Doenças graves, reações surpreendentes

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O Instituto da Criança tem uma dinâmica diferente dos outros hospitais que atuamos. Enquanto nos outros temos a sazonalidade das doenças, um período de distúrbios intestinais e outro de problemas pulmonares, no ICr temos uma gama de processos que desconhecemos.

Nos outros hospitais o mais impactante é a situação social das crianças, no ICr é a gravidade das doenças. Muitas vezes não sabemos avaliar, ficamos com muitas dúvidas sobre o estado geral delas e às vezes, por não ter informação suficiente, subestimamos seu estado. Mas neste mês tivemos boas surpresas e quero contar algumas delas.

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Um olhar diz muita coisa

O B. fica sempre na cama, com movimentos reduzidos. Não é muito reativo, mexe os olhos, mas não fala. Ele tem uma deformação na coluna e uma traqueostomia. 

Já tínhamos entrado em seu quarto antes, mas por conta de um procedimento, apenas fizemos algumas bolhas de sabão e saímos. No outro dia estava dormindo. No terceiro dia, eu e Dr. Dus’Cuais entramos e ele começou a olhar para o violão.

- Quer uma música?, pergunto.

Ele faz um “não” com a cabeça. Tiro o violão da frente e ele olha para um bolso. Mostro o que está no bolso e ele faz outro não. Olha para outro bolso. Mostro o que tem lá. Não! B. olha de novo para o bolso e depois para o teto, repetidas vezes. Entendo que são as bolhas. 

Quando as tiro do bolso, ele abre um sorriso. Faz “sim” com a cabeça. Assim que soltamos bolhas, seus braços, lentamente, levantam para tentar agarrar algumas, com certa descoordenação. Ao pegar umas delas, abre um sorriso inesperado.

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Para mim foi tudo inesperado, pois naquele momento se revelou que ele tinha plena cognição, que se comunica, que se mexe. Da nossa primeira avaliação, bem equivocada, ele deu um salto. 

Pisca pra ela!

Na UTI outra surpresa. Entramos e uma mãe nos chamou:

- Vem ver a G.! Toca pra ela. Ela adora música. 

A menina estava imóvel, com os olhos prostrados. Ficamos na dúvida se estava sedada. Tocamos um pouco, a G. se contorceu e virou para o lado da mãe.

- É dor. Mas ela adora música, né filha? Pode continuar.

Continuamos. E a menina permaneceu com os olhos fixados em nós. A mãe de novo:

- Fala, G., que você gostou. Se você gostou pisca pra eles.

E a menina, que até então não tinha reagido, nos olhou e piscou pra gente.

- Pisca você pra ela, ela entende!, pediu a mãe.

Piscamos. Ela novamente piscou de volta. Demos tchau e nova piscadinha. Surpreendente de novo. O que parecia uma mãe querendo palhaços mais que a filha, pois a princípio a G. não parecia consciente, era uma mãe extremamente atenta com a filha. 

Uma palavra inesperada

O outro é o A., que tem uma cirurgia enorme na cabeça. E uma mãe e uma vó muito carinhosas, espetaculares e presentes. Da primeira vez, não parecia que ele seria tão reativo, mas a vó pediu para tocarmos, pois antes de adoecer o menino tocava violino.

Quando ouviu a música, seus olhos arregalaram e um sorriso torto saiu. 

Aos poucos, os assuntos foram aumentando. Ele adora Star Wars, Toy Story e seu quarto é cheio de bonecos dessas duas histórias. Dr. Dus’Cuais fez aparecer e desaparecer um monte de coisa no quarto e o A. fez cara de surpresa, abriu a boca e colocou a mão na frente, numa reação sincera de espanto. Adorou a mágica.

Em nosso último encontro, numa brincadeira entre os palhaços, perguntei se o Dr. Sandoval estava tirando uma com a minha cara. E ele, pela primeira vez, falou bem claramente, em apoio ao Sandoval:

- Não! 

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Bate-papo

E por fim a J., que é uma menina que não vê.

No quarto dela sempre conversamos muito e é das coisas mais interessantes conversar com crianças seguindo seu raciocínio. O assunto era Deus. Algo como:

-  Quem fez você tão bonita?, perguntamos.
-  Meu pai e minha mãe.
-  E quem será que me fez?
-  Ora, foi Deus!
-  E quem será que fez Deus? O pais Deus e a mães Deus?
-  Claro que não! Deus fez ele mesmo!
-  Mas como se ele não existia?
-  Deus fez ele antes de ele existir, oras! 

Estamos tentando entender até hoje.

Vera Abbud, mais conhecida como Dra. Emily, escreve do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

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O que é ser enfermeira

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Andei pensando muito sobre algumas semelhanças entre os palhaços e os profissionais de Enfermagem. 

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Enfermeiros e enfermeiras enfrentam batalhas intensas no seu dia a dia e nem sempre saem ilesos. E não digo só fisicamente, mas digo da alma e do coração.

Tem um poema muito lindo do grande mestre palhaço Picolino (Roger Avanzi) que diz o que é ser palhaço. Resolvi fazer uma homenagem aos profissionais de saúde, então mudei e adaptei algumas palavras. Depois de pronto, dei uma olhada novamente e me espantei com a semelhança dessas duas profissões tão distintas em alguns aspectos…

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Não vou dizer mais nada, esse poema vai falar por mim. Aliás, por vocês. 

Peço licença poética pois às vezes algumas palavras não rimam. Espero que gostem, pois é de coração e admiração! Ah, quero dedicá-lo à minha esposa enfermeira, Íris Lima.

 

“Eu quero explicar a vocês
O que é ser uma Enfermeira
O que é ser o que eu sou
E fazer isso o que eu faço
Ser Enfermeira é saber distribuir
Cuidados e bom humor
E com esforço auxiliar
O paciente espectador

Muita gente diz Enfermeira
Quando quer chamar alguém
E esse nome pronunciam
Com escárnio e desdém

E ao ouvir esta palavra
Outros sentem até pavor
Como se Enfermeira fosse
Criatura inferior

Mas de uma coisa fiquem certos
Para ser uma boa enfermeira
É preciso alma forte
E também nervos de aço

E além de tudo é preciso
Ter um grande coração
Para sentir isso o que eu sinto
Grande amor à profissão

   

A Enfermeira também tem
Suas noites de vigília
Pois lá na sua casa
Ela tem a sua família

Enfermeira, meus amigos,
Não é nenhum repelente
Enfermeira não é bicho
Enfermeira também é gente

Falo isso em meu nome
E em nome de outros enfermeiros e enfermeiras
Que muitas vezes trabalham
Com a alma em pedaços

Ser enfermeira
É saber disfarçar a própria dor
É saber sempre esconder
Que também é sofredor

Porque se a Enfermeira está sofrendo
Ninguém deve perceber
Pois a enfermeira nem tem
O direito de sofrer”

 

  

 

Sandro Fontes, mais conhecido como Dr. Sandoval,
escreve do Instituto da Criança, em São Paulo.

Todo dia ela faz tudo sempre… Igual?

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Toda segunda e quarta trabalhamos no Instituto da Criança, em São Paulo.

Como este hospital é muito grande e complexo, temos dois itinerários diferentes, com duas duplas de palhaços. Ou seja, somos quatro palhaços dentro das veias pulsantes deste hospital no coração da cidade.

Meio pessoa, meio palhaço 

Pela manhã, chegamos e cumprimentamos as moças que ficam na recepção e vamos para uma salinha onde ficam nosso figurino, maquiagem e utensílios médicos besteirológicos. Entenda-se por isso instrumentos musicais, bolhas de sabão e outros objetos inusitados como galinha de plástico, máquina fotográfica de brinquedo, flores de tecido e até uma calçola tamanho GG furada.

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Fotografia dos Doutores da Alegria no Hospital do Campo Limpo/SP.

Já neste meio tempo, que leva em média meia hora, encontramos muitas pessoas e nos relacionamos com cada uma delas, seja por um aceno ou um bom papo matinal com os mais chegados. E isso ainda em processo, meio “pessoa gente”, meio palhaços. 

PS, enfermaria, UTI…

Depois, já totalmente caracterizados como Dr. Dadúvida e Dra. Pororoca, partimos rumo ao Pronto Socorro. Muitos amigos por lá, equipe calorosa. Em alguns dias cheio de pacientes, médicos, residentes, enfermeiros e outros profissionais; em outros o movimento e a intensidade estão mais brandos e até certa tranquilidade paira no ar. A verdade é que, na maioria das vezes, até o corredor vira lugar para maca e paciente

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De lá, seguimos de elevador para o terceiro andar, na ala destinada aos convênios. Outro ambiente, outra arquitetura, outra disposição de quartos e pacientes. Outros parceiros, parceiras. Começamos com nossa conversa sobre o número de pacientes no dia, o que se repete em cada novo ambiente que chegamos, e especificidades sobre os quartos. Logo partimos para uma prosa mais pessoal, um comentário sobre o penteado novo de uma enfermeira, uma brincadeira com a moça da limpeza, e assim começamos os atendimentos. 

Subimos um lance de escada e no quarto andar temos a Enfermaria. Farra garantida com os profissionais de lá… Encontramos enfermeira que samba, enfermeiro sorridente e cantor, pacientes que ficam bastante tempo no hospital e, por conta disso, acabamos construindo muitas e muitas histórias juntos. São sempre 21 crianças internadas, o máximo que pode acontecer é terem 20, mas sempre com alguém por chegar. 

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De lá, no mesmo quarto andar, partimos para a temida e gelada (sim, lá é muito frio!) UTI. Ali soam apitos e outros sons, deixando uma música permanente no ar. Mas por baixo da seriedade e gravidade do ambiente, encontramos espaço para o olhar e a delicadeza, e até por que não dizer, para a bobeira. Saindo da UTI pegamos carona no elevador e voltamos para a salinha onde tudo começou. 

Toda segunda e quarta

Uma jornada diária, como tantos outros profissionais fazem naquele complexo-complexo-hospitalar. Risadas, lágrimas, tristeza, esperança, cansaço, mal humor, amor, dor, espanto, desdém, compaixão, afeto, raiva, doença, saúde, vida e morte.

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Toda segunda e quarta o mesmo itinerário, toda segunda e quarta conhecemos pessoas novas, toda segunda e quarta reencontramos pessoas. Toda segunda e quarta. Ou quarta e segunda, como bem gostamos de lembrar. Tudo sempre igual, mas cada dia, um dia diferente.

Dra. Pororoca, mais conhecida como Layla Ruiz,
escreve do Instituto da Criança, em São Paulo.

E nossos jalecos se cruzaram

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Prepara o lencinho que lá vem declaração de amor <3

Sandro Fontes, mais conhecido como Dr Sandoval, homenageia Val de Carvalho, a Dra Xaveco. Ambos têm uma trajetória de iniciação de palhaço no circo e, depois de tantos anos trabalhando nos hospitais, finalmente formaram uma dupla para atuar durante todo o ano no Instituto da Criança, em São Paulo.

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Val de Carvalho foi uma das primeiras palhaças do país. E Sandro, que faz a declaração abaixo, aprendeu seu ofício no circo.

Fico muito feliz mesmo de estar compartilhando meu jaleco com você, Val. Temos uma trajetória em comum – o circo e a paixão pelo palhaço – e agora estamos juntos levando tudo isso para o hospital.

Vou aproveitar cada instante com você, pois temos muito para jogar, trocar, dividir, inspirar e emocionar, pois você, parceira, é uma grande MESTRA, de letra maiúscula mesmo, umas das maiores referências de São Paulo, quiçá do Brasil. 

Obrigado por nossos caminhos se cruzarem! Sinto no coração um misto de bobeira, orgulho, admiração, seriedade, respeito e muito amor quando estou atuando com você. Eu sei que você é manteiga derretida igualzinha a mim, que já tô até molhando o teclado do computador… 

Amor, carinho e respeito são coisas que estão fazendo falta nos últimos tempos. Por isso me declaro aqui, para que possamos continuar inspirando as pessoas a fazer coisas boas e simples. E essa é uma das inúmeras missões de um artista, não é? 

Pode parecer cafona, mas como você adora música, essa é pra você:

“Eu tenho tanto pra lhe falar ♪♫
Mas com palavras não sei dizer
Como é grande o meu amor por você
E não ha nada pra comparar
Para poder lhe explicar
Como é grande o meu amor por você”
 ♫♪

Tenho certeza que vai ser um ano de trabalho muito feliz… Para nós e nossos pacientes.

Um beijo do seu parceiro, 

Dr. Sandoval (Sandro Fontes)”

O tempo que para e o tempo que voa

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O hospital é um lugar onde a relatividade do tempo tem nuances que o próprio tempo duvida!

O tempo definitivamente para quando aquele corte tem que fechar, a febre tem que sumir, a glicose tem que equilibrar… Em outros momentos ele voa, como nessa experiência que Dr. Dadúvida e Dra Dona Juca dividiram com uma paciente do Instituto da Criança. 

R. é uma menina muito inteligente e habilidosa. Ela sabe fazer origamis e seus preferidos são os tsurus. Quer ser médica quando crescer. Mas R. está há muito tempo no hospital. Não vê sua irmã há meses.

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Na porta do centro cirúrgico, R. aguardava, junto a muitos profissionais de saúde, para dar um abraço em sua irmã antes de ir para sua quinta ou sexta cirurgia. A equipe insistia para que ela entrasse logo. A avó ligava sem parar para a mãe subir logo, até que resolveu sair atrás da mãe da R. para tentar apressar sua chegada. 

Eu (Dadúvida) e minha parceira Juca ficamos na porta, com R.e a equipe médica, tentando convencer todos de esperar mais um pouco, porque a irmã, segundo a mãe, já estava no elevador. Mas não estava… Uns cinco ou dez minutos se passaram, mas para nós era como se estivéssemos ali há horas! Tempo, tempo, tempo!

Do outro lado do corredor, várias crianças sentadas na mesa central esperavam pelos palhaços que avistavam de longe. Decidimos ir ao encontro dos olhares e fazer um rápido exame besteirológico coletivo. Depois, voltamos à porta.

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E só encontramos a mãe, a avó e a tão esperada irmã. Do lado de fora do centro cirúrgico.

A mãe, com lágrimas nos olhos; a avó, tentando falar que estava tudo bem; e a irmã, com uma carinha decepcionada, mas sem entender exatamente o que estava acontecendo ali. 

Depois de tudo isso, aquela sensação… Será que se tivéssemos ficado ali, teríamos conseguido segurar a entrada da R. mais um pouco e ela teria encontrado sua irmã? Será que só irritaríamos mais a equipe médica? Será que as coisas aconteceram exatamente como teriam que ter acontecido? 

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Sem o que fazer para mudar aquela realidade, seguimos atrás do nosso tempo: tempo do encontro verdadeiro, tempo de uma boa cena, tempo cômico… E com alguma dificuldade, reconhecendo a preciosidade de se ter o tempo como aliado, mesmo quando ele parece estar contra nós.

Tempo, tempo, tempo, tempo é um dos deuses mais lindos… 

Dr. Dadúvida (David Tayiu)
Instituto da Criança – São Paulo

Porque hospital também é lugar de arte

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A aproximação entre o universo hospitalar e o campo artístico caminha a passos largos. Parte da ideia de que o corpo humano busca saúde absorvendo diversos estímulos sensoriais.

O palhaço, com sua linguagem própria, é nossa primeira referência. Há 25 anos sabemos que sua atuação reflete na saúde das crianças e na qualidade das relações dentro do hospital.

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Mas também já falamos aqui sobre o Chelsea and Westminster Hospital (o hospital museu, com diversas obras de arte) e sobre a organização Vital Arts, que reúne artistas para pintarem hospitais.

Listamos abaixo algumas outras experiências que aconteceram recentemente e ilustram essa aproximação:

Novos ares

O Instituto da Criança, em São Paulo, recebeu mais de cem reproduções de obras do artista plástico Gustavo Rosa. A ala de diálise do hospital ficou repleta de quadros, em tamanhos grandes, que enchem o olhar de crianças, acompanhantes e profissionais de saúde.

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Todos os dias as crianças comentam algo novo que descobriram nas paredes do hospital! Agora temos um andar colorido e divertido, de onde não param de sair piadas e brincadeiras. E nem preciso dizer que adoramos isso!”, conta Juliana Gontijo, atriz do Doutores da Alegria.

Dou-lhe três…

O Hospital do Mandaqui, em São Paulo, recebeu um leilão de quadros de Mateus Alves, paciente da UTI. Ele pintou, com a boca, os palhaços do Doutores da Alegria. Ele vem aprimorando sua técnica com aulas de pintura oferecidas voluntariamente pelo professor Paulo Ferrari.

Nem só bebês nascem nos hospitais

No Rio de Janeiro, espetáculos nascem nos hospitais. E só depois vão para os palcos – com os artistas e companhias que atuam no projeto Plateias Hospitalares.

Um belo exemplo é “GameShow”, criado pelo grupo Conexão do Bem especialmente para o Hospital Santa Maria, onde pessoas que tratam de tuberculose ficam afastadas em alas de um prédio alto. O espetáculo tem a estrutura de um programa de auditório, no qual a plateia é convidada a participar ativamente, e o desenrolar das cenas e seus desfechos dependem da participação dos pacientes.

Veja outros espetáculos que nasceram nos hospitais.

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Ala cultural

As alas do antigo hospital Vila Anglo Brasileira (1955-90), em São Paulo, deram vida a um espaço cultural. Comprado e reformado recentemente, o local virou sala de ensaio, de criação e palco para apresentações diversas.

“A reforma, porém, não escondeu o histórico do prédio. Os cômodos, alguns com parte dos tijolos aparentes, guardam a cara do antigo hospital, com luzes da sala de cirurgia e alguns objetos antigos (como jarras de medicamentos) expostos”, traz a reportagem do jornal Folha de S.Paulo.

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Sem títulofonte: Folha de S.Paulo 

Que outras aproximações entre arte e saúde seriam possíveis? Seguimos descobrindo.

Uma história em quadrinhos

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Sim, uau! A história destes quadrinhos foi criada por Nilson Domingues e Luciana Viacava, artistas que atuam no Instituto da Criança, em São Paulo.

Os quadrinhos foram pintados por Paulo Ferrari, grande amigo dos Doutores da Alegria, que dá aulas de pintura para o Mateus lá na UTI do Hospital do Mandaqui (SP). A técnica utilizada foi aquarela sobre papel com caneta hidrográfica. 

Acompanhe aqui o trabalho dele.

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Não sabemos quase tudo

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O palhaço é feito de poesia. Buscamos descobrir as insignificâncias do mundo e revelá-las em alto e bom som.

Nossas insignificâncias são nossas virtudes. Adjetivos como imbecil, besta, estúpido, bobo e palhaço são grandes elogios para nós. Estamos na contramão do mundo, somos o avesso, nossa lógica é desconexa.

Valorizamos coisas bobas, fazemos piadas infames, queremos ser feios, ridículos, tropeçamos aqui e ali, batemos a cara na porta e nos alegramos com tudo isso. Porque sim. 

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Mas, apesar de palhaços, somos humanos. Temos questões para resolver, contas para pagar, problemas na família ou no trabalho, ficamos doentes, tristes, choramos, temos insônia, brigamos… A realidade, assim como o sol, nasceu para todos. Bem vindos ao mundo! 

E em tempos difíceis, só o palhaço nos salva. Colocamos a pequena máscara vermelha, buscamos a conexão com o lado tolo do ser e lá vamos nós para mais um dia de trabalho. Mais um dia de insignificâncias reveladas no hospital. 

Neste mês conhecemos um garotinho, o G., de 6 ou 7 anos de idade, que adora a Gal Costa. Sabe todas as músicas de cor. Fizemos um dueto: ele era a Gal, eu era a guitarra e cantamos juntos Meu Nome é Gal, uma de suas músicas prediletas, disputando para ver quem chegava no agudo mais agudo. 

Tudo isso sob o olhar incrédulo do Chicô, que nunca tinha ouvido falar nessa música (ah, se você aí também nunca tiver ouvido falar nessa música, por favor, clique aqui).

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Pode parecer um tanto egoísta, mas aprendemos nesse trabalho que o palhaço é um ótimo remédio para nós mesmos. Porque não sabemos quase tudo e porque a realidade pode se apresentar de maneira cruel e dura para todos nós.

E, se não podemos mudar a realidade, podemos mudar o jeito de lidar com ela. 

Luciana Viacava (Dra Lola Brígida)
Instituto da Criança – São Paulo 

Da realidade que nos invade

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Quem caminha pelo hospital sabe que as besteirologistas Nina Rosa e Juca Pinduca andam com máscaras hospitalares feito chapéu em suas cabeças, com seus jalecos cheios de surpresas, instrumentos musicais para exames de ultrassom, com andar estranho e aquele nariz vermelho que chega sempre antes.

Enfim, coisas de palhaços. São as nossas cartas na manga para criar ficções, modificar a realidade dos espaços, das coisas e das relações. 

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Há nisso certa esquizofrenia, onde caminhamos como se estivéssemos em cima de um muro entre o real e o imaginário, pois em nenhum momento podemos nos desgrudar da realidade que nos cerca, que nos dá o alimento e a inspiração para as cenas que criamos ali na hora, tendo como companheiros de atuação os médicos, as enfermeiras, as crianças; e como cenário as camas e os portas soros. 

Mas nestes meses vivi uma nova experiência: a da realidade que nos invade.

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Creio que não somente eu, como muito dos meus colegas palhaços brincam com suas verdades. Eu, grávida de 5 meses, tenho algo além do nariz vermelho que chega e já é logo notado: a barriga

Essa realidade está ali e é inegável! E por mais que brinquemos, por mais que tragamos para o fato grandes absurdos como “se nascer daqui a um mês é uma calopsita, se demorar mais 3 meses é gente, agora se demorar mais uns 6 meses é uma anta!”, por mais que o irreal brinque com o real, as mães, enfermeiras e médicos sabem que ali há um serzinho que precisa e precisará de cuidados, que mais do que qualquer outro tem precauções para entrar em quartos, pois há riscos maiores. 

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Então em um desses cuidados, um dia, não pude entrar na UTI Infantil, pois havia uma criança com catapora. Dra Juca entrou junto com sua única companheira – a sua sanfona -, enquanto eu fiquei sentada junto a três mães, duas muito jovens e uma terceira talvez poucos anos mais velha que eu… 

- Nossa, você está grávida?, pergunta uma delas. Quer saber o sexo da criança, o nome.
- Estou confusa entre Amoxilina ou Tamiflu, respondi.

Elas riem e contam sobre nomes e suas gestações, numa bagunça típica de salão de manicure. As duas mais novas vão embora, Dra Juca sai da UTI, vamos preparando para ir embora. A outra mamãe, que permanece sentada, me pergunta sorrindo:

- Posso colocar a mão na sua barriga, Nina? 

Sem muita alternativa em casos assim, eu deixo. Então a realidade vem e nos invade. Invade à ela, que abraça minha barriga e chora; invade a mim, que escuta o palhaço pedir licença, meio sem graça acolhendo o abraço, as lágrimas, e aquela conversa sem palavras…

Ainda não sou mãe de fato, apenas uma gestante de primeira viagem entendendo a vida dentro de mim, mas naquele momento nada precisava ser dito, eu sentia de mãe pra mãe toda a gestação dela em mim, toda a alegria dela quando esteve grávida, toda essa espera que passamos, e agora toda a trajetória de sua gestação até aquele momento sentada nas cadeiras de uma UTI voltando à espera… A esperança. 

Apenas consigo dizer que tudo irá ficar bem. Ela devolve dizendo que só deseja saúde ao serzinho que virá… Dra Juca, observando de início sem entender, passa a procurar alguma planta para poder regar com as lágrimas e não desperdiçar as gotinhas de água que caem dos olhos. E a ficção vem e transborda no sorriso da mãe!

Nós, que subvertemos a realidade o tempo todo, não estamos nunca preparados para a realidade que por vezes nos subverte, nos invade; mas ali o palhaço também mora… Ali entra a imaginação e a realidade, entre o que é humano e dói, entre absurdo de lágrimas caindo dos olhos e regando flores. 

Monique Franco (Dra Nina Rosa)
Instituto da Criança – São Paulo

Emergência noturna

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Fizemos uma intervenção noturna no Instituto da Criança neste mês. O hospital tem outro clima.

Parece, em geral, mais tranquilo, com as pessoas preparando o espírito para se recolher. Pegamos o horário de visita e conhecemos outros familiares e amigos dos pacientes. E assim, ampliamos nosso ciclo de amizades, afinal, amigo de amigo, amigo é! 

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Estávamos na área de inalação fazendo uma cirurgia complicadíssima de extração de miolo mole. Eis que percebemos que, mesmo depois de nossa intervenção, o problema do miolo mole persistia e era grave! Saímos correndo em direção ao corredor, chamando um médico. E o Dr. Chicô delicadamente gritou pelos corredores:

- Eeeeeeeemergênciaaaaaaaa!!!! 

Todos os médicos saíram correndo desesperados, com o coração na boca, para ver o que tinha acontecido. Quando deram de cara conosco não sabiam se riam ou se batiam em nós. Não era comum lidarem com problemas besteirológicos à noite. Um médico ficou realmente assustado e Chicô pediu desculpas.

Ficamos sem graça com o acontecido… Isso é que dá ser bom ator, não é, Chicô? 

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E uma mãe, que morria de medo de palhaço, nos surpreendeu. Passamos meses trabalhando com seu filho, que adorava música, sempre tentando nos aproximar dela com muito tato. O garoto teve alta e eles voltaram para casa.

Ao sair, ela deixou por escrito suas impressões, críticas, elogios e reclamações sobre a estadia no hospital e… Também guardou um espacinho pra falar dos besteirologistas:

“Aos palhaços, gratidão, pois por mais que eu tenha medo da imagem dos palhaços, eles, com todo cuidado e atenção, conseguiram trazer alegria para meu filho, sem me assustar.” 

Nós é que agradecemos! Quero agradecer também a todos os profissionais de saúde e funcionários do hospital, parceiros nessa nossa aventura. E ao Dr. Chicô, meu querido parceiro! É nozes! 

Dra Lola Brígida (Luciana Viacava)
Instituto da Criança – São Paulo

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