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Daqueles momentos em que nenhuma palavra substitui a presença

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Ele é daqueles meninos que a gente bate o olho e sabe que é especial. É feito algodão doce, suave e fofinho, daqueles de conversa boa e mansa. 

Tem aproximadamente 11 anos, mas com a seriedade de um adulto, que parece que já passou por tantas coisas e optou por olhar os outros com afeto e leveza. No primeiro encontro nos deu um abraço apertado, e no fim do dia nos procurou para dizer que acha muito bonito o nosso trabalho.

Barão de Lucena - Lana Pinho-53

 

Agradecemos, ficamos surpresos. Não pela frase em si, mas por esta frase ter vindo de uma criança. E de abraços e brincadeiras seguiram nossos encontros. Até um dia em que eu, Svenza, e o Dr. Marmelo soubemos que o menino receberia alta. Foi ele mesmo que deu a notícia – e saiu de cabeça baixa.

- Por que está triste?, perguntamos.
- Tô triste porque vou sentir saudade de vocês, respondeu ele com voz de algodão doce.

E debruçado numa janela, suas lágrimas escorriam nas suas bochechas. Marmelo ainda tentou consolá-lo, dizendo que ele podia ver a gente quando quisesse na internet. O menino disse que não podia não, pois seu pai não deixava sua mãe ter internet.

Paramos. Nesse momento também nos debruçamos na janela. Despencamos. Silêncio.

Uma luz forte de dia iluminava nossos rostos e penetrava nossa alma. Pensei em como ele mais velho se lembraria da gente (e “se” lembraria). Tentei organizar na minha cabeça palavras que dissessem sobre como foi bom E. ter estado naquele hospital, naqueles encontros.

Achei que seria justo que ele soubesse da sua importância no meu mundo, nesse mundo. Mas os pensamentos vinham acelerados e escolhi ficar calada. Daqueles momentos em que nenhuma palavra substitui a presença.

IMIP - Lana Pinho-97

 

Ficamos ali, os três, sabendo da importância um do outro. Senti alegria por ele nos levar onde quer que vá. Devíamos ter trocado endereço, queria lhe mandar cartas! Fiquei curiosa por saber se aquele menino irá se transformar em homem ou foi apenas um sonho para nos trazer leveza nesses dias conturbados, esquisitos e desumanos. 

Luciana Pontual, mais conhecida como Dra. Svenza,
escreve do Hospital da Restauração, em Recife.

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Comecei a ficar mais atento aos meus sentimentos. Observei que, numa mesma enfermaria, eu passava por vários afetos.

Restauração -  Lana Pinho_-53

Certa vez, dentro da UTI, eu e Dr. Dud Grud ficamos felizes ao ver as enfermeiras charmosas, com medo ao lembrar que eram casadas e tristes por continuarmos encalhados. Quando saímos da UTI, olhei para o leito que era de um paciente querido e daí bateu a saudade. Mas logo desejei que o ele estivesse bem. Só isso. Isso é amor.

Olha só quantos sentimentos vivenciamos em poucos minutos. Fui afetado e fui afetando! Isso é a gasolina do palhaço, o que faz o palhaço mover. 

Parece que os adultos acreditam que é perigoso sentir. A criança não tem medo de sentir. Fui tentar entender na prática e na teoria o que significam alguns sentimentos e outras palavras que o tempo todo batem aqui no meu coração.

Busquei entender algumas questões no livro PALAVRA DE CRIANÇA, de Patrícia Gebrim:

Fracasso 

É uma coisa que a gente sente quando só quer fazer coisas certas. Não é verdade que a gente fracassa. Às vezes a gente erra, mas aí é que a gente aprende a fazer uma coisa ainda melhor.

Saudade 

É quando a gente sente uma pessoa dentro da gente; aí lembra que gosta dessa pessoa e fica querendo dizer isso pra ela, mas às vezes ela está longe e a gente só pode dizer em pensamento, mas a gente diz, e ela escuta mesmo assim.

Restauração -  Lana Pinho_-55

Medo 

É um bicho peludo de cara feia que faz a gente querer fechar os olhos e se esconder, mas quando a gente arrisca e conversa com ele, a gente descobre que a cara dele não é tão feia assim. Converse com seu medo. 

Cura 

É quando a gente pega a doença no colo e pergunta o que ela tem. A gente deixa ela falar e presta muita atenção, e quando ela termina, já não tem mais nada pra curar.

Restauração - Lana Pinho-166

Vergonha 

É quando a gente não aceita a gente mesmo e acha que ninguém mais vai aceitar. Se a gente pudesse ser mais carinhoso com a gente mesmo, ia respeitar mais as escolhas que fez, e não ia ter vergonha de ser quem a gente é.

Restauração - Lana Pinho-44

Doença 

É uma sirene bem barulhenta que a gente tem dentro da gente. Toda vez que nosso coração fica apertado ele grita bem alto, mas ás vezes a gente está distraído e nem ouve, aí ele toca a sirene pra gente saber que ele está precisando de nós.

Vida 

É que nem um presente embrulhado em um papel colorido. Tem gente que guarda o presente pra abrir depois, mas isso é muito sem graça. Legal mesmo é fazer aquela festa, rasgar o papel e abrir o presente… no presente.

Restauração -  Lana Pinho_-49

Morte

É quando a lagarta já aprendeu tudo sobre a vida das lagartas, aí ela se fecha numa casinha apertada chamada casulo, nascem asinhas nas suas costas e ela vira uma borboleta bem bonita e sai voando por aí, aprendendo um monte de coisas diferentes. Se entrega com confiança às transformações.

Bom humor

É quando a gente descobre que a vida é uma grande brincadeira. Aí a gente sabe que as coisas que acontecem são de mentirinha, que nem nos filmes, então a gente começa a brincar de viver e tudo fica muito mais divertido. Ser menos sério.

Curador 

É uma pessoa que sabe que não pode curar ninguém. Ela sabe que cada um é seu próprio curador e ajuda você a descobrir isso. O curador é uma pessoa que tem muito amor.

Restauração -  Lana Pinho_-46

Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

O sorriso de N.

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Quando Sandoval e Valdisney assumiram os plantões besteirológicos no Hospital do Campo Limpo, costumavam ver a mãe de N. acompanhando o garoto em sua estadia. Faz algum tempo que isso não acontece mais.

N. tem problemas de mobilidade e fica em sua cama. Não fala e só se comunica através do olhar e de expressões de seu lindo rosto. Há meses que os palhaços entram no quarto para fazerem suas consultas e ele não manifesta nenhum afeto, apenas observa. 

sorriso de n

Um dia, por obra do destino, Sandoval esqueceu o chapéu de malabarismo na mala e acabou levando-o, sem querer, para o hospital. Valdisney disse a Sandoval com essas doces palavras:
- Já que trouxe, agora usa, né? 

Dito e feito! A dupla passou o dia trabalhando no hospital e usando o chapéu de tudo quanto é jeito. 

Entraram no quarto do N. Sandoval alegou ter esquecido a peruca em casa e precisou comprar um chapéu pra não ficar com sua careca à mostra. Valdisney confirmou o relato. 

sorriso de n

Sandoval começou a mostrar os truques que sabia fazer com seu chapéu. N. e Valdisney apenas observavam. Ele fez um truque de morder o chapéu e arremessá-lo com a boca, seguido de um giro no ar direto para sua careca.

Então aconteceu o que esperávamos há meses: o garoto sorriu. 

Valdisney não acreditou no que viu e pediu que Sandoval repetisse o truque. Mais um lindo sorriso surgiu! Depois que a consulta besteirológica acabou, os palhaços foram até a porta e se despediram de N. E o melhor de tudo: o sorriso continuava em seu rosto.

sorriso de n

Dr. Valdisney (Val Pires)
Hospital do Campo Limpo – São Paulo

Duas em uma: um pouco de afeto e uma descoberta besteirológica

De onde vem o afeto? 

O trabalho no hospital frequentemente nos emociona. Nesse mês saímos da enfermaria do T. muito “afetados”.

Ele estava ominubilado – nem dormindo nem acordado – quando deixamos uma consulta marcada pra próxima visita. O lembrete era um adesivo colorido. Perguntamos se ele ia cuidar do adesivo e ele balançou a cabeça concordando. Foi o nosso pacto.

Para nós foi um enorme ato de generosidade do menino, que está lutando contra uma doença muito grave e mesmo assim prometeu que cuidaria do adesivo até o nosso próximo encontro.

Nesse momento fomos tocados pela grandeza do ser humano, do quanto os pequenos são gigantes na luta pela vida. Ah, esses exemplos nos deixam bem orgulhosos de poder participar de momentos como estes, grandes assim…

E diretamente da Escola de Besteirologia…

Eu, Dra Mary En, juntamente com o Dr. Marmelo, desenvolvemos uma nova rotina besteirológica e queremos compartilhar com vocês! Eis que nós descobrimos como amolecer esqueletos enferrujados! E como toda boa experiência, tivemos um paciente que colaborou desde o princípio com a nova descoberta, o F.

1º passo – O diagnóstico
De violão em punho, entoamos a música “A mover o esqueleto”. O paciente não mexe um dedo sequer. A partir deste sintoma, identificamos o problema: esqueleto enferrujado!

2º passo: O prognóstico
Giramos o “rói-rói”, nosso instrumento besteirológico, perto das partes críticas do esqueleto do paciente: joelhos, cotovelos, pescoço…

3º passo: O exame físico
Com a música em alto e bom tom, o paciente começa a se movimentar, vai aos poucos e de repente… tan tan tan tan. O corpo começa a se requebrar todo igual a um esqueleto molinho!

4º passo: A evolução
Para estimular ainda mais o paciente na evolução do forró, quer dizer, na evolução do quadro clínico, sai do bolso da Dra. Mary En um pequeno esqueleto que se mexe absurdamente, estimulando o paciente ainda mais.

5º e último passo – A conclusão
Sem ao menos levar o caso para a comunidade científica, concluímos que o paciente desenferrujou o esqueleto e, se brincar, pode até conseguir um bico nas horas vagas como bailarino em alguma casa de show!

 

Para os interessados, basta visitar o F. no segundo andar da Oncologia. Ele desenferrujou tanto o esqueleto que basta nos ver e ele começa a requebrar! Sucesso!

Como somos gentis, vamos distribuir a letra da música para os médicos que quiserem evoluir com esta rotina. Basta nos procurarem lá no andar da Besteirologia (o único problema é que não construíram ainda…).

Dra. Mary En (Enne Marx)
Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Instituto Professor Fernando Figueira (IMIP) – Recife
Maio de 2013