O que você carrega no seu vazio?

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O vazio existe? Tenho a impressão de que não.

No trabalho, nós, palhaços, aprendemos a trabalhar o vazio. É o que acontece muitas vezes na porta de uma Enfermaria, por exemplo, pois não dá pra saber o que está por vir. Cada encontro é único – igual à cada pessoa – e é preciso estar, simplesmente, aberto. 

Acontece que isso não é nada fácil. De repente, estamos ali, parados, sem acontecer patavina e todos estão nos olhando, esperando que algo aconteça.

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Às vezes, o estímulo vem de dentro da Enfermaria, por meio da criança, de seu acompanhante ou de quem quer que seja que esteja ali naquela hora. Outras vezes, somos nós que levamos alguma proposta. E, outras vezes, aparece o vazio. Ao longo dos treinamentos e da prática, entendemos que esse vazio também faz parte do nosso exercício e é precioso ao trabalho.

É o vazio que nos faz dar espaço às surpresas, ao risco, ao novo. E, por isso mesmo, ele nos dá um pouco de medo porque é como estar de olhos vendados e, ainda assim, dar o próximo passo. Por outro lado, o vazio também nos fortalece, pois vamos ganhando confiança à medida em que nos aventuramos nele. Pode dar tudo errado – e a gente sobrevive. E também pode dar muito certo, e é uma delícia. Nas duas formas, ganhamos. 

A questão é que esse vazio não me parece nada oco. Ele tá preenchido de alguma coisa.

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Quando não, de algumas coisas. Se ele está ali, está ocupando algum lugar no espaço, ainda que não o vejamos, concorda? Entrar na enfermaria do M. é tudo isso pra mim. Mesmo cada vez mais debilitado, a sua disponibilidade se agiganta diante da minha limitação.

- M., a gente pode tocar uma música pra você?

Ele responde que sim, articulando pouco a sua fala e com um volume que faz o encontro ser ali, bem de pertinho com ele, campo de muita intimidade. Continuo:

- Você quer que a gente toque aquela ou a outra?
- Aquela.

Tocamos uma música e, no fim, ele disse “Miau!”, resposta de grande reflexo para a canção Atirei o pau no gato, mas que muitos se intimidam de dar. Ele não. 

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Acho que M. tem uns oito anos e, diante dele, me sinto zerada, sem saber fazer nada. Mas cheia de coisa dentro.

Os físicos, astrofísicos e tantos outros sabidos deverão falar de coisas como oxigênio, gases, partículas, etc. Eu, Baju – doutora em Besteirologia – tô falando de algo que não se pode medir. Talvez seja assim: cada um sabe o que carrega no seu vazio. 

Juliana de Almeida, conhecida como Dra. Baju,
escreve do Hospital Universitário Oswaldo Cruz e Procape, no Recife.

Mãe é tudo igual? Conheça estas do hospital

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Já ouviram aquela: “Mãe é tudo igual”? Pois bem, as mães que encontramos nos hospitais merecem um estudo aprofundado. E foi o que fizemos.

Acreditem: cada ala do hospital tem sua mãe característica. Em comum, elas têm força e dedicação. Algumas nos provocam, outras desconfiam, muitas nos pegam emprestado e brincam feito crianças. Em homenagem ao Dia das Mães, vamos apresentar quatro tipos mais frequentes que estudamos.

Mãe da neonatal

Tem cara de sono e dorme na primeira oportunidade. Se a gente não tomar cuidado, pode dormir no meio do atendimento. Não entendemos o motivo, pois aqueles anjinhos vivem dormindo, não choram, não comem feito pintinhos, não fazem caquinha na fralda, não dão o menor trabalho… 

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Mãe da enfermaria

Divide espaço com outras diversas mães. Todas se chamam pelo nome (“Olha, Ana, os palhaços estão mangando de tu!”), conhecem as preferências umas das outras (“Toca sofrência, palhaço, que ela gosta!”) e entendem muito de Psicologia Social (“Foi aquela ali que falou, palhaço! Ela é barraqueira!”).

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É a mais animada, falante, dançante e implicante. Não sabemos bem como ela desenvolve essa capacidade, mas consegue simultaneamente arrumar o cabelo, passar sermão no marido, trocar fralda, falar ao celular com a comadre, prestar atenção no que estamos fazendo e, se desconfiar que estamos falando dela, pode, do nada, correr atrás da gente. Ou seja, precisamos estar sempre alertas!

Mãe do canguru

Está sempre às voltas com as seringas de leite. Típica mãe do “coma só esse pouquinho, meu filho”. Todas as vezes que chegamos lá, está alimentando o bebê. Agora sabemos de onde vem essa coisa das mães sempre acharem que os filhos estão magrinhos e precisando comer mais: vem lá do canguru. 

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Ah, sim, todas as “canguretes” amam usar um sutiã gigante especial onde carregam os bebês. Já virou moda por lá.

Mãe da UTI

A mais silenciosa… Quando está lá dentro.

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Contudo, outro dia encontramos com a… Bem, vamos poupar a sua identidade, chamaremos de Celinha. Encontramos a Celinha sentada em uma cadeira, apartada de todos, num canto da UTI. Estava de castigo, entendemos logo. Fizemos exames e liberamos a Celinha para o convívio social! Quando estão do lado de fora, as mães da UTI se juntam em grupos que parecem reunião de bazar.

Mãe quebrada

É a mãe que acabou de perder seu filho. Não sabemos outro nome para designar essa mãe, porque quando a olhamos podemos ver um vaso partido, quebrado em mil cacos. Por uma força inominável, ela não se desfaz. Não sabemos narrar essa mãe, temos ausência de palavras.

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Mas Eliane Brum, escritora e jornalista, achou palavras no escuro do silêncio:

“Só naquele momento, ao apalpar a dor das mulheres cujas crianças viveram mais no seu desejo do que na vida, alcancei a soleira da dor da minha mãe por aquela filha (já morta). Maninha não tinha vivido apenas cinco meses, já que o tempo de um filho não se mede por dias, meses ou anos. Um filho é mundo sem tempo. Eu estava diante de mulheres empaladas pela dor. O resto era mal-entendido. Há mal-entendidos demais numa vida humana.” (Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum).

Uma homenagem a todas as mães. Iguais ou não.

Eduardo Filho, mais conhecido como Dr. Dud Grud, e Greyce Braga, a Dra. Monalisa, escrevem do Hospital Barão de Lucena, em Recife.

Eu sei muito bem com quem você está agora, viu?

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Pense numa criança com a resposta na ponta da língua. Pensou? Agora multiplique por oitenta e sete.

A danada nunca deixava passar uma e toda a sua implicância se voltava para o Dr. Marmelo. A menina se dizia minha amiga e sempre queria me ver derrotando Marmelo. Acontece que, um dia desses, ela achou de cismar comigo e de ficar do lado dele – não entendi nada!

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Cumprimentamos a menina assim que entramos em sua enfermaria. Eu fui perguntar  alguma coisa a ela, que me respondeu sonoramente:

- Vai ajeitar esse cabelo de vassoura!

Eu não pude acreditar. Marmelo caiu na risada junto com toda a enfermaria. E eu fiquei pas-sa-da! Ela silenciou, mas ficou segurando o riso com a mão na boca. Fui tirar satisfações com a mãe dela, e daí ela não se segurou:

- Não fale assim com a minha mãe que ela tá grávida! Minha irmãzinha tá dentro da barriga dela…

Mais uma vez, eu fiquei passada e fui pra mãe dela:

- Tem uma criança aí dentro? E o que ela fez com a senhora pra senhora engolir a pobrezinha? – e olhei pra menina – Isso é coisa que se faça?
- Foi Deus que colocou ela aí dentro!
– ela respondeu, toda segura. 

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O quarto todo se enterneceu: sua mãe, as outras mães, Marmelo… Mas eu fiquei com aquilo na cabeça:

- Pois cadê Deus? Quero falar com ele! Onde ele tá? – procurei pelo quarto.
- Ele tá no céu, né?

Fui até a janela, olhei para o céu e:
- Não tô vendo!
- Ele tá na nuvem.
- Mas a nuvem é fofa, não aguentaria ele…
 

A discussão foi longa. A menina parou, ficou observando, balançou a cabeça. Em sua testa dava pra ler: “Mas é mesmo uma besta!”. Marmelo ficou o tempo todo do lado da menina, ajudando em algumas respostas e comemorando a cada uma que ela me dava.

Semana passada, soubemos de sua partida. Assim… Rápida… E eu queria que ela soubesse que, na realidade, eu acreditava nela, que eu não duvidava das informações dela e que eu só fiquei de implicância porque ela arrumou briga comigo. Foi de criança pra criança.

- Viu, menina?! A gente tava tudo brincando, né? Até porque eu sei bem onde você tá agora e com quem!

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Tô mandando meu beijo de jatinho pra que ele chegue bem rápido aí no céu. Ah! Dá esse beijo no nosso amigo aí de cima, tá bom?

Juliana de Almeida, conhecida como Dra. Baju,
escreve do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, em Recife.

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Também tem muita coisa boa acontecendo

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Sempre saímos muito pensativos depois de um dia de trabalho no hospital. São várias as reflexões. A última foi sobre ser feliz.

Ser feliz não é questão de não ter problema ou de ter uma vida perfeita. Ou de ter uma vida onde tudo parece ser favorável. Hoje percebo que ser feliz é saber lidar com o que a vida nos oferece, mesmo sendo algo não muito agradável. Até porque, tenho quase certeza, não existe só coisa ruim acontecendo.

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Nossa função enquanto besteirologistas é entrar em contato com esse lado saudável da vida. E como é que eu consigo me conectar com o positivo da existência? Poderíamos fazer um pequeno exercício de olhar pra tudo de bom que está acontecendo. O que está surgindo de bom agora na sua vida?

No hospital, por exemplo, tem muita coisa boa acontecendo! Existe uma pessoa que acorda todos os dias pra olhar pra nossa saúde, pessoa que faz nosso almoço, pessoa que pensa nossa dieta, que limpa nosso quarto, que nos dá carinho, que ora pela gente. Pessoa que lava nossa roupa, pessoa que conserta o ar condicionado, pessoa que nos faz rir, profissionais que desenham e pintam com a gente, pessoa que estuda pra nossa cura e mais, mais, mais pessoa pra tudo!

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É muita coisa, né? E muita coisa boa! Então, por que não agradecer mais e pedir menos?

É um grande passo pra uma conexão com um turbilhão de coisas legais e que estão presentes em nossas vidas. A gente sabe que o mar não tá pra peixe. Ôps! A gente sabe ou nos disseram isso? A gente foi lá olhar, tirar nossas próprias conclusões? Hum… Tenho certeza de que muitos de nós nem sequer se deram ao trabalho.

Se alegrar com o simples…

Mas o que fazer com esse lado negativo que muitas vezes nos afoga e nos deixa tristes?

Certa vez, estávamos em um atendimento com uma criança que não andava e que se encontrava há 5 anos morando na UTI. Parece pesado, né? Mas pra esta criança, não era! Ela se alegrava porque a sua cama ia mudar de lugar, ia pra mais perto da janela e, assim, iria conseguir ver o nascer do sol. Ela se alegrava com a chegada dos palhaços, com o carinho dado pela sua mãe, com a nova cor estranha do cabelo da médica, e por aí vai. 

Nesse dia, em uma cadeira de rodas, ela segurava um copo de iogurte. No meio da conversa, ela deixou cair o copo no chão. Fiquei um pouco assustada, tentei segurar o copo e não consegui. Ela olhou pra mim, com o olhar leve e tranquilo, e disse:

- Tem nada não, é que eu sou assim mesmo!

Essa frase ecoou na cabeça. “É que eu sou assim mesmo”. Acho que um bom começo para saber lidar com o que consideramos negativo em nossa vida e aceitar a condição atual.

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Se no momento eu estou doente, eu aceito a doença, trago ela pra perto de mim, olho com amor pra ela, sem aversão e entendo que eu não SOU uma doença, mas que ESTOU doente. Começo a entender que além da doença, para qual estou olhando com muito afeto, existe uma possibilidade de coisas acontecendo de positivo bem pertinho. Por exemplo: o sol nasce todos os dias, depois vem a lua, já ouvi várias vezes som de pássaros de dentro do hospital, já vi, de dentro da enfermaria, o vento bater em árvores… 

É uma questão de escolha. Não está nada fora do lugar porque é assim que tinha de ser. No frigir dos ovos, está tudo bem pra menina, está tudo bem pra nós e está tudo bem pra você. Tá tudo certo!

Juliana de Almeida, mais conhecida como Dra. Baju,
e Marcelo Oliveira, o Dr. Marmelo, 
escrevem do Hospital Oswaldo Cruz, em Recife.

Só tínhamos olhos para ela

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Difícil não estarmos no foco. Duas figuras de nariz circulando no hospital: foco. Logo todo mundo para, olha, comenta, puxa assunto, foge, fecha a cara e por aí vai.

Estamos acostumados com essa forma de chamar a atenção. Nos setores onde atendemos, a maioria está à nossa espera; só alguns desavisados, como pacientes, pais ou profissionais novos, é que têm um pequeno susto ao se deparar conosco.

Mas R. não pareceu se assustar em nosso primeiro encontro. 

A pedido de algumas técnicas e estudantes, que estavam reunidos no posto de Enfermagem da Pediatria do Procape, tocamos o bolero “Quizás, Quizás, Quizás”. Temos usado bastante essa música, criando e absorvendo novas situações cômicas para a nossa performance. Então, motivados pelo sucesso dessa atuação, começamos o som. 

Restauração - Lana Pinho-49
Só que todos os olhares mudaram de direção, olhavam para o corredor.
 Ali estava R., dançando. Ela deve ter em torno dos 13 anos. Estava lá, bailando sozinha, de olhos fechados, com um sorriso no rosto e visivelmente envolvida pela música. De repente, o hall ficou cheio de gente, todos olhando para a menina. Nós nos olhamos e entendemos que não cabia e nem tinha mais razão de ser a nossa gag (piada) da música.

O foco era todo dela

Dr. Marmelo convidou-a duas vezes pra se aproximar e balançar com ele, mas ela negava com o dedinho, afastava-se um pouco. Tudo isso dançando! E ela foi sumindo pelo corredor, a música chegou ao fim e todo mundo aplaudiu.

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R. parou, chorou, colocou as duas mãos no peito e fez reverência a todos nós. Sua mãe, com simpatia, levou-a de volta pro quarto. Nós ficamos ali, inundados e gratos. 

Juliana de Almeida, mais conhecida como Dra. Baju,
escreve do Hospital universitário Oswaldo Cruz, em Recife.

A peleja do noivo que tentou enganar a noiva na Festa de São João ou vice-versa

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Em pleno mês de São João e com a inspiração em alta, depois do cordel de despedida dos profissionais de saúde, os palhaços levaram aos hospitais do Recife uma criação inusitada.

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Trata-se de “A peleja do noivo que tentou enganar a noiva na Festa de São João ou vice-versa”. Criado por Arilson Lopes e encenado pelo elenco pernambucano do Doutores da Alegria, o cordel tem sido motivo de aplausos e gargalhadas nos hospitais. Pra quem não sabe, a literatura de cordel é um gênero literário popular que se dá na forma de rimas cadenciadas. Olha só um trecho com a Dra. Baju e o Dr. Marmelo e acompanhe, abaixo, o cordel inteiro. 

 

Cordel São Joãoilustração: Luciano Pontes | produção: Nice Vasconcelos

 

Bom dia, meninada
Meu sinhô, minha sinhora!
Puxe o banco e sente logo
Se avexe, sem demora
Porque tô aqui doidinho
Pra contar essa história

Tanto tempo encalhado
Marmelo se aperriô
Fez promessa pra Antônio
O santinho protetô
Pra arranjar casamento
E acabar com sua dor

Em troca daria ao Santo
Na festa de São João
Uma peruca novinha
Coisa fina, de barão
Contanto que em sua busca
Não houvesse confusão

É que Marmelo era frouxo
Feito chapa sem Corega
Tinha medo de injeção
De barata, de pereba
Mas dizia que com ele
Não tinha choro nem vela

Amuntô em Dud Grud
Seu jumento Alazão
Partiu no mundo sem rumo
Seu guia era o coração
Encontrou três faladeiras
Fuxiquinha, Fuxiqueira e Fuxicão

Contou ao trio seu dilema
Que se apressou a falar
Entoou o seu refrão
Ô ô xá lá lá lá lá
E disse: “Quem tu procura
Mora na casa acolá”

Marmelo avistou de longe
A casinha de Baju
Imendaram as fuxiqueira
“Uma flor de mandacaru
É uma moça aprumada
Dava certinho mais tu”

Ele arriô de Alazão
Se aproximou de fininho
E ao chegar no pé da porta
Se assustou com um passarinho
Que fugia da donzela
Ía depressa pro ninho

Caiu de bunda no chão
Bem na frente de Baju
Que apontou o estilingue
Pra ele, não pro anum
O coitado atrapalhado gritou
“Vim casar com tu”

Ela nem contou conversa
Aceitou o compromisso
Se afeiçoara a Marmelo
Seu cabelo de ouriço
O seu nariz engraçado
E seu ar de pouco juízo

Nasceram um para o outro
Como o sapo é pra jia
Como o leão pra leoa
Como a torneira é pra pia
A baleia pra baleia
O Tonico pro Tinoco
E o riso pra alegria

Baju correu lá pra dentro
Voltou trazendo um vestido
Branco, já amarelando
De mofo um pouco fedido
Pendurou pra levar sol
Tudo certo pro casório
Só faltava o pedido

“Ôxe, outro?” – Ele indagou
Ela explicou então:
“Oficialize o pedido
Peça a meu pai minha mão
Ele saiu, volta já
Dele já ouviste falar
É Mircolino Lampião”

Ouvindo o nome do sogro
Marmelo pôs-se a tremer
Seu cabelo arrupiô
Se preparou pra correr
Fingindo pediu: “Tem água?
Queria tanto beber…”

Ela atendeu seu pedido
E foi lá dentro buscar
Marmelo desesperado
Não parava de suar
Se aproveitou do momento
Amuntô-se em seu jumento
E fugiu pro Arraiá

Atrapalhado, Marmelo
Se enganchou no vestido
Pendurado no varal
Na pressa o levou consigo
Pensou: “Me visto de noiva
pra escapar do perigo”

Baju voltou com a água
E tudo se apresentou
O noivo tinha fugido
Feito o anum que voou
Pro pai contou num bilhete
E partiu feito foguete
No rastro do seu amor

No Arraiá era dia
De fogueira de São João
Tudo pronto pra festança
Era certa a animação
Marmelo, agora de noiva,
Se escondeu no salão

Baju chegou em seguida
Reconheceu Alazão
Pensou “Tô pertinho dele
Esse sujeito cagão
Que tem medo do meu pai
Mircolino Lampião”

Parou no meio da praça
Conteve a respiração
Não sabia o que fazer
Qual seria a solução
Encontrou com as faladeiras
Fuxiquinha, Fuxiqueira e Fuxicão      

- “Mulé, que foi? Fale logo!”
- “Adoro uma confusão”
- “Tô procurando um sujeito!”
- “Sujeito tem de montão”
- “Tem gordo, baixo, comprido”
- “Tem até um de vestido”
- “De noiva, num visse não?”

Ouvindo isso correu
Deixou o trio sem ação
Procurou o Rei do Milho
Que tava na ocasião
Era amigo de infância
Quase irmão de criação

Pediu a ele emprestado
Camisa, calça, gibão
Ela se vestiu de noivo
Tinha achado a solução
Casava com a noiva Marmelo
E acabava a confusão 

 

O Rei do Milho cedeu
Aos caprichos de Baju
Emprestou a melhor roupa
“Óia, foi feita pra tu!”
Lui é o nome dele
Vibrava com o buruçú

Ela foi de um em um
E nada de encontrar
Perguntou pras fofoqueira
As espiãs do lugar
Que foram logo apontando:
“Ô ô xá lá lá lá lá
Aquele que tu procura
Correu pro lado de lá”

De repente, ouviu-se um grito
De voz conhecida por lá
Mircolino Lampião
Chegava pra clarear
Ía encontrar o danado
No escuro que tivesse
Pra fazer ele casar

Mircolino assim cantava:
“Ói eu aqui de novo xaxando
Ói eu aqui de novo para xaxar”
Todo mundo acompanhava
Cantava e procurava
Ninguém podia parar

O pai escutara a fofoca
Tinha lido o bilhete
Já sabia a trama toda
Da palha ao alfinete
Praquele que o ajudasse
Ele pagava um sorvete

Esse era um homem bom
Brincalhão, era um ator
Ía gritar a quadrilha
Foi pra isso que chegou
Aí entrou na esparrela
Pra ajudar sua flô

Baju foi até seu pai
Disfarçada de menino
Se revelou só pra ele:
“Tenho um plano, segue o tino,
Sei onde tá Marmelo
Vou selar nosso destino”

Arrudiaram o salão
Até num canto encontrar
Uma noivinha amuada
Nem sabia disfarçar
Baju falou para o pai:
“Olha o que eu achei aqui!”
Ele pôs-se a interrogar

- “Como é teu nome?”
- “É Marmela, mas isso só pro sinhô”
- “Mulé de bigode, Marmela?”
- “É buço! Faça o favor!”
- “E esses cabelos na perna?
Faz tempo que depilou!”
- “Eu sou assim cabeluda!
É de família, um horror!”

- “Não adianta enganar
Eu já sei quem é você!”
- “E quem sou eu? Diga não!
Tenho medo de morrer!”
- “Pois se seu medo for esse
Vamo logo resolver!”

Baju se jogou no meio
Entre o pai e o seu amor
Tava tudo combinado
Só pra fazer o caô
Ela rogou pela vida
Daquele que a enganou

Marmelo se emocionou
Com a coragem de Baju
Disse: “Êpa, corri com medo
Do teu pai, num foi de tu!
Caso contigo agorinha
Te procurei norte a sul”

“Se ele poupar minha vida
E aceitar nosso amor
Pago a promessa pro Santo
Num sou de dever favor
E a festa acontece
Com alegria e fervor”

Santo Antônio apareceu
Na festa de São João
Trouxe São Pedro consigo
Cobrou peruca e quentão
Marmelo pagou a dívida
E acabou-se a discussão

“Solta o rojão!” – gritou Lui
“E bota esse trio pra tocar”
As fuxiqueiras gritaram:
“Ô ô xá lá lá lá lá
Forró só se for agora
Pegue seu par, vem dançar!”

Dud Grud entrou na roda
Já não era mais jumento
Agora ele era fogueira
Um bom papel pro momento
Se acendeu tocando fogo
Nos cabelo que trazia
No sovaco fedorento

Esse causo assim contado
Dá até pra encenar
Eita, tive uma ideia!
Vamo levar pro hospitá
Vai ser bonita essa peça
As criança vão gostar

Nós é Dotô da Alegria
Tu já ouvisse falar?
Sim! Da besteirologia
Uma ciência arretada
Depois te conto, ôto dia
Hoje o assunto é São João
São Joãozim, como eu diria

Vixe, o traque estourô
Tenho que subir agora
Até logo, meninada!
Meu sinhô, minha sinhora!
Já demorei o bastante
Desenrolando essa história
É tudo coisa inventada
Mas tá no sangue, é memória

Cresci menino com isso
Com a festa de São João
Colheita, comida de milho,
Quadrilha, forró, tradição
Vi tudinho aqui de cima
Prazer, me chamo Balão!

Eita, tá ouvindo?!

“O Balão vai subindo
Vai caindo a garoa
O céu é tão lindo
A noite é tão boa
São João, São João
Acende a fogueira
Do meu coração
São João, São João
Acende a fogueira
Do meu coração”

 

GAC-PROCAPE-   Lana pinho-100

Tan Tan, que saudade!

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“Tan Tan, que saaaudades.

Eu de cabelo. Não sei se vai lembrar de mim, mas eu te reconheceria em qualquer lugar, mesmo sem maquiagem. Só passei pra dizer que quando vou ao hospital só me lembro de você e do Dr. Micolino.

Vocês mudaram toda a minha semana, minhas terças e quintas não eram mais as mesmas. Ficava olhando o relógio esperando vocês pra poder darem risadas junto comigo. Vocês foram essências na minha cura. Saudades das risadas, das brincadeiras, dos sorrisos sem filtro.

Parabéns pela profissional que és e não me assusta conhecer você sem o personagem. Só precisava agradecer por tudo. Hoje tô na minha casa curada e feliz de estar escrevendo pra você.

Beeeijos e deixo aqui minha admiração e meu amor pela pessoa que és. E pode dizer ao Micolino que já esqueci o cantor Saulo e tô com saudades dele kkkkkkk. Beeeeijos eterna Tan Tan de ralo na cabeça!

Assinado: Larissa”

Larissa, obrigado pelo carinho. Amoleceu nossos corações <3 

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Se não somos doutoras, somos o quê?

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No final do corredor do hospital, avistamos um menino brincando sozinho. Claro que fomos até ele.

- O que vocês estão fazendo aqui?, ele perguntou.
- Ué, viemos te atender, nós somos doutoras!, responderam prontamente as besteirologistas Mary En e Svenza.
- Mas e esse nariz aí?
- Ué, já nascemos assim. Você também não tem nariz?
- Mas não é um nariz de verdade. E vocês não são médicas!

- Então, se não somos médicas, somos o quê?

Elas esperavam a resposta clássica – “palhaças!” – quando ele surpreendeu:
- Bonecas! 

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As duas se olharam com a maior vontade de rir. Sabendo da sua condição de “não médica”, e agora “não palhaça”, mas “boneca”, Mary En pegou seu apito.
- Bonecas apitam?, perguntou ao menino. 

Ele balançou com a cabeça que sim. Mary En começou a apitar em todo lugar.
- Bonecas dançam?
- Sim!

E as duas se puseram a dançar. O garotinho ficou olhando as duas irem embora pelo corredor; presos, os três, pelo olhar e pela imaginação: as palhaças dançando e apitando, e ele observando de longe.

Quando elas já estavam sumindo de sua vista, ouviram ele dizer à enfermeira:
- Elas são bonecas!

Dra Mary En e Dra Svenza (Enne Marx e Luciana Pontual)
Hospital Universitário Oswaldo Cruz/Procape – Recife

Do seu coraçãozinho

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Há algum tempo, Ezequiel fez uma cirurgia no seu coraçãozinho. Foi no Procape, em Pernambuco.

Este desenho, feito por ele, me emocionou muito. Lembrei-me da artista Frida Kahlo, da qual sou fã, e do quanto ele deve ter sublimado seus medos, esperanças e emoções em seu desenho, assim como ela o fazia.

Desenho Ezequiel

Achei os detalhes primorosos: o dedinho com o oxímetro, o cateter, os fios do soro… Os dois corações vermelhos ligados pelo fio parecem representar o seu desejo de que o coração fraco ficasse bom, mas sem esquecer de que ele ama o fraco coração mesmo assim.

Ah, são tantas interpretações que podemos tirar! Por isso acho o nosso trabalho tão extraordinário, pois ele não parte tanto de nós, mas das crianças, que oferecem suas histórias para que nelas possamos entrar, interagir e tirar interpretações.

Ezequiel teve alta e já faz algum tempo que foi pra casa, onde imagino que esteja muito bem e vivendo uma vida feliz.

Enne Marx (Dra Mary En)

Pra que disfarçar?

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O nariz faz o palhaço ou palhaço faz o nariz? O jaleco faz o médico ou o médico faz o jaleco?

O fato é que chegando ao hospital tudo já parece diferente para nós. Mesmo sem o nariz, já respiramos outros ares. Sem maquiagem, disfarçado de “pessoa física” ou com o nariz de besteirologista é inevitável um outro olhar na portaria, nos corredores, no elevador…

- Oi, Micolino!, grita o garoto.

Não sei ao certo como as celebridades fazem para se disfarçar, mas definitivamente os grandes óculos escuros não têm contribuído muito, precisamos aprimorar a técnica do disfarce. E é inevitável também, enquanto subo o elevador, ir anunciando os andares:

- 1º andar: cama, mesa e banho, 2º andar: roupas íntimas, 3º andar: eletrodomésticos! 

Já que o disfarce nada disfarça, então que vivamos a experiência de disfarçar um pouco a realidade à nossa volta com um olhar diferente para as coisas. A máscara não está no nariz, mas no modo de olhar. 

E foi olhando diferente que o ritmo bateu mais forte nesse mês de trabalho. Nos setores que visitamos, fizemos uma avaliação do batimento de todos os pacientes, impacientes, equipe de profissionais e acompanhantes.

um disfarce

Em um dos setores tivemos os campeões do tic-tac do coração”: o N. e a enfermeira, que entraram no compasso!

Com isso, chegamos ao veredicto final: o N. já podia bater seu tic-tac noutras bandas, aliás, em altas bandas… Soubemos que ele já estava de alta! Viva!

um disfarce

Dr. Micolino (Marcelino Dias)
Hospital Oswaldo Cruz/Procape – Recife