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A solidão e as lembranças que carregamos

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Nesta semana uma senhorinha internada me perguntou: Como é uma UTI? Eu nunca vi”.

A pergunta transparecia o medo de em breve precisar ir a esse lugar. A UTI nunca vista e, provavelmente, imaginada como um lugar frio e silencioso. Sobretudo, a senhorinha tinha medo da solidão, de ficar sem a família. Medo de não ter quem segure sua mão, como dizia Clarice Lispector. 

IMIP - Lana Pinho-121

Tentei acalmá-la: falei dos profissionais que sempre estão lá, monitorando os pacientes. Falei que a todo tempo passa um médico pra lá, uma enfermeira pra cá, uma auxiliar de limpeza que recolhe coisas enquanto canta uma música. Não sei se essa informação confortou aquele coração amedrontado, porque apesar de todas as pessoas que circulam por lá, o que ela queria mesmo era saber se ao acordar na UTI veria um rosto conhecido, que ajudasse a lembrar do quintal de sua casa, do baile que frequentou na adolescência, do cheiro do bolo assado dos sábados, do aconchego dos amigos, do carinho de sua mãe. 

Coisas boas de lembrar. Lembranças que também curam.

Eu não pude falar para aquela senhorinha, naquele momento, de duas crianças que por hora moram na UTI do Hospital Barão de Lucena. Dois bebês de alguns meses de vida. Estão na UTI, mas não há quem venha lembrá-los de outros dias mais propícios, porque não há ninguém que os acompanhe. Eles não têm família.

Barão de Lucena - Lana Pinho-142

Com apenas alguns meses de vida, já estão naquele lugar onde a senhorinha de cabelo branco tem medo de ir. Um berço ao lado do outro. Dois bebês de origens distintas, que se encontraram nesse ponto de interseção da vida: companheiros da mesma UTI pediátrica. Sozinhos. 

Colocamos o nariz vermelho, vestimos o jaleco branco onde se lê “Doutores da Alegria”, entramos na UTI, cantamos e dançamos para aquelas duas pessoinhas. Será que se sentem sozinhos? Automaticamente, por reflexo, seguro a mão de um deles por um momento. Enquanto cantamos, seus olhos seguem nossos movimentos, vemos uma mãozinha se erguer no berço tentando agarrar um instrumento percussivo, depois ao lado uma cabecinha se vira para seguir o som da música – percebe quando vamos mais pra longe, quando chegamos mais pra perto.

Eles também têm medo? Procuro olhá-los nos olhos.

IMIP - Lana Pinho-56

Nesse momento alguém começa a filmar a reação dos pequenos. Médicos e enfermeiras se acercam e os chamam pelos nomes – há muita afetividade ali. Sentimos o tempo sobrelevar e parar, para que duas palhaças sejam os “rostos conhecidos” daqueles pequenos.

Nós, duas palhaças, desejamos com nosso ofício, lembrá-los dos muitos dias propícios, que ainda virão.

Desejamos que eles não sintam medo, nem solidão, nem tristeza, ou qualquer dessas coisas-de-gente-grande-que-não-são-coisas-de-criança. Desejamos tanto que eles lembrem o quintal da casa que terão, o baile que ainda frequentarão, o aconchego dos futuros amigos e os bolos quentes nos dias de chuva. Nós somos apenas duas bobas e não sabemos se tudo que desejamos acontece. É por isso que seguimos desejando até agora.  

“Receba o mundo sem medo,
pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados
e nós mesmos também incompreensíveis”
Clarice Lispector 

Dra. Monalisa, mais conhecida como Greyce Braga,
escreve do Hospital Barão de Lucena, no Recife.
 

Nem só bebês nascem nos hospitais

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A experiência vivida nos hospitais tem influenciado artistas que por lá passam.

As relações humanas, a saúde e a doença, os diálogos, as emoções… Tudo é fonte de inspiração para quem trabalha com arte e, através dela, atribui novos significados para a vida.

No projeto Plateias Hospitalares, desde 2009 no Rio de Janeiro, os espetáculos saem dos teatros para serem apreciados por pacientes, profissionais de saúde e acompanhantes. Agora, devagarzinho, vem acontecendo um caminho inverso: espetáculos nascem nos hospitais. E depois vão para os palcos. Veja três exemplos recentes:

O grupo Conexão do Bem criou “GameShow” especialmente para o Hospital Santa Maria, onde pessoas que tratam de tuberculose ficam afastadas em alas de um prédio alto. O espetáculo tem a estrutura de um programa de auditório, no qual a plateia é convidada a participar ativamente, e o desenrolar das cenas e seus desfechos dependem da participação dos pacientes.

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A Cia de Teatro Íntimo, que costuma levar poesias aos hospitais, criou “A balada do amor através das idades”. O espetáculo conta a saga entre duas pessoas em seus desencontros amorosos através das idades, até que, na velhice, descobrem que são almas que se buscam há muitas vidas. No roteiro, poesias de Carlos Drummond, Vinicius de Moraes, Adélia Prado, entre outros.

A Cia Teatral Milongas criou o espetáculo musical “Os bambas”, explorando a comédia existente no universo do samba, a partir de composições de Noel Rosa, Adoniran Barbosa, entre outros.

os bambas

Percebemos a participação dos pacientes, acompanhantes e servidores nas apresentações. Isso proporciona momentos de alegria e descontração e possibilita o acesso à cultura no ambiente hospitalar”, conta Eliane Fernandes, da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.

Em anos anteriores, a atriz Ilana Pogrebinschi e o Milongas também tiveram no ambiente hospitalar a sua inspiração, criando “A montanha das três perguntas e outras histórias misteriosas” e “Contos fadados”.   

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Agradecemos aos artistas por aceitarem o desafio e irem além, criando novos espaços de interação entre a saúde e a cultura. Ver espetáculos nascerem nos hospitais, como bebês pequeninos e sensíveis a estímulos, é muito especial…

E, assim como aqueles, traz uma brisa genuína e renovada sobre o futuro dos hospitais.

Quando a vida real invade a ficção

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Pororoca está grávida. Verdade ou mentira? 

Uma palhaça grávida. Existe isso? Palhaço tem filho? Vida lá fora? Palhaço é gente? 

Quando uma pista da nossa vida real se torna evidente, é impossível que essa informação não invada o jogo, não permeie os encontros e as relações que construímos no hospital. Nos últimos meses tem sido assim. Dra. Pororoca, gravidíssima, caminha pelos corredores do Hospital Universitário exibindo um barrigão protuberante e deixando um rastro de interrogação cravado na testa de pais, acompanhantes, crianças e profissionais da saúde, limpeza e segurança.

pororoca esta gravida

Verdade ou mentira? Primeira grande questão.
Quem é o pai? Dr. Mané? Outra dúvida frequente.
Menino ou menina? Perguntam em coro.
Qual o nome? A curiosidade saltita.

Muitos não resistem e passam a mão na pança arredondada, emitindo quase que instantaneamente um grito, misto de riso, aflição e surpresa:
- É verdade!!

E todos correm para comprovar, num passa mão na barriga pra lá, passa a mão na barriga pra cá… E quando perguntam o que é, Pororoca não titubeia:
- É gente!
- Ele é o pai?, perguntam referindo-se ao doutor Mané Pereira.
- Ihhhhh, para fazer isso preciso ler o manual!, responde Mané ruborizando a careca.
- E o nome?
- É Psiu! Vem, Psiu, tomar banho! Coloca um casaco, Psiu! Um nome fácil de decorar e muito prático. 

Por fim, a vida real invade mais uma vez a bobagem e o bebê de Pororoca – Pororoco, Psiu, Cá ou Joaquim – vai se tornando oficialmente parte do jogo, mezzo ficção, mezzo realidade.

Trabalhamos em trio, dois adultos e um bebê na barriga.

A vida secreta de um palhaço gera muita especulação, o olhar sobre a figura muda, a pessoa por trás da máscara cresce e por vezes torna-se mais interessante do que o palhaço em si, e o desafio é mesclar os universos, partilhando e reinventando essa história, a narrativa sobre a gestação real de uma palhaça inventada, uma história criada a cada dia e feita por muitas pessoas.

Fotografia da Dupla Du Circo e Ju Gontijo no Instituto da Criança no Hospital das Clínicas.

No berçário, a gravidez cai como uma luva, gerando identificação imediata com quem acaba de vivenciar essa experiência. Trocamos figurinhas sobre amamentação, parto, troca de fraldas, choro, tudo sob a ótica do palhaço, da Besteirologia, mas com um dado – a gravidez evidente – que potencializa o jogo, elevando a complexidade dos encontros.

E para completar, Pororoca terá o filho no próprio hospital, passando de doutora a paciente, de pessoa palhaça para pessoa gente, com RG e CPF. A vida real invadindo de maneira mais radical a criação artística. Mas essa história fica para um próximo capítulo…

Dra. Pororoca (Layla Ruiz)
Hospital Universitário – São Paulo

Por trás da máscara…

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Dr Micolino

Todos os meses contamos causos que permeiam o universo da Besteirologia, nosso dia a dia no hospital, encontros e desencontros que vivenciamos nos corredores, enfermarias e UTIs. Dessa vez, gostaríamos de compartilhar o momento anterior, o antes, o instante que antecede a Besteirologia. Ou seja, o artista que está por trás daquela que é a menor máscara do mundo: o nariz do palhaço. 

Gostaríamos de compartilhar nossa vivência do “antes” por acreditar que todos temos diversos papéis e nem sempre pensamos na pessoa que está ali por trás, sua história, seus sentimentos, sua vida. Esse pensamento ocorreu ao chegar ao hospital, e eu (Dr. Micolino), ainda sem assumir meu papel besteirológico – apenas uma pessoa comum chegando para realizar o seu trabalho, depois de enfrentar um trânsito nada simpático e de batalhar por uma vaga de estacionamento – pensava que o dia estava apenas começando. 

Eu me dirigia ao hall de entrada do Hospital da Restauração quando me deparei com uma mãe que segurava seu bebê no colo. Um bebezinho lindo! E foi numa fração de segundos que meu olhar cruzou com o olhar do bebê e, como um imã, não paramos mais de olhar um para o outro. Por um instante pensei: “natural, eu sou um palhaço que trabalho com crianças e, bem…”, mas eu estava de cara limpa, nenhuma caracterização que me identificasse com o trabalho que estavas prestes a iniciar. Continuei andando e a troca de olhar não desgrudou. 

A mãe percebeu e comentou:

- Que engraçado, ele ficou olhando… 

A essa altura eu já havia diminuído o ritmo da minha caminhada, pois eu queria mesmo era prolongar aquele instante, tinha uma cumplicidade no olhar daquele bebê, era como se ele percebesse em mim aquilo que de fato sou: um palhaço. Eu me senti verdadeiramente tocado por aquela troca de olhares. Ao voltar meu olhar para a direção que seguia, me deparei com uma técnica de Enfermagem que vinha no sentido oposto ao meu, e ela também percebeu aquela cena. Na verdade acho que muitas pessoas perceberam! E ela então, sorrindo, me disse:

- Até vestido assim as crianças te olham! 

Pois é, até vestido assim! Enquanto o elevador subia, não parei de pensar no que tinha acontecido ali, naqueles longos segundos, “Até vestido assim…”, pensando em quantas pessoas passam por ali, e eu, justo eu, chamei a atenção de uma criança, que sabemos é quem mais sabe olhar verdadeiramente para as pessoas. É como se fosse um raio X, elas enxergam a verdadeira essência de quem somos, e “Até vestido assim…” aquele bebê foi capaz de ver quem realmente sou. Nesse dia trabalhei com um sentimento de orgulho muito grande por ser quem sou… Um palhaço!

Dr. Micolino e Dra Mary En (Marcelino Dias e Enne Marx)
Hospital da Restauração – Recife

Um olhar recém nascido

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Uma das regras da Besteirologia – se é que ela tem regra – é que nós temos que ter nosso olhar sempre aberto para o novo.

Cada dia, cada momento, cada criança, cada “bom dia”, cada rotina, por mais rotineira que seja, temos que sentir tudo como se fosse a primeira vez. Temos que ter memória de peixinho dourado, que depois de três segundos esquece tudo e tudo fica novo de novo! Mas essa lição nós, besteirologistas, não aprendemos em livros. Onde encontrar?  

Eu (Dr. Marmelo) e a Dra. Mary En estudamos um final de semana inteirinho: ela no sábado e eu, no domingo. Aprendemos que a forma com que as crianças pensam, enfrentam seus problemas, nas suas brincadeiras, nas suas reações, nas mudanças de humor, na ingenuidade, o desejo de ter, de jogar, de experimentar, a ignorância do perigo, o desejo de abarcar tudo, seu imaginário e, especialmente, seu olhar para o mundo, é a maneira com que devemos encarar a Besteirologia!

Em um plantão dia desses, eu e Mary En nos deparamos com uma criança de poucos centímetros. Tinha acabado de nascer, estava no bercinho toda enrolada e toda meladinha… Vestígios do parto! Um ser bem frágil… E na Besteirologia, no palhaço, a fragilidade representa uma grande fortaleza!

Sua pele era seda pura, novinha em folha… Novo, tudo novo, a imagem era maravilhosa! Não sabíamos se era menino ou menina, mas quando questionamos, ops, surpresa! O movimento do bebê fez escapulir seu lençol… Era menina! E era tão inédita que não tinha nem nome fixado no leito.

A partir de agora, por alguns anos, o olhar dessa criança será de descobrimento, de curiosidade, olhar o que nunca foi visto o tempo todo. Enquanto a gente cantarolava uma música quase que em sussurro, o bebê desgrudou um olhinho, olhou para o mundo e… Olhou com bastante curiosidade para nós!

Precisa responder onde encontrar nossa fonte de estudos? O olhar da menina observava as coisas com tanta curiosidade que nos levou à nossa própria história, de quando nos sentimos assim, novinhos, despidos de toda e qualquer impureza, sem nada traçado, tudo por vir. Já dizia o filósofo Jostein Gaarder: A única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos é a capacidade de nos admirarmos com as coisas

Os bebês possuem esta capacidade, mas à medida que crescem, a perdem. Deste modo, podemos comparar um filósofo a uma criança: tanto um quanto o outro ainda não se acostumaram com o mundo e não pretendem se acomodar com as coisas.

Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Dra. Mary En (Enne Marx)
IMIP – Recife
Agosto de 2013 

Quando o hospital é o melhor lugar

A Y. tem apenas seis meses. E ficamos tocadas com a sua vida.

Por problemas respiratórios ela esteve no Hospital do Mandaqui, mas a verdade é que ela mora em um presídio com sua mãe. Era clara a carência da menina, que ouvia tudo com grande atenção e com um olhar curioso. 

A Dra. Xaveco arriscou um toque em sua mão. Ela agarrou o seu dedo sem querer soltar e a Xaveco não queria desgrudar porque sabia de sua carência.

Após tantas visitas, a pequenina descobriu que se chorasse quando as besteirologistas começassem a ir embora do quarto, elas voltavam e cantavam mais um pouquinho. E aí elas cantavam um pouco mais e um pouquinho mais e um pouquinho mais e outro pouquinho… Cada vez era mais demorada a saída do quarto.

Até que chegou o dia em que entramos no quarto e ela não estava mais lá.

Que bom que ela saiu do hospital!, dissemos uma para a outra. E logo em seguida nos lembramos: Ah. Ela foi para o presídio.

Estava tão paparicada e cuidada no hospital. Quem diria que ficar no hospital seria bom para alguém…

Dra Xaveco Fritza (Val de Carvalho)
Dra Dona Juca Pinduca (Juliana Gontijo)
Hospital do Mandaqui – São Paulo
Julho de 2013 

Quem nos ouve

Não é simples começar um relacionamento. Alguns pelo olhar, por serem apresentados por amigos, tantos pela porta da frente, outros pela porta dos fundos. E para casar, namorar ou até mesmo paquerar é preciso que ambas as partes estejam interessadas. Se permitam deixar entrar um na vida do outro. 

Foi assim e é assim que até hoje vem acontecendo conosco, besteirologistas. E também foi assim que se deu nosso namoro com a UTI Neo Externa. Paqueramos e conversamos em nosso café da manhã desse ano – que é uma ação dos Doutores da Alegria para falar sobre o trabalho no hospital – e finalmente recebemos um ok! 

Vamos fazer uma experiência, disse a Margarida. 

Ficamos bem felizes pois aumentamos por conta própria o nosso itinerário de trabalho e ampliamos a área de atuação da Besteirologia em outro setor do Barão de Lucena. 

Certa vez na fila, ou melhor, na fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiila do almoço, conversávamos com nossos botões em voz alta: 

Pois é, Dr. Eu, agora temos mais bebês pra atender. 
É mesmo, Dr. Lui… Tem uns tão pequenininhos, não é?. 
Ah Dr. Eu, bebê é assim mesmo! Tem de todo tamanho… Principalmente, na UTI Neo Externa. 

Aí uma funcionária que também estava na fiiiiiiiiiiiiiiiiiila ouviu a conversa e disse: 

Ôxe! O que é que palhaços vão fazer lá? Esses bebês nem olham pra vocês! 

Não sei se por desinformação ou por estar com o miolo mole prejudicado por causa da fome ou mesmo por algum outro despropósito qualquer não diagnosticado na hora, mas não conseguimos responder direito àquela criatura que confundiu Besteirologista com palhaço e nem sabe ao certo sobre nossos encontros no hospital. Como nos relacionamentos, a gente só vê o que se passa por fora e nem sempre por dentro. 

Como contar para ela da alegria de todos que trabalham na UTI Neo com a nossa chegada?  Como detalhar cada exame besteirológico que fazemos com as mães e pais? Como descrever o Y. com sua dança acrobática ao ritmo do nosso ultrassom? 

Há coisas que transcendem o corpo e o olhar e só mesmo estando presente pra perceber que os bebês, seja lá qual for o tamanho, estão conectados com tudo à sua volta e é justamente aí que o palhaço atua. Às vezes atuamos miudinho como pede a ocasião e os resultados nos surpreendem. 

Foi o que aconteceu com a menina M. 

Ela estava toda mole, sem querer muita conversa. O Dr. Lui apresentou o Tobias, um boneco em formato de girafa que dançou, dançou e dançou. Ela? Apenas olhou, acompanhou na sua. Vendo que havia certo encanto da M. por ver Tobias requebrando tanto daquele jeito, perguntou o Dr. Lui: 

M., você quer tomar conta do Tobias pra mim? Tenho compromisso e não queria deixá-lo só! 

Ela balançou a cabeça dizendo “sim”. Lá ficou o boneco acompanhado de todas as recomendações intermináveis que o paspalho do Dr. Lui fez. 

Na visita seguinte, M. continuava quietinha e o Tobias descansava na janela olhando o tempo passar. Na outra semana chegamos bem empolgados pra cantar uma música para ela, mas o abestalhado do Dr. Lui inventou de dormir. Acordou num solavanco, assustado com a violãozada que o Dr. Eu deu bem no meio da sua bun… (eita! quase que eu dizia “bunda”!). 

Nunca pensamos que ela, na sua quietude, pudesse reagir daquela forma a um jogo físico tão bobo. Tentando ver se aquele era um bom efeito, Lui dormiu e acordou mais três vezes para a felicidade da garota, que ria mais a cada violãozada. 

No encontro seguinte avistamos uma menina correndo pela Enfermaria… E para a nossa surpresa era a M.! Talvez aquela risada arrancada de surpresa tenha quebrado o encanto e arrancado a menina da cama… 

Esperamos que de alguma forma que este relatório responda à moça que nos indagou sobre visitar bebezinhos. As bobagens podem fazer a nossa vida ser uma porta aberta para amores inesperados, é só bater! 

Toc, toc, toc! Podemos entrar?

Dr. Eu Zébio (Fábio Caio)
Dr. Lui (Luciano Pontes)
Hospital Barão de Lucena – Recife
Maio de 2013 

A máfia do berçário

Nunca imaginamos estar tão perto de uma máfia. 

Foi assim que terminamos o mês: chamando três mães incríveis que ficaram no Hospital Universitário de “mafiosas”.

Elas sabiam de tudo do pedaço… Sobre os bebês vizinhos, sobre a equipe e sobre nós! Andavam sempre juntas, mudavam de quarto para não serem identificadas e eram super protetoras dos seus pequenos. 

Tivemos a oportunidade de conviver por mais de um mês com essas três simpáticas mães, que acompanharam seus recém nascidos sem perder o humor, nos recebendo de braços abertos dia a dia. A amizade e a parceria foram ficando fortes, e elas começaram a pesquisar nossas vidas para saber com quem estavam se misturando.

Descobriram coisas que é melhor não contar e também um dos números prediletos do Dr. Pistolinha: a levitação. Com a cobrança delas tivemos que preparar o número dentro do berçário. Deu fila na porta para assistir, foi um sucesso!  

Muitas besteiras e também assuntos sérios foram vividos. Comemoramos juntos quando os bebês deixaram os tubos de lado para sentir o ar fresco e saudável dessa cidade. A alegria de saber que no mesmo dia os três resolveram abandonar a sonda e começar a mamar o nutritivo leitinho materno. Acompanhar os pequenos ganhando peso… E o melhor de tudo foi ver um a um indo embora com a tão sonhada alta! 

Os bebês nem sabem da nossa existência, mas sabemos que fizemos parte do início de suas vidas e estaremos registrados nos álbuns de família para sempre…

Dr. Pinheiro (Du Circo)
Dr. Pistolinha (Duico Vasconcelos)
Hospital Universitário – São Paulo
Maio de 2013
 

Você fala a Língua Inalada?

Quando março começa a caminhar para abril, observamos que as vias respiratórias ficam de mal com os pequenos: deixam muitos na mão, o hospital lota, os inaladores não têm sossego. Nós tivemos que aprender a tal da Língua Inalada e começamos a falar com timbre de inalador. Aqui no Blog, vamos dar dicas para quem quiser iniciar os estudos da linguagem. Acreditem: é algo difícil de explicar em poucas linhas, mas vamos tentar! Tome nota:


Deixe a voz afônica.
Fale de fora pra dentro.
Beba água e, quando o copo estiver vazio, solte umas palavras.
Fale com a boca bem cheia.

Se você é um médico ou enfermeiro de plantão e encontrar alguém estudando a técnica, comece dando um sorriso simpático como se tivesse entendido, mexa a cabeça dizendo “sim” e fale sobre qualquer assunto que lhe vier à cabeça.

E se encontrar um bebê pelo caminho, use a Língua Inalada junto com a Língua Bebenês. Opa, mas essa técnica faz parte de outra matéria que fica para a próxima aula!

Dr. Pinheiro (Du Circo)
Dr. Pistolinha (Duico Vasconcelos)
Hospital Universitário
Março de 2013 

Quem nasceu primeiro?

E pra quem pensa que Besteirologista vive só de besteiras, bobagens e bobisses, a Dra Greta provou seus conhecimentos legais trabalhistas no último mês no Hospital do Grajaú (SP).

O quarto tinha duas mães que estavam prestes a ter que voltar ao trabalho porque suas licenças maternidades de quatro meses estavam vencendo. Estavam tristes e preocupadas porque não sabiam o que fazer com os seus bebês doentes. A Dra Greta foi pesquisar o que elas teriam que fazer pra conseguir a licença maternidade para amamentação. Descobriu que a lei existe mesmo, mas depende da empresas concederem o benefício ou não.

A única coisa que as fez rir foi quando a Dra Juca disse que a mãe da Greta não tinha conseguido nem os quatro meses de licença… É que quando ela nasceu de um ovo, o patrão da mãe dela mandou deixar o ovo chocando numa lâmpada mesmo para ela fosse trabalhar imediatamente!

Puxa, esse fato provocou uma grande questão filosófica que durou o resto do dia no hospital: Quem nasceu primeiro? O ovo ou a mãe da Dra Greta?

Algumas mulheres acham mesmo que não foi nem o ovo e nem a mãe da Greta, mas que vieram de uma costela… Outra mãe, que estava na UTI com seu filhote, disse que nós viemos dos dinossauros, e outra ainda, que nascemos dos macacos… A Greta teve que levar essa dúvida pra casa e até hoje está chocando as ideias pra descobrir!

Dra Greta Garboreta (Sueli Andrade)
Dra Dona Juca Pinduca (Juliana Gontijo)
Hospital do Grajaú – São Paulo
Julho de 2012