BLOG
 

As subidas e as descidas de cada dia

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

A vida da gente segue como uma escada, penso eu. Às vezes sobe, outras desce, mas geralmente sobe e desce.

E foi numa dessas descidas à UTI, no 2ª andar, que conhecemos um garoto de cabelos compridos, parecidos com os do Alceu Valença. Ele quase não se mexia, com tanto equipamento ligado a seu corpo. Mas uma porta abriu, pelo olho vivo, na chegada da nossa voz falando baixinho no seu ouvido.

Barão de Lucena - Lana Pinho-59
E eis que uma escada surgiu no caminho e, para subir, tivemos que descer. 

Como tudo era desconhecido, fomos devagar para não assustar o menino e, aos poucos, descobrimos como eram boas as dificuldades encontradas em cada degrau. Resolvemos, entre tantas visitas, fazer uma música e, para nossa galgada rotina, ele nos surpreendeu quando dançou com os olhos, num mexido bailante onde todo seu corpo estava conectado, denunciando o desejo de se mover.

A alegria estampava nossos rostos e olhos, que também sorriam. 

Barão de Lucena -  Lana Pinho_-17

O acontecimento virou notícia no setor e era comum fazermos bailes com muita gente ao redor só para ver o menino dançar com a Íris, menina que dizem morar nos olhos. Um dia, depois de descermos alguns degraus, reencontramos ele numa outra cama, com menos equipamentos ligados ao seu corpo.

E para arrepiar os cílios dos olhos, ele ecoou um som com a língua, como se estourasse uma bolha de sabão no ar. A gente parecia criança quando ganha brinquedo novo. E se o garoto tivesse um botão, daríamos play infinitas vezes para ouvir o som de bolha que saía de sua boca. 

Naquele dia, subimos um dos degraus mais bonitos, porque a evolução de um paciente é como a chegada de um presente sem data marcada, uma alegria que não cabe numa caixa e nem precisa de embrulho. Daqueles presentes que todo mundo brinca junto e vai pra casa feliz. 

Barão de Lucena -  Lana Pinho_-29

Ele já é um dos vocalistas da “Banda Vuó” e o sucesso tem sido tão grande que agora a gente sobe mais degraus do que desce. E com um passo atrás do outro, podemos chegar à Lua. 

Dra Svenza e Dr. Lui,
conhecidos fora dos hospitais como Luciana Pontual e Luciano Pontes,
direto do Hospital da Restauração, em Recife.

Bom humor: nos hospitais e além deles

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Alegria e bom humor são geralmente associados ao trabalho de um palhaço. Ou ao que ele deveria deixar após um dia de trabalho com crianças hospitalizadas.

Mas nem sempre essa associação é absoluta – tudo depende da relação que o palhaço estabelece com a criança. Wellington Nogueira e Vera Abbud, os primeiros artistas do Doutores da Alegria a encararem esta rotina hospitalar, falam sobre esta experiência. A entrevista completa está no site da Revista Trip.

IMG_8404

“Acho que no hospital deparamos com situações que nos fazem ver muitas coisas simples do dia a dia como uma dádiva. Nos faz relativizar as dificuldades. Mas o mal humor faz parte da vida também, pois senão seria uma vida anestesiada, irreal”, conta Vera, que ingressou na organização em 1991 e até hoje atua em hospitais paulistanos como Dra Emily.

Um bom antídoto contra o mal humor e, consequentemente, para ter alegria é você aprender a respirar e tentar rir de si mesmo. Já conheci muita gente tão mal-humorada que chegava a ser engraçada, não para elas mesmas, claro. É preciso ver como você fica ridículo quando escolhe o caminho do mal humor, uma maneira de não olhar para si mesmo. É aí que começa a doença”, completa Wellington Nogueira, fundador do Doutores da Alegria.

well

Ele conta uma história que transcorreu em uma UTI: “A gente estava tocando uma música para a criança, aí o médico chegou e falou “Olha, um violão! Empresta ele aí”. Ele pegou o violão e começou a tocar um rock para a criança. Ela adorou, nunca tinha visto o médico fazendo isso, nem sabia que ele gostava de rock. Aquela criança e aquele médico estavam se relacionando como pessoas, não mais como médico e paciente…”

Segundo Vera, o bom humor traz leveza, mostra outras possibilidades. O humor é uma reação à uma situação de desequilíbrio, é um jeito de falar de um assunto muitas vezes espinhoso mas sem aniquilar as partes envolvidas. É uma forma inclusiva de abordar uma situação. O riso contagiante é para todos, se não for assim temos alguma forma de constrangimento.”

A entrevista completa está aqui. E você, como mantém o bom humor diante das dificuldades do dia a dia?

Uma área mágica dentro do hospital

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Há nos hospitais um espaço situado entre a fantasia e a realidade, onde tudo pode acontecer. Fica para além dos corredores, longe das portas, um tanto escondido. Corre o boato, nas bocas pequenas, de que só as crianças e os palhaços sabem onde fica…

Estamos falando da “área mágica segura”. Parece fantasia ou brincadeira de besteirologista, mas é um conceito sério, criado pela professora e pesquisadora sueca Lotta Linge (foto), já aplicado em muitas pesquisas mundo afora sobre a intervenção de palhaços em hospitais.

clowner-7006595-sgq_2_4 (1)

A área mágica segura é um lugar simbólico estabelecido durante o encontro entre palhaços e crianças. Assim que o artista, munido de técnica, entra em um quarto e tem a permissão da criança para continuar, abre-se uma brecha na relação tempo-espaço e as fronteiras entre o que está doente e o que está saudável se dissolvem, tornando possível o impossível.

É sabido que o tratamento hospitalar afasta a criança de seus principais contextos de vida, como a família, a escola, os amigos; e sua nova rotina pode trazer a percepção de ameaça perante o desconhecido. Essa realidade se impõe de forma dura. Em alguns casos, pode representar obstáculos ao tratamento e até mesmo experiências traumáticas.

Segundo Linge, as possibilidades inesperadas dentro da área mágica segura ajudam as crianças a se distanciar dos problemas, principalmente pela alternância entre diferentes estados emocionais. Quando elas podem brincar e testam suas alternativas, em um lugar onde tudo pode acontecer, em vez de sentir as suas limitações, elas têm a oportunidade de confiar nas possibilidades de seu corpo, o que aumenta a autoconfiança.

Restauração -  Lana Pinho_-51

É próprio da linguagem clown inverter os papeis de uma relação de autoridade. A criança dá o tom da relação, é sábia e experiente, e os palhaços são ignorantes e desajeitados, na necessidade de orientação e ajuda. Para Linge, a sensação de ser capaz de assumir o controle sobre o incompreensível dá um efeito duradouro de bem-estar que pode extrapolar dias e circunstâncias difíceis no hospital.

“Uma menina descreveu claramente a área mágica; ela sentiu os palhaços construindo um mundo junto com as crianças, um mundo que não era o real, mas um lugar em que as crianças eram vistas e reconhecidas, em uma atmosfera de alegria. Esta adolescente não se verá como doente, mas como uma pessoa que simplesmente estaria buscando sua forma mais saudável”, conta a pesquisadora.

Mesmo que a realidade da internação não possa ser afastada, ela certamente pode ser enfrentada e superada. Melhor ainda se for em um espaço em que a criança se sinta segura e autoconfiante.

Os palhaços do Doutores da Alegria estão toda semana nos hospitais, se empenhando para que as áreas mágicas criadas com as crianças estejam sempre em movimento. E, por que não, possíveis de serem acessadas aqui e acolá por profissionais de saúde?

(fonte: Magical attachment: Children in magical relations with hospital clowns)

Uma descoberta

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Quando a gente dá de cara com a alegria, não dá pra resistir. Sobe ao peito uma sensação de preenchimento. Às vezes falta o chão.

A alegria, quando vem forte, toma conta do nosso corpo e faz perder a noção do tempo. Leva embora o vazio. Depois, enquanto nos deixa para que outros afetos se apoderem, sai em forma de sorriso, de paz, de vida. Cada um vai descobrindo, ao longo da sua trajetória, onde encontrar fontes de alegria: um abraço de mãe, a garfada na comida preferida, a visão do mar, um beijo, a conquista de um diploma, a lambida do cachorro.

Quando adoecemos, enxergamos na cura da enfermidade a saída para que voltemos a desbravar o mundo e esbarrar em momentos de alegria. Parece que o corpo saudável é condição para isso. Se a doença nos faz permanecer no hospital por mais tempo, tentamos criar explicações que façam sentido – pelo menos pra nós mesmos – do porquê deste martírio.

Afetos tristes e olhares piedosos podem se instalar. A consciência domina qualquer tentativa de escape, de imaginação. Colocamos a nossa reabilitação à mercê do destino.

a descoberta

Mas… Calma. Não é preciso estar saudável pra sentir alegria. A gente sabe. Requer, talvez, algum esforço para espantar esses afetos tristes e abrir espaço para os encontros. Sim, mais um esforço além de todos aqueles pedidos ao paciente – pelos profissionais de saúde, por nossos parentes e pelo próprio corpo, debilitado e atrás de energia para se recuperar.

Já contamos muitas histórias de pacientes que conseguiram tirar poesia do cotidiano no hospital. Gente que desviou o foco do medo da agulha ou da decepção com a recuperação lenta. Isso não significa que o medo não surgirá segundos antes da injeção, mas traz a descoberta de que a dor é apenas uma parte da experiência no hospital… E, por que não, uma parte da vida?

uma descoberta

Quando a alegria se instala em um corpo em que a saúde encontra resistência, ela potencializa afetos positivos, traz intensidade, faz nossos motores voltarem a funcionar. Restaura, afinal, a ânsia de vida. Depois ela nos abandona, como deve ser, para lembrar de que é preciso ter força para encontrá-la novamente.

No hospital ou fora dele, talvez não seja preciso forçar a barra para encontrar sentido e utilidade naquilo que passamos, ancorando-se em forças sobrenaturais ou ficando à deriva de um destino, mas estar disponível para que os afetos como a alegria nos atinjam e restaurem algo que as crianças sabem bem e que aprendemos com o primeiro respirar, dolorido, dos nossos pulmões recém-nascidos: que a força e a potência de vida estão em nós mesmos.

Fotografia da Dupla Du Circo e Ju Gontijo no Instituto da Criança no Hospital das Clínicas.

Com um encontro

Tempo de leitura: 1 minuto(s)
Acordamos todos os dias para fazer a mesma coisa nos hospitais: encontrar pessoas.

A mesma coisa, mas todo dia de um jeito diferente. Encontramos pessoas, ainda sem maquiagem de palhaço, nas escadas e nas recepções. Depois, devidamente paramentados, nos corredores, leitos pediátricos e enfermarias. Ainda mais: nas poltronas ao lado dos leitos, nas bancadas da Enfermagem, por trás dos carrinhos de limpeza.

com o encontro_rogerio alves

No dicionário, ‘encontro’ pode ser ‘juntar-se no mesmo ponto’. Mas também ‘disputar, lutar, opor-se’. Como é que a mesma palavra pode ter significados distintos?

O objetivo do palhaço, no trabalho dos Doutores da Alegria, é estabelecer encontros potentes com as crianças; encontros que perpetuem a alegria e que possam trazer benefícios para a saúde.

Ao abrirmos a porta de um quarto inventamos relações, alcançamos o imaginário, fabulamos. Podemos ser o médico besteirologista pronto para um check-up de miolo mole, mas também podemos ser o que a criança quiser. E podemos, inclusive, levar um ‘não’ e ter de fechar a porta. Ao passar pelo corredor, podemos brincar com a enfermeira e sua bandeja de agulhas fritas, dar sinal para pegar uma carona na cadeira de rodas e também podemos nos despedir de um grande amigo que teve alta.

com o encontro_luciana serra

com o encontro_nina jacobi

Encontros planejados, ritmados ou encontros casuais, fugazes.

Veja: um encontro pode significar juntar-se no mesmo ponto (a visita regular do palhaço), mas também pode ser uma oposição (um ‘não’, uma despedida). E esses encontros são sempre diferentes, porque para estabelecer relações não é possível reproduzir, por mais que o palhaço tenha gracejos prontos em seu repertório.

É preciso produzir, criar, estar aberto para o que vem do outro – e nesse sentido, o fazer artístico pode ajudar. É dessa criação conjunta e ativa que surge a alegria, a potência de vida. E tudo começa como todo dia… Com um encontro.

Um olhar além

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Baruch Espinosa, holandês que viveu no século XVII, construiu um pensamento que até hoje dá subsídios ao trabalho dos Doutores da Alegria.

O filósofo fala sobre a força dos encontros e sobre como eles podem afetar o corpo humano. É mais ou menos assim: quando um corpo encontra com outro, pode ser que deste encontro surja um corpo mais potente ou que um decomponha o outro, diminuindo a potência de agir. Os efeitos dessas composições e decomposições podem gerar as chamadas paixões alegres ou as paixões tristes: quando nosso poder de ação é aumentado, ele alimenta paixões alegres, já as paixões tristes aparecem quando algo diminui nossa energia, nos ameaçando ou oprimindo.

Ele afirma ainda que a alegria é o aumento da potência de vida. Mas como alcançar este estado, esta potência, em uma situação de adversidade, como em um leito de hospital?

um olhar alem

Um dos princípios que temos é o da não condescendência. Não consideramos ninguém um “coitadinho”, não agimos por dó ou por pena. Esse “olhar piedoso”, lembra Espinosa, é uma paixão triste.

“Ao fazer isso, você já está olhando para o paciente de uma maneira superior, dando qualificações para ele, e o grande barato do palhaço é a horizontalidade: é de igual para igual”, diz Wellington Nogueira, fundador da ONG. Norteamos nosso trabalho para que do encontro entre um palhaço e uma criança surja a alegria, a potência de vida. E esse sentimento, claro, ativa o corpo humano e traz benefícios para a saúde. Talvez seja a própria saúde.

Um olhar alem

“Ao encontrar uma criança que está numa situação difícil, o palhaço fala: Nada de moleza, vamos fazer exercícios hoje. Eu trouxe as bolhas para o senhor estourar”, conta Wellington, “E se disser não, eu digo: Tá bom. Então eu volto daqui a dois dias.” 

Um olhar alem

Grupos de voluntários que se inspiram nos Doutores da Alegria muitas vezes dizem que é complicado deixar o “olhar piedoso” de lado quando se deparam com situações tenebrosas nos hospitais. E a mídia, de forma geral, tem nos acostumado a manter esse olhar. Pense nas situações em que balançou a cabeça, murmurou “coitado” e saiu andando ou seguiu pensando de forma negativa. Pense em como isso afetou sua saúde.

Pois vamos nos desacostumar, vamos agir de igual para igual, respeitando experiências de vida. Ao invés de lançar o olhar piedoso, procure agir a favor de algo que possa beneficiar alguém, que possa aumentar sua potência para sair de uma situação desagradável. Com dignidade e franqueza, respeitando o direito de escolha de cada um.

Vamos construir uma visão de saúde que se baseie na união entre corpo e pensamento! Se o corpo age, o pensamento também age! “E vice-versa”, nos diria Espinosa!

Essa sabedoria…

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

“Há um mês pensava que estava bem de saúde, inclusive muito bem. Aos 81 anos, eu ainda nado uma milha* por dia. Mas a minha sorte acabou. Há algumas semanas soube que tenho várias metástases no fígado.”

O neurologista e escritor Oliver Sacks, cuja obra já foi inspiração para a peça O Homem que Fala, dos Doutores da Alegria, escreveu ontem um emocionante e lúcido artigo para o jornal The New York Times em que relata a descoberta de um câncer em sua fase terminal. Há nove anos, o tumor atingiu um de seus olhos, deixando este sem visão. À época, soube que apenas 2% dos casos resultavam em metástases – ou seja, evoluíam para outras partes do corpo. “Estou entre os 2% desafortunados”, escreveu.

Oliver Sacks

“Sinto-me grato por ter tido nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original, mas agora estou de cara com a morte. Depende de mim escolher como quero viver os meses que me restam. Tenho que viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que puder”, continua o escritor, e nos faz traçar um paralelo com o nosso trabalho.

Quando encontramos crianças hospitalizadas em situação semelhante, buscamos dialogar com seu lado saudável, o lado que nos conecta com o outro, que nos potencializa para fazer melhores escolhas. Acreditamos que a arte do palhaço pode enriquecer a experiência humana e o humor pode aliviar tensões e diminuir a ansiedade.

Sacks continua. “Nos últimos dias, consegui ver a minha vida a partir de uma altura maior, como um tipo de paisagem, e com uma sensação cada vez mais profunda de conexão entre todas suas partes. Isso não quer dizer que terminei de viver. Pelo contrário, eu me sinto intensamente vivo, e quero e espero, nesse tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar se eu tiver a força, e alcançar novos níveis de entendimento e discernimento.”

Oliver Sacks por Bill Hayes

Para um adulto, como ele, pode parecer menos cruel enfrentar a doença e suas consequências. Nas alas pediátricas em que atuamos, já vimos muita maturidade em crianças que estavam nesse estado. Crianças que abriram espaço para uma visita nossa enquanto os adultos em volta pensavam: “talvez não seja uma boa hora para vocês virem aqui…”. Essa capacidade de saber priorizar a alegria num momento único como esse nos impressiona. Será que um adulto teria essa sabedoria?

O texto do neurologista traz esta luz e nos deixa de certa maneira aliviados, mesmo sabendo que sua partida pode estar próxima. Merece ser lido na íntegra para ser melhor compreendido. Aqui o original em inglês, e aqui uma tradução livre.

* 1 milha equivale a aproximadamente 1,6 quilômetros

Em tempo

O espetáculo O Homem que Fala teve por inspiração o livro O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, de Oliver Sacks, que trouxe aos artistas um terreno fértil para suas inquietações. As esquetes da peça foram baseadas nas histórias reais do livro, dentro da linguagem do palhaço, mas sem a presença do nariz vermelho.

O Homem que Fala - André Estefano

Numa sucessão de cenas, personagens sem nome tomam o palco, ora uma mulher observa pessoas e sem querer reproduz suas expressões, num mimetismo compulsivo e angustiante, ora outra é tomada por lembranças aleatórias de um passado distante. Outra ainda constrói um mundo fora da lógica dos outros. Um fotógrafo desnivelado expressa em fotos sua visão de mundo.

O espetáculo cumpriu temporada no Teatro Ágora, em 2013, em São Paulo.

Um raio luminoso no céu da humanidade

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Nós, que vivemos em grandes cidades, estamos acostumados a esperar por tudo na vida. Esperamos parados no trânsito, em filas nos bancos ou até mesmo o resultado de um teste. Mas nenhuma espera se assemelha à espera pela morte. 

No Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, em São Paulo, há muitos pacientes nos cuidados paliativos. Para quem não sabe, os cuidados paliativos são exercidos para dar qualidade no final da vida a pacientes que nada mais têm a fazer a não ser esperar pela morte. Não há mais solução para o caso deles. 

Já diria o velho dito popular:

“A única certeza que temos nessa vida é a de que vamos morrer um dia.”

Esses pacientes sabem que seus dias estão contados.  

um raio luminoso

Eu fiquei impressionado com a força desses “meninos” que mesmo diante da morte conseguem tirar alegria dos pequenos encontros que temos. Vi que para eles, e consequentemente para nós, besteirologistas, os encontros tornam-se extremamente importantes, pois não sabemos se esse encontro se repetirá no outro dia. É praticamente impossível para nós falarmos “até segunda!” já que pode ser que ele não esteja mais lá nesse dia. 

Esses encontros com esses “meninos” se refletem em nossa vida particular, pois passamos a potencializar os encontros que a vida nos oferece

um raio luminoso

Lembrei do que disse o renomado samurai Musashi

“… amar a vida não era o mesmo que satisfazer a fome sem nada fazer, ou viver longamente sem nenhum objetivo. Significava, isto sim, esforçar-se para dar sentido a essa inestimável vida no momento em que se via obrigado a dela se despedir, dar-lhe o devido valor, riscar no céu da humanidade, até o último suspiro, o luminoso traço de uma vida plena de significado. 

Ali estava o âmago da questão. Comparados às centenas de milhares de anos da humanidade, os setenta ou oitenta anos de duração da vida de um homem não eram mais que um piscar de olhos. Nessas circunstâncias, mesmo que um homem morresse antes de completar vinte anos, sua vida teria sido longa se fosse brilhante. Esse seria também o retrato do homem que verdadeiramente amava a vida. 

Dizem que o período mais importante e difícil, em todos os empreendimentos, é o inicial. No caso da vida, porém, o mais difícil é o final, o da despedida. Pois é a partir daí que se estabelece o valor ou a duração de uma existência, daí se sabe se ela havia sido fugaz, como espuma na areia, ou um raio luminoso no céu da humanidade.” 

Esses “meninos”, sem sombra de dúvida, nos ensinam como se tornar um raio luminoso no céu da humanidade.

um raio luminoso no ceu

Duico Vasconcelos (dr. Pistolinha)
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo

O nosso caldeirão de emoções

Tempo de leitura: 1 minuto(s)
“Ninguém no hospital espera a visita de um palhaço, ninguém está lá para isso. Uma pessoa hospitalizada está distanciada de seu cotidiano e de tudo que a cerca – objetos, cheiros, hábitos, bichos de estimação, familiares. Intimidade, identidade, controle sobre a vida, quase tudo vai pro espaço.”
 

A frase acima, de Soraya Saide para o livro Boca Larga, ilustra o sentimento que muitas crianças vivenciam quando estão internadas ou passam um longo período hospitalizadas. O brincar fica de lado e exames, avaliações, injeções e conversas sérias tomam seu cotidiano. Dependendo do tempo de internação, as visitas se tornam raras e os acompanhantes, cansados e preocupados com a situação, não têm paciência – ou cabeça – para dar a atenção devida à criança. 

Lugar de urgências, emergências, contingências, o hospital quase que exige que a imaginação seja deixada de lado. Os profissionais precisam dar conta da demanda como podem; as pessoas, fragilizadas e desacreditadas do sistema de saúde público, exigem esforços da equipe. Apesar de parecer um ambiente frio e sisudo, o hospital é um caldeirão de emoções.

E daí surge o palhaço, montado no semblante de médico besteirologista, e ocupa espaços absolutamente esquecidos: o espaço do erro, o espaço do humanidade, o espaço da imaginação, o espaço da dúvida. Ele desperta na criança, que ali recebe a outorga de paciente (e não de agente!), o desejo genuíno de brincar, sempre apoiado na sua permissão para seguir adiante. Sim, é ela quem decide!

Apesar de comprovar empiricamente ali, no dia a dia de trabalho, descobrimos por meio de pesquisas que as visitas influenciam muito na relação das crianças com o próprio tratamento. Dá uma olhada:

Pesquisa Instituto Fonte | 2008

Brincar e sair das nossas zonas de conforto – de atitude e de pensamento! – modificam não só o nosso comportamento como também todo o ambiente. Não é preciso ser sisudo pra ser sério, não é mesmo?

Durante as visitas, acompanhantes, médicos, enfermeiros, seguranças também entram no jogo. Esses encontros dão potência para seguir o dia com mais leveza, com mais alegria, e provam que apesar da situação, é preciso encontrar o lado saudável da vida, o lado que nos conecta com o outro, que nos potencializa para fazer melhores escolhas. E essas escolhas podem ser um sorriso, uma escuta mais presente, uma decisão em conjunto.

Pequeno chef

Arthur tem apenas oito anos e seu sobrenome já virou GourmandEm francês moderno, gourmand significa o apreciador da alta gastronomia. É isso mesmo.

O pequeno chef adora cozinhar e utiliza parte do tempo em que fica no Hospital A. C. Camargo, em tratamento contra a leucemia, para criar receitas como filet mignon com purê de mandioquinha e aspargos e sobremesa de frutas com creme de maracujá. Hmmmmmm!

E pra mantê-lo motivado, seus pais tiveram a brilhante ideia de desenvolver um programa de culinária webO talentoso Arthurzinho combina ingredientes, prepara pratos in-crí-veis e o mais legal: mostra que alegria não tem contraindicação.

E eles aceitam sugestões:

- Arthur passou a semana passada cuidando da sua saúde e já está na ativa de novo. Teve tempo para pensar na sua receita e teremos novidades em breve. Queremos dicas! Então, nos digam: o que vcs querem que nosso pequeno chef prepare no próximo programa? Podem dar sugestões de prato principal e sobremesa. Aguardamos ansiosos!

Tá esperando o que pra conferir as delícias e dar ideias?

>> Veja a página do Arthur Gourmand no Facebook: https://www.facebook.com/arthurgourmand 
>> Arthur ensina: receita de filet mignon com purê de mandioquinha
>> Arthur ensina: receita de peixe dourado com purê de mandioquinha e aspargos
>> Arthur ensina: receita de sobremesa de frutas com creme de maracujá

Parabéns, pequeno chef!