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Hoje decidi falar sobre a saudade. A saudade que temos sentido de alguns pacientes que por motivo de alta, transplante e melhoras de todo tipo não estão mais no nosso roteiro de encontro diário. 

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No Instituto da Criança, quase sempre encontramos as mesmas crianças, pois são alas de tratamento contínuo, que se estende por muitos anos. E nas internações, costumamos acompanhar uma mesma família por longos períodos. Assim, quando começamos o dia de trabalho, já temos uma ideia das crianças que vamos encontrar pelo caminho e, de certa maneira, já esperamos por esse encontro. Com cada paciente desenvolvemos uma profunda relação de intimidade e contamos encontrá-las para saber como estão naquele dia e continuar as histórias que iniciamos há dias, semanas ou meses atrás. 

Parece até que nos esquecemos de que estamos em um hospital, que às vezes pode ser um lugar de permanência, mas que nunca deixa de ser um local de transição, de movimento

Temos muita saudade dos nossos encontros, mas como sentir saudade de uma internação hospitalar? Sabemos que essa barra não é fácil de aguentar, então só ficamos mesmo com as boas lembranças dos nossos encontros e desejando que, pelo menos no hospital, eles não precisem mais repetir. 

É o caso do pequenino L., que encontrávamos toda segunda e quarta-feira no Hospital Dia. Um verdadeiro caso de amor. Começávamos a tocar e cantar no começo do corredor para que o som chegasse antes do corpo, anunciando nossa presença. As enfermeiras sempre comentavam:

- O L. escutou o pandeiro e já começou a dançar no berço, olhando através da porta, chamando por vocês com a mãozinha…

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Todos os encontros com ele eram assim, de muita alegria, muito remelexo. A equipe parou várias vezes para acompanhar o evento, para filmar, fotografar a até dançar junto! 

Mas um dia, quando chegamos, o menino e a mãe não estavam no leito de sempre. Quando perguntamos por ele, o médico disse que ele estava de alta, fazendo uma experiência com o tratamento em casa.

- Ah, que bom! Tomara que dê certo!

E assim semanas se seguiram.

- Como está o L.?
- Está bem! Continua em casa!

E não encontramos mais nosso amorzinho. Com toda certeza desejamos que ele permaneça em casa, com cada vez mais saúde!

E aqui fica uma saudade grande. Muito grande!

Tereza Gontijo (dra Guadalupe)
Instituto da Criança – São Paulo