Quem cuida de nós enquanto os médicos adoecem?

Tempo de leitura: 3 minuto(s)

Quem cuidará de nós, na condição de pacientes, quando os médicos estiverem doentes?

Essa pergunta pode parecer incoerente, uma vez que a figura médica é frequentemente vista como impedida de apresentar sinais de fragilidade humana. Mas acontece. E a doença pode se dar de forma sutil, às vezes imperceptível – como o estresse ou a depressão –, ou de um sobressalto, como a síndrome de burnout (esgotamento) e o suicídio.

Desde a entrada na faculdade, o profissional de Medicina já carrega um fardo pesado, que alia uma rotina intensa de estudos à maturidade forçada para lidar com a vida e a morte. No início da carreira, muitas vezes precisa se sujeitar a jornadas de plantões, pressão por produtividade, poucas horas de descanso e afastamento do seu círculo social. 

Doutores da Alegria - M_Boi Mirim - Créditos para Nego Júnior © 2018 - IMG_3906

“Entre os profissionais hospitalares, o médico é visto como personagem revestido de muito poder, crítica e racionalidade. Seu poder – consolidado ao longo da história e de difícil revisão – emana justamente das decisões cruciais que toma.”, conta a psicóloga Morgana Masetti no livro Boas Misturas, A Ética da Alegria no Contexto Hospitalar. O oncologista Drauzio Varella, em um artigo para a Folha de S.Paulo sobre os últimos 50 anos da Medicina no país, ajuda a entender: “A lógica de mercado invadiu o sistema de saúde. Administradores alheios à profissão trouxeram palavras de ordem às quais [nós, médicos] não estávamos habituados: produtividade, racionalização da mão de obra, economia de escala, lucratividade, fusões, corporações, capital de risco.”

E como evidenciamos nos hospitais em que atuamos, a crise na saúde pública compõe mais um capítulo desta história. Médicos e médicas lidam com condições de trabalho inadequadas para oferecer atendimento aos pacientes, como falta de materiais básicos, aparelhos, remédios, leitos. No Hospital Universitário da USP, que vem sofrendo sucateamento nos últimos anos, mais de 25 médicos pediram demissão, sem reposição de profissionais. Serviços foram cortados e os horários de atendimento dos prontos-socorros adulto e infantil foram restringidos, além da redução de 21% no número de leitos.

RT_017_180320

Uma matéria especial do UOL Tab tratou do suicídio de estudantes e profissionais de Medicina – um assunto tão delicado e cercado de preconceitos que a própria classe tem dificuldade de compreender. “O suicídio por si só já é um tabu. Na classe médica, é mais ainda. É muito comum esses médicos não serem atendidos adequadamente nos serviços de emergência porque há um certo desrespeito pelas tentativas. Por ser um ato intencional, é como se a pessoa tivesse liberdade plena da escolha que fez. Muitas vezes, não têm. No momento que faz a escolha, ela tem uma distorção da percepção”, explica Alexandrina Meleiro, doutora em Psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da USP.

Excluídas as mortes por causas externas, como doenças, tirar a própria vida foi a segunda causa da morte de médicos paulistas entre 2000 e 2009, só ficando atrás de acidente de carro: o suicídio é a causa da morte de 18% dos homens e 21% das mulheres. O levantamento foi feito pela Unifesp (Universidade Federal do Paraná) e Uniad (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas), com o apoio do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo). 

Segundo a matéria, universidades, conselhos regionais de Medicina, sociedades e associações médicas têm promovido palestras e simpósios sobre o tema, com a perspectiva de reduzir o anseio e a vergonha dos profissionais em debater sobre sua própria saúde. E para nós, artistas, que habitamos os hospitais e nos relacionamos com diversos profissionais de saúde, fica a tarefa de compreender a fragilidade humana por trás de um jaleco e uma postura mais séria.

A linguagem do palhaço cria uma atmosfera empática: mães e pais de crianças hospitalizadas estabelecem uma intimidade imediata com os artistas por meio da brincadeira e da delicadeza da relação imposta pela doença. Extravasar este jogo para a relação com médicos, em nosso dia a dia, é um caminho que já estamos percorrendo há algum tempo e obtendo resultados: quando fica estabelecido um laço de confiança entre palhaços e profissionais de saúde, este elo se amplia para todas as relações que se dão no ambiente hospitalar, criando uma condição de convivência mais potente entre todos ali.

Talvez este seja um pequeno grande passo que revela que somos todos humanos, temos todos nossas fragilidades e somos todos capazes de cuidar uns dos outros.

GAC-PROCAPE-   Lana pinho-112

Congresso Internacional de Palhaços em Hospital: estivemos lá

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

A intervenção do palhaço no hospital sob a ótica da cultura, da saúde e da ciência foi o tema discutido em um congresso internacional na cidade de Viena, na Áustria.

Thursday Plenary Session

O Health Clowning International Meeting, organizado neste ano pela Red Noses Clowndoctors, aconteceu nos dias 4, 5 e 6 de abril e conseguiu atrair organizações (gestores e artistas) do mundo inteiro, além de profissionais de saúde e pesquisadores – 400 pessoas de 50 países trocaram experiências em um empolgante encontro.

As pautas foram as diferenças e semelhanças entre as intervenções de palhaço mundo afora, as ações do ponto de vista dos pacientes, o papel do palhaço na sociedade, o estudo científico da intervenção e os desafios que as organizações devem enfrentar no futuro.

HCIM2018_day1-3-6

Thursday 1400-1545 Parallel Session

Nossos diretores Daiane Carina, Ronaldo Aguiar e Thais Ferrara representaram Doutores da Alegria na companhia da psicóloga e pesquisadora Morgana Masetti. A equipe participou das plenárias, com assuntos diversos e de interesse comum, das sessões paralelas com apresentações de temas específicos e também das oficinas práticas.

Thais Ferrara apresentou a Escola dos Doutores da Alegria em uma sessão sobre modelos de educação e profissionalização. Apresentar a nova governança da associação Doutores da Alegria ficou sob a responsabilidade de Daiane Carina.

1100-1230 Parallel Session Friday

Morgana Masetti falou sobre as mais recentes pesquisas sobre o palhaço na saúde. Já Ronaldo Aguiar conduziu uma oficina cujo tema foi o corpo cômico dentro do hospital.

0900-1030 Parallel Session Friday

1100-1230 Parallel Session Friday

O criador do movimento – o ator americano Michael Christensen, fundador do The Clown Care Unit – também esteve presente: “Isso aqui supera todas as minhas expectativas! Sou muito grato e orgulhoso pelo que nosso movimento se tornou. Este é apenas o começo de algo muito maior, já que o humor pode ser benéfico para muitas áreas fora do ambiente hospitalar.”, expressou ele.

Wednesday Opening Plenary

A convergência entre arte, saúde e ciência se deu nas falas de profissionais de saúde, que dividiram o palco com artistas. Dr. Peter Ahlburg, anestesista do Hospital da Universidade de Aarhus, vê os palhaços como colegas e os consulta regularmente antes de cirurgias na Pediatria. “O aspecto psicológico, emocional, infelizmente, é frequentemente negligenciado no cotidiano do hospital. Médicos e cuidadores não têm tempo e também o conhecimento para isso. Essa é mais uma das razões pelas quais sou muito grato por meus colegas palhaços, pois eles me ajudam e permitem que eu me concentre mais em meu trabalho, criando uma atmosfera relaxada que tem um efeito positivo sobre todos os envolvidos.”, disse ele.

Outra questão levantada foi o impacto do trabalho, assunto de relevância para doadores, patrocinadores, instituições e para a sociedade que apoia as causas. Essa é a razão pela qual mais e mais organizações estão entrando no campo científico e alguns resultados foram compartilhados por Morgana Masetti e pesquisadoras que constituem um núcleo internacional de pesquisa (Itália, Portugal e Brasil).

Thursday 1400-1545 Parallel Session

O tom austríaco se fez presente pela precisão dos horários em cada evento, o que foi temperado com leveza e bom humor, principalmente pelo mestre de cerimônias, extremamente sério e divertido, e as intervenções de três palhaças.

Wednesday Opening Plenary

Além do encontro, um cabaré de palhaços de vários países e um jantar imperial contribuíram para estreitar os laços entre os participantes. Neste último, os convidados aguardavam por um imperador que “não chegava” e, durante a espera, cada organização era convidada a trazer uma lembrança de seu país para a autoridade.

Doutores da Alegria entrou ao som do kazoo, com duas sombrinhas de frevo: Ronaldo e Daiane dançavam, enquanto Thais comandava o kazoo e Morgana levava uma tiara com nosso miolo mole em sua cabeça – que acabou ficando, claro, com o mestre de cerimônias.

HCIM2018_Rathaus2-079

 

HCIM2018_Rathaus2-063

De volta ao Brasil, a equipe ficou com a missão de preparar um documento com as principais conclusões do encontro, que será apresentado em breve.

E, assim como no encontro realizado há dois anos em Portugal, voltamos convictos de que Doutores da Alegria é uma organização forte e referenciada mundialmente, com uma enorme responsabilidade em função disso.

| fotos: Jakob Polacsek, Angelika Goldmann e Luis Harmer |

Um papo cabeça sobre arte e saúde no hospital

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Foi ainda sob os efeitos do calor de 38 graus, em uma rua estreita do Rio de Janeiro, próxima à famosa Escadaria Selarón, que trinta pessoas toparam se encontrar para um bate papo sobre arte e saúde.

Quem conduziu o encontro “Reflexões sobre saúde no mundo contemporâneo” foi a psicóloga hospitalar Morgana Masetti. Há mais de 20 anos pesquisando a arte – especificamente a palhaçaria – no ambiente hospitalar, Morgana trouxe reflexões em torno do entendimento que a sociedade tem sobre doenças contemporâneas, a constante medicalização dos sintomas e o papel da arte inserido na saúde.

IMG_1648

“Hoje, o mal estar social vem sendo tratado como um mal estar individual. Problemas que seriam tratados como coletivos são tratados como pessoais.”, disse. Ela deu o exemplo da situação de violência no Rio de Janeiro, que é um mal estar social gerador de emoções como o medo. O combate muitas vezes se dá no nível individual, com o uso de medicamentos como calmantes.

Esta medicalização de sintomas individuais vem amparada pela catalogação de doenças como as enfermidades do vazio: depressão, insônia, ansiedade. Para cada doença, um bocado de remédios que controlam emoções e desequilíbrios próprios do ser humano. Morgana refletiu ainda sobre as imposições que a sociedade delega ao “eu” como, por exemplo, a obrigatoriedade de se buscar a felicidade e compartilhar isso com seus conhecidos.

Neste sentido, o sintoma pode ser visto como um lugar de resistência, um ponto de interrogação à sociedade terapêutica. A doença e a tristeza, que fazem parte da experiência humana, começam a ser vistas como desnecessárias na humanidade. Elas tentam ser silenciadas. Os sintomas falam alguma coisa da minha ligação com o mundo, e eles precisam ser entendidos, não silenciados.”, explica ela.

Escutar e intervir

A plateia levantou questões como a importância da escuta, principalmente por parte do profissional de saúde. Dio Jaime, palhaço da Cia Sapato Velho, contribuiu: “A escuta é fundamental, porque senão você não escuta a criança que não quer brincar. Você prepara um monte de coisas, músicas, mágicas, e encontra um médico que ganha mal, que perdeu uma criança naquela noite. Você pode piorar o ambiente.”, disse ele.

Itaci - Lana Pinho-138

Ao focar no trabalho de artistas como os palhaços do Doutores da Alegria, Morgana Masetti reforçou a possibilidade de a arte estabelecer vínculos no hospital. “O artista cria uma linguagem para afetos que pedem passagem, fazendo com que o imaginário possa circular novamente. E isso gera uma mobilidade em relações que já estão estabelecidas. Posso brincar dentro de um hospital, estabelecer outra linha histórica, outra realidade que ajude o paciente a atravessar o que está passando., diz a psicóloga.

O papel do artista no hospital foi outro tema relevante. Caberia à classe artística rever sua intervenção neste ambiente, tendo a clareza de que o trabalho não precisa ter como proposta a busca pela felicidade, uma vez que esta pode ser um gatilho para as enfermidades do vazio.

Eliane Fernandes, da Secretaria Municipal de Saúde, trouxe a perspectiva do gestor hospitalar: “Hoje muitos projetos chegam ao hospital sem objetivo, sem metodologia. Eu valorizo o trabalho com afetos, com memórias; não somente alegria. É preciso uma conduta pra entrar em um hospital”, reforçou.

Após a palestra, os participantes abordaram práticas ligadas à intervenção do Doutores da Alegria. No Rio de Janeiro, a organização atua por meio do projeto Plateias Hospitalares, abrindo espaço para que artistas de rua e de palco possam intervir em hospitais públicos.

Você lembra da primeira vez em que viu um palhaço?

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Ver um palhaço ou palhaça pela primeira vez é uma experiência inusitada.

HU - Lana Pinho-97

Talvez o circo seja o lugar que mais foi palco do encontro entre crianças e palhaços. Mais recentemente a televisão, com seus personagens memoráveis, ocupou este espaço de encontro. E ambos os lugares têm em comum a distância: da cadeira na plateia ao sofá de casa, palhaços e crianças permanecem afastados, interagindo somente por meio da risada conquistada com uma gag clássica. Um ou outro pequenino tem a chance de dividir o palco, se unindo às trapalhadas do palhaço de circo.

No hospital, o palhaço se aproxima da criança, vai ao seu encontro.

Neste movimento, precisa se livrar da maquiagem e do figurino pesados (que, bem, são ótimos para quem os enxerga à distância!) e compor um personagem menos caricato, que possa se aproximar de um leito de hospital sem causar tanto estranhamento. Muitos dos palhaços do Doutores da Alegria, com suas origens no circo, passaram por este processo antes de incorporar o elenco. Surge o besteirologista, uma figura inusitada naquele ambiente.

HU - Lana Pinho-9

E é assim que alguns milhares de crianças (e adultos) tomam contato pela primeira vez com um palhaço: no hospital. Podemos dizer que a situação de adversidade traz esse “privilégio”? A possibilidade de um encontro potente, olho no olho, em um momento em que as emoções estão à flor da pele, carrega uma vivência única e sublime.

Palhaços e crianças estão, ali, mais próximos do que nunca. À distância de um toque. 

HU - Lana Pinho-58

O resultado desta união pode ser uma experiência de alegria. Mas também pode ser uma descoberta, uma pulga atrás da orelha, um momento poético ou até um choro contido – como muitas das histórias contadas neste Blog revelam.

E você, lembra-se do seu primeiro contato com um palhaço ou palhaça? Conte pra gente como – e onde! – foi.

As lições do mais longo estudo sobre a vida adulta

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Manter hábitos saudáveis certamente melhora a nossa vida: alimentar-se bem, dormir o suficiente, manter o check-up em dia, fazer exercícios e tudo o mais. Acontece que um novo ingrediente foi adicionado ao balaio: manter relacionamentos saudáveis.

Pelo menos é isso que traz um estudo – possivelmente o mais longo feito sobre a vida adulta – feito pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Eles investigam, há mais de 75 anos, o que nos mantêm saudáveis e felizes enquanto passamos pela vida.

IMG_6682

O Estudo de Desenvolvimento Adulto, coordenado hoje pelo psiquiatra e psicanalista Dr. Robert Waldinger acompanhou a vida de 724 homens, dos quais 60 ainda estão vivos e participam do estudo. E há dez anos, as esposas destes homens também participam do estudo. O próximo passo é incluir os mais de dois mil filhos destas pessoas. Veja aqui o estudo completo.

Nesta palestra de 2015 no TED Talks, ele explica a descoberta. “Ouvimos constantemente que devemos priorizar o trabalho, dar nosso melhor e conquistar mais coisas. E nos dão a impressão que essas são as coisas que devemos correr atrás para se ter uma vida boa.”, conta Dr. Waldinger.

 

A cada dois anos, os pesquisadores enviam questionários, entrevistam alguns participantes, conversam com suas esposas e filhos, recebem seus boletins de saúde e até escaneiam seus cérebros.  O volume de informações gerado é impressionante e certamente trará novas descobertas.

Mas Dr. Waldinger é categórico quanto ao aprendizado principal extraído do estudo. “Quais são as lições que extraímos das dezenas de milhares de páginas de informação que geramos sobre essas vidas? Bem, as lições não são sobre riqueza ou fama ou trabalhar mais e mais. A mensagem mais clara que tiramos desse estudo de 75 anos é esta: bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis. Ponto final.”

kwirx-URE-events-ted-speakers-RobertWaldinger-960x433

E ele lista três grandes lições sobre relacionamentos durante a vida:

Conexões sociais são muito boas para nós, a solidão é tóxica

Estar conectado com a família, amigos e comunidade manteve os participantes fisicamente mais saudáveis e mais felizes do que as pessoas com poucas conexões. Já pessoas mais isoladas do que elas gostariam de estar tem uma experiência de vida diferente: descobrem que são menos felizes, sua saúde decai precocemente na meia idade, seu cérebro se deteriora mais cedo e vivem vidas mais curtas do que aqueles que não são solitários. 

O que importa é a qualidade dos seus relacionamentos mais próximos

Não se trata apenas do número de amigos que você tem, ou se você está ou não em um relacionamento sério, mas sim da qualidade dos seus relacionamentos mais próximos. Casamentos muito conflituosos, por exemplo, sem muito afeto, podem afetar a saúde em longo prazo, enquanto que viver em meio a relações boas e reconfortantes parecem nos proteger durante o envelhecimento.

“Nossos homens e mulheres mais felizes em uma relação relataram, aos 80 anos, que nos dias que tinham mais dor física, seu humor continuava ótimo. Mas as pessoas que estavam em relacionamentos infelizes, nos dias que tinham mais dor física, esta era intensificada pela dor emocional”, conta o pesquisador.

Relações saudáveis protegem não apenas nossos corpos, mas também nossos cérebros

As pessoas em relacionamentos nos quais sentem que realmente não podem contar com a outra pessoa são as que acabam tendo declínio de memória mais cedo. E esses relacionamentos bons não precisam ser tranquilos o tempo todo. 

“Alguns de nossos casais octogenários podiam discutir um com o outro dia sim, dia não, mas contanto que sentissem que poderiam contar um com o outro quando as coisas ficavam difíceis, aquelas discussões não prejudicavam suas memórias.”, finaliza. 

IMG_7106

Cultivar bons relacionamentos ao longo da vida é mesmo um trabalho incansável.

Demanda energia para passar por momentos conflituosos e nada tem a ver com fama, riqueza ou grandes conquistas. Bem, e se você já praticou seu exercício preferido hoje ou dormiu bem nesta noite, que tal encontrar aquele amigo de infância ou convidar seu parceiro para um passeio inesperado?

Além dos hospitais: um relato sobre uma vida de luta na pele negra

Tempo de leitura: 6 minuto(s)

Quando optamos por estar em hospitais periféricos, sabíamos que nos depararíamos com uma realidade bem diferente do que encontramos em hospitais privados nos grandes centros urbanos. 

Estas áreas de fronteira são habitadas, em geral, por uma população negra e pobre, destituída de seus direitos básicos. Pessoas que atravessam a cidade, todos os dias, para trabalhar em empregos refutados pela população mais privilegiada. E neste cotidiano sofrem com a discriminação velada, por vezes negada, em função da cor de sua pele. 

HU - Lana Pinho-32

“As diferenças entre brancos e negros estão nas estatísticas sobre educação, saúde, emprego e várias outras áreas, mas em nenhum outro lugar ela é tão clara como na geografia e na distribuição de raças. A casa grande e a senzala seguem firmes e fortes, mas agora aparecem como centro e a periferia”, conta o repórter Rodrigo Bertolotto em matéria especial sobre racismo.

E mesmo alcançando posições de prestígio na sociedade, estas pessoas precisam lutar para reiterar suas conquistas. Dando continuidade à série sobre racismo, convidamos o ator, diretor, dramaturgo e educador Heraldo Firmino, coordenador do Programa de Formação de Palhaço para Jovens da nossa Escola, para falar sobre essa experiência – ou, como ele mesmo diz, “sobre essas marcas profundas, que vão sendo reeditadas na pele todos os dias”. 

Pra quem se interessar pelo tema e pela luta, no próximo dia 11 de novembro, sábado às 15h, Heraldo participa de um evento sobre a presença negra na comicidade no Sesc Santo Amaro, em São Paulo. Mais informações aqui.

heraldo firmino

“A tempo”, por Heraldo Firmino

Neste escrito fui misturando, propositalmente, o que sinto e o que sentimos.
No fim, é um pouco da história dos negros e negras em luta. Por apenas ser, só isso. 

A tempo de perceber, após 50 anos de existência, alguns porquês. A pele negra nos fez e faz passar por tantas coisas cruéis, injustas, desnecessárias, desagradáveis. “Aquilo que não mata, fortalece”. Sim, e deixa mais cascudo, bravo, com raiva, beligerante.

A sensação cotidiana é de estar em um lugar que não lhe pertence ou, pelo menos, que não querem que pertença. De olhar em volta e não se reconhecer ou tentar um reconhecimento onde não há. Ter uma condição ruim normatizada pelo sistema e reproduzida até por aqueles que nos querem bem, mas que também não enxergam. Assim é durante muito tempo, ficamos quietos e muitas vezes aceitando calado o destino, à sombra da sociedade, comendo pelas beiradas e continuando a viver. Viver? 

Durante muito tempo nos enganamos pensando que fazíamos parte, que éramos da turma, que estávamos na onda. Ilusão. A arte, aqui, nos aponta um caminho, nos coloca frente a frente com a situação. Questionei e questiono agora até esta arte. Há algum tempo fui beber na fonte dos derrotados, dos esquecidos, dos de menos valia. O conhecimento em curso me coloca em cheque, convicções caem às pencas, livros lidos agora são uma grande face maquiada que perde a cor, desbota, está bem borrada. É catastrófico por que é tudo o que sei, tudo o que aprendi. Por outro lado, abre um novo mundo de possibilidades. 

Agora, me cabe recuperar este mundo sequestrado de maneira tão vil, deixar emergir dentro de mim o melhor dos dois mundos. Uma tarefa dificílima, já que os meus pares simplesmente ignoram ou, por tão sensíveis que são, estão no máximo empáticos a esta atualização. Não falam, mas percebemos a estranheza com que somos ouvidos, as atitudes, a vontade de falar determinados assuntos e ter sempre uma comparação com alguma situação vivida por outro, como se esta situação tivesse alguma semelhança. Eu percebo que, quanto mais me aprofundo, mais distante vou ficando. É sufocante, não consigo explicar o que é inexplicável, só quem é, sabe. 

Sei que tentar entrar neste mundo pode ser muito dolorido, porque talvez as pessoas sintam um pouquinho do que temos que carregar diariamente. Nunca saberão, mas poderiam tentar, tenho certeza que é mais confortável ser favorável à causa porque, para muitos, é uma questão de princípios. Mas, ao virar a esquina, nossos mundos se separam. Sei que muitos nem estarão com outros como nós. Amanhã, talvez, quando nos encontrarmos em um fraterno abraço de bom dia. 

A tempo, continuo me aprofundando, entendendo que este não é um problema de negros e negras, ele é de toda sociedade. E visto deste lugar, porque tantos soldados apostos, e tão poucos dispostos a ir para o campo de batalha? Cansaço. Acho que a palavra mais apropriada neste momento. Não somos exóticos, aparentamos ter a idade que temos, vivemos nos mesmos espaços que você, mas somos tratados de maneira diferente. Seu olhar condescendente não ajuda, de diferença também não. Tampouco achar que somos iguais perante a sociedade, os governos, as instituições, o mundo. Saiba que não queremos nada, na verdade, só igualdade, só escuta sem interrupção, sem julgamentos. 

A cada esquina que viramos, tem uma pessoa que muda de calçada. Durante o dia, com o sol rachando, as pessoas nos olham passeando com nossa família e logo vem alguém oferecendo comida ou uma roupa velha para nossos filhos. Somos mal atendidos nos restaurantes, seguranças se movimentam e falam no rádio quando entramos em um mercado, banco ou qualquer um destes lugares. Ou somos parados pela polícia, na frente da nossa própria casa, e somos indagados sobre o que estamos fazendo ali. 

Ser tratado como bandido, e ter que fazer o jogo do policial porque não tem ninguém vendo, “ninguém vendo”, e posso ser rapidamente jogado dentro de um camburão porque eles não foram com a minha cara. Desde criança tenho medo da polícia. Fui maltratado naquela época, depois e agora ainda corro este risco e meus filhos também. É um lugar bem ruim de ficar, sempre alerta e sempre alerta mesmo! Dia desses, meu filho foi chamado de negrinho porque olhava uma vitrine, um brinquedo… Um brinquedo… A vontade era de… Ficou no pensamento… O ódio não pode ser a resposta para o ódio. Um gosto amargo fica na boca, quando parece que vai sair, acontece de novo, e de novo, e de novo… 

A tempo, sei que há vinte e cinco séculos esta opressão racista vem sendo construída e que está longe de ter uma solução. A desconstrução vai muito além de querer discutir posições neste momento. Atenção aos fatos, acredito que seja um bom caminho.

Um grande roubo da dignidade, dos afetos, das crenças, da arte, da cultura, das origens. E o que não é extinto, é absorvido sem dar a menor importância aos verdadeiros criadores, coisas banais que foram dadas ao mundo como a filosofia e o início do mundo “civilizado”. As mentes mais brilhantes que já andaram na terra vêm do Egito antigo, e eles eram negros. 

A tempo de perceber a grande alegria de ser, onde ser, com quem ser, sem ser invisível, sem ser vulnerável, ser menosprezado, sem ser julgado pelo fenótipo (aparência). A tempo de olhar nos olhos e ver que alguns (muito poucos) começam a enxergar, e a proximidade cria uma espécie de irmandade que é percebida em uma troca de olhares.

A tempo de perceber que é uma desconstrução difícil, porque o mundo é constituído assim, e que a maioria das pessoas vai achar muito cansativo, dolorido, psicologicamente aterrador, e talvez seja mais simples fingir que não aconteceu, não está acontecendo e não vai acontecer. 

Mas existe a ciência de saber e a escolha de esquecer, e você sabe! Sabe, porque não se importa se seu filho vai à escola “paga” e lá não haverá os filhos da diáspora africana, não se importa de viver num ambiente de trabalho e não ter parceiros de trabalho que tenham pigmentação da pele mais escura que a sua, e também acha normal que, quando eles aparecem, estão na condição de serviçais e são praticamente invisíveis. “Na boa”,um sorriso e bom dia, apenas, não muda muita coisa. Talvez não se importe, porque passou por muitas coisas na vida também e tem muita história triste pra contar. É a vida,e todos passaram por isso, mas ouvir isso não ameniza a falta de dignidade com que somos tratados toda vez em que tentamos contar o que nos acontece diariamente. 

Tem gente brigando por direitos, nós brigando pelo direito de ter direitos. Talvez, pra você ter uma ideia desta condição, pegue algumas dessas histórias tristes e, num exercício de empatia, coloque uma ou duas em todos os dias de sua vida. Talvez, então, comece a entender o que falo. Depois deste exercício, se tiver coragem de fazê-lo, talvez pense: pra viver assim tem que ser forte, determinado, viver um psicológico muito abalado, ter muito medo, vegetar, viver em abuso, sofrer e chorar, chorar muito. Mas um conselho: não chore na frente dos outros, pois vai levar mais porrada. Ser ignorado, preterido, trocado, vendido, explorado, ser objeto, invisível, saco de pancada. Desabafo? Não, constatação de alguém que as lágrimas escolhem por quem cair. Sou filho do acaso, do descuido institucionalizado, do olhar da mediocridade, em nosso simulacro fazemos o jogo de cena, seguimos nossos caminhos e vamos chegando, mas não nos garante nada. Podemos ser destituídos rapidamente dos lugares em que conseguimos chegar. Não foi fácil, não é fácil, não vai ser fácil. 

Os meus são todos, e não é nenhum. Pertenço, não sei. Tanta coisa subtraída que só nos resta seguir em frente e buscar o encontro. E eles acontecem, aos poucos, lentamente, na força e na sutileza. É duro pensar que o tempo está acabando, sinto isso, quero aproveitar mais, mas na minha jornada muitos olham e se identificam. Fiz parecer muralha, fiz parecer porto seguro, fiz parecer segurar tudo com retidão, mas a tempo de perceber que outros vem, como eu vim, e outros virão depois de mim. Vale e faria tudo novamente. Talvez desse mais tempo para mim, talvez! 

UBUNTU! É uma filosofia, fala da grandiosidade do ser humano, do poder matriarcal, da xenofilia, do coletivo. Talvez um caminho para acalmar a alma. O corpo pede dança e quando faz é feliz, quando canta é feliz, quando ama é feliz, quando goza é muito feliz. Corpo que ri muito, que brinca muito, precisa de espaço, cativa, festeja, abraça e beija, que recebe bem, cuida de alguém, eleva a alma, entra em êxtase com som de tambor, que joga capoeira. Erudito e popular? Para nós existe apenas o movimento. E todos esses atributos pertencem a uma cultura, “cultura do ser humano”, não à guerra.

Palhaços acompanham procedimentos médicos em Israel

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Ao redor do planeta, há muitas iniciativas diferentes de palhaços que atuam em hospitais. Elas nascem de uma ideia genuína ou inspiradas em projetos que prosperaram e se adaptam à cultura local e, como é de se esperar, ao sistema de saúde. 

Uma destas iniciativas se chama The Dream Doctors Project, e nasceu em Israel há quinze anos. Por lá, mais de 110 palhaços se revezam em 29 hospitais e centros médicos com uma incumbência: atuar junto aos profissionais de saúde durante os procedimentos médicos.

Clown+Doctors+In+Jerusalem+VJLwSPw6lhYx

Os palhaços se envolvem em mais de 40 procedimentos, acompanhando crianças em exames como tomografia, ressonância magnética, quimioterapia, radioterapia, fisioterapia e reabilitação; além de procedimentos dolorosos e complexos, como injeções nas articulações, terapias de queimaduras e acompanhamento de cirurgias.

A presença dos Dream Doctors, como são chamados, reduz o estresse e aumenta o bem-estar da criança, facilitando o diagnóstico pela equipe médica. A organização investe em pesquisas científicas para avaliar o impacto das suas ações nos hospitais. Eles já provaram, por exemplo, que o trabalho diminui a dor e alivia a depressão – e pode até tornar desnecessária a utilização de sedação em alguns casos.

Penny-Hanuka

Em 2011, a organização promoveu uma conferência para falar sobre suas pesquisas.Dream Doctors Project First International Conference on Medicine and Medical Clowning atraiu 250 participantes de 22 países a Israel. Em 2013, membros da equipe estiveram no Brasil junto a outras iniciativas, a convite de Doutores da Alegria, para discutir o futuro deste trabalho.

Na ocasião também esteve Michael Christensen, ator americano pioneiro em levar o palhaço a atuar sistematicamente em hospitais. “Os palhaços do Dream Doctor são totalmente e completamente inspiradores. Eles têm a integração mais profunda com a palhaçaria dentro do sistema médico de qualquer programa que eu já visitei – e essa integração tem incentivado a todos nós, como artistas, a se esforçar para esse mesmo tipo de unidade, respeito e comunicação”, afirma ele.

E se Wellington Nogueira, fundador do Doutores da Alegria, já dizia que a Besteirologia é profissão de futuro, o Dream Doctors Project trabalha ativamente para obter um reconhecimento oficial da profissão do palhaço que atua em hospitais, com padrões estabelecidos e reconhecidos pelo Ministério da Saúde de Israel.

17796872_1598885190129563_6221782351098279051_n

Mais recentemente, a organização criou um programa de intervenção em locais com emergências e desastres naturais, prevenindo o desenvolvimento de pós-trauma.

Esta iniciativa de Israel desenvolveu um modelo de atuação único. E embora tenham o palhaço como figura central, as iniciativas ao redor do planeta se diferem em seus objetivos e ações, mas convergem em uma certeza: a de que a arte inserida no universo da saúde veio para ficar.

Da cura para o cuidado: precisamos falar sobre isso

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Depois de anos trabalhando como psicóloga em unidades pediátricas de cuidados intensivos, a americana Kathy Hull se deparou com uma enorme frustração. 

Durante sua carreira, viu muitas mortes indignas de crianças e tudo o que seus familiares tinham que suportar. Em 2004, Kathy fundou nos Estados Unidos o George Mark Children"s House, primeiro centro de repouso e cuidados paliativos para crianças.

2Big6

goodnight-moon-2

A área da Medicina que trabalha com cuidados paliativos vem pouco a pouco ganhando relevância no mundo. Trata-se de uma abordagem ou tratamento que melhora a qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameacem a continuidade da vida.

A origem do cuidado é antiga: na Idade Média os hospices (hospedarias) eram comuns em monastérios, abrigando doentes, famintos, mulheres em trabalho de parto, pobres, órfãos e leprosos. Mais do que a busca pela cura, o objetivo era o acolhimento e o alívio do sofrimento.

O Reino Unido é referência na área. Em 1967, foi fundado o St Christopher"s Hospice, primeiro lugar a oferecer cuidado integral ao paciente, desde o controle de sintomas ao alívio da dor e do sofrimento psicológico. Hoje, há muitos centros como este na Inglaterra.

_85937821_hospice

Em um emocionante vídeo para o TED Talks, Kathy Hull conta algumas histórias de crianças que passaram pelo centro de repouso.

“Essas famílias estavam passando por alguns dos momentos mais dolorosos de suas vidas. Com certeza, pensei, deve haver um lugar melhor que a unidade de terapia intensiva de um hospital para as crianças no fim de suas vidas. Em vez de quartos luminosos e barulhentos de hospital, os quartos são silenciosos e confortáveis, com áreas de moradia para as famílias, jardins que são refúgios, e um maravilhoso playground externo feito especialmente para crianças com limitações físicas.”, conta ela.

 (clique para assistir e selecione, no canto da tela, a legenda em português)

É sabido que os cuidados paliativos diminuem custos dos serviços de saúde e trazem enormes benefícios aos pacientes e seus familiares. Aqui no Brasil, os primeiros serviços organizados, ainda de forma experimental, surgiram na década de 80. Segundo a Academia Nacional de Cuidados Paliativos, ainda há uma lacuna na formação de profissionais de saúde e um enorme desconhecimento sobre o tema. O atendimento paliativo é confundido com eutanásia e há uma barreira em relação ao uso de opioides, como a morfina, para alívio da dor. 

Em 2013, o Brasil ganhou seu primeiro hospice pediátrico, localizado em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Fundado pela Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer (TUCCA), o Hospice Francesco Leonardo Beira atende à Oncologia Pediátrica do Hospital Santa Marcelina.

hospice1

São direcionados para lá os pequenos pacientes em estado terminal e que não possuem condições sociais e médicas de ficar em sua própria casa, necessitando de auxílio e cuidados especiais, em um ambiente com todos os recursos necessários e na companhia de seus familiares. O atendimento é gratuito.

“Poucas pessoas querem falar sobre a morte, e menos pessoas ainda sobre a morte de crianças.”, afirma Kathy Hull, enfática sobre a importância da abordagem dos cuidados paliativos. E finaliza: “A transição da cura para o cuidado é ainda muito desafiadora para muitos médicos, cujo preparo tem sido para salvar vidas, e não para gentilmente levar o paciente até o fim da vida. O que podemos controlar é como vivemos nossos dias, os espaços que criamos, o sentido e a alegria que causamos. Não podemos mudar o desfecho, mas podemos mudar a jornada.”

20140704__eoak0705hospice4

Música nos hospitais: arte e tecnologia em favor do cuidar

Tempo de leitura: 3 minuto(s)

Falar de música em hospitais não é novidade. Há muita afinidade entre a arte da música e a arte de cuidar.

Como traz Eliseth Leão, estudiosa do assunto, “em culturas diversas, o médico e o músico são representados por uma mesma imagem ou símbolo. O Imperador Amarelo, na antiga China, é considerado o fundador da Medicina e da música. Na mitologia grega, Apolo simboliza a estreita relação que existe entre a música e a Medicina.”

Foto_24

Uma reportagem recente da Folha de S.Paulo questiona a ausência de música nas UTIs. “Um aspecto que poucas pessoas param para pensar é o som em um ambiente de UTI. Bipes, alarmes sinalizando que um batimento cardíaco ficou muito baixo ou muito alto. Ou que a oxigenação caiu, um elétrodo saiu do lugar. Também é constante o som da televisão, o som de uma respiração artificial, o som de um choro contido. Enfermeiros e médicos passam plantões, celulares apitam, telefones tocam”, escreve a repórter Camila Appel.

Ela também descreve uma experiência no Hospital da University College, em Londres. Foi organizado um show ao lado do hospital, com transmissão ao vivo aos pacientes através de fones de ouvido e ipads esterilizados.

Práticas inovadoras também vêm surgindo por aqui, com a perspectiva de obter um resultado terapêutico através da música. Em abril, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, se associou ao Spotify (serviço de distribuição de streaming, podcasts e vídeos) para oferecer playlists/seleções musicais especiais para seus pacientes e clientes.

683396-970x600-1

Há playlists diversas, entre elas para o Serviço de Hemodinâmica, Ressonância Magnética e Banco de Sangue. Os ouvintes são convidados a avaliar a sua experiência ao entrar em contato com a música em momentos determinados, de modo que estudos possam verificar quais aspectos e como a música atua na promoção de bem-estar. A pesquisa é conduzida por Eliseth Leão, com curadoria de pessoas como o Maestro Walter Lourenção, que já regeu a Orquestra Municipal de São Paulo e a OSESP.

Para Doutores da Alegria, a música é facilitadora na construção de relações sensíveis. Ela é base, recheio, fundo, entrelinhas e silêncios. A música faz parte de todos os nossos projetos, desde o ukulelê tocado pelo besteirologista ao lado do leito de uma criança até um cortejo musical com sanfona e bumbo que ressoa pelos corredores da enfermaria. Também está na grade curricular dos nossos cursos e em ações com a Escola de Música do Estado de São Paulo.

IMIP - Lana Pinho-119

Além das habilidades do palhaço, é fundamental ter bons ouvidos. Não necessariamente ouvidos absolutos, mas ouvidos acurados.

“Pode-se criar algo a partir do som repetitivo que sai de uma máquina que monitora o coração. Claro que a máquina que monitora um coração não é um metrônomo, que pode ser regulado para a música que será tocada, mas podemos ouvir esta pulsação com ouvidos de palhaço, e então cabe preencher a partitura desse monitoramento. Entre um pi e outro, cabe um estalar de língua, uma nota na flauta, um batuque discreto, um acorde de violão ou uma percussão corporal qualquer. Depois dessa experiência, a criança passa a escutar este som ao lado de seu leito, com outros ouvidos, mesmo na ausência dos palhaços”, conta Thais Ferrara, atriz, palhaça e musicista, hoje Diretora de Formação do Doutores da Alegria.

Dentro ou fora dos hospitais, a música conta histórias, emociona, inspira. Ela também serve para abrir canais com a criança que está distante, receosa ou, ainda, deprimida pelas circunstâncias da doença.

“Pode também ser um fundo musical para uma ação que já está acontecendo. Já acompanhamos crianças até o centro cirúrgico, com uma bandinha que abria espaço no “trânsito” pelos corredores do hospital. Já fizemos serenata da janela, para crianças em isolamento, e para enfermeiras no balcão da Enfermagem”, conta Thais. 

Com as novas tecnologias disponíveis, iniciativas como transmissões de música ao vivo e uso de playlists para pacientes certamente alcançarão mais hospitais e farão parte da nossa realidade em um futuro próximo.

Cabe aos profissionais de saúde – e aos besteirologistas, claro – saber como se aproveitar destes recursos para promover algo milenar: a arte de cuidar.

Diário filmado de um palhaço

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Era um final de tarde frio e cinzento do outono de 1996. Eu, Nereu Afonso, tremia. Não pelo frio, mas pelo nervosismo remanescente do teste seletivo que eu acabara de passar.

Wellington Nogueira, fundador e então diretor do Doutores da Alegria, virou-se para mim e disse a frase que marcaria minha trajetória: “Nereu, quero te convidar oficialmente a integrar o nosso elenco”. Eu gaguejei um “muito obrigado” e, até hoje, confesso que esse sentimento de agradecimento ainda paira no ar.

Passaram-se vinte anos.

Naquela época, Doutores da Alegria era uma jovem associação com cinco anos de idade. Hoje, comemoramos 25!

doutores m boi

Muita coisa aconteceu desde então, para Doutores e para mim. Amadurecemos. Ganhamos experiência e também o bônus e o ônus que acompanham a maturidade. Esperamos ter aprendido – e ainda estar aprendendo – com nossos passos certeiros e, sobretudo, com nossos passos em falso.

Hoje, junto com Duico Vasconcelos, sou parte da dupla de palhaços que inaugurou uma nova experiência dentro da organização: a abertura de um programa-modelo, em funcionamento desde 2016, no Hospital do M’boi Mirim.

M"boi Mirim

O Hospital do M’boi Mirim se situa a uma distância aproximada de 20 quilômetros dos bairros de classe média, onde moramos. Isso equivale a aproximadamente 1h30 de deslocamento em trem, metrô e ônibus. Isso equivale, sobretudo, a uma mudança gradual da paisagem arquitetônica e humana ao longo do trajeto.

m boi mirim

Quanto mais próximo do hospital, menor o número de linhas de ônibus, menor o espaço livre dentro dos ônibus, menor a qualidade das vias, menor a quantidade de áreas verdes, menor a infraestrutura urbana ali presente e, muito visivelmente, menor o poder aquisitivo da população representada por uma mescla de etnias bem mais numerosa – e discriminada – do que a variedade clara e quase monocromática dos que vivem em boa parte dos bairros do centro expandido da cidade.

Trajetos como esse não são novidade para nós. Apenas nos lembram da hecatombe social na qual nosso país insiste em submergir.

Lutando contra esse oceano de desigualdade, há vários anos as intervenções do Doutores da Alegria a hospitais periféricos deixaram de ser uma novidade em nossa associação. Pelo contrário, elas são um um dos eixos centrais de nossa tarefa institucional.

O diário filmado

O filme “Diário de um palhaço de hospital – Dia um” é uma crônica de nosso primeiro dia de trabalho nesse novo ambiente.

Você também pode gostar: