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Dois pais, dois bebês e uma TV que precisava de cirurgia

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Parecia um dia normal de consultas e exames besteirológicos na rotina de Dr. Sandoval e Dr. Valdisney. Mas apenas parecia…

Entram os dois os dois médicos besteirologistas num quarto da Pediatria. Lá estavam dois pais, dois bebês e uma televisão. E tinha um clima de frustração no ar, assim como uma TV, fora do ar.

Os pais fizeram uma vaquinha para comprar um aparelho que aparentemente faria funcionar o sinal da TV, que estava ruim, para poderem assistir a desenhos animados (os bebês!) e jogos de futebol (os pais!). Tentaram de todas as formas, mas nem a TV e nem o aparelho funcionavam. Eis então a grande ideia: cirurgia na televisão.

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Sim, Sandoval e Valdisney fizeram pequenos exames de avaliação na paciente televisão. Valdisney entrelaça seus cabelos à antena da TV. Nada. Sandoval dá pequenos tapinhas delicados. Nada. Diversos procedimentos sem sucesso. Enquanto isso, os pais observam, esperançosos e intrigados, as ações dos besteirologistas. 

Então começa a parte mais delicada da cirurgia: desmontar tudo e religar o aparelho à TV. O silêncio toma conta do quarto e o suor toma conta de Valdisney e Sandoval, pois estava um calor danado! Não foram 1 ou 2 minutos dedicados à saúde e melhora da TV, e sim 10 minutos de tentativas incansáveis. Tudo religado, cabos devidamente encaixados, antena posicionada, agora bastava fazer o teste. Ligamos a TV e… Nada, nada e nada de imagem e som. 

De repente, próximo à mesa onde servem o almoço para os pacientes, Valdisney avista o controle da TV. Rapidamente passa para as mãos de Sandoval. Começa mais um procedimento. Corrida contra o tempo, pois o programa de futebol iria começar a qualquer instante. A paciente televisão não reagia, será que estaria tudo perdido? Pausa dramática!

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Valdisney faz mais uma troca de cabo e Sandoval segura o controle da TV apertando, incansavelmente, todos os botões. E eis que o que parecia impossível vira realidade: a bendita televisão funciona e se recupera bem após a cirurgia.

Todos se abraçam e comemoram a volta da TV como se fosse um gol do Brasil na Copa do Mundo! Dr. Sandoval e Dr. Valdisney talvez sejam os primeiros besteirologistas a operarem, com sucesso, um aparelho de televisão. 

Sandro Fontes, mais conhecido como Dr. Sandoval, escreve do Hospital do Campo Limpo, em São Paulo.

Previsão do tempo

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Nunca dei muito ouvido à moça do tempo. Se ela diz que a previsão é de chuva, eu levo um casaco e deixo o guarda-chuva.

A moça não falou na TV, mas eu sei que estamos passando por uma alta pressão atmosférica. E do jeito que a coisa anda nebulosa, a previsão é de nuvens carregadas com fortes pancadas. Pessoas frias em pleno aquecimento global. Chuva molhando gente completamente seca. Lares que desabam. Cadê minha casa? Não tirem minha vida! 

Olho para o lado e uma coreografia de “mãos para o alto, é um assalto!”. Parem essa música! Crianças fazendo coisas de gente grande. Pais sentados na calçada enquanto seus filhos arrumam o dinheiro da feira. Água no vidro do carro. Falei que não quero! Mas as coisas não vão mesmo do jeito que a gente quer. Nó na garganta, rouca. Sem voz ativa. Sem indiretas. Falo de coração. Saudade do tempo em que brincadeira de criança era na rua e não nas ruas.

Barão de Lucena - Lana Pinho-119

Moça do tempo, que clima é esse? Amanhã quero acordar com o sol brilhando na janela. Tirar o mofo. Regar as plantas e aquecer a alma. 

Os encontros com F. têm sido gotículas de esperança. Sol quando aparece no inverno que a gente quer aproveitar ao máximo. Menina, de 8 anos aproximadamente. Sempre acompanhada de sua mãe, que dessa vez nos chamou: 

- Venham falar com F. Ela vai hoje para sua terceira cirurgia e quer levar um pouco da alegria de vocês. 

Fomos. E nosso papo é totalmente musical. Desde o primeiro dia de encontro ela já foi cantando “Alecrim dourado”. E nesse dia não foi diferente. Ela cantando com um microfone improvisado de seringa, Dr. Lui e eu fazendo o acompanhamento com nossos instrumentos e sua mãe sentada vendo aquela cena que antecedia o momento da cirurgia.

IMIP - Lana Pinho-109

F. estava inteira, sem nem se preocupar em acertar o tom, a letra, essas coisas de adulto. Sua mãe estava aos pedaços, mesmo fingindo que não, essas coisas de mãe. Vi passar um filme nos seus olhos. Um filme do maior amor do mundo. Daquele que de tão grande aperta e dói. 

A moça do tempo não me falou, mas sei que a qualquer momento ia chover naquele olhar.

Luciano Pontes, mais conhecido como Dr. Lui, e Luciana Pontual, a Dra. Svenza,
escrevem do Hospital da Restauração, em Recife.

O tempo que para e o tempo que voa

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O hospital é um lugar onde a relatividade do tempo tem nuances que o próprio tempo duvida!

O tempo definitivamente para quando aquele corte tem que fechar, a febre tem que sumir, a glicose tem que equilibrar… Em outros momentos ele voa, como nessa experiência que Dr. Dadúvida e Dra Dona Juca dividiram com uma paciente do Instituto da Criança. 

R. é uma menina muito inteligente e habilidosa. Ela sabe fazer origamis e seus preferidos são os tsurus. Quer ser médica quando crescer. Mas R. está há muito tempo no hospital. Não vê sua irmã há meses.

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Na porta do centro cirúrgico, R. aguardava, junto a muitos profissionais de saúde, para dar um abraço em sua irmã antes de ir para sua quinta ou sexta cirurgia. A equipe insistia para que ela entrasse logo. A avó ligava sem parar para a mãe subir logo, até que resolveu sair atrás da mãe da R. para tentar apressar sua chegada. 

Eu (Dadúvida) e minha parceira Juca ficamos na porta, com R.e a equipe médica, tentando convencer todos de esperar mais um pouco, porque a irmã, segundo a mãe, já estava no elevador. Mas não estava… Uns cinco ou dez minutos se passaram, mas para nós era como se estivéssemos ali há horas! Tempo, tempo, tempo!

Do outro lado do corredor, várias crianças sentadas na mesa central esperavam pelos palhaços que avistavam de longe. Decidimos ir ao encontro dos olhares e fazer um rápido exame besteirológico coletivo. Depois, voltamos à porta.

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E só encontramos a mãe, a avó e a tão esperada irmã. Do lado de fora do centro cirúrgico.

A mãe, com lágrimas nos olhos; a avó, tentando falar que estava tudo bem; e a irmã, com uma carinha decepcionada, mas sem entender exatamente o que estava acontecendo ali. 

Depois de tudo isso, aquela sensação… Será que se tivéssemos ficado ali, teríamos conseguido segurar a entrada da R. mais um pouco e ela teria encontrado sua irmã? Será que só irritaríamos mais a equipe médica? Será que as coisas aconteceram exatamente como teriam que ter acontecido? 

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Sem o que fazer para mudar aquela realidade, seguimos atrás do nosso tempo: tempo do encontro verdadeiro, tempo de uma boa cena, tempo cômico… E com alguma dificuldade, reconhecendo a preciosidade de se ter o tempo como aliado, mesmo quando ele parece estar contra nós.

Tempo, tempo, tempo, tempo é um dos deuses mais lindos… 

Dr. Dadúvida (David Tayiu)
Instituto da Criança – São Paulo

Um tapa no visual

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- E você entende o que estamos fazendo aqui? Todas as segundas e quartas, faça sol ou faça chuva, feriado ou aniversário, estamos aqui. Cuidamos de besteira, tolice, pum frouxo, pulga atrás da orelha, grilo na cuca, caspa no joelho, chulé encravado, dentre outras mil duzentas e oitenta e três especialidades.

A menina já tinha entendido tudo. Com 12 anos, cabelos ondulados que batiam na metade das costas, sua pele cor de chocolate com muito leite e um sorriso que abria buraquinhos na bochecha, nos acompanhou durante meses. Seguia-nos em quase todas as enfermarias e chegou até a sugerir tipos de procedimentos besteirológicos. 

Tudo pra ela era como se estivesse acontecendo pela primeira vez. A gente não podia mudar um botão da roupa que ela percebia.

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Em um dia desses, andando pelo corredor, percebemos que ela não estava. Encontramos com sua mãe, um pouco chorosa. Disse que a filha tinha ido fazer uma cirurgia. Não estava muito bem fisicamente. Sabíamos que era uma neurocirurgia, e que não era a primeira.

 – Ela está um pouco sonolenta e debilitada. Não está no andar, está no bloco cirúrgico, contou a mãe. Quando estava a caminho, ela lembrou que era dia da visita dos palhaços. Lá do corredor do bloco cirúrgico, ela ouviu a canção que vocês cantarolavam, e balbuciou “olha eles, mãe, estou ouvindo!”.

Dias depois encontramos com a garota, que voltou com um corte de cabelo radical: metade raspado e metade grande.

O Dr. Dud Grud disse que vai pensar seriamente em aderir à nova tendência da primavera/verão e quer “dar um tapa” no visual. Dr. Marmelo está até agora correndo atrás dele de mão aberta!

Dr. Dud Grud (Eduardo Filho) e Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

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Do seu coraçãozinho

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Há algum tempo, Ezequiel fez uma cirurgia no seu coraçãozinho. Foi no Procape, em Pernambuco.

Este desenho, feito por ele, me emocionou muito. Lembrei-me da artista Frida Kahlo, da qual sou fã, e do quanto ele deve ter sublimado seus medos, esperanças e emoções em seu desenho, assim como ela o fazia.

Desenho Ezequiel

Achei os detalhes primorosos: o dedinho com o oxímetro, o cateter, os fios do soro… Os dois corações vermelhos ligados pelo fio parecem representar o seu desejo de que o coração fraco ficasse bom, mas sem esquecer de que ele ama o fraco coração mesmo assim.

Ah, são tantas interpretações que podemos tirar! Por isso acho o nosso trabalho tão extraordinário, pois ele não parte tanto de nós, mas das crianças, que oferecem suas histórias para que nelas possamos entrar, interagir e tirar interpretações.

Ezequiel teve alta e já faz algum tempo que foi pra casa, onde imagino que esteja muito bem e vivendo uma vida feliz.

Enne Marx (Dra Mary En)

Um dia a cada dia

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A enfermaria está lotada de criança. Umas têm faixa na cabeça, outras estão amarradas no fio do soro. Tem criança com gesso no braço e tem criança dormindo no colo da mãe.

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Tem pequenino que está careca, com dor de barriga, e aquela que caiu da árvore. Tem criança que fala palavras carinhosas e tem aquelas que xingam. E agora, com essa moda de celular, tem criança que nem olha no nosso olho.

Encontramos com R., de aproximadamente 12 anos. Ele é esticado, toma quase toda a cama. Logo no primeiro encontro, mandou a gente calar a boca.

1º encontro

O menino disse que estava querendo silêncio e que não era pra gente tocar violão. Foi uma confusão. 

um dia a cada dia (1)

– R., a gente promete que nunca vai tocar uma música na sua presença. Mas a gente quer mostrar uma música que a gente fez pra você. Podemos?
– Não!, respondeu o garoto, não quero vocês tocando nenhuma música. Vão embora e não cheguem perto de mim.
– Mas é uma música tão bonita. Fala de flor. Mas, como você não quer ouvir, a gente promete que nunca vai cantar essa música pra você.

Aí, cantávamos a música.

– Porque a gente tem noção das coisas e não vai tocar. Mas, se a gente não tivesse bom senso, com certeza tocaria essa música.

Então, tocávamos novamente. E saímos da enfermaria tocando a música só pra mostrar pra ele que nunca a gente vai tocar aquela música ali.

– Ei, mas vocês estão tocando!gritou o menino. 

2º encontro

Percebemos que seu travesseiro tinha uma estampa florida.

– Nossa, R.! Quantas flores na sua cama. Podemos levar uma pra gente?
– Não.
– Mas, olha pra essa flor, está caindo. Olha! Peguei... A flor é sua. Cuida dela! É só colocar meia gota de água três vezes ao dia. 

O menino segurou a flor e a jogou no chão. 

3º encontro

Quando o R. nos avistou de longe cobriu o rosto com o cobertor. Paramos ao seu lado e vimos que a flor estava ao lado da cama. Sua mãe tinha apanhado do chão e guardado.

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– R., por que você virou todo o seu corpo pra gente? 

Ele devia estar aprontando alguma coisa. Sem esperarmos ele solta um pum muito forte!

– NOSSA! SOCORRO!e saímos correndo da enfermaria. O garoto só ria!

4º encontro

Ele dormia. Deixamos um recadinho:

Querido R.,
Passamos aqui hoje e vimos que você estava dormindo.
O seu pum foi quase como uma bomba nuclear. Mas sobrevivemos.
 

um dia a cada dia (2)

5º encontro

Um belo dia, atendendo na UTI, vimos que um dos leitos estava sendo por um garoto grande, que tomava quase todo o espaço. Quando chegamos perto vimos que era o R.

Tinha feito uma cirurgia. Estava dormindo.

– Oi, R.! Aqui é Dr. Marmelo e Dr. Euzébio - e cantarolamos uma música pra ele. Quando acordou, olhou bem fixo pra gente.
– Cadê minha mãe? Eu quero minha mãe - disse com sua voz calma e baixa.
– Sua mãe está ali fora. Ela vai entrar já, já. 

6º encontro

Em um dos plantões besteirológicos, andando pela enfermaria, vimos que o garoto tinha saído da UTI. Estava deitado na cama, com sua mãe ao lado.

O garoto sorriu quando acenamos e nos cumprimentou. Ficamos em silêncio. Esperávamos uma bronca!

A mãe dele sorria. Ela sempre se divertia vendo a gente correndo com medo do R. Talvez já estivesse esperando a saída maluca dos besteirologistas pela porta da enfermaria, mas dessa vez foi diferente.

Diferente dos dias que se passaram. Assim como é na vida. Todo dia um dia. Nos olhamos. O menino olhou pra o Dr. Euzébio:
– O senhor trocou de roupa. Cadê sua camisa amarela?

… 

Dr. Eu_zébio (Fábio Caio) e Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

Minha especialidade é cirurgia!

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O garoto aguardava pela cirurgia no braço na pediatria do Hospital do Mandaqui.

As besteirologistas Xaveco e Juca Pinduca perguntaram o que ele estava fazendo ali.

Xaveco: Cirurgia? Minha especialidade. Vamos lá. Onde você quer operar?

Garoto: Na sala de operação.

Juca Pinduca: Ótimo! Adoro operar salas! Acho que vou aproveitar e arrumar as paredes que estão muito mal pintadas…

Garoto: Não operar a sala, operar na sala!

Xaveco: Eu também quero fazer uma operação. Já tenho dinheiro pra colocar silicone em um peito. O outro fica pro ano que vem.

Garoto: Não é em você! A cirurgia é em mim.

Xaveco: Ah, em você? Mas você não vai ficar bem de silicone…

Garoto: Não vou colocar silicone, vou operar o braço!

Juca Pinduca: Então é melhor a gente marcar essa cirurgia com outro médico. Lembra Xaveco, da última vez que você operou o braço de alguém, operou o braço errado!

Xaveco: Tudo bem! Assim, se ele for precisar operar o outro braço, não vai ter que operar mais, pois já está operado.

Garoto: Que ideia é essa! Eu não opero com vocês de jeito nenhum! 

Aceitamos o NÃO e resolvemos também não operar a sala de cirurgia. Mas deixamos o braço dele, que iria ser operado, bem sinalizado com os lindos adesivos coloridos da Xaveco, para que o médico que for realizar a operação não erre de braço de jeito nenhum!

Dra. Xaveco Fritza (Val de Carvalho) e dra. Juca Pinduca (Juliana Gontijo)
Hospital do Mandaqui – São Paulo 

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