Papeis trocados

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Já havíamos encontrado K. algumas vezes. Bem-humorado, portador de uma conversa fluida e inteligente e sempre com sua fiel (mãe) escudeira ao lado. Mas houve um dia em que nossa conversa enveredou pelas curiosidades do garoto: ele quis saber o que mais fazíamos além de sermos palhaços.

O Dr. Pinheiro contou-lhe sobre sua extensa jornada no circo, de suas viagens pelo mundo e de seu ingresso numa trupe de artistas, bem conhecida no meio, e emendou: 

- A Greta faz teatro, está até em temporada. Teatro sério, de adulto!
– Que legal! Eu também faço teatro.
– Sério? Onde? Na escola?
– É, na escola, mas não na escola, escola, numa escola de teatro mesmo, na Macunaíma.
– Caramba! Não acredito! Eu estudei teatro na Macunaíma, foi minha primeira escola, fiz aula com grandes mestres.

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Nos encontros que viriam a seguir, descobriríamos que o garoto estava ensaiando para apresentar a peça “Meu Malvado Favorito”. Ele faria um importante personagem, estava radiante. Perguntei se poderia ser um dos minions e ele deu risada, dizendo que pelo menos o tamanho deles eu já tinha garantido. 

Bem, depois disso o menino desapareceu por uns dias. Como sentimos falta do seu “bom papo”, perguntamos a uma das médicas que dia ele viria novamente. Ela nos disse que mais uma vez ele havia desistido do transplante, e que já era a terceira desistência. Ao questionarmos sobre essa decisão por parte do paciente, ela nos disse que se eles (os pacientes) assim desejassem, eles tinham que respeitar sua escolha. 

Ficamos surpresos e chegamos a comentar que talvez fosse por causa do teatro. Coincidentemente, na semana seguinte, lá estava ele. Ficamos muito felizes em vê-lo e mais felizes ainda quando ele contou de sua estreia, já marcada para o mês seguinte. E ele fez questão de nos convidar! 

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Como artistas, sempre conversamos muito sobre o trabalho e as relações nos hospitais. Os vínculos se dão, claro, afinal são muitos encontros; no entanto, há a indicação de que não nos apeguemos demais às crianças porque isso pode levar a uma desestabilização emocional, visto que perdemos muitas delas no decorrer do processo de visitas. Estamos sempre atentos a isso, porém há fatos que nos levam a quebrar as regras e não dá para explicar por que isso acontece. 

E foi a primeira vez, em 12 anos, que aconteceu comigo. Quando K. nos falou de sua apresentação, fiquei fascinada. Desde aquele momento não pensei em outra coisa senão em ir assisti-lo. Foi exatamente o que fiz. Não havia comprado ingresso, por isso cheguei bem mais cedo para ver se conseguia na bilheteria. Estava perambulando pelo foyer quando a mãe dele chega até mim, pergunta se eu não era aquela palhaça do hospital e diz: 

 O K. acabou de entrar no Teatro!
Ele estava nervoso?
Sim, andava de um lado para o outro, e antes de entrar me perguntou se você vinha.
Então não vá contar a ele que estou aqui, quero fazer surpresa!
Combinado. 

Eu estava com minha filha, da mesma idade que o garoto, e ela fez questão de acompanhar minha primeira visita a um paciente fora do hospital. Eu estava muito ansiosa… Enfim, chegou a hora! O espetáculo começou e quando ele entrou em cena fui tomada de tal emoção que não pude conter as lágrimas. A força daquele menino em cena foi algo que me tocou profundamente. 

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Quando a peça estava por terminar, me transportei de volta ao hospital – maquiagem, nariz, roupa – a Dra. Greta estava na sala de espetáculos. Foi uma experiência nova, sair de palhaço no meio do público, que se surpreendeu. 

O Teatro estava cheio, a família de K. o esperava na saída, pai, mãe, irmãzinha, tios, avós. Era o seu momento, por isso me apartei. Quando os atores saíram para cumprimentar o público, fiquei observando o garoto ser calorosamente abraçado por todos e, de repente, nossos olhares se cruzaram. Seu olhar era de surpresa. Ele saiu do meio das pessoas e veio em minha direção já de braços abertos, aquele abraço me dizia o quão grato ele estava por minha presença. Ele não disse nada. Tudo o que tinha que ser dito, foi dito naquele abraço que parecia não ter fim.

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Depois, entendemos que o show tinha que continuar… Ele voltou aos seus e eu, à minha casa. O garoto não está mais se tratando nos dias em que realizamos nossas visitas, porém, ao chegar ao hospital num dia desses, fui chamada pelas enfermeiras:

- Greta, o K. deixou um bilhete para você! 

O encontro significou muito para nós. O que havia no bilhete, bem, isso é segredo nosso <3

Sueli Andrade, mais conhecida como Dra. Greta Garboreta,
escreve do Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, em São Paulo.

Um sentido chamado sensibilidade

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Já faz um tempo que conhecemos a L. Ela tem a visão bem fraca, só enxerga muito de perto. Mas tem uma sensibilidade muito forte.

Em nossos primeiros encontros, já percebemos o quanto ela gosta de palhaço. Ela tocou nossos narizes, nossos sapatos, tudo o que tínhamos nos bolsos. Um fantoche de dedo, cartas de baralho mágica, bolas de cristal e até minha cartola de malabarismo voadora. Ela soube exatamente quem éramos: Dr. Pinheiro e Dra Greta.

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De um tempo para cá, ela esteve internada e temos nos encontrado direto. Sempre que chegamos o pai ou a mãe perguntam se ela sabe quem chegou.

- DOUTORES DA ALEGRIA!, ela grita.

Perto de completar seis anos, L. é uma criança encantadora, conversa melhor que muito adulto. Dia desses chegamos ao seu quarto e a encontramos brincando com uma residente do hospital. Entramos na brincadeira: L. pegava o fogãozinho de brinquedo, a cama e os móveis e me passava, dizendo:

- Pega para você sentir como é!

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Ao final do dia, passamos pelo corredor e lá estavam elas, juntas novamente. E dessa vez dançando valsa… Isso nos emocionou! Na última semana, quando chegamos ao quarto, L. estava saindo com outra criança em direção ao andar da Quimioterapia.

- Vamos juntos!, disse ela, pegando em minha mão.

E eu fui como seu guia, um sentimento de parceria e confiança que ganhamos com o tempo, a cada visita, a cada encontro.

Dr. Pinheiro,
mais conhecido como Du Circo,
direto do Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, em São Paulo.

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Viu o que você fez?

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O menino assistia a um desenho de super-heróis quando chegamos.

Nos apresentamos como besteirologistas: Dra Greta e Dr. Pinheiro. Nenhuma reação por parte dele. A mãe disse que ele era sério, então ficamos sérios. Ele dividia o olhar entre a TV e os besteirologistas.

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Eis que Greta começa a sentir algo, um tremelique.

Dr. Pinheiro – O que é isso?
Dra Greta – Não sei, tô sentindo uma transformação!

Ela se dirige ao fundo do quarto. O menino acompanha com os olhos.
Pinheiro – Greta, aonde você vai?
Greta – Calma, Pinheiro! Preciso de um lugar secreto. 

Dr. Pinheiro percebe a movimentação. Começa a tocar a trilha sonora do Batman. Mesmo sem entender, mãe e filho acompanham tudo atentamente. Eis que Greta surge! 

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Greta – Eu sou a BateGreta! Estou aqui para mostrar os meus super poderes!

O garoto solta um sorriso. BateGreta, desastrada, bate em todas as coisas do quarto. Dr. Pinheiro tenta contê-la, mas não consegue. E o garoto começa a gargalhar.

BateGreta lança um raio fulminante em Pinheiro! Seu chapéu começa a desobedecê-lo, não para em sua cabeça, dá voltas em seu braço, se equilibra no nariz… Nesse momento o garoto já não controla sua risada e… Ops!

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MãeFilho, você fez xixi nas calças de tanto rir!, diz ela carinhosamente.
Pinheiro – Viu o que você fez, Greta?
Greta – Eu não fiz nada, são os meus superpoderes!
Pinheiro – Já pra fora!

BateGreta ainda dá de cara com a porta ao sair do quarto.

Mãe – Nossa! É a primeira vez que o vejo rir tanto desde que está aqui. Obrigada! Vamos trocar a calça, filho?

Dra Greta Garboreta,
conhecida fora dos hospitais como Sueli Andrade,
direto do Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, em São Paulo.

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Parceria pouca é bobagem

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Aconteceu uma coisa muito especial e potente entre a dupla de besteirologistas Mingal e Pororoca e a equipe de médicos e enfermeiros do Itaci, em São Paulo.

Recebemos as incríveis missões de dar duas boas notícias aos nossos pacientes: a alta médica (passe livre para voltar para casa) e a pega que deu certo (transplante de medula óssea que foi sucesso e a medula pegou).

Vamos voltar um pouquinho para entender essas histórias.

O mapa da Mina

Mina é uma menina que estava em isolamento e com a imunidade muito baixa, por isso nossa relação acontecia através do vidro que separa o quarto de uma ante-sala, onde a gente ficava.

Mina é muito ativa, falante e propositiva e queria de todas as formas que a gente entrasse no quarto. Mas nada é tão simples para uma dupla de palhaços, e nunca conseguíamos entrar no quarto, fazendo da impossibilidade de entrar, causada pelo isolamento, um pretexto para problematizar a entrada no quarto.

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Sempre das maneiras mais diferentes e malucas, saíamos da ante-sala que dava acesso ao quarto pela porta errada – a que não levava para dentro do quarto, mas sim para o corredor do hospital. Até que Mina teve a brilhante ideia de fazer um mapa com o caminho certinho e beeeem explicadinho de como finalmente entrar no quarto.

O jogo de tentar entrar e nunca conseguir era divertido e gerava muitas imagens e situações, mas por outro lado, a repetição por tantos encontros estava gerando em Mina uma certa angústia, porque ela acreditava piamente que a gente não conseguia entrar por pura paspalhice.

Mas eis que numa manhã tudo mudou. Recebemos a solicitação para não só entrar no quarto de Mina, mas para também dar a tão sonhada notícia que ela estava de alta médica. Ficamos tão surpresos e felizes que não cabíamos em nossos narizes vermelhos! 

Orientados pelo mapa da Mina, Pororoca e Mingal finalmente conseguiram entrar no quarto. E ela ficou maravilhada e surpresa:

- Mãe, olha o sapato deles!, disse olhando fascinada para nossas pernas e pés, afinal ela só conhecia a gente da cintura para cima. Depois da exibição dos sapatos e de bastante festa pela tão esperada entrada no quarto, em um coro muito afiado, entoamos a boa nova.

- MINA, VOCÊ ESTÁ DE ALTA! PODE IR PARA CASA!

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Que alegria ficaram essa menina e essa mãe, que alegria ficaram esses palhaços, que alegria ficaram médicas e enfermeiras espiando a cena pelo vidro na ante-sala!

Ao nos conceder a missão de dar a notícia da alta hospitalar para uma paciente há tanto tempo internada e em isolamento de contato severo, a equipe médica revelou um respeito profundo por nosso trabalho, colocando em outra dimensão o conceito de parceria entre nossos ofícios.

A história da alta dessa paciente ficou famosa e as outras equipes, da UTI e Enfermaria, souberam do caso e vieram falar conosco. Outras equipes quiseram repetir a prática e, poucos dias depois, fomos incumbidos de dar outra boa notícia…

Pegação

Sassa, uma paciente já mais mocinha, tinha realizado um transplante de medula e tinha pegado, ou seja, tinha dado certo… 

Entramos no quarto falando “pega, pega, pega daqui, pega dali, que a gente queria pegar e coisa e tal”. Sassa começou a achar meio estranha essa coisa de falar tanto em “pega”. Depois de um pouco de mistério, que é bom pra dar emoção, revelamos:

- A MEDULA PEGOU!

Sassa deu um grito junto com sua mãe! Elas riram, se emocionaram e a festa começou. Foi muito gratificante dar essa outra boa notícia.

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Mais uma vez, a equipe hospitalar nos concedeu a oportunidade de dar uma notícia/diagnóstico, estreitando nossa relação e intensificando a parceria, fazendo uma fusão bonita entre a arte e a ficção (médicos palhaços) e a medicina.

Dra Pororoca (Layla Ruiz)
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo

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Flores e beija-flores

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Tem coisas que ouvimos que tocam tão fundo que parece que foi a gente que pensou!

Os hospitais que tratam crianças com câncer não podem ser percebidos somente pela crueldade da doença, pela dor que a perda nos gera com cada criança que vira estrela, cada criança que se cura; mas também pela poesia que permeia toda essa realidade e nos dá cada vez mais ganas de continuar.

Fotografia dos Doutores da Alegria no Hospital do Campo Limpo/SP.

Poesia que vemos na importância consciente de cada pessoa que cruzamos nos corredores do hospital, nos escritórios, na cozinha, nos consultórios, nas portarias. O olhar dessas pessoas está lotado de poesia!

Tem poesia também num parceiro de trabalho que se emociona quando uma mãe chora na UTI pelo simples fato de estarmos ali. Ele, mais do que ninguém, sabe que a nossa cirurgia é poética.

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Palavras têm que fazer sentido e, cotidianamente, ficamos presos na obrigação do sentido das palavras e atropelamos o silêncio que fala muito.

Crianças são passarinhos! Crianças somos flores!

A pequena C. desabrocha como a flor mais linda quando nos vê, viramos clorofila! M. me poetizou num fato lindo, um acontecimento histórico, mas ainda é segredo e não posso dizer, se você olhar nos meus olhos e nos do Dr. De Derson você descobre… Palavras estimulam a curiosidade. O silêncio revela.

Às vezes passamos montados em cavalos de nuvens, às vezes como uma bateria de escola de samba. Temos que perceber com muita delicadeza esse universo poético.

“O mundo está um caos” ouvimos, lemos e assistimos num barulho ensurdecedor, diariamente. Precisamos descobrir silêncios ativos para transformar a nossa vontade e realidade de um mundo mais poético e simples!

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Precisamos aprender a ver a vida como a K., que desafia todas as dores quando se abre para sorrir, e contagia sua mãe, que jamais vai desistir de lutar, mesmo sem o uso das palavras.

O mundo está triste com terrorismos, doenças, ganâncias políticas…

Sejamos o antídoto, sejamos mais poesia!

Dr. Daduvida (David Tayiu) 
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo

Porque sim

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Quanto mais procuro um sentido ou explicação lógica para as coisas da vida, menos encontro. Embora não queiramos aceitar, a resposta para as questões ilógicas da vida, muitas vezes, é simples: Porque sim! 

Mas “porque sim” não é resposta! Porque sim é resposta, sim! 

Por exemplo, perguntem para a dra Manela:
- Manela, por que sua bunda é amarela?

E com certeza ela irá responder:
- Porque sim! 

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Outro dia eu, dra Lola, e a dra Sakura nos deparamos com uma mãe: bem na nossa frente, de costas para nós, chorando profundamente, o corredor todo a percorrer. Ela foi andando sem nos notar, solitária em suas lágrimas. Nós duas atrás, em silêncio flutuante, seguíamos seus passos sem saber onde iam dar. 

Ela vestiu o avental e entrou na UTI, sem olhar para trás. Demos um tempo, nos olhamos, respiramos e abrimos delicadamente uma fresta da porta para tentar descobrir se éramos ou não bem vindas naquele momento. Nós mal começamos a abrir a porta e uma médica veio ao nosso encontro. Então tive a certeza de que ela viria nos dar a notícia da partida de algum de nossos amigos e que seria melhor não entrarmos naquele momento. 

Mas, pelo contrário, ela veio nos dizer:

- Entrem! Vão visitar a “K”, que gosta muito de vocês e teve uma recaída. A mãe está muito chorosa! 

Entramos. Vimos nossa amiguinha deitada, com uma mãe de um lado e uma tia ou avó do outro, ambas se debulhando em lágrimas sobre o corpo desacordado da menina. Nos sentimos na obrigação de fazer algo que pudesse reverter aquela situação, afinal fomos recrutadas para isso. Mas o quê?  

A vontade era ser Deus e mudar tudo. Mas quanta responsabilidade para duas simples palhaças! Que situação delicada! Qualquer gracinha a mais seria fatal para que a mãe nos odiasse para sempre, qualquer atitude de menos seria frustrante e embaraçosa para todos! 

“Mas por que você escolheu ser palhaça e ir trabalhar no hospital?” “Porque sim, ora!” 

Trocamos algumas palavras com a mãe e começamos a cantar. Uma música que veio assim, lentamente e bem baixinho como que buscando lugar para existir… 

“Des yeux qui font baisser les miens…” Em francês, por que não? 

porque sim

E a música foi encontrando lugar de existir, pouco a pouco ganhando corpo com os olhares cúmplices das mulheres… 

“Quand il me prend dans ses bras, il me parle tout bas, je vois la vie en rose… lá lá rá….” 

Cantamos a música toda com direito a solo e tudo. Nossa amiguinha não pôde expressar nenhuma reação. Nem temos como saber se ela ouviu a música, se percebeu que éramos nós ali a cantar, apesar dos sussurros da mãe:

São as Doutoras da Alegria, filha…

Os olhares das mulheres nos atravessaram a alma. Saímos cantando, nos despedindo, com uma sensação tremenda de impotência diante do mistério da vida. Por que uma criança tão pequena passar por tudo isso?

E tivemos que nos conformar com a resposta inquietante: Porque sim!

Dra Lola Brígida (Luciana Viacava)
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo

A gente se modifica a partir do outro

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Saio do hospital com muitas histórias na cabeça e no coração. Recrio minha história a partir destas histórias. Histórias de crianças, de mães, de pais, de famílias, de médicos, enfermeiros, funcionários, palhaços e frequentadores do hospital. 

Imagino histórias a partir dos momentos vividos, das imagens vistas, das emoções sentidas. Por exemplo…

Imagino a história do “príncipe Karabom, herdeiro do trono de uma grande tribo no Sudão. Nasceu no Brasil, pois sua mãe, a Rainha, estava grávida quando se iniciaram as guerras internas entre norte e sul do país. Seus pais vieram fugidos deixando para trás casa, pertences e amigos. O príncipe estava predestinado a voltar para sua terra de origem assim que completasse 18 anos, para recuperar a dignidade dos pais…” E por aí vai… 

Na verdade Karabom (nome fictício) é um menino lindo que chegou ao Itaci e me conquistou logo de cara. Ele, sua mãe e seu pai. Os pais realmente vieram do Sudão. Ele nasceu no Brasil. Mas é só isso que sei, o resto inventei. Gostaria de poder inventar finais felizes para as histórias de todas essas crianças e que eles se realizassem assim, plim!, como mágica. Torço muito para que a história de Karabom e de sua família tenha um final feliz. Muito mesmo. 

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Algumas histórias não ouso imaginar, pois me parecem muito doloridas até na imaginação…

Estávamos eu e dr. Pistolinha, já sem os trajes de besteirologistas, porém com a alma ainda brincante, olhar aguçado, antenas ligadas, descendo o elevador para irmos embora, depois do dia de trabalho. De repente a porta se abre. Entra um adolescente. Ou uma adolescente? Não consegui descobrir se era menino ou menina, o que vi era uma pessoa muito magra, com ossos proeminentes, cabeça quase pelada, crânio saliente. 

Ao seu lado, oferecendo o braço como apoio, uma mulher com ares de assistente social. Em seguida uma enfermeira acompanhando a dupla. Até aí uma paisagem bastante conhecida para nós. Até que entra no mesmo elevador, acompanhando o trio, um policial armado, em estado de alerta, a mão apoiada na arma como se pudesse ter que usá-la a qualquer momento. 

Chegamos ao térreo, saída. Todos desceram. Quando passamos pela porta de saída estavam o adolescente de um lado e o policial do outro. Passamos entre os dois e demos de cara com um carro da Fundação Casa, ex-Febem. Uau! Que forte! Minha cabeça não ousou sequer imaginar respostas para tantas perguntas… O que teria feito esse adolescente para ir parar na Fundação Casa? Como foi sua infância? Quem são seus pais? Como adoeceu? Como se chama? O que gosta de fazer? O que gosta de comer? Como está se sentindo agora? Não consigo responder. 

Isso tudo me fez lembrar uma experiência que tive: outro dia fui ver a palestra-espetáculo de um colega, Nando Bolognesi, o palhaço Comendador Nelson (ex-Doutor da Alegria) e fiquei muito tocada com o que vi e ouvi. Neste espetáculo, de forma divertida e emocionante, ele conta sua história e fala sobre como tem convivido há anos com uma esclerose múltipla. 

A certa altura, entre filosofias existenciais e coisas e tais, ele começou a falar sobre a importância ou desimportância do “eu”. Pelo menos foi assim que entendi, acompanhe comigo: “Eu sou eu e estou aqui na terra. A terra tem não sei quantos bilhões de habitantes (seres humanos, sem falar nos outros seres). A terra é apenas um planeta dentro de uma galáxia chamada Via Láctea que tem mais muitos planetas que podem ser habitados. A Via Láctea é apenas uma galáxia, entre muitas galáxias que tem muitos planetas que podem ser habitados… Concluindo: eu sou eu apenas para mim mesmo. Para todas as outras pessoas do universo eu sou o outro. Sendo assim, a gente é muito mais o outro do que a gente mesmo.”  

Adorei! Esse pensamento acaba mudando os pesos e valores das coisas. Tira de nossas costas o peso de ser aquele eu com meus problemas, minhas questões e nos abre para uma bela possibilidade: a de experimentar o mundo através do outro.

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E isso é o que acontece com a gente no hospital, a gente se modifica a partir do outro.

Através das histórias dos outros. O Itaci é um hospital onde encontramos sempre as mesmas crianças, às vezes durante anos, onde temos a oportunidade de conhecer mais profundamente suas histórias, suas famílias, seus amigos, seus gostos e desgostos. Conhecemos os funcionários, os voluntários, os médicos, enfermeiros, faxineiros, seguranças… Uma grande equipe que trabalha unida, cada um cumprindo seu papel com a maior dignidade! Inclusive nós, palhaços, temos a nossa função bem determinada e respeitada lá dentro…                                                               

E com todas essas histórias me sinto mais forte e mais humana. Obrigada.

Dra Lola Brígida (Luciana Viacava)
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo

O palhaço é.

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Dizem que para se sentir apto numa profissão demora dez anos. 

Pois eu estou completando 17 anos de Doutores da Alegria e de hospital. 

Duico Vasconcelos e Paola Musatti

E compartilho nessas linhas algumas vivências que tenho. O palhaço é esperado para a próxima visita como uma pessoa do corpo clínico do hospital, mas é diferente, pois trata-se da visita de um palhaço. E o que é esperar a chegada de um doutor palhaço? Quem é ele? Sentimental, tímido, aloprado, louco, namorador, carente, medroso, bravo, mal humorado, canastrão, equilibrista, musicista…? 

Como ele irá atender naquela manhã cinzenta? Como ele irá atender depois de uma noite mal dormida? Como ele irá atender ao olhar um paciente que acabou de se internar e está completamente assustado? Qual será o assunto que ele vai abordar? Do que vão falar? 

Todas essas perguntas passam nas nossas cabeças antes, durante e depois dos nossos atendimentos. 

No Instituto de Tratamento do Câncer Infantil (Itaci), a nossa rotina de palhaço começa no 3º andar. Lá é a sala da diretora do hospital. Como podemos ter tanta intimidade? A saudade do fim de semana começa com várias perguntas: 

- E aí, Manela? E aí, Pistolinha? O que têm pra me contar de hoje, do final de semana…? 

E assim o imaginário do palhaço dispara… Constrói frases e pensamentos tão verdadeiros que aqueles seres “palhaços” conversam de igual para igual aonde quer que ele esteja. Discutem políticas, doenças, jornalismo, besteiras, papos de manicure, novela, o que quiserem. 

Descemos as escadas e já estamos prontos pra dar e receber o que virá. Um corredor extenso com pais e crianças aguardando atendimento. Depois, um enorme saguão de espera onde as cadeiras estão disponíveis como num teatro, só que voltadas para uma TV.

Depois uma ala de quimioterapia. Depois uma andar inteiro com quartos privativos. E por fim a UTI. 

De uma riqueza sem fimDe uma liberdade estremecedora. De um vínculo tão ou mais forte que um namoro. De uma intimidade que não conquistamos muitas vezes em anos de casamento. 

E por quê? Qual o segredo disso? 

O palhaço se mostra. E ao se mostrar o outro se mostra também. O palhaço enfrenta. E ao enfrentar o outro talvez enfrente também. O palhaço se expõe e o outro poderá se expor também. 

Muitas vezes me distancio e não acredito que adentramos uma sala médica, aonde estão discutindo um caso sério, e pouco a pouco, conversa daqui e conversa dali, em cinco minutos aquela sala não é mais a mesma. Parecemos amigos que se conhecem há tanto tempo. Por quê? 

Na UTI, por exemplo, aos poucos fomos conquistando os funcionários e sinto uma vontade de colocar aquele lugar de cabeça pra baixo contando as minhas mazelas, as minhas virtudes, cantando, brincando, brigando com o Dr. Pistolinha! 

O palhaço é. E ao ser, o outro pode ser também. Um mundo onde precisamos tanto parecer ser… O palhaço é. 

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E na doença não se pode fingir que não está doente. Se está doente. Creio que aí que começa a grande relação, tão forte e duradoura entre palhaços, corpo clínico e pacientes. 

Estamos todos SENDO. VIVA O SER, O ESTAR.

Dra. Manela (Paola Musatti)
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo

Um raio luminoso no céu da humanidade

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Nós, que vivemos em grandes cidades, estamos acostumados a esperar por tudo na vida. Esperamos parados no trânsito, em filas nos bancos ou até mesmo o resultado de um teste. Mas nenhuma espera se assemelha à espera pela morte. 

No Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, em São Paulo, há muitos pacientes nos cuidados paliativos. Para quem não sabe, os cuidados paliativos são exercidos para dar qualidade no final da vida a pacientes que nada mais têm a fazer a não ser esperar pela morte. Não há mais solução para o caso deles. 

Já diria o velho dito popular:

“A única certeza que temos nessa vida é a de que vamos morrer um dia.”

Esses pacientes sabem que seus dias estão contados.  

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Eu fiquei impressionado com a força desses “meninos” que mesmo diante da morte conseguem tirar alegria dos pequenos encontros que temos. Vi que para eles, e consequentemente para nós, besteirologistas, os encontros tornam-se extremamente importantes, pois não sabemos se esse encontro se repetirá no outro dia. É praticamente impossível para nós falarmos “até segunda!” já que pode ser que ele não esteja mais lá nesse dia. 

Esses encontros com esses “meninos” se refletem em nossa vida particular, pois passamos a potencializar os encontros que a vida nos oferece

um raio luminoso

Lembrei do que disse o renomado samurai Musashi

“… amar a vida não era o mesmo que satisfazer a fome sem nada fazer, ou viver longamente sem nenhum objetivo. Significava, isto sim, esforçar-se para dar sentido a essa inestimável vida no momento em que se via obrigado a dela se despedir, dar-lhe o devido valor, riscar no céu da humanidade, até o último suspiro, o luminoso traço de uma vida plena de significado. 

Ali estava o âmago da questão. Comparados às centenas de milhares de anos da humanidade, os setenta ou oitenta anos de duração da vida de um homem não eram mais que um piscar de olhos. Nessas circunstâncias, mesmo que um homem morresse antes de completar vinte anos, sua vida teria sido longa se fosse brilhante. Esse seria também o retrato do homem que verdadeiramente amava a vida. 

Dizem que o período mais importante e difícil, em todos os empreendimentos, é o inicial. No caso da vida, porém, o mais difícil é o final, o da despedida. Pois é a partir daí que se estabelece o valor ou a duração de uma existência, daí se sabe se ela havia sido fugaz, como espuma na areia, ou um raio luminoso no céu da humanidade.” 

Esses “meninos”, sem sombra de dúvida, nos ensinam como se tornar um raio luminoso no céu da humanidade.

um raio luminoso no ceu

Duico Vasconcelos (dr. Pistolinha)
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo

Manela não é só mais besteirologista

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Em junho a Manela andou sumida. Entre um corredor e outro no hospital, correram boatos de que ela tinha ido arranjar dinheiro para comprar um vestido de noiva. Desencalhou?

Procura daqui, procura de lá, encontramos algumas fotos reveladoras e atestamos: Manela não é mais só besteirologista.

Primeiro tentou vender suco de laranja, mas se deu mal quando um cliente reclamou do suco que só tinha o bagaço e o caroço.

Manela vende suco

Depois tentou a sorte em uma banquinha, vendendo produtos apenas da cor amarela. Mas faliu por causa dos clientes que queriam outras cores nos produtos. 

Manela vende roupa

Então comprou uma máquina de fazer café. Foi denunciada por um cliente que a viu passando o café na meia. Alegou fazer isso por se tratar de fazer um café mais tradicional e com aroma.

Manela vende cafe

Agora ela está negociando no Detran para liberar a ambulância que usou fazendo transporte escolar. Segundo dizem, Manela fez isso a fim de facilitar a vida dos pequenos que ficam por horas no trânsito para irem para suas escolas. 

manela dirige

Inconformada com todos estes acontecimentos, conta-se que Manela se sente muito mal compreendida. E, por fim, resolveu abrir uma copiadora de xerox. Com o slogan “Aqui seu dinheiro vira um dinheirão”, foi pega e entrou pelo cano, pois a viram com notas e mais notas de cem reais no tamanho XXG.

Manela faz copias

Para desafogar a saudade de todos – e fugir do xilindró – Manela voltou para o hospital. Pode ser encontrada toda semana no Instituto de Tratamento do Câncer Infantil. E os pacientes afirmam em alto e bom som: 

O lugar da Manela é na Besteirologia!