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Nos últimos capítulos desta série SUS, trouxemos dados sobre a saúde no país e a situação agonizante em que se encontra o Hospital Universitário da USP, em São Paulo.

Hoje o foco é outro equipamento de saúde pública: o Hospital Municipal Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha, conhecido como Hospital Municipal do Campo Limpo, onde Doutores da Alegria também atua, todas as terças e quintas-feiras, há 13 anos.

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Um raio-X do hospital

Localizado na região Sul da cidade, o hospital recebe diariamente 1200 pessoas, a maioria dos bairros de Capão Redondo, Jardim Ângela, Jardim São Luiz e cidades vizinhas como Embu, Taboão e Itapecerica da Serra. Referência em traumas e neurocirurgia, atende muitos casos graves e acidentes. 

O hospital tem 27 anos de existência e ocupou um espaço importante na região, que sofria com a inexistência de um hospital de grande porte. Desde 2008, parte da demanda foi absorvida pelo Hospital M"boi Mirim.

foto-hospital-campo-limpofoto: www.fiquemsabendo.com.br

Em 2005, o Campo Limpo passou por sua primeira reforma, que expandiu o número de leitos, além de melhorar as instalações do pronto-socorro, do centro cirúrgico e do centro de imagens. Em 2013, foram reabertas as vagas da UTI, que recebe em média 29 internações por mês e 344 por ano, segundo dados do portal da Prefeitura.

Entre 2013 e 2015, o Hospital do Campo Limpo liderou as reclamações de pacientes, representando 13% do total de reclamações contra os hospitais municipais da capital. E segundo apuração recente do jornal Folha de S.Paulo, toda a verba prevista para a compra de materiais e novos equipamentos (R$ 1,2 milhão) no Campo Limpo está congelada e faltam insumos básicos, como gaze e esparadrapo. 

O Hospital do Campo Limpo é um reflexo da comunidade local.

A região atendida pelo hospital é uma das mais populosas da cidade, com mais de 1,5 milhão de pessoas, grande parte em situação de vulnerabilidade social. Destas, 26% moram nas 237 favelas localizadas entre as subprefeituras do Campo Limpo e do M"boi Mirim.

Além da falta de habitação e saneamento básico, entre os maiores problemas da região se destacam a violência, a mobilidade e a falta de creches e opções de lazer e cultura para crianças e adolescentes. Um complexo quebra-cabeça que em nada contribui para a promoção da saúde.

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“Encontramos muitas crianças acidentadas; uma que caiu da laje, outra que foi atropelada por uma moto, o outro que atropelou a perua escolar que passava na rua, outra que a mãe não quis mais, outro que foi violentado, enfim… Reflexo da dura realidade em que vive a maior parte da população do nosso país., conta a atriz e palhaça Luciana Viacava, que atua ao lado de Vera Abbud neste ano no hospital.

Histórias de bebês e crianças abandonadas são das mais frequentes. Mães muito novas, situações evitáveis, drogas; mas crianças e pais adoráveis e profissionais muito empenhados. Para o ator e palhaço David Tayiu, estar no Hospital do Campo Limpo é se defrontar com o humano de uma forma quase cruel.

“Antes de chegarmos no pronto socorro infantil, passamos por um corredor surreal – ou real em demasia. Lá, os médicos e enfermeiros são super humanos, trabalham por muitos e se envolvem com cada caso, com cada pessoa, compreendem, respeitam e agradecem a nossa presença. Em uma sociedade que falta tudo, principalmente o básico para sobreviver, se sentem frustrados por suas limitações. A impressão que tenho é a de que gostariam não somente de curar a doença, mas a vida daquelas pessoas.”, conta ele. 

Fotografia dos Doutores da Alegria no Hospital do Campo Limpo/SP.

A questão social no Hospital Municipal do Campo Limpo é muito forte e presente. O que entra pela sua porta reflete o abandono a que esta população está submetida, em diversas instâncias, em um local em que o Estado quase se ausenta.

Vera Abbud, que atua há 25 anos em hospitais públicos de São Paulo, sempre faz a mesma pergunta, engasgada na memória de cenas e histórias que se repetem. “Quando atos como esses se repetem incansavelmente numa mesma parcela da cidade durante anos a fio, não está na hora de se perguntar se essa parcela da cidade está sendo bem cuidada, observada e protegida com dignidade pelas autoridades responsáveis?.

Enquanto palhaços, não temos respostas, brincamos com as perguntas. Mas enquanto artistas e membros de uma organização da sociedade civil, temos a responsabilidade de buscar caminhos para uma saúde universal e que vá além da ausência de doença.