Como assim, bebê?

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A rotina da Besteirologia é não ter rotina. Cada dia é cada dia.

IMIP - Lana Pinho-8

A gente se prepara para fazer uma porção de coisas e aí o hospital “dá uma rasteira na gente” e muda tudo que foi programado: não aparece oportunidade para cantar a música que você ensaiou todo o final de semana, mas alguém pede aquela que você cantou a última vez quando tinha dez anos de idade; a criança que você ia dar alta já não está mais na enfermaria, foi pra casa; o médico que você investe há meses na paquera muda de plantão e já não o encontra mais dia nenhum. 

É assim… Haja desapego. E que bom que é assim! Não podia ser diferente, porque a Besteirologia é igualzinha à vida. A gente:

- Pensa que está no comando, mas no fundo não comanda nada
– Não tem a menor ideia do que vai acontecer depois que põe o nariz vermelho
– É mais feliz quando abre o coração para o que nos chega de repente (ou seria de presente?)

Barão de Lucena - Lana Pinho-37

Essas lições aprendemos todos os dias, pelos corredores, nas enfermarias, nos ambulatórios, nas emergências, nas copas e cozinhas. Vocês querem ver como funciona? 

Outro dia, depois de muitas idas e vindas, conseguimos alistar 5 mães com 5 bebês acoplados para compor um coral de frevo. Às vezes não é fácil conseguir adesão espontânea, então comemoramos muito quando formamos todos os naipes! Tudo estava pronto para finalmente começar o ensaio do coral: cada mãe com seu bebê, todas alinhadas, afinadas, preparadas. Só faltava ensinar a música.

Bem nessa hora um dos bebês tomou o leme de nossa mão e, como um pirata, tomou de assalto o controle do navio. Ele desatou o mais retumbante “UÑÑÑEÉÉÉÉ” já ouvido no universo, assim, do nada. Em um segundo ele estava ótimo, quietinho, quentinho, embaladinho no colinho e no outro estava igual o Capitão Gancho levando nosso coral com leme, vela e tudo para o fundo do oceano.

Como assiimm, bebê? Não dá pra ensaiar com essa sirene ligada.

Barão de Lucena - Lana Pinho-56

Bom, tudo perdido, toda a mobilização, todo o convencimento das mães, tudo indo choro abaixo… Não, claro que não! Fizemos uma “pequena adaptação” no frevo e a partitura das mães e dos bebês passou a ser exatamente essa. Elas faziam  e nós fazíamos GUGU-DADA! Formou-se aí o primeiro frevo em língua de bebê.

- UÑÑÑÉÉÉÉÉ, faziam as mamães.
- GUGU DADÁ, fazíamos nós.

Eita, vida velha sem controle e cheia de imprevistos. É assim nas pequenas coisas e nas grandes também. Dá medo perceber que o leme desse navio nunca está realmente em nossas mãos.

“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria, 
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”
(Guimarães Rosa)
 

Eduardo Filho, conhecido como Dr. Dud Grud, e Greyce Braga, a Dra. Monalisa,
escrevem do Hospital Barão de Lucena, em Recife

A peleja do noivo que tentou enganar a noiva na Festa de São João ou vice-versa

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Em pleno mês de São João e com a inspiração em alta, depois do cordel de despedida dos profissionais de saúde, os palhaços levaram aos hospitais do Recife uma criação inusitada.

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Trata-se de “A peleja do noivo que tentou enganar a noiva na Festa de São João ou vice-versa”. Criado por Arilson Lopes e encenado pelo elenco pernambucano do Doutores da Alegria, o cordel tem sido motivo de aplausos e gargalhadas nos hospitais. Pra quem não sabe, a literatura de cordel é um gênero literário popular que se dá na forma de rimas cadenciadas. Olha só um trecho com a Dra. Baju e o Dr. Marmelo e acompanhe, abaixo, o cordel inteiro. 

 

Cordel São Joãoilustração: Luciano Pontes | produção: Nice Vasconcelos

 

Bom dia, meninada
Meu sinhô, minha sinhora!
Puxe o banco e sente logo
Se avexe, sem demora
Porque tô aqui doidinho
Pra contar essa história

Tanto tempo encalhado
Marmelo se aperriô
Fez promessa pra Antônio
O santinho protetô
Pra arranjar casamento
E acabar com sua dor

Em troca daria ao Santo
Na festa de São João
Uma peruca novinha
Coisa fina, de barão
Contanto que em sua busca
Não houvesse confusão

É que Marmelo era frouxo
Feito chapa sem Corega
Tinha medo de injeção
De barata, de pereba
Mas dizia que com ele
Não tinha choro nem vela

Amuntô em Dud Grud
Seu jumento Alazão
Partiu no mundo sem rumo
Seu guia era o coração
Encontrou três faladeiras
Fuxiquinha, Fuxiqueira e Fuxicão

Contou ao trio seu dilema
Que se apressou a falar
Entoou o seu refrão
Ô ô xá lá lá lá lá
E disse: “Quem tu procura
Mora na casa acolá”

Marmelo avistou de longe
A casinha de Baju
Imendaram as fuxiqueira
“Uma flor de mandacaru
É uma moça aprumada
Dava certinho mais tu”

Ele arriô de Alazão
Se aproximou de fininho
E ao chegar no pé da porta
Se assustou com um passarinho
Que fugia da donzela
Ía depressa pro ninho

Caiu de bunda no chão
Bem na frente de Baju
Que apontou o estilingue
Pra ele, não pro anum
O coitado atrapalhado gritou
“Vim casar com tu”

Ela nem contou conversa
Aceitou o compromisso
Se afeiçoara a Marmelo
Seu cabelo de ouriço
O seu nariz engraçado
E seu ar de pouco juízo

Nasceram um para o outro
Como o sapo é pra jia
Como o leão pra leoa
Como a torneira é pra pia
A baleia pra baleia
O Tonico pro Tinoco
E o riso pra alegria

Baju correu lá pra dentro
Voltou trazendo um vestido
Branco, já amarelando
De mofo um pouco fedido
Pendurou pra levar sol
Tudo certo pro casório
Só faltava o pedido

“Ôxe, outro?” – Ele indagou
Ela explicou então:
“Oficialize o pedido
Peça a meu pai minha mão
Ele saiu, volta já
Dele já ouviste falar
É Mircolino Lampião”

Ouvindo o nome do sogro
Marmelo pôs-se a tremer
Seu cabelo arrupiô
Se preparou pra correr
Fingindo pediu: “Tem água?
Queria tanto beber…”

Ela atendeu seu pedido
E foi lá dentro buscar
Marmelo desesperado
Não parava de suar
Se aproveitou do momento
Amuntô-se em seu jumento
E fugiu pro Arraiá

Atrapalhado, Marmelo
Se enganchou no vestido
Pendurado no varal
Na pressa o levou consigo
Pensou: “Me visto de noiva
pra escapar do perigo”

Baju voltou com a água
E tudo se apresentou
O noivo tinha fugido
Feito o anum que voou
Pro pai contou num bilhete
E partiu feito foguete
No rastro do seu amor

No Arraiá era dia
De fogueira de São João
Tudo pronto pra festança
Era certa a animação
Marmelo, agora de noiva,
Se escondeu no salão

Baju chegou em seguida
Reconheceu Alazão
Pensou “Tô pertinho dele
Esse sujeito cagão
Que tem medo do meu pai
Mircolino Lampião”

Parou no meio da praça
Conteve a respiração
Não sabia o que fazer
Qual seria a solução
Encontrou com as faladeiras
Fuxiquinha, Fuxiqueira e Fuxicão      

- “Mulé, que foi? Fale logo!”
- “Adoro uma confusão”
- “Tô procurando um sujeito!”
- “Sujeito tem de montão”
- “Tem gordo, baixo, comprido”
- “Tem até um de vestido”
- “De noiva, num visse não?”

Ouvindo isso correu
Deixou o trio sem ação
Procurou o Rei do Milho
Que tava na ocasião
Era amigo de infância
Quase irmão de criação

Pediu a ele emprestado
Camisa, calça, gibão
Ela se vestiu de noivo
Tinha achado a solução
Casava com a noiva Marmelo
E acabava a confusão 

 

O Rei do Milho cedeu
Aos caprichos de Baju
Emprestou a melhor roupa
“Óia, foi feita pra tu!”
Lui é o nome dele
Vibrava com o buruçú

Ela foi de um em um
E nada de encontrar
Perguntou pras fofoqueira
As espiãs do lugar
Que foram logo apontando:
“Ô ô xá lá lá lá lá
Aquele que tu procura
Correu pro lado de lá”

De repente, ouviu-se um grito
De voz conhecida por lá
Mircolino Lampião
Chegava pra clarear
Ía encontrar o danado
No escuro que tivesse
Pra fazer ele casar

Mircolino assim cantava:
“Ói eu aqui de novo xaxando
Ói eu aqui de novo para xaxar”
Todo mundo acompanhava
Cantava e procurava
Ninguém podia parar

O pai escutara a fofoca
Tinha lido o bilhete
Já sabia a trama toda
Da palha ao alfinete
Praquele que o ajudasse
Ele pagava um sorvete

Esse era um homem bom
Brincalhão, era um ator
Ía gritar a quadrilha
Foi pra isso que chegou
Aí entrou na esparrela
Pra ajudar sua flô

Baju foi até seu pai
Disfarçada de menino
Se revelou só pra ele:
“Tenho um plano, segue o tino,
Sei onde tá Marmelo
Vou selar nosso destino”

Arrudiaram o salão
Até num canto encontrar
Uma noivinha amuada
Nem sabia disfarçar
Baju falou para o pai:
“Olha o que eu achei aqui!”
Ele pôs-se a interrogar

- “Como é teu nome?”
- “É Marmela, mas isso só pro sinhô”
- “Mulé de bigode, Marmela?”
- “É buço! Faça o favor!”
- “E esses cabelos na perna?
Faz tempo que depilou!”
- “Eu sou assim cabeluda!
É de família, um horror!”

- “Não adianta enganar
Eu já sei quem é você!”
- “E quem sou eu? Diga não!
Tenho medo de morrer!”
- “Pois se seu medo for esse
Vamo logo resolver!”

Baju se jogou no meio
Entre o pai e o seu amor
Tava tudo combinado
Só pra fazer o caô
Ela rogou pela vida
Daquele que a enganou

Marmelo se emocionou
Com a coragem de Baju
Disse: “Êpa, corri com medo
Do teu pai, num foi de tu!
Caso contigo agorinha
Te procurei norte a sul”

“Se ele poupar minha vida
E aceitar nosso amor
Pago a promessa pro Santo
Num sou de dever favor
E a festa acontece
Com alegria e fervor”

Santo Antônio apareceu
Na festa de São João
Trouxe São Pedro consigo
Cobrou peruca e quentão
Marmelo pagou a dívida
E acabou-se a discussão

“Solta o rojão!” – gritou Lui
“E bota esse trio pra tocar”
As fuxiqueiras gritaram:
“Ô ô xá lá lá lá lá
Forró só se for agora
Pegue seu par, vem dançar!”

Dud Grud entrou na roda
Já não era mais jumento
Agora ele era fogueira
Um bom papel pro momento
Se acendeu tocando fogo
Nos cabelo que trazia
No sovaco fedorento

Esse causo assim contado
Dá até pra encenar
Eita, tive uma ideia!
Vamo levar pro hospitá
Vai ser bonita essa peça
As criança vão gostar

Nós é Dotô da Alegria
Tu já ouvisse falar?
Sim! Da besteirologia
Uma ciência arretada
Depois te conto, ôto dia
Hoje o assunto é São João
São Joãozim, como eu diria

Vixe, o traque estourô
Tenho que subir agora
Até logo, meninada!
Meu sinhô, minha sinhora!
Já demorei o bastante
Desenrolando essa história
É tudo coisa inventada
Mas tá no sangue, é memória

Cresci menino com isso
Com a festa de São João
Colheita, comida de milho,
Quadrilha, forró, tradição
Vi tudinho aqui de cima
Prazer, me chamo Balão!

Eita, tá ouvindo?!

“O Balão vai subindo
Vai caindo a garoa
O céu é tão lindo
A noite é tão boa
São João, São João
Acende a fogueira
Do meu coração
São João, São João
Acende a fogueira
Do meu coração”

 

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A solidão e as lembranças que carregamos

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Nesta semana uma senhorinha internada me perguntou: Como é uma UTI? Eu nunca vi”.

A pergunta transparecia o medo de em breve precisar ir a esse lugar. A UTI nunca vista e, provavelmente, imaginada como um lugar frio e silencioso. Sobretudo, a senhorinha tinha medo da solidão, de ficar sem a família. Medo de não ter quem segure sua mão, como dizia Clarice Lispector. 

IMIP - Lana Pinho-121

Tentei acalmá-la: falei dos profissionais que sempre estão lá, monitorando os pacientes. Falei que a todo tempo passa um médico pra lá, uma enfermeira pra cá, uma auxiliar de limpeza que recolhe coisas enquanto canta uma música. Não sei se essa informação confortou aquele coração amedrontado, porque apesar de todas as pessoas que circulam por lá, o que ela queria mesmo era saber se ao acordar na UTI veria um rosto conhecido, que ajudasse a lembrar do quintal de sua casa, do baile que frequentou na adolescência, do cheiro do bolo assado dos sábados, do aconchego dos amigos, do carinho de sua mãe. 

Coisas boas de lembrar. Lembranças que também curam.

Eu não pude falar para aquela senhorinha, naquele momento, de duas crianças que por hora moram na UTI do Hospital Barão de Lucena. Dois bebês de alguns meses de vida. Estão na UTI, mas não há quem venha lembrá-los de outros dias mais propícios, porque não há ninguém que os acompanhe. Eles não têm família.

Barão de Lucena - Lana Pinho-142

Com apenas alguns meses de vida, já estão naquele lugar onde a senhorinha de cabelo branco tem medo de ir. Um berço ao lado do outro. Dois bebês de origens distintas, que se encontraram nesse ponto de interseção da vida: companheiros da mesma UTI pediátrica. Sozinhos. 

Colocamos o nariz vermelho, vestimos o jaleco branco onde se lê “Doutores da Alegria”, entramos na UTI, cantamos e dançamos para aquelas duas pessoinhas. Será que se sentem sozinhos? Automaticamente, por reflexo, seguro a mão de um deles por um momento. Enquanto cantamos, seus olhos seguem nossos movimentos, vemos uma mãozinha se erguer no berço tentando agarrar um instrumento percussivo, depois ao lado uma cabecinha se vira para seguir o som da música – percebe quando vamos mais pra longe, quando chegamos mais pra perto.

Eles também têm medo? Procuro olhá-los nos olhos.

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Nesse momento alguém começa a filmar a reação dos pequenos. Médicos e enfermeiras se acercam e os chamam pelos nomes – há muita afetividade ali. Sentimos o tempo sobrelevar e parar, para que duas palhaças sejam os “rostos conhecidos” daqueles pequenos.

Nós, duas palhaças, desejamos com nosso ofício, lembrá-los dos muitos dias propícios, que ainda virão.

Desejamos que eles não sintam medo, nem solidão, nem tristeza, ou qualquer dessas coisas-de-gente-grande-que-não-são-coisas-de-criança. Desejamos tanto que eles lembrem o quintal da casa que terão, o baile que ainda frequentarão, o aconchego dos futuros amigos e os bolos quentes nos dias de chuva. Nós somos apenas duas bobas e não sabemos se tudo que desejamos acontece. É por isso que seguimos desejando até agora.  

“Receba o mundo sem medo,
pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados
e nós mesmos também incompreensíveis”
Clarice Lispector 

Dra. Monalisa, mais conhecida como Greyce Braga,
escreve do Hospital Barão de Lucena, no Recife.
 

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Desapego: quem consegue, afinal?

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Pensa em uma palavrinha difícil de se colocar em prática: DESAPEGO.

Quando um de nossos pequenos pacientes tem alta e vai embora, deixa as boas lembranças dos encontros. Do que brincamos, dos risos trocados. Mas tem partidas que são definitivas e, às vezes, percebemos que nem sempre estamos tão preparados como pensamos, mesmo que seja uma partida previamente sinalizada. 

Barão de Lucena - Lana Pinho-82

Os sinais, diga-se de passagem, surgem o tempo todo, basta prestar atenção. Há mais ou menos três meses, o pequeno D. começou a dar os primeiros sinais da sua despedida. Sincero e autêntico, como sempre, D. expressava seus interesses e emoções através das suas famosas piscadinhas: uma para “não” e duas para “sim”.

Outras vezes, bastava uma cara bem enjoada para percebermos que a música não estava agradando naquele dia. Noutra ocasião, perguntamos se ele gostaria de se casar comigo, Dra Baju. Duas piscadinhas! Ai, meu coração! Aí, já perguntei se o Dr. Micolino poderia ser o nosso padrinho: duas piscadinhas! Micolino ficou tão empolgado que perguntou se D. o achava bonito: uma piscadinha… É, forçou a barra. 

Barão de Lucena - Lana Pinho-147

Foi com essa mesma franqueza que D. começou a pedir mais reserva, mais recolhimento. Queria ficar quietinho, com um paninho em seu rosto. Nada mais justo e honesto da parte dele. A equipe carinhosa cuidou muito bem disso e foi aí que todos nós começamos a nos preparar – ele estava indo.

O desapego está ao nosso alcance se deixarmos que ele nos alcance. Na escrita isso deve ficar bem bonito, mas contrário ao que acontece na “vida real”. Mas a existência é exatamente assim: bonita. A gente, aqui na Terra, não entende nada. Acho que, nessas horas, é melhor sentir que pensar.

Eu tô muito feliz por tê-lo conhecido desde seus dois anos de idade. Micolino o conheceu ainda menor. Estamos felizes pelos encontros! O nosso mestre nasceu, nos ensinou e se especializou na grandiosidade que é essa vida.

Dr. Micolino e Dra Baju
Hospital Barão de Lucena – Recife

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Na escuta!

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Nós, os palhaços, costumamos usar bastante essa palavra: estado. Esse estado do qual estamos falando não é o geográfico, não é o estado de Pernambuco, nem do Pará, é aquela coisa de sentir-se presente, autêntico e num estado de prontidão.

Os seguranças do hospital, por exemplo, vivem nessa disposição. E os daqui do Hospital Barão de Lucena, no Recife, nos ensinam muito sobre isso. 

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Estar sempre alerta é uma das condições para o palhaço existir. Em nossa mochila devemos carregar sempre estas palavras: olhar, escuta e percepção. Imaginem os seguranças! Pensamos que eles devem ter uma enciclopédia vasta sobre essas disciplinas. Mas tem uma delas que nos enche de curiosidade: A Língua do Q! 

Os seguranças dominam esse idioma e falam com muita rapidez, tamanha fluência. Dr. Micolino, por estar à minha frente em algumas séries, já entende um pouquinho. Eu, Dra Baju, entendo meio pouquinho. E, assim, a gente vai enriquecendo o nosso vocabulário. Conseguimos aprender três siglas da Língua do Q: QAP, QSL e QTO

QAP – na escuta!
QSL – entendido, ok!
QTO – banheiro! 

DRs_OC_Foto RogerioAlves__54

Sempre que nos encontramos com nossos amigos seguranças, aproveitamos pra praticar. Eu e Micolino nos empolgamos tanto que escrevemos uma música em homenagem a eles: 

QSL, na escuta!
Positivo e operante
QAP, QTO
Você parece a minha vó!

E caímos todos na risada! 

Dra. Baju (Juliana de Almeida)
Hospital Barão de Lucena – Recife

Linguagem quase silenciosa

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Sabe aqueles encontros de última hora? E que acontecem no apagar das luzes, que nos fazem pensar: nossa, ainda bem que encontramos com ele hoje!

Pois foi assim o encontro com o L., menino de uns 6 anos. Estava ele sentado na cadeira ao lado de sua mãe. Abaixamo-nos para falar com ele e nos apresentamos. Ele ficou boquiaberto, com ar surpreso e um brilho nos olhos. 

- Bom dia, eu sou o Dr. Micolino.
- E eu sou a Dra. Monalisa. 
- Diga alguma coisa pra eles!, respondeu a mãe.

Ele apenas balbuciou alguma coisa.

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Mas L. não poderia jamais falar naquela hora, porque o seu tempo era outro. Não era o tempo de dizer o nome, porque quando nomeamos nós delimitamos o que vemos para entender com a mente. E aquele não era o tempo de entender. Aquele era o tempo do espanto, da surpresa, do alumbramento, do não saber.

A boca não falava, mas como seus olhos brilhavam. Olhos que nos inquiriam, nos indagavam, sorriam de volta, perguntavam quem éramos nós, convidavam pra ficarmos! E para fazermos exames, pílulas embaixo do sovaco, fazermos barulhos engraçados, examinarmos seus dedinhos e verificarmos se estavam no ritmo e, no fim, darmos um atestado.

Foi justo aí, no finalzinho, que precisamos perguntar a ele onde ficava a testa.

- Aqui!, e apontou com o dedo. Finalmente falou.

Foi um encontro com uma linguagem quase silenciosa, mas intensa. E um olhar que disse tanto a ponto de nos fazer pensar na beleza e na alegria de estar presente, vivo, junto, pulsando numa mesma bobagem. 

Dr. Micolino (Marcelino Dias) e Dra Monalisa (Greyce Braga)
Hospital Barão de Lucena – Recife

Tenho medo de água

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Fazia tempo que eu e o Micolino não fazíamos plantão no Hospital Barão de Lucena. Eu, Dra Baju, voltei depois de seis anos; ele voltou de muito, muito, muito, muito… Muito mais tempo ainda. Coisas da vida!

Barão de Lucena -  Lana Pinho_-24

De cara, conhecemos uma pessoa de uns sete anos. Pensem numa figurinha! A primeira visita foi numa das horas mais cruciais pra ele: a hora do banho.

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Ele vinha pelo corredor, miúdo, junto à enfermeira. Resmungava bastante. Ela já foi dizendo:
- Ele não gosta de tomar banho.

O garoto completou, se assumindo e com um certo orgulho:
- É, eu sou Cascão! – e continuou: Tenho medo de água! 

Procape -  Lana Pinho_-26

Eu e o Dr. Micolino engatamos numa risada que quase não voltamos.

A tranquilidade com que o pequeno tinha em revelar que não gostava de banho nos fez rir de tão surpresos que ficamos por ver uma pessoa tão pequena não sentir culpa por ser o que éIsso é encantador.

Vocês precisam conhecer melhor o menino! A gente tá começando o ano aqui e, sabemos, vai ser o maior prazer!

Dra Baju e Dr. Micolino (Juliana de Almeida e Marcelino Dias)
Hospital Barão de Lucena – Recife

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Em porta-retratos

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Eu tenho as minhas manias. É, confesso, tenho sim.

Gosto, às vezes, de colocar em um porta-retrato as imagens que celebram a vida, para que em algum momento me lembre de parar para relembrar ou recuperar de viver aquelas cenas.

Por isso, tenho sempre espalhadas pela casa fotos em porta-retratos. A minha foto de criança está sob a cômoda em frente à cama de dormir, para não deixar de sê-la. As festas de famílias em casamentos, pois todos estão bonitos e cheirosos, estão no armário onde sempre tem flores. Também costumo bater fotos no celular, mas tem sido cada vez menos. Porque venho querendo parar de correr o mundo e tentar vivê-lo.    

Talvez esteja assim, nostálgico, porque chegou a hora de esvaziar os jalecos e começar a arrumar o armário e se despedir do hospital. Pois é, todo ano a dupla de besteirologistas troca de hospital visitado. E como deixar para trás todas as lembranças?

Eu vou fazer como os porta-retratos que tenho em casa: vou guardar dentro de mim, para quando parar eu lembrar o quanto foi bom, divertido, desafiador e feliz este nosso ano no Hospital Barão de Lucena. 

Porta-retrato 1

As caras de surpresas ao chegamos ao hospital disfarçados de gente normal para começar o dia de trabalho. 

porta retrato

Porta-retrato 2

Todos os bons dias desejados ao entrarem na sala onde trocamos de roupa no meio do banheiro masculino e feminino do 3º andar. 

porta retrato

Porta-retrato 3

As carinhas miúdas dos pequenos no canguru, agarradas às mães para crescer logo. Em especial a de um pai canguru, coisa rara de se ver, que vem ficar agarrado com o seu primeiro filho. 

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Porta-retrato 4

As brincadeiras nos cabelos esvoaçantes, feito nas propagandas, nas enfermeiras e médicas caprichosas. 

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Porta-retrato 5

A risada do J. ao ouvir a gente cantar para ele tremelicar na UTI. 

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Porta-retrato 6

A Sandrinha da UTI neo externa cheirando o sovaco cabeludo do Dr. Dud Grud. 

porta retrato

Porta-retrato 7

Todas as evoluções médicas que fizemos nos setores. Mesmo quando ocupados e estressados, os médicos e médicas pararam para dançar o hit da semana. Sem deixar de dizer: equipe unida permanece unida.  

porta retrato

Vamos ter que parar por aqui, gente. Não temos muito espaço nas nossas casas para tantos porta-retratos, nem dinheiro para comprar todos os que queremos.

Esses vão suprir a saudade e o carinho por toda equipe do HBL que fez a gente acreditar cada vez mais no que fazemos!

Dr. Lui (Luciano Pontes) e Dr. Dud Grud (Eduardo Filho)
Hospital Barão de Lucena – Recife

Banda Calypso Nervoso

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Todo mundo sabe que o hospital já não é mais aquele. Hoje em dia, diversas ações fazem parte da recuperação dos pacientes.

Além da visita dos besteirologistas, os pacientes recebem contadores de histórias, cachorro e até gente famosa.

E fofoca vai e fofoca vem, quem apareceu para uma visita tsunâmica foi a Banda Calypso Nervoso, com Svenzaelma e Chimbinhagrud desmentindo tudo que a mídia vem dizendo sobre separação do casal.

svenzaelma e chimbinhagrud

A verdade, contaram, é que a vocalista seguirá carreira solo e que eles estão à procura de uma substituta para o seu lugar. O resto é fofoca! 

A presença deles causou muito rebuliço. As pessoas não se aguentavam e caíam no ritmo! E teve até competição de dança! O grande momento veio ao som do aclamado sucesso nacional “Cavalo Manco”:

“Um passinho pra frente
Um passinho pra trás
Mexendo os ombrinhos
E bate-cabelo!”

Pra quem não conhece, o tal bate-cabelo é aquela velha jogada de cabelos de frente pra trás. Teve candidata que batia cabelo e fazia pose de ballet clássico, de Carmem Miranda, teve até quem ficasse tonta.

No final a decisão foi difícil… Mas podemos afirmar que houve empate técnico entre todas as participantes de plantão! Ufa! 

Dr. Dud Grud (Eduardo Filho)
Hospital Barão de Lucena – Recife