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Como assim, bebê?

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A rotina da Besteirologia é não ter rotina. Cada dia é cada dia.

IMIP - Lana Pinho-8

A gente se prepara para fazer uma porção de coisas e aí o hospital “dá uma rasteira na gente” e muda tudo que foi programado: não aparece oportunidade para cantar a música que você ensaiou todo o final de semana, mas alguém pede aquela que você cantou a última vez quando tinha dez anos de idade; a criança que você ia dar alta já não está mais na enfermaria, foi pra casa; o médico que você investe há meses na paquera muda de plantão e já não o encontra mais dia nenhum. 

É assim… Haja desapego. E que bom que é assim! Não podia ser diferente, porque a Besteirologia é igualzinha à vida. A gente:

- Pensa que está no comando, mas no fundo não comanda nada
– Não tem a menor ideia do que vai acontecer depois que põe o nariz vermelho
– É mais feliz quando abre o coração para o que nos chega de repente (ou seria de presente?)

Barão de Lucena - Lana Pinho-37

Essas lições aprendemos todos os dias, pelos corredores, nas enfermarias, nos ambulatórios, nas emergências, nas copas e cozinhas. Vocês querem ver como funciona? 

Outro dia, depois de muitas idas e vindas, conseguimos alistar 5 mães com 5 bebês acoplados para compor um coral de frevo. Às vezes não é fácil conseguir adesão espontânea, então comemoramos muito quando formamos todos os naipes! Tudo estava pronto para finalmente começar o ensaio do coral: cada mãe com seu bebê, todas alinhadas, afinadas, preparadas. Só faltava ensinar a música.

Bem nessa hora um dos bebês tomou o leme de nossa mão e, como um pirata, tomou de assalto o controle do navio. Ele desatou o mais retumbante “UÑÑÑEÉÉÉÉ” já ouvido no universo, assim, do nada. Em um segundo ele estava ótimo, quietinho, quentinho, embaladinho no colinho e no outro estava igual o Capitão Gancho levando nosso coral com leme, vela e tudo para o fundo do oceano.

Como assiimm, bebê? Não dá pra ensaiar com essa sirene ligada.

Barão de Lucena - Lana Pinho-56

Bom, tudo perdido, toda a mobilização, todo o convencimento das mães, tudo indo choro abaixo… Não, claro que não! Fizemos uma “pequena adaptação” no frevo e a partitura das mães e dos bebês passou a ser exatamente essa. Elas faziam  e nós fazíamos GUGU-DADA! Formou-se aí o primeiro frevo em língua de bebê.

- UÑÑÑÉÉÉÉÉ, faziam as mamães.
- GUGU DADÁ, fazíamos nós.

Eita, vida velha sem controle e cheia de imprevistos. É assim nas pequenas coisas e nas grandes também. Dá medo perceber que o leme desse navio nunca está realmente em nossas mãos.

“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria, 
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”
(Guimarães Rosa)
 

Eduardo Filho, conhecido como Dr. Dud Grud, e Greyce Braga, a Dra. Monalisa,
escrevem do Hospital Barão de Lucena, em Recife

Um estranho sensor

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Algo de estranho aconteceu em um dos quartos da Pediatria do Hospital do Grajaú. Do lado de fora, os besteirologistas Sandoval e Xaveco tentavam dar um diagnóstico.  

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Assim que Xaveco punha o pé dentro do quarto, um barulho imediatamente aparecia, como um sensor automático de porta.

- BUÁÁÁÁÁÁ!!!

Tirava o pé e o barulho parava. Foi a vez então do Sandoval testar. E o mesmo aconteceu. 

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Havia quatro crianças lá dentro e o som vinha da cama da direita, perto da janela. Resolveram investir em uma tentativa: entrar de costas para aquela cama. Mas o sensor foi acionado imediatamente…

- BUÁÁÁÁÁÁ!!!

Os besteirologistas saíram correndo para fora. Tentaram entrar tocando e cantando, mas o problema continuava. Tiveram uma percepção brilhante: talvez o sensor ligasse porque a cara dos palhaços era muito esquisita. Cobriram as cabeças com um lençol e mais uma vez colocaram os pés para dentro do quarto.

- BUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!

O sensor tocou ainda mais forte. Xaveco e Sandoval tentaram sair do quarto correndo, mas como suas cabeças estavam cobertas, ficaram batendo a cara na parede até encontrarem a porta certa!

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Foi aí que, estranhamente, o barulho começou a se misturar a outro tipo de som.

- HAHAHA…

Assustados, os besteirologistas avisaram que voltariam outro dia e que pediriam para a manutenção dar uma arrumada naquele sensor. Seguiram para os outros quartos…  

Dra Xaveco Fritza (Val de Carvalho)
Hospital Geral do Grajaú – São Paulo

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Uma fonte d’água dentro da gente

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Chorar é para poucos. 

Com tanta falta de água e racionamento, elas brotam do olho d’água dentro da gente abastecidas pela dor, pela emoção, pelo afeto. Neste mês vimos elas escorrerem, se derramando vestidas de muitas emoções.

Eu sempre acreditei que dentro da gente tem uma fonte incessante de onde brotam águas. E às vezes é preciso deixar vazar, deixar escorrer e alagar nossa alma. Às vezes, ela brinca de querer sair quando a gente menos espera, e o olho espremido segue represando para deixar não perceber. 

Mas não teve como, ela estava segurando o rosto com as mãos, por trás do balcão da Hemodiálise. E como achávamos que era mais uma das brincadeiras tantas que as técnicas e enfermeiras pregam também na gente, tentamos brincar com a situação tirando partido da proposta, e essa é a base da improvisação.

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Mas a revelação veio e vimos as lágrimas escorrerem sem medo. Como quem tenta remediar o irremediável, perguntamos se fomos nós que fizemos algo para ela chorar. Ela nos disse:

- Hoje é o dia de aniversário de sua morte. É uma saudade tão grande do meu veinho que, às vezes, não sei… 

E naquele momento raro e delicado também soubemos aceitar a nossa inteireza. Não choramos juntos, mas acalentamos num abraço acolhedor as lembranças que vieram reanimando o rosto no dia de trabalho.

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Cada um tem tatuagens desenhadas dentro de si. Elas nunca saem, e nem precisa. Apenas é saber lidar, levando, sentindo e deixando a fonte transbordar, afinal as plantas crescem quando aguadas!

Deixem brotar essa fonte… Sem medo de parecer humano.

Luciano Pontes (Dr. Lui)
IMIP – Recife

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Quando o besteirologista virou paciente

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Já fazia um tempo que eu, Dr. Cavaco, estava de férias, na prateleira, empoeirado, esperando um chamado. Eis que surgiu a oportunidade.                 

Cheguei junto com Dr. Marmelo na enfermaria do IMIP e encontramos uma garotinha de seus quatro anos chorando bem alto, sentadinha no colo da mãe. Ela olhou para nós, parou de chorar, respirou fundo, e voltou a chorar bem alto! As outras sete crianças, com seus respectivos acompanhantes e enfermeiras, pareciam não aguentar mais aquele chororô.

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Dr. Marmelo começou examiná-la, procurando a causa daquele vazamento de lágrimas, e a mãe dela ria da situação dizendo que também não sabia do que se tratava. Comecei então a fazer um exame sovacal na garota e logo encontrei a causa: bexiga solta em seu sovaco. 

Começamos a examinar a bexiga e vimos que ela estava murcha. Resolvemos esticá-la pra ver se melhorava. Marmelo segurou uma ponta, eu segurei na outra ponta e fomos esticando, esticando, até que o tonto soltou a bexiga, dando uma estilingada na minha mão, me fazendo chorar mais que a menina! Foi aí que ela parou de chorar e começou uma risada muito boa de ouvir!

Mas não parou por aí. Fui dar uma bronca no Marmelo por sua trapalhada e, quando levantei meu braço para apontar o dedo naquele nariz vermelho, meu ombro saiu do lugar. Isso mesmo, um deslocamento real, sem brincadeira. Acho que estava meio enferrujado de tanto tempo parado… Logo que percebi, disfarcei a dor, me despedi das pessoas e Marmelo me ajudou a entrar na sala das enfermeiras. 

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Cheguei com muita dor e elas continuavam a rir, pensando que era palhaçada, que eu estava fingindo. Somente quando tiramos o nariz – isso mesmo, gente, é um hábito nosso tirar o nariz quando precisamos falar sério – foi que elas acreditaram e rápido vieram me ajudar. Sentei na cadeira e, depois de uns minutos, consegui colocar o ombro no lugar. É que já tenho experiência com isso, sou quase um super-herói como o homem elástico, o problema é que não consigo controlar estes “poderes”. 

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Minha pressão começou a baixar por conta da dor, minha visão foi escurecendo, pensei que eu ia desmaiar! As enfermeiras me levaram para a maca, ficaram abanando com lençóis (me senti a Cleópatra no Egito), mediram a pressão e até furaram meu dedo pra fazer testes. Viram que a minha glicose estava baixa e logo me trouxeram um chocolate para ajudar a subi-la. Adorei esse remédio! A tangerina também! Depois chamaram a Dra Flávia e ela pediu que eu ficasse deitado em observação. Marmelo ficou observando com os olhos tão abertos que até encontrou um ovo na minha maca.

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O corredor estava cheio de crianças batendo na porta, querendo saber o que aconteceu com o Cavaco. Dr. Marmelo foi até lá e explicou que tudo aconteceu porque eu estava grávido, mas depois de botar o ovo, eu estava bem melhor e teria que ir para casa, conforme orientação médica.

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Mas fiquem tranquilos! Eu já estou ótimo! Passei na oficina para apertar os parafusos. Gostei muito de como fui atendido pela equipe de plantão e deixo um agradecimento especial a todos que estão no hospital trabalhando com carinho e prontos para ajudar até um besteirologista necessitado!

Dr. Cavaco (Anderson Machado)
Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira – IMIP (Recife)

Sem mais tchaus

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O garoto tem aproximadamente dois anos e está há vários meses internado.

Seu estado oscila bastante. Sabemos quando ele está bem (ou menos pior) por meio de uma reação bem precisa do garoto: o berro desenfreado, estridente e descontrolado que ele emite a cada vez que lhe dizemos “tchau”.

tchau

Quando sua reação é o grito, ele está em seus melhores dias. Caso contrário, seu abatimento é visível e desconsolador. O problema é que, nos melhores dias, o tradicional e ensurdecedor berro tira a paciência da mãe e de seus vizinhos de quarto. 

Para evitar o incômodo, nós, palhaços, decidimos não mais dizer “tchau” e nem esboçar qualquer menção à nossa despedida. Assim, cada vez que temos que sair do quarto, acabamos por camuflar nosso “tchau” em uma série de “ois”.

tchau

Conseguimos ir embora como se estivéssemos chegando. Por incrível que pareça, essa astúcia absurda tem dado resultado: os gritos e choros do garoto diminuíram.

Dr. Zequim (Nereu Afonso)
Hospital Geral do Grajaú – São Paulo

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Uma história sobre o inevitável

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As palavras nesse texto não são novidade para os palhaços, meus companheiros de jornada.

Quem conta a história sou eu, Enne Marx. Integro o elenco dos Doutores da Alegria e percorro hospitais do Recife há muito, muito tempo. Escrevo aqui de cara limpa, sem a máscara do palhaço, sobre algo que me emocionou.

o inevitavel

A L. é uma menina de mais ou menos seis anos, paciente há alguns meses no Imip. Em um dos nossos encontros, eu e Baju percebemos que ela estava desestimulada. Deixei meu boneco, o “Mané Gostoso”, com ela. Na outra visita L. tinha tido alta e foi para sua casa, no interior do Recife.

Em seu retorno ao hospital, nos encontramos e perguntei pelo brinquedo.
- Ele não quis vir para o hospital, disse ela.

No final de agosto, eu e Svenza, outra besteirologista, entramos em seu quarto e demos de cara com mãe, pai e tia. Todos muito tristes. A menina estava com o respirador, gemendo, e seu olhar quase sem vida. Nosso primeiro intuito foi tocar uma música, uma que ela gosta muito, e cantamos baixinho. Mas a vontade de ficar era grande e cantamos mais uma.

Segurei a sua mãozinha pequena e acariciei bastante. Tínhamos que ir pra atender às outras crianças da UTI. Quando saí de perto da cama, sua mãe pegou a mãozinha que eu havia soltado. Achei esse gesto muito forte e tocante, era como se a palhaça tivesse mostrado a humanidade por trás da máscara.

No corredor encontramos a enfermeira que nos confirmou o que estava claro:
- Ela está indo embora.

Nos olhamos e respiramos fundo por um momento. Criamos coragem pra seguir. 

o inevitavel

Depois que atendemos os outros quartos, falei pra Svenza que meu coração estava pedindo pra voltar lá. Dizem que devemos sempre seguir a nossa intuição e foi o que fiz, sem medo. Entramos no quarto.

- Nós voltamos porque queríamos dar um abraço em vocês.

Abraçamos cada um. O choro foi maior, como se eles estivessem tendo uma catarse libertadora de emoções. Olhei pra Svenza e, mesmo que evitemos fazer isso, ela também chorava. Lembrei do quão paradoxo é um palhaço se por a chorar e do quanto a imagem pode ser forte, afinal por trás da máscara existe um ser humano.

Mas aquele momento foi único, o tempo pareceu parar. A menina continuava respirando muito mal, mas parara de gemer por uns instantes. Percebíamos que seu olhar já não estava tão claro pra ela, ele ia e voltava, os olhos fechavam e abriam. Toquei novamente a sua mão.

Da minha boca saíam palavras que nunca imaginei dizer estando com o nariz de palhaço, mas saíram livres de qualquer julgamento. Trocamos palavras repletas de bons desejos e agradecimentos pela vida.

Ficamos todos muito emocionados com a sua bravura. Uma pequena criaturinha que estava dizendo adeus. Em um minuto, como num filme, lembrei de suas risadas, de sua marotagem e permaneci ali aprendendo com a morte

Finalmente saímos e deixamos L. e sua família de cara com o inevitável. 

Saímos embargadas, respirando fundo. Precisamos de um tempo para nos recompor e trazer alegria para os nossos olhos e corpo, pois ainda tínhamos dois andares a atender.

Na próxima visita soubemos que ela tinha partido naquele mesmo dia.

Com amor,
Enne Marx.

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Se algum dia me vir chorando

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Nem sempre os besteirologistas são queridos à primeira visita.

É preciso, muitas vezes, o tempo da conquista até que os laços de estabeleçam. E esse é o caminho que leva e eleva os encontros aos momentos felizes dentro de um hospital. E como nem tudo é fácil, é preciso persistir e achar, ao menos, uma brecha no meio de um choro imbuído de medo, manha ou outro sentimento de vulnerabilidade de uma criança, por exemplo, para a transformação crescer. 

Naquele dia, a pequena D. chorou bem depois de termos tido a permissão para entrar na enfermaria e de ter nos olhado três vezes. A sua mãe, fonte e porto seguro, não estava ao seu lado e isso agravou a reação. Enquanto ela chorava, as outras crianças esperavam, ávidas, a vez de a brincadeira acontecer com elas. É sempre comum, ao vermos uma reação de choro de uma criança, acreditarmos que não é conveniente nossa presença e partirmos. Nessas situações me pego pensando que sair, desistir, é o caminho mais fácil e previsível.

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Às vezes, claro que não dá para seguir, noutras tem sempre uma chance. E talvez eu acredite sempre na outra chance. É que o meu desejo por dentro e fora da máscara que uso é de ir além, de mudar, de conseguir conectar e estabelecer um canal de comunicação sem desistir tão fácil do encontro só porque tem choro. Isso é um desafio, um risco, um abismo cheio de possibilidades

E foi sem medo de partir o fio, e percebendo que aquele choro era porque ela acreditava que por trás daquela máscara não havia um ser gente, um humano chorão feito ela, que decidi ir além. Enquanto a razão pedia para sair, ir embora, a emoção pedia que arriscasse atravessar o limiar. Assim foi que, ao lado de sua mãe, retiramos o nariz vermelho de palhaço que somos e revelamos o “nosso segredo”. E eis que a fonte secou e o olho brilhou, mas sem rir.

Ela se viu no espelho dos nossos olhos e reconheceu uma criança, mais adulta que ela, e que sabia e queria brincar. 

se algum dia me vir chorando

E assim saímos, sem mais som nenhum de choro, apenas um olhar silencioso e curioso acompanhando nossas ações e brincadeiras com as outras crianças da enfermaria. Se fôssemos embora, desistido dela, o choro não seria alento do desconhecido. Ao menos agora, ela saberá que o mistério está além do que se quer ver e o que se vê é real como ela é. 

E se algum dia me vir chorando, não vá embora e nem desista de mim.

Dr. Lui (Luciano Pontes)
Hospital Barão de Lucena – Recife

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Memórias de um choro dolorido

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A Besteirologia já faz parte do quadro profissional dos hospitais em que atuamos. 

No Instituto da Criança, onde a dupla Emily e Xaveco faz suas visitas, isso é uma realidade, e as duas besteirologistas estão cada vez mais misturadas à equipe médica. Normalmente elas atendem somente antes ou após os procedimentos, mas são acionadas por profissionais de saúde quando preciso.

Em um dia desses, ao chegar à Pediatria, ouvimos gritos e choro no quarto do R., um lindo menino de um ano e quatro meses que, devido ao longo tempo de internação, acabou tendo uma relação muito amorosa conosco. 

Não entramos no quarto por saber que havia um procedimento delicado tomando forma ali. Acontece que a mãe do bebê ouviu a música que tocávamos de mansinho no corredor… E aproveitando uma pausa da enfermeira, pegou R. no colo e o levou até a porta do quarto. Nossos olhares se cruzaram. Percebemos o “pedido de socorro” e nos lembramos de que o bebê costuma se acalmar com as bobisses de Xaveco e Emily.

memorias

Imediatamente entramos em ação, tirando dos bolsos dos jalecos e do nosso repertório quase tudo de que ele gosta. Apesar de muito estressado, claramente ele demonstrou que nos queria por perto. As enfermeiras voltaram, mas não conseguimos nos afastar. Ficamos ali, observando, hora em silêncio dolorido, hora intervindo. E apesar do choro do menino, quando ele encontrava o nosso olhar e nos ouvia, tornava o doloroso e corajoso trabalho das enfermeiras um pouco mais leve. 

memorias

E quando tudo acabou, ele mais calmo, a mãe sem lágrimas nos olhos, deixamos o quarto. Mas aquele dia não foi mais o mesmo… Os gritos ficaram alojados em nossos corações.

Palhaça chora, palhaça sofre, palhaça é gente que ama muita gente.

Dra. Xaveco Fritza (Val de Carvalho)
Instituto da Criança – São Paulo

Quem tem medo?

A pequena N. tem um cabelo lisinho, lisinho. Parece uma indiazinha.

Nas primeiras visitas a ela, no Instituto da Criança, ela se distanciava. Fazia aquela cara de choro que, mesmo sem lágrimas, assusta palhaço e garante sua proteção. Fomos deixando os encontros acontecerem, não dando muito foco pra ela. Ela recebeu um transplante e a sua mãe, a doadora, também estava internada. Ela ajudou muito a nos aproximarmos da pequena. Conforme o tempo foi passando, ela foi aceitando nossa presença, observando nossos jogos e bobagens. Começou a soltar uns sorrisos, nos olhar e fechar os olhinhos fazendo charme! 

E adivinhem: nos últimos meses, ela nos vê chegando de longe e larga tudo que está fazendo!

Ela vem correndo, com seu dreno pendurado, balançando, e está se saindo uma bela mímica! Ela pede para a dra. Manela tocar o violino, pede para o dr. Pinheiro jogar a cartola e fazer seus truques, segue a gente nos outros quartos e ri muito.

Ah! Tem uma coisa que acontece muito no dia-a-dia de um palhaço dentro do hospital. Quando o medo aparece no primeiro encontro com uma criança e o seu acompanhante diz: 

- Ela tem medo. 

Eu logo digo: 

- A palavra “M” … “E”… “D” … “O”  não existe mais no dicionário! 

Isso ajuda a criança a não mergulhar no medo, aquela sensação que ela está sentindo e não sabe bem o que é. Essa técnica tem funcionado muito nos últimos anos. Quem sabe um dia defenderei uma tese de um Doutorado em Besteirologia sobre esse tema! 

Então prestem atenção:

Tenha medo de dizer que elas têm medo.

Até a próxima!

Dr. Pinheiro (Du Circo)
Dra. Manela (Paola Musatti)
Instituto da Criança – São Paulo
Dezembro de 2013 

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Quentinhas do Instituto da Criança

Atenção, atenção! Quentinhas do Instituto da Criança! O Dr. Mingal e o Dr. D. Pendy trazem novidades besteirológicas quentinhas do hospital! Apertem os cintos e vamos às notícias do Jornal Besteirol!

Besteirologista é pego com animais dentro do hospital 

Uma enfermeira que não quis ser identificada avistou nesta semana um besteirologista exercendo uma prática ilegal dentro do hospital. Ela levava um animal em um dos bolsos de seu jaleco – possivelmente um porco de estimação! De acordo com a Polícia Militar Ambiental, ele foi pego em flagrante e confessou estar portando o animal para ajudá-lo em suas pesquisas besteirológicas. Junto com ele a Polícia apreendeu outro animal de raça desconhecida, chamado Dr. Mingal. O suspeito foi encaminhado para o presídio de segurança máxima da Nicarágua. 

Agenda cultural 

EXTRA EXTRA! Dr. D. Pendy ensaia montagem de orquestra no Instituto da Criança! 

No segundo andar do hospital, o besteirologista iniciou uma nova atividade utilizando suas habilidades musicais. É a orquestra de chorinhoEssa orquestra consiste em músicos da melhor qualidade: crianças que choram sem parar orientadas pelo grandioso maestro Dr.D. Pendy. Para participar da orquestra é necessário ter bom fôlego e um belo berreiro. 

Horóscopo

Áries: Hoje é um ótimo dia para pagar um café da manhã para um besteirologista 

Touro: Sucesso profissional em alta, por isso os astros recomendam pagar um almoço para um besteirologista 

Gêmeos: Júpiter se encontra com Plutão, indicando uma situação financeira estável. Por isso chame um médico besteirologista para tomar café da tarde. 

Peixes: Você está com a bola toda, por isso pague uma janta para um besteirologista. 

Leão, Câncer, Virgem, Libra, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário: Dia maravilhoso para pagar alguma coisa para um besteirologista.

Dr. Mingal (Marcelo Marcon)
Dr. D. Pendy (Dagoberto Feliz)
Instituto da Criança – São Paulo
Julho de 2013