Daqueles momentos em que nenhuma palavra substitui a presença

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Ele é daqueles meninos que a gente bate o olho e sabe que é especial. É feito algodão doce, suave e fofinho, daqueles de conversa boa e mansa. 

Tem aproximadamente 11 anos, mas com a seriedade de um adulto, que parece que já passou por tantas coisas e optou por olhar os outros com afeto e leveza. No primeiro encontro nos deu um abraço apertado, e no fim do dia nos procurou para dizer que acha muito bonito o nosso trabalho.

Barão de Lucena - Lana Pinho-53

 

Agradecemos, ficamos surpresos. Não pela frase em si, mas por esta frase ter vindo de uma criança. E de abraços e brincadeiras seguiram nossos encontros. Até um dia em que eu, Svenza, e o Dr. Marmelo soubemos que o menino receberia alta. Foi ele mesmo que deu a notícia – e saiu de cabeça baixa.

- Por que está triste?, perguntamos.
- Tô triste porque vou sentir saudade de vocês, respondeu ele com voz de algodão doce.

E debruçado numa janela, suas lágrimas escorriam nas suas bochechas. Marmelo ainda tentou consolá-lo, dizendo que ele podia ver a gente quando quisesse na internet. O menino disse que não podia não, pois seu pai não deixava sua mãe ter internet.

Paramos. Nesse momento também nos debruçamos na janela. Despencamos. Silêncio.

Uma luz forte de dia iluminava nossos rostos e penetrava nossa alma. Pensei em como ele mais velho se lembraria da gente (e “se” lembraria). Tentei organizar na minha cabeça palavras que dissessem sobre como foi bom E. ter estado naquele hospital, naqueles encontros.

Achei que seria justo que ele soubesse da sua importância no meu mundo, nesse mundo. Mas os pensamentos vinham acelerados e escolhi ficar calada. Daqueles momentos em que nenhuma palavra substitui a presença.

IMIP - Lana Pinho-97

 

Ficamos ali, os três, sabendo da importância um do outro. Senti alegria por ele nos levar onde quer que vá. Devíamos ter trocado endereço, queria lhe mandar cartas! Fiquei curiosa por saber se aquele menino irá se transformar em homem ou foi apenas um sonho para nos trazer leveza nesses dias conturbados, esquisitos e desumanos. 

Luciana Pontual, mais conhecida como Dra. Svenza,
escreve do Hospital da Restauração, em Recife.

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A peleja do noivo que tentou enganar a noiva na Festa de São João ou vice-versa

Tempo de leitura: 4 minuto(s)

Em pleno mês de São João e com a inspiração em alta, depois do cordel de despedida dos profissionais de saúde, os palhaços levaram aos hospitais do Recife uma criação inusitada.

GAC-PROCAPE-   Lana pinho-79

Trata-se de “A peleja do noivo que tentou enganar a noiva na Festa de São João ou vice-versa”. Criado por Arilson Lopes e encenado pelo elenco pernambucano do Doutores da Alegria, o cordel tem sido motivo de aplausos e gargalhadas nos hospitais. Pra quem não sabe, a literatura de cordel é um gênero literário popular que se dá na forma de rimas cadenciadas. Olha só um trecho com a Dra. Baju e o Dr. Marmelo e acompanhe, abaixo, o cordel inteiro. 

 

Cordel São Joãoilustração: Luciano Pontes | produção: Nice Vasconcelos

 

Bom dia, meninada
Meu sinhô, minha sinhora!
Puxe o banco e sente logo
Se avexe, sem demora
Porque tô aqui doidinho
Pra contar essa história

Tanto tempo encalhado
Marmelo se aperriô
Fez promessa pra Antônio
O santinho protetô
Pra arranjar casamento
E acabar com sua dor

Em troca daria ao Santo
Na festa de São João
Uma peruca novinha
Coisa fina, de barão
Contanto que em sua busca
Não houvesse confusão

É que Marmelo era frouxo
Feito chapa sem Corega
Tinha medo de injeção
De barata, de pereba
Mas dizia que com ele
Não tinha choro nem vela

Amuntô em Dud Grud
Seu jumento Alazão
Partiu no mundo sem rumo
Seu guia era o coração
Encontrou três faladeiras
Fuxiquinha, Fuxiqueira e Fuxicão

Contou ao trio seu dilema
Que se apressou a falar
Entoou o seu refrão
Ô ô xá lá lá lá lá
E disse: “Quem tu procura
Mora na casa acolá”

Marmelo avistou de longe
A casinha de Baju
Imendaram as fuxiqueira
“Uma flor de mandacaru
É uma moça aprumada
Dava certinho mais tu”

Ele arriô de Alazão
Se aproximou de fininho
E ao chegar no pé da porta
Se assustou com um passarinho
Que fugia da donzela
Ía depressa pro ninho

Caiu de bunda no chão
Bem na frente de Baju
Que apontou o estilingue
Pra ele, não pro anum
O coitado atrapalhado gritou
“Vim casar com tu”

Ela nem contou conversa
Aceitou o compromisso
Se afeiçoara a Marmelo
Seu cabelo de ouriço
O seu nariz engraçado
E seu ar de pouco juízo

Nasceram um para o outro
Como o sapo é pra jia
Como o leão pra leoa
Como a torneira é pra pia
A baleia pra baleia
O Tonico pro Tinoco
E o riso pra alegria

Baju correu lá pra dentro
Voltou trazendo um vestido
Branco, já amarelando
De mofo um pouco fedido
Pendurou pra levar sol
Tudo certo pro casório
Só faltava o pedido

“Ôxe, outro?” – Ele indagou
Ela explicou então:
“Oficialize o pedido
Peça a meu pai minha mão
Ele saiu, volta já
Dele já ouviste falar
É Mircolino Lampião”

Ouvindo o nome do sogro
Marmelo pôs-se a tremer
Seu cabelo arrupiô
Se preparou pra correr
Fingindo pediu: “Tem água?
Queria tanto beber…”

Ela atendeu seu pedido
E foi lá dentro buscar
Marmelo desesperado
Não parava de suar
Se aproveitou do momento
Amuntô-se em seu jumento
E fugiu pro Arraiá

Atrapalhado, Marmelo
Se enganchou no vestido
Pendurado no varal
Na pressa o levou consigo
Pensou: “Me visto de noiva
pra escapar do perigo”

Baju voltou com a água
E tudo se apresentou
O noivo tinha fugido
Feito o anum que voou
Pro pai contou num bilhete
E partiu feito foguete
No rastro do seu amor

No Arraiá era dia
De fogueira de São João
Tudo pronto pra festança
Era certa a animação
Marmelo, agora de noiva,
Se escondeu no salão

Baju chegou em seguida
Reconheceu Alazão
Pensou “Tô pertinho dele
Esse sujeito cagão
Que tem medo do meu pai
Mircolino Lampião”

Parou no meio da praça
Conteve a respiração
Não sabia o que fazer
Qual seria a solução
Encontrou com as faladeiras
Fuxiquinha, Fuxiqueira e Fuxicão      

- “Mulé, que foi? Fale logo!”
- “Adoro uma confusão”
- “Tô procurando um sujeito!”
- “Sujeito tem de montão”
- “Tem gordo, baixo, comprido”
- “Tem até um de vestido”
- “De noiva, num visse não?”

Ouvindo isso correu
Deixou o trio sem ação
Procurou o Rei do Milho
Que tava na ocasião
Era amigo de infância
Quase irmão de criação

Pediu a ele emprestado
Camisa, calça, gibão
Ela se vestiu de noivo
Tinha achado a solução
Casava com a noiva Marmelo
E acabava a confusão 

 

O Rei do Milho cedeu
Aos caprichos de Baju
Emprestou a melhor roupa
“Óia, foi feita pra tu!”
Lui é o nome dele
Vibrava com o buruçú

Ela foi de um em um
E nada de encontrar
Perguntou pras fofoqueira
As espiãs do lugar
Que foram logo apontando:
“Ô ô xá lá lá lá lá
Aquele que tu procura
Correu pro lado de lá”

De repente, ouviu-se um grito
De voz conhecida por lá
Mircolino Lampião
Chegava pra clarear
Ía encontrar o danado
No escuro que tivesse
Pra fazer ele casar

Mircolino assim cantava:
“Ói eu aqui de novo xaxando
Ói eu aqui de novo para xaxar”
Todo mundo acompanhava
Cantava e procurava
Ninguém podia parar

O pai escutara a fofoca
Tinha lido o bilhete
Já sabia a trama toda
Da palha ao alfinete
Praquele que o ajudasse
Ele pagava um sorvete

Esse era um homem bom
Brincalhão, era um ator
Ía gritar a quadrilha
Foi pra isso que chegou
Aí entrou na esparrela
Pra ajudar sua flô

Baju foi até seu pai
Disfarçada de menino
Se revelou só pra ele:
“Tenho um plano, segue o tino,
Sei onde tá Marmelo
Vou selar nosso destino”

Arrudiaram o salão
Até num canto encontrar
Uma noivinha amuada
Nem sabia disfarçar
Baju falou para o pai:
“Olha o que eu achei aqui!”
Ele pôs-se a interrogar

- “Como é teu nome?”
- “É Marmela, mas isso só pro sinhô”
- “Mulé de bigode, Marmela?”
- “É buço! Faça o favor!”
- “E esses cabelos na perna?
Faz tempo que depilou!”
- “Eu sou assim cabeluda!
É de família, um horror!”

- “Não adianta enganar
Eu já sei quem é você!”
- “E quem sou eu? Diga não!
Tenho medo de morrer!”
- “Pois se seu medo for esse
Vamo logo resolver!”

Baju se jogou no meio
Entre o pai e o seu amor
Tava tudo combinado
Só pra fazer o caô
Ela rogou pela vida
Daquele que a enganou

Marmelo se emocionou
Com a coragem de Baju
Disse: “Êpa, corri com medo
Do teu pai, num foi de tu!
Caso contigo agorinha
Te procurei norte a sul”

“Se ele poupar minha vida
E aceitar nosso amor
Pago a promessa pro Santo
Num sou de dever favor
E a festa acontece
Com alegria e fervor”

Santo Antônio apareceu
Na festa de São João
Trouxe São Pedro consigo
Cobrou peruca e quentão
Marmelo pagou a dívida
E acabou-se a discussão

“Solta o rojão!” – gritou Lui
“E bota esse trio pra tocar”
As fuxiqueiras gritaram:
“Ô ô xá lá lá lá lá
Forró só se for agora
Pegue seu par, vem dançar!”

Dud Grud entrou na roda
Já não era mais jumento
Agora ele era fogueira
Um bom papel pro momento
Se acendeu tocando fogo
Nos cabelo que trazia
No sovaco fedorento

Esse causo assim contado
Dá até pra encenar
Eita, tive uma ideia!
Vamo levar pro hospitá
Vai ser bonita essa peça
As criança vão gostar

Nós é Dotô da Alegria
Tu já ouvisse falar?
Sim! Da besteirologia
Uma ciência arretada
Depois te conto, ôto dia
Hoje o assunto é São João
São Joãozim, como eu diria

Vixe, o traque estourô
Tenho que subir agora
Até logo, meninada!
Meu sinhô, minha sinhora!
Já demorei o bastante
Desenrolando essa história
É tudo coisa inventada
Mas tá no sangue, é memória

Cresci menino com isso
Com a festa de São João
Colheita, comida de milho,
Quadrilha, forró, tradição
Vi tudinho aqui de cima
Prazer, me chamo Balão!

Eita, tá ouvindo?!

“O Balão vai subindo
Vai caindo a garoa
O céu é tão lindo
A noite é tão boa
São João, São João
Acende a fogueira
Do meu coração
São João, São João
Acende a fogueira
Do meu coração”

 

GAC-PROCAPE-   Lana pinho-100

Eu te via, mas não te enxergava

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Quantas coisas passam despercebidas ao longo do dia. 

A janela aberta nos ofertando paisagens e soprando brisas. O passarinho cantando no portão, até que ouvi, mas nem olhei e já esqueci. O café da manhã feito às pressas. Olhando a TV nem percebi que já comi, será que estava bom? Bom, não dá tempo de repetir. O vizinho deu bom dia, mas passei com o vidro fechado e o fone de ouvido alto. 

Barão de Lucena - Lana Pinho-5

Pego o caminho da praia, lembro-me de apreciar no primeiro minuto, depois me perco em pensamentos e acelero. A hora não espera e na fila do elevador ninguém conversa, os olhos estão interessados em outras vidas habitadas em redes sociais.

E lá vamos nós dando início aos likes de cada dia. Estou perdendo o controle, sinto necessidade de pegar o celular e gastar tempo, hipnotizada por esta tela que me diz mais dos outros do que de mim. Faz muito tempo que visitamos a UTI e sempre encontramos alguns pacientes que moram lá. 

E talvez por isso eu via, mas não enxergava algumas coisas. 

Barão de Lucena -  Lana Pinho_-23

Depois de tantas visitas, parando no leito e falando, pela primeira vez eu enxerguei os olhos dela, uma garotinha de uns três anos. Foi em um desses segundos que tudo congela e fiz questão de gastar meu tempo olhando para aqueles olhos, e pela primeira vez nos conectamos. 

Senti vergonha por não ter parado naquele olhar antes. Percebi que ela tem olhos verdes e a pupila dilatada. Da íris à alma. Sim! A partir desse encontro, mesmo sabendo antes que existia vida ali, fui levada para além do que pode ser visto. Uma menina que há muito tempo mora ali, cuja rotina se limita a sentar e deitar, cuja paisagem são outras crianças, muitas paralisadas.

Não tem esconde-esconde, amarelinha, seu rei mandou. 

Pequenina, vou pedir à dona Chica que ela não atire mais o pau no gato, e que seu rei mande o rato parar de roer suas roupas. Que a Bela Adormecida desperte e venha brincar com você. Quem sabe Aladdin empreste o tapete voador para darmos umas voltinhas no País das Maravilhas e, por favor, pequena, não vamos aceitar nenhuma maçã!

Sim, existem pessoas nesse mundo e no encantado que não são tão boas… Precisamos estar atentas. Quando estiver ficando escuro, a gente dorme e sonha e amanhece para sonhar mais. Que a vista da janela lhe oferte sempre arco-íris. E que seus olhos grandes e contadores de histórias estejam sempre brilhando, dizendo tanto de você.

Barão de Lucena - Lana Pinho-53

Prometo não mais passar sem antes enxergar aquela que habita por dentro do olhar. 

E mesmo só nos olhando, é tanta conversa calada, e mesmo sem falar muita coisa, eu sei tanto dela e ela de mim. Pequena, com você aprendi a parar e contemplar; e enxergar e calar dizendo muito. Porque conversa boa também pode ser conversa calada.

Dra Svenza e Dr. Lui,
mais conhecidos como Luciana Pontual e Luciano Pontes,
direto do Hospital da Restauração, em Recife.

As subidas e as descidas de cada dia

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

A vida da gente segue como uma escada, penso eu. Às vezes sobe, outras desce, mas geralmente sobe e desce.

E foi numa dessas descidas à UTI, no 2ª andar, que conhecemos um garoto de cabelos compridos, parecidos com os do Alceu Valença. Ele quase não se mexia, com tanto equipamento ligado a seu corpo. Mas uma porta abriu, pelo olho vivo, na chegada da nossa voz falando baixinho no seu ouvido.

Barão de Lucena - Lana Pinho-59
E eis que uma escada surgiu no caminho e, para subir, tivemos que descer. 

Como tudo era desconhecido, fomos devagar para não assustar o menino e, aos poucos, descobrimos como eram boas as dificuldades encontradas em cada degrau. Resolvemos, entre tantas visitas, fazer uma música e, para nossa galgada rotina, ele nos surpreendeu quando dançou com os olhos, num mexido bailante onde todo seu corpo estava conectado, denunciando o desejo de se mover.

A alegria estampava nossos rostos e olhos, que também sorriam. 

Barão de Lucena -  Lana Pinho_-17

O acontecimento virou notícia no setor e era comum fazermos bailes com muita gente ao redor só para ver o menino dançar com a Íris, menina que dizem morar nos olhos. Um dia, depois de descermos alguns degraus, reencontramos ele numa outra cama, com menos equipamentos ligados ao seu corpo.

E para arrepiar os cílios dos olhos, ele ecoou um som com a língua, como se estourasse uma bolha de sabão no ar. A gente parecia criança quando ganha brinquedo novo. E se o garoto tivesse um botão, daríamos play infinitas vezes para ouvir o som de bolha que saía de sua boca. 

Naquele dia, subimos um dos degraus mais bonitos, porque a evolução de um paciente é como a chegada de um presente sem data marcada, uma alegria que não cabe numa caixa e nem precisa de embrulho. Daqueles presentes que todo mundo brinca junto e vai pra casa feliz. 

Barão de Lucena -  Lana Pinho_-29

Ele já é um dos vocalistas da “Banda Vuó” e o sucesso tem sido tão grande que agora a gente sobe mais degraus do que desce. E com um passo atrás do outro, podemos chegar à Lua. 

Dra Svenza e Dr. Lui,
conhecidos fora dos hospitais como Luciana Pontual e Luciano Pontes,
direto do Hospital da Restauração, em Recife.

Dançando no escuro

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Muito bom começar o trabalho com o pé direito. Dentre tantos encontros especiais, pedimos licença para falar de M.

É uma paciente de uns 12 anos. Encontramos a menina sentada na cama com sua bengala; ela é deficiente visual. Chegamos perto e nos apresentamos como besteirologistas.

E então pedimos para que ela colocasse a mão em nosso cabelo, em nosso nariz e, de quebra, em nosso “popô”. Quando descobriu, vejam só, disse que ia lavar as mãos!

IMIP - Lana Pinho-19

- Você quer dançar?, perguntamos.
- Se minha mãe deixar…
- Deixa, mãe, deixa! Dançar não é coisa que se negue, que se proíba!
, dissemos formando uma torcida desorganizada. 

Sua mãe sorriu e permitiu que dançasse. Não demorou nada para que M. saltasse da cama e mexesse ao som do carimbó.

Braços pra cima, braços pra baixo
Só falta bater a mão, batendo também o pé ♪♫

Barão de Lucena - Lana Pinho-146

A menina simplesmente arrasou. Sua mãe tentava conter o vazamento que há pouco havia começado em seus olhos. Tão bom ter conhecido M.!

Quando fechar os olhos, vou lembrar da menina que, de olhos abertos no escuro, enxergava o arco-íris.  

Dra Svenza e Dr. Lui,
conhecidos fora dos hospitais como Luciana Pontual e Luciano Pontes,
direto do Hospital da Restauração, em Recife.

Sentidos e sentimentos

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Comecei a ficar mais atento aos meus sentimentos. Observei que, numa mesma enfermaria, eu passava por vários afetos.

Restauração -  Lana Pinho_-53

Certa vez, dentro da UTI, eu e Dr. Dud Grud ficamos felizes ao ver as enfermeiras charmosas, com medo ao lembrar que eram casadas e tristes por continuarmos encalhados. Quando saímos da UTI, olhei para o leito que era de um paciente querido e daí bateu a saudade. Mas logo desejei que o ele estivesse bem. Só isso. Isso é amor.

Olha só quantos sentimentos vivenciamos em poucos minutos. Fui afetado e fui afetando! Isso é a gasolina do palhaço, o que faz o palhaço mover. 

Parece que os adultos acreditam que é perigoso sentir. A criança não tem medo de sentir. Fui tentar entender na prática e na teoria o que significam alguns sentimentos e outras palavras que o tempo todo batem aqui no meu coração.

Busquei entender algumas questões no livro PALAVRA DE CRIANÇA, de Patrícia Gebrim:

Fracasso 

É uma coisa que a gente sente quando só quer fazer coisas certas. Não é verdade que a gente fracassa. Às vezes a gente erra, mas aí é que a gente aprende a fazer uma coisa ainda melhor.

Saudade 

É quando a gente sente uma pessoa dentro da gente; aí lembra que gosta dessa pessoa e fica querendo dizer isso pra ela, mas às vezes ela está longe e a gente só pode dizer em pensamento, mas a gente diz, e ela escuta mesmo assim.

Restauração -  Lana Pinho_-55

Medo 

É um bicho peludo de cara feia que faz a gente querer fechar os olhos e se esconder, mas quando a gente arrisca e conversa com ele, a gente descobre que a cara dele não é tão feia assim. Converse com seu medo. 

Cura 

É quando a gente pega a doença no colo e pergunta o que ela tem. A gente deixa ela falar e presta muita atenção, e quando ela termina, já não tem mais nada pra curar.

Restauração - Lana Pinho-166

Vergonha 

É quando a gente não aceita a gente mesmo e acha que ninguém mais vai aceitar. Se a gente pudesse ser mais carinhoso com a gente mesmo, ia respeitar mais as escolhas que fez, e não ia ter vergonha de ser quem a gente é.

Restauração - Lana Pinho-44

Doença 

É uma sirene bem barulhenta que a gente tem dentro da gente. Toda vez que nosso coração fica apertado ele grita bem alto, mas ás vezes a gente está distraído e nem ouve, aí ele toca a sirene pra gente saber que ele está precisando de nós.

Vida 

É que nem um presente embrulhado em um papel colorido. Tem gente que guarda o presente pra abrir depois, mas isso é muito sem graça. Legal mesmo é fazer aquela festa, rasgar o papel e abrir o presente… no presente.

Restauração -  Lana Pinho_-49

Morte

É quando a lagarta já aprendeu tudo sobre a vida das lagartas, aí ela se fecha numa casinha apertada chamada casulo, nascem asinhas nas suas costas e ela vira uma borboleta bem bonita e sai voando por aí, aprendendo um monte de coisas diferentes. Se entrega com confiança às transformações.

Bom humor

É quando a gente descobre que a vida é uma grande brincadeira. Aí a gente sabe que as coisas que acontecem são de mentirinha, que nem nos filmes, então a gente começa a brincar de viver e tudo fica muito mais divertido. Ser menos sério.

Curador 

É uma pessoa que sabe que não pode curar ninguém. Ela sabe que cada um é seu próprio curador e ajuda você a descobrir isso. O curador é uma pessoa que tem muito amor.

Restauração -  Lana Pinho_-46

Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

Um tapa no visual

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

- E você entende o que estamos fazendo aqui? Todas as segundas e quartas, faça sol ou faça chuva, feriado ou aniversário, estamos aqui. Cuidamos de besteira, tolice, pum frouxo, pulga atrás da orelha, grilo na cuca, caspa no joelho, chulé encravado, dentre outras mil duzentas e oitenta e três especialidades.

A menina já tinha entendido tudo. Com 12 anos, cabelos ondulados que batiam na metade das costas, sua pele cor de chocolate com muito leite e um sorriso que abria buraquinhos na bochecha, nos acompanhou durante meses. Seguia-nos em quase todas as enfermarias e chegou até a sugerir tipos de procedimentos besteirológicos. 

Tudo pra ela era como se estivesse acontecendo pela primeira vez. A gente não podia mudar um botão da roupa que ela percebia.

Restauração -  Lana Pinho_-55

Em um dia desses, andando pelo corredor, percebemos que ela não estava. Encontramos com sua mãe, um pouco chorosa. Disse que a filha tinha ido fazer uma cirurgia. Não estava muito bem fisicamente. Sabíamos que era uma neurocirurgia, e que não era a primeira.

 – Ela está um pouco sonolenta e debilitada. Não está no andar, está no bloco cirúrgico, contou a mãe. Quando estava a caminho, ela lembrou que era dia da visita dos palhaços. Lá do corredor do bloco cirúrgico, ela ouviu a canção que vocês cantarolavam, e balbuciou “olha eles, mãe, estou ouvindo!”.

Dias depois encontramos com a garota, que voltou com um corte de cabelo radical: metade raspado e metade grande.

O Dr. Dud Grud disse que vai pensar seriamente em aderir à nova tendência da primavera/verão e quer “dar um tapa” no visual. Dr. Marmelo está até agora correndo atrás dele de mão aberta!

Dr. Dud Grud (Eduardo Filho) e Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

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O mistério da calçola perdida

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Uma calçola no hospital! De quem será tamanho infortúnio? Deixaram a peça de roupa íntima jogada no balcão da UTI. A notícia nadou feito vento e circulou mais que liquidificador.

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Decidimos provar em todas as pessoas que passavam. Na Dra Ana Helena ficou muito folgada. No Dr. Joselito parecia um maiô. A Dra Clarice nem provou, disse que desconhecia a origem e o sotaque dessa peça de roupa.

Provamos a calçola em todas as crianças. No bebê dormindo parecia um cobertor de lã. Não achamos o dono. Pensamos em levar pra casa e transformá-la em toalha de mesa, em uma cortina, ou até mesmo um paraquedas. 

DRs_HBL_Foto RogerioAlves__124

Mas depois lembramos que faltava uma pessoa provar: DONA MARIA! 

A raiz do seu cabelo era branca, tinha 65 anos, um metro e meio de altura, negra e sempre estava a organizar uma mochila. Enquanto o seu neto, de aproximadamente quatro anos, soltava tímidos sorrisos de canto de boca com a nossa presença, ela gargalhava que espantava os pombos que pousavam na janela. Parados na porta, dissemos:

- Aqui está a calçola. A senhora é a única que não provou.

O neto esperava a reação da avó. Dona Maria foi logo dizendo:
- Não, não vou provar!
- Vai, vó!, disse o neto.

Vendo toda aquela súplica, Dona Maria vestiu a calçola. TAM TAM TAM TAAAAAAAAAAAAAAAAM!! Analisamos, olhamos, tiramos foto dela vestida de frente e verso e fizemos até selfie, é claro. Dr. Marmelo fez um pronunciamento:

– HUM!!! Bem, como o presente, devemos analisar, em decorrência dos relatos dos achados e perdidos, das circunstâncias dadas, do curto-circuito interno de TV e, em detrimento dos fatos estabelecidos com o ocorrente caso que se avariou sobre os latifúndios, as trocas de plantões subversivas e o capitalismo selvagem… A CALÇOLA É DA DONA MARIA!

Ouviu-se um levante geral: ÔÔÔÔÔÔEEEEEEEEEEEE!!! 

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Dona Maria desfilou pela enfermaria com a calçola como se fosse um vestido de noiva! E depois de tudo, já na salinha depois do trabalho, concatenando com os nossos botões, víamos claramente uma criança que se mostrava um adulto sério e Dona Maria uma criança sorridente, disponível para o encontro e a brincadeira.

É normal uma criança confiar no adulto. O adulto tem mais experiência, é seu espelho. Mas bom mesmo é o adulto confiar na criança também e se permitir momentos lúdicos e de transformação. Então, se a criança pede… 

Dr. Dud Grud e Dr. Marmelo (Eduardo Filho e Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

Amor líquido

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

A morte nos ensina a amar. Quem vai tem que ir e quem fica tem que deixar ir.

Muitas pessoas perguntam como é conviver com a morte de crianças na nossa rotina de trabalho. É uma resposta bem pessoal, cada besteirologista vê de uma forma. O que é comum entre a gente é a ressignificação que damos à morte: a criança vira flor, borboleta, estrela, ar, fogo, água, terra, pássaro… 

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C. tem 10 anos, seus olhos engolem tudo o que vê. Também, quanta novidade! Tinha acabado de chegar à UTI e seu pai esperava do lado de fora.

- Tem algum recado para ela?, perguntamos. Ele deu uma lágrima, amor líquido.

Contamos para ela todas as fofocas do hospital, até a paquera do Dr. Dud Grud com o porta soro… A prosa na beira do leito rolava solta. Ela morava na mesma cidade em que passei toda minha infância e estudava no mesmo colégio que estudei quando criança! Puxa, trocamos várias figurinhas!

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Disse pra ela que adorava a hora do recreio, tinha cheiro de coxinha frita no ar. Disse que mudaria a cor da batina do padre e que colocaria mais água dentro da piscina do pátio. C. nos engolia com seus olhos… 

Certa manhã, encontramos com sua mãe e seu pai em frente à UTI.

Restauração -  Lana Pinho_-47

 

Não tinha muita gente transitando no local e estavam os dois em silêncio. Na metade do corredor eles nos perceberam. A mãe olhou pra gente e começou a chorar. Na mesma hora tiramos uma flor, de plástico mesmo, do jaleco e entregamos a ela. Falamos que ela poderia regar a flor com sua lágrima. 

Nesse mesmo dia, fomos até o leito de C., que estava dormindo. Embalamos seu sono com uma canção. Durante o final de semana, recebemos a notícia da sua morte. A vida deu oportunidade a quem rodeia C. de aprender a amar. Aprender a deixar ir, soltar.

Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

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Tempo de retornar

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A gente visitava Emily toda semana, às segundas e quartas, desde que ela tinha dois anos. 

Ano passado, aos cinco anos, muita coisa mudou na vida dela. Ela esticou, começou a falar, seus dentes de leite tomaram toda a boca, mudou de leito e ganhou um carrão com motorista particular – uma cadeira de rodas pra se locomover pelo Hospital da Restauração, em Recife, onde ela morava. 

Emily não gostava que ninguém chorasse perto dela, e logo saía da sua boca o comando:
- Engole o choro! – por sinal, nunca vimos uma lágrima sua. 

Apesar de ter nascido com uma doença que impede grande parte dos movimentos, Emily brilhou como a balizinha do Bloco do Miolinho Mole neste ano.

Doutores HR  - Lana Pinho-19

No final de março, a gente se despediu.

Através de uma cartinha daquela campanha dos Correios, Emily conseguiu os aparelhos de que precisava para poder ir para casa; e a sua cidade, Brejo da Madre de Deus, em Pernambuco, foi só festa para receber a pequena. O vídeo abaixo mostra um pouco dessa história:

Emily, sentiremos sua falta às segundas e quartas, mas estamos certos de que encontrará alegria em sua casa, junto à família! Saúde e muita bobisse!

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