Tempo de leitura: 2 minuto(s)

A rotina da Besteirologia é não ter rotina. Cada dia é cada dia.

IMIP - Lana Pinho-8

A gente se prepara para fazer uma porção de coisas e aí o hospital “dá uma rasteira na gente” e muda tudo que foi programado: não aparece oportunidade para cantar a música que você ensaiou todo o final de semana, mas alguém pede aquela que você cantou a última vez quando tinha dez anos de idade; a criança que você ia dar alta já não está mais na enfermaria, foi pra casa; o médico que você investe há meses na paquera muda de plantão e já não o encontra mais dia nenhum. 

É assim… Haja desapego. E que bom que é assim! Não podia ser diferente, porque a Besteirologia é igualzinha à vida. A gente:

- Pensa que está no comando, mas no fundo não comanda nada
– Não tem a menor ideia do que vai acontecer depois que põe o nariz vermelho
– É mais feliz quando abre o coração para o que nos chega de repente (ou seria de presente?)

Barão de Lucena - Lana Pinho-37

Essas lições aprendemos todos os dias, pelos corredores, nas enfermarias, nos ambulatórios, nas emergências, nas copas e cozinhas. Vocês querem ver como funciona? 

Outro dia, depois de muitas idas e vindas, conseguimos alistar 5 mães com 5 bebês acoplados para compor um coral de frevo. Às vezes não é fácil conseguir adesão espontânea, então comemoramos muito quando formamos todos os naipes! Tudo estava pronto para finalmente começar o ensaio do coral: cada mãe com seu bebê, todas alinhadas, afinadas, preparadas. Só faltava ensinar a música.

Bem nessa hora um dos bebês tomou o leme de nossa mão e, como um pirata, tomou de assalto o controle do navio. Ele desatou o mais retumbante “UÑÑÑEÉÉÉÉ” já ouvido no universo, assim, do nada. Em um segundo ele estava ótimo, quietinho, quentinho, embaladinho no colinho e no outro estava igual o Capitão Gancho levando nosso coral com leme, vela e tudo para o fundo do oceano.

Como assiimm, bebê? Não dá pra ensaiar com essa sirene ligada.

Barão de Lucena - Lana Pinho-56

Bom, tudo perdido, toda a mobilização, todo o convencimento das mães, tudo indo choro abaixo… Não, claro que não! Fizemos uma “pequena adaptação” no frevo e a partitura das mães e dos bebês passou a ser exatamente essa. Elas faziam  e nós fazíamos GUGU-DADA! Formou-se aí o primeiro frevo em língua de bebê.

- UÑÑÑÉÉÉÉÉ, faziam as mamães.
- GUGU DADÁ, fazíamos nós.

Eita, vida velha sem controle e cheia de imprevistos. É assim nas pequenas coisas e nas grandes também. Dá medo perceber que o leme desse navio nunca está realmente em nossas mãos.

“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria, 
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”
(Guimarães Rosa)
 

Eduardo Filho, conhecido como Dr. Dud Grud, e Greyce Braga, a Dra. Monalisa,
escrevem do Hospital Barão de Lucena, em Recife