BLOG
 

Um sentido chamado sensibilidade

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Já faz um tempo que conhecemos a L. Ela tem a visão bem fraca, só enxerga muito de perto. Mas tem uma sensibilidade muito forte.

Em nossos primeiros encontros, já percebemos o quanto ela gosta de palhaço. Ela tocou nossos narizes, nossos sapatos, tudo o que tínhamos nos bolsos. Um fantoche de dedo, cartas de baralho mágica, bolas de cristal e até minha cartola de malabarismo voadora. Ela soube exatamente quem éramos: Dr. Pinheiro e Dra Greta.

IMG_6322

De um tempo para cá, ela esteve internada e temos nos encontrado direto. Sempre que chegamos o pai ou a mãe perguntam se ela sabe quem chegou.

- DOUTORES DA ALEGRIA!, ela grita.

Perto de completar seis anos, L. é uma criança encantadora, conversa melhor que muito adulto. Dia desses chegamos ao seu quarto e a encontramos brincando com uma residente do hospital. Entramos na brincadeira: L. pegava o fogãozinho de brinquedo, a cama e os móveis e me passava, dizendo:

- Pega para você sentir como é!

Foto_24

Ao final do dia, passamos pelo corredor e lá estavam elas, juntas novamente. E dessa vez dançando valsa… Isso nos emocionou! Na última semana, quando chegamos ao quarto, L. estava saindo com outra criança em direção ao andar da Quimioterapia.

- Vamos juntos!, disse ela, pegando em minha mão.

E eu fui como seu guia, um sentimento de parceria e confiança que ganhamos com o tempo, a cada visita, a cada encontro.

Dr. Pinheiro,
mais conhecido como Du Circo,
direto do Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, em São Paulo.

Você também pode gostar:

Pequenos dançarinos

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Quando a dra Tan Tan e o dr. Marmelo atendem recém-nascidos no Hospital Barão de Lucena, sempre perguntam aos pais:

- O neném é de brinquedo?
- Ele tem botão de fazer cocô e xixi? Ele toca o alarme?
- Vocês compraram no atacadão dos bebês? Em quantas parcelas?

Esse é o pré-questionário besteirológico pra saber se o bebê é de brinquedo ou não.

Perguntas feitas, o próximo passo é fazer o “pré-natal” – quer dizer, pós-natal, porque o natal já passou! – pra saber se o neném está mexendo bem. É assim ó: 

 ♫♪ O neném mexe as mãos e as lavam com sabão
O neném mexe os pés para soltar os chulés
O neném mexe a barriga para agitar as lombrigas! ♪♫
 

Para a nossa surpresa, os nenéns mexem o corpo todo quando ouvem a música! É o pezinho para o alto, a cabeça que vira de um lado para o outro, a pequena língua que mexe ou os dedinhos que balançam. Pós-natal feito, logo detectamos que esses nenéns são dançarinos de valsa, xote, baião e até música eletrônica!

Ah, tem também os dançarinos de chorinho… Chorinho quando se mexe e chorinho quando se acalma, mas desses a gente fala depois… 

Daquelas pelas quais a gente se apaixona

Um garotinho miúdo, de palavrinhas enroladas e bem falador. Uma criança marcante, de olhinhos atentos, daquelas pelas quais a gente se apaixona

Eu o conheci no Instituto de Tratamento do Câncer Infantil (Itaci), semestre passado. Ele adorava quando nos interessávamos por seus brinquedos e gostava de explicar como cada um funcionava – carrinhos, joguinhos e bichinhos de pelúcia.  

O semestre passou bem rápido e agora eu, Dra. Greta Garboreta, estou trabalhando no Instituto da Criança com o excelentíssimo Dr. Pistolinha. Dia desses, na ala de internação do convênio, encontramos a brinquedoteca cheia. A não ser pelas crianças que estavam em isolamento, parecia que todas as outras estavam lá, e lá também estava o R., o garotinho que conheci no Itaci. Fiquei feliz em reencontrá-lo. 

Depois, quando chegamos no quarto em frente, lá estava ele, sentadinho na poltrona, a nos esperar. Nem bem entramos e ele se apressou em pegar um sapinho de pelúcia que estava ao seu lado. 

Dr. Pistolinha: Qual o nome do seu sapo?
R.: Isopor!
Pistolinha: Que nome legal! Porque você colocou esse nome nele?
R.: Porque ele precisava ter um nome!

Pistolinha: (ao ver um robozinho que estava no parapeito da janela) E esse, como se chama? 
R.: Esse não tem nome, é brinquedo!
Pistolinha: Ah! O sapo tem nome porque não é brinquedo, né?
R.: É. Ele é meu filho, mas come comida de sapo, mosca!
Dra. Greta: Nossa! Então quando ele crescer, ele vai poder voar, tem tanta asa dentro dele!

O menino parou, como que para refletir sobre o que a Dra. Greta tinha falado, mas não disse nada. 

Pistolinha: Ele vai crescer mais?
R.: Vai, um pouquinho assim (e mostrou a beirada da cama). E vai pular muito! (e olhando para Greta) E voar também! Eu vou dar muita comida de sapo para ele crescer.
Pistolinha: Puxa! Ele pode até ser atleta!
Greta: Ele pode até ser pássaro!
R.: É.
Greta: Você é um ótimo pai!
R.: É. 

Ah! Esqueci de dizer, durante nossa brincadeira na brinquedoteca, diversas vezes trombamos com as paredes e portas na hora de sair. Esse detalhe é importante para entender o que vem a seguir. 

Pistolinha e Greta: Legal R., nós gostamos muito de conhecer o seu filho, agora vamos embora, tá?
R.: Tá!
Greta: Você pode acompanhar a gente. Mas é que toda vez que vamos sair, a gente erra a porta e bate na parede!

Daí aconteceu a coisa mais linda. O menino pegou a mão da Greta, pediu também a mão do dr. Pistolinha e disse: 

R.: Eu vou levar vocês até lá na saída, tá?
Pistolinha e Greta: Ai, muito obrigado! Assim a gente não se machuca, né?
R.: É! (sorriso) 

E a passinhos lentos, na maior delicadeza, essa criaturinha nos levou à porta de saída e ao fim de nossa jornada naquele dia… 

Antes da porta se fechar vimos seu pai, que nos acompanhou calado durante toda a visita, a nos agradecer com os olhos embaçados. Já detrás da porta, eu e Pistolinha somente nos olhamos… 

Dra. Greta Garboreta (Sueli Andrade)
Dr. Pistolinha (Duico Vasconcelos)
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo
Agosto de 2013 

Língua-de-sogrês

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Quando eu, Dra. Xaveco, e o Dr. Mané andamos pelos corredores do Hospital Santa Marcelina (SP), sempre encontramos muitos amigos trabalhadores e acaba sendo inevitável uma cutucada daqui, outra dali. Fica melhor ainda quando encontramos alguma criança circulando pelos corredores.

Num dia desses encontramos a B., que assim que nos viu correu em nossa direção com um saquinho na mão cheio de língua de sogra. Ela entregou pra gente, toda sorridente. A mãe da B. nos contou que não era um simples brinquedinho, e sim um instrumento para a menina fazer fisioterapia e assim melhorar sua respiração, sua oxigenação e a fala.

Resolvemos que o procedimento besteirológico aconteceria ali mesmo. As crianças, ao ouvirem o barulho do encontro, começaram a sair dos quartos. Entregamos para cada uma delas um exemplar e começamos a falar somente através da língua de sogra. Foi uma bagunça da boa! Todos ficaram falando e se comunicando em “língua-de-sogrês“.

A menina B., que sempre reclamava para fazer o exercício, nem sentiu a hora passar naquele momento. Era ela quem mais falava aquela estranha língua…

Dra. Xaveco Fritza (Val de Carvalho
Dr. Mané Pereira (Márcio Douglas)
Hospital Santa Marcelina (SP)
Maio de 2012

Você também pode gostar: