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A enfermaria está lotada de criança. Umas têm faixa na cabeça, outras estão amarradas no fio do soro. Tem criança com gesso no braço e tem criança dormindo no colo da mãe.

um dia a cada dia (4)

Tem pequenino que está careca, com dor de barriga, e aquela que caiu da árvore. Tem criança que fala palavras carinhosas e tem aquelas que xingam. E agora, com essa moda de celular, tem criança que nem olha no nosso olho.

Encontramos com R., de aproximadamente 12 anos. Ele é esticado, toma quase toda a cama. Logo no primeiro encontro, mandou a gente calar a boca.

1º encontro

O menino disse que estava querendo silêncio e que não era pra gente tocar violão. Foi uma confusão. 

um dia a cada dia (1)

– R., a gente promete que nunca vai tocar uma música na sua presença. Mas a gente quer mostrar uma música que a gente fez pra você. Podemos?
– Não!, respondeu o garoto, não quero vocês tocando nenhuma música. Vão embora e não cheguem perto de mim.
– Mas é uma música tão bonita. Fala de flor. Mas, como você não quer ouvir, a gente promete que nunca vai cantar essa música pra você.

Aí, cantávamos a música.

– Porque a gente tem noção das coisas e não vai tocar. Mas, se a gente não tivesse bom senso, com certeza tocaria essa música.

Então, tocávamos novamente. E saímos da enfermaria tocando a música só pra mostrar pra ele que nunca a gente vai tocar aquela música ali.

– Ei, mas vocês estão tocando!gritou o menino. 

2º encontro

Percebemos que seu travesseiro tinha uma estampa florida.

– Nossa, R.! Quantas flores na sua cama. Podemos levar uma pra gente?
– Não.
– Mas, olha pra essa flor, está caindo. Olha! Peguei... A flor é sua. Cuida dela! É só colocar meia gota de água três vezes ao dia. 

O menino segurou a flor e a jogou no chão. 

3º encontro

Quando o R. nos avistou de longe cobriu o rosto com o cobertor. Paramos ao seu lado e vimos que a flor estava ao lado da cama. Sua mãe tinha apanhado do chão e guardado.

um dia a cada dia (3)

– R., por que você virou todo o seu corpo pra gente? 

Ele devia estar aprontando alguma coisa. Sem esperarmos ele solta um pum muito forte!

– NOSSA! SOCORRO!e saímos correndo da enfermaria. O garoto só ria!

4º encontro

Ele dormia. Deixamos um recadinho:

Querido R.,
Passamos aqui hoje e vimos que você estava dormindo.
O seu pum foi quase como uma bomba nuclear. Mas sobrevivemos.
 

um dia a cada dia (2)

5º encontro

Um belo dia, atendendo na UTI, vimos que um dos leitos estava sendo por um garoto grande, que tomava quase todo o espaço. Quando chegamos perto vimos que era o R.

Tinha feito uma cirurgia. Estava dormindo.

– Oi, R.! Aqui é Dr. Marmelo e Dr. Euzébio - e cantarolamos uma música pra ele. Quando acordou, olhou bem fixo pra gente.
– Cadê minha mãe? Eu quero minha mãe - disse com sua voz calma e baixa.
– Sua mãe está ali fora. Ela vai entrar já, já. 

6º encontro

Em um dos plantões besteirológicos, andando pela enfermaria, vimos que o garoto tinha saído da UTI. Estava deitado na cama, com sua mãe ao lado.

O garoto sorriu quando acenamos e nos cumprimentou. Ficamos em silêncio. Esperávamos uma bronca!

A mãe dele sorria. Ela sempre se divertia vendo a gente correndo com medo do R. Talvez já estivesse esperando a saída maluca dos besteirologistas pela porta da enfermaria, mas dessa vez foi diferente.

Diferente dos dias que se passaram. Assim como é na vida. Todo dia um dia. Nos olhamos. O menino olhou pra o Dr. Euzébio:
– O senhor trocou de roupa. Cadê sua camisa amarela?

… 

Dr. Eu_zébio (Fábio Caio) e Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife