a dor e alivia a depressão – e pode até tornar desnecessária a utilização de sedação em alguns casos.

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Em 2011, a organização promoveu uma conferência para falar sobre suas pesquisas.Dream Doctors Project First International Conference on Medicine and Medical Clowning atraiu 250 participantes de 22 países a Israel. Em 2013, membros da equipe estiveram no Brasil junto a outras iniciativas, a convite de Doutores da Alegria, para discutir o futuro deste trabalho.

Na ocasião também esteve Michael Christensen, ator americano pioneiro em levar o palhaço a atuar sistematicamente em hospitais. “Os palhaços do Dream Doctor são totalmente e completamente inspiradores. Eles têm a integração mais profunda com a palhaçaria dentro do sistema médico de qualquer programa que eu já visitei – e essa integração tem incentivado a todos nós, como artistas, a se esforçar para esse mesmo tipo de unidade, respeito e comunicação”, afirma ele.

E se Wellington Nogueira, fundador do Doutores da Alegria, já dizia que a Besteirologia é profissão de futuro, o Dream Doctors Project trabalha ativamente para obter um reconhecimento oficial da profissão do palhaço que atua em hospitais, com padrões estabelecidos e reconhecidos pelo Ministério da Saúde de Israel.

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Mais recentemente, a organização criou um programa de intervenção em locais com emergências e desastres naturais, prevenindo o desenvolvimento de pós-trauma.

Esta iniciativa de Israel desenvolveu um modelo de atuação único. E embora tenham o palhaço como figura central, as iniciativas ao redor do planeta se diferem em seus objetivos e ações, mas convergem em uma certeza: a de que a arte inserida no universo da saúde veio para ficar.

O espetáculo que criou um hospital dos nossos sonhos

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Chegamos ao final da temporada de estreia do Numvaiduê, o espetáculo de comemoração dos 25 anos de Doutores da Alegria. 

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Ficamos em cartaz em setembro e outubro no Teatro Eva Herz, em São Paulo, com 11 palhaços em cena. Foram dois meses de apresentação com, felizmente, casa lotada.

Além disso, passamos por dois meses de intensa criação e ensaios. E, antes disso, muito tempo para conseguirmos apoios e projetos para que o espetáculo saísse do papel para as nossas cabeças. 

Confesso a vocês que algumas vezes tive receio da estreia.

O processo de criação requer tempo e muitas coisas criadas são descartadas no produto final, um trabalho de abandono do ego de cada um dos palhaços, um eterno pensar no bem de um todo, e não só no individual. Aliás, fiquei muito feliz com o produto que resultou desse trabalho. Reflete e muito, na minha opinião, o que fazemos no hospital.

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Em nosso trabalho pontual, deixamos a graça de lado, algumas vezes, para vivermos momentos graciosos, onde o que interessa não é o riso por si só, mas um riso que possui qualidade na relação com o outro. No teatro, apresentamos para 200 pessoas e, no hospital, muitas vezes apenas para paciente e mãe.

A arte ajudando a entender a vida, em Bora.ai/Estadão
- Doutores voltam ao palco com elenco impecável, em Revista Crescer
- Numvaiduê, em Revista Veja
- Doutores da Alegria é indicação de críticos infantis, em Folha 

Como transportar esse encontro do leito para o palco? 

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Essa era a minha apreensão e acredito que de todos que participaram do processo. Como representar 25 anos de trabalho de todos os palhaços que já passaram pela instituição Doutores da Alegria? Como transportar para o palco as nuances das mudanças de 25 anos de trabalho? A delicadeza, o poético e o gracioso juntos, sem cair no piegas…? 

Acredito que conseguimos. No palco, saímos um pouco da graça do picadeiro, sem desvalorizá-la, e habitamos a graça hospitalar. Sensível, sem pressa, cuidadosa, com olhar apurado e música. 

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O hospital está lá: em cada seringa, garrote, máscara, luva, enfermaria, berçário, sala de espera…

Por sinal, como retratar uma sala de espera de hospital de uma forma leve, poética e teatral? Eu e Dr. Zequim nos trocamos todas as segundas e quartas em uma salinha colada à “triagem”, onde costumamos falar que se tivéssemos um botão de invisibilidade para passar por lá seria sensacional!

Sabemos que as pessoas que lá estão talvez não queiram nem ver uma dupla de seres estranhos. Dor e apreensão imperam no ar. E respeitamos isso, sem nunca desrespeitar quem tem interesse naquela dupla que por lá passa. Isso requer uma escuta e um olhar apurado e treinado para isso e, principalmente, calma.

Mas não só calma. Todos os dias visitamos as alas que passaremos antes de nos caracterizarmos. Isso nos permite saber se a “triagem” está cheia, vazia, confusa, violenta… E acredito que em Numvaiduê, a presença da “sala de espera” e/ou “triagem” é fundamental. E lá está ela, em duas cenas! 

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E não tem como deixar de agradecer a todos do Hospital M’boi Mirim que foram nos ver no teatro: médicos, enfermeiros, pessoas da Administração e muitos outros setores. Aos que não puderam ir, não se sintam tristes, pois foram muito bem representados.

E bem, há de haver uma nova temporada ano que vem!

Duico Vasconcelos, conhecido como Dr. Pysthollinnha,
escreve do Hospital do M"boi Mirim, em São Paulo.

O que vai ter nesse mundo tão azul?

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Você imagina um ser humano pesando menos de um quilo? 

Bem, não é fácil de imaginar, não. Um ser humano que pesa menos que o prato do almoço da Dra. Juca! Mas sim, estas pequenas pessoas existem e muitas delas estão lá no berçário do Hospital Universitário. Ou no berçário do Hospital Barão de Lucena, em Recife.

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Todas as semanas as vemos crescer, engordar, aprender a mamar e, muitas vezes, aprender a respirar sozinhas! São pequenos heróis e heroínas que saem das barrigas das mamães antes do previsto e precisam lutar muito pra sobreviver.

E para isso, contam com uma equipe de profissionais de saúde que, além de muito carinho, possui um conhecimento e uma habilidade enormes para lidarem com essa batalha pela vida. Pais e mães também estão lá diariamente na luta com seus pequenos. Ah, eles ainda contam conosco, besteirologistas! 

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E é incrível vê-los crescer e sair do aquário, quero dizer, da incubadora… É que gostamos de chamar as incubadoras de aquário, ainda mais quando elas estão azuis e nossos pequenos usando óculos escuros. Muito lindos! 

Aproveitamos para fazer uma homenagem a estes pequeninos e aos profissionais de saúde no espetáculo Numvaiduê, que está em temporada até 29 de outubro no Teatro Eva Herz, em São Paulo. A música da cena é mais ou menos assim:

Como vai ser? O que vai ter nesse mundo tão azul?
O que será que tem detrás daquela porta
Uma estrada reta ou uma estrada torta?
Como vai ser? O que vai ter nesse mundo tão azul?

Tenho medo e tenho vontade
E a barriga da minha mãe já dá saudade
Como vai ser? O que vai ter nesse mundo tão azul?

Eu ouvi que nada é perfeito
Mas colo é colo, beijo é beijo e peito é peito!
Como vai ser? O que vai ter nesse mundo… Multicor?

NUMVAIDUÊ 3 - DNG

Juliana Gontijo, mais conhecida como Dra. Juca Pinduca, escreve do Hospital Universitário da USP, em São Paulo.