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Só tínhamos olhos para ela

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Difícil não estarmos no foco. Duas figuras de nariz circulando no hospital: foco. Logo todo mundo para, olha, comenta, puxa assunto, foge, fecha a cara e por aí vai.

Estamos acostumados com essa forma de chamar a atenção. Nos setores onde atendemos, a maioria está à nossa espera; só alguns desavisados, como pacientes, pais ou profissionais novos, é que têm um pequeno susto ao se deparar conosco.

Mas R. não pareceu se assustar em nosso primeiro encontro. 

A pedido de algumas técnicas e estudantes, que estavam reunidos no posto de Enfermagem da Pediatria do Procape, tocamos o bolero “Quizás, Quizás, Quizás”. Temos usado bastante essa música, criando e absorvendo novas situações cômicas para a nossa performance. Então, motivados pelo sucesso dessa atuação, começamos o som. 

Restauração - Lana Pinho-49
Só que todos os olhares mudaram de direção, olhavam para o corredor.
 Ali estava R., dançando. Ela deve ter em torno dos 13 anos. Estava lá, bailando sozinha, de olhos fechados, com um sorriso no rosto e visivelmente envolvida pela música. De repente, o hall ficou cheio de gente, todos olhando para a menina. Nós nos olhamos e entendemos que não cabia e nem tinha mais razão de ser a nossa gag (piada) da música.

O foco era todo dela

Dr. Marmelo convidou-a duas vezes pra se aproximar e balançar com ele, mas ela negava com o dedinho, afastava-se um pouco. Tudo isso dançando! E ela foi sumindo pelo corredor, a música chegou ao fim e todo mundo aplaudiu.

Barão de Lucena - Lana Pinho-145

R. parou, chorou, colocou as duas mãos no peito e fez reverência a todos nós. Sua mãe, com simpatia, levou-a de volta pro quarto. Nós ficamos ali, inundados e gratos. 

Juliana de Almeida, mais conhecida como Dra. Baju,
escreve do Hospital universitário Oswaldo Cruz, em Recife.

A Besteirologia é essencial

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Os besteirologistas já fazem parte do quadro profissional de muitos hospitais pelo mundo. 

O seu trabalho é essencial para qualificar as relações ali e para manter a energia sempre em alta. As fotos abaixo mostram dez momentos em que a Besteirologia se provou fundamental na rotina hospitalar.

1. A Besteirologia faz o tempo passar mais rápido nas salas de espera

sala de espera 2 

2. Os recém-nascidos aquecem os ouvidinhos com canções especiais

recem nascidos 

3. A cadeira de rodas sai buzinando e rodopiando pelos corredores com pacientes e palhaços 

passeio de cadeira 

 

4. A injeção dói menos com a técnica besteirológica de segurar a mão de um amigo

ajuda injecao

 

5. Corredores se transformam em salões de dança para aliviar as tensões

salao de danca 

6. Os palhaços aplicam o selfie para guardar recordações de seus pacientes queridos

selfie 

7. A Besteirologia facilita o trabalho dos demais profissionais do hospital

profissional 

8. O carnaval também é comemorado por quem está hospitalizado

bloco 

9. Amizades longas e duradouras podem nascer no hospital

longa amizade

 

10. A alegria pode extrapolar o hospital e invadir as ruas, provando que não tem contraindicação!

bobociclismo 2015 - Lana Pinho-8

Nada de novo

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Quetamina & Midazolan, nome de dois medicamentos. Foi assim que fomos tratados pela equipe da UTI depois de termos acalmado, ao som de canto e violão, a pequenina e irritadíssima M. 

Não é para menos: ela estava toda furada e conectada com fios ao longo do seu pequeno corpo. Médicos e enfermeiras tentavam concluir um procedimento enquanto a criança se debatia (ou se defendia, se preferirmos) diante de tamanho incômodo e dor.

baila comigo

Nós não fizemos nada de novo. Apenas tocamos e, com isso, talvez tenhamos oferecido um contraste ou uma alternativa dissonante do que reinava no ambiente naquele momento. Como disse, nada de novo.

Mas a cada vez que esse contraste resulta em uma reação positiva, voltamos a concluir que há realmente algo de potente nessa manifestação super antiga do ser humano chamada arte

Em outro quarto, o contraste foi oferecido de uma paciente a outra. G., com seus 11 anos, vendo sua pequena colega de quarto abatida e ressabiada diante da dupla de palhaços, regeu a interação de cabo a rabo.

– Toquem uma música aí, por favor.
(tocamos)
– Não, uma mais animada.
(tocamos outra)
– Mais suave, palhaços.
(mudamos o ritmo)
– Essa tá ótima! 

baila comigo

Então G. puxou a colega de quarto, que tinha a metade de sua altura, e delicadamente fez uma sequência de passos de dança, aos quais a coleguinha respondeu e embarcou com total engajamento. Foram vários minutos de giros, piruetas, abraços, conduções de um extremo bom gosto e cuidado. 

Novamente não fizemos nada de novo… Ou talvez sim.

Reaprendemos a observar, a servir, a simplesmente acompanhar musicalmente o protagonismo de duas crianças que, em profunda solidariedade, transformaram, por alguns instantes, o corredor do hospital em salão de baile sincero, amoroso e comovente para os pais e demais presentes.

Dr. Zequim Bonito (Nereu Afonso)
Hospital Geral do Grajaú – São Paulo

As melhores gargalhadas

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Depois do dia para ser riscado do calendário, em julho tivemos o dia das melhores gargalhadas do ano!

Aconteceu lá no Instituto da Criança. Encontramos nosso parceirinho, o L., de menos de dois anos, que sempre que nos vê já começa a chamar com a mão, fazendo movimentos como quem diz “vem cá!”. Ele ainda não aprendeu a falar, mas já estabelece uma comunicação e tanto.

Nesse dia uma das enfermeiras do setor, percebendo nossa interação, se aproximou para mostrar um vídeo em seu celular que ele adora. Quando começou a música, eu (dra. Guadalupe) e dra. Pororoca começamos a dançar despretensiosamente. O L. nos observava de boca aberta, entendendo a junção daqueles dois elementos e, de repente, caiu na gargalhada. Ele ria sonoramente vendo nossos movimentos descoordenados, inclinava-se para frente e para trás, as veias do seu pequenino pescoço ficavam saltadas, tamanho era o volume de sua risada.

Fazíamos algumas pausas seguindo a cadência da música e então retomávamos a estranha dança. Ele parava, olhava para a mãe e voltava a gargalhar com força. Nenhuma de nós, nem mesmo sua mãe, havíamos presenciado uma reação dele como essa! Não me aquentei e comecei a gargalhar também, embala pelas risadas do menino. A mãe, vendo que eu ria de verdade, gargalhava junto e nossos olhos foram se enchendo de lágrimas! 

É muito interessante porque mesmo sem dizer uma palavra, o garotinho gargalhava plenamente. Foi algo despertado em sua compreensão que atiçou o senso de humor do garoto e provocou essa maravilhosa reação! 

O mesmo aconteceu logo depois com I., na Diálise. Ele também é bem pequeno e ainda não fala palavras completas. Quando chegamos perto do berço, ele brincava com algumas peças de encaixar. Começamos a participar da ação, tateando para ver como conseguiríamos interagir com ele. De repente, no meio de nosso desajeito com as peças, topamos com as grades do berço produzindo um som de batida. Reagimos e I. começou a rir. Repetimos a ação aumentando sua intensidade e o garoto ria cada vez mais forte! 

A ação foi se tornando maior até começarmos a trombar em tudo, para além do berço. Ele simplesmente gargalhava! E gargalhávamos junto, trombando, batendo, até ir saindo do quarto em meio aos tropicões. 

Ah, esse dia foi mesmo de lavar a alma. Eu nunca tinha percebido como o nosso senso de humor existe muito antes de existir a comunicação verbal. A sensibilidade do ser humano é algo potente, latente, desde seus primeiros momentos de vida, ou mesmo antes, muito antes.

E há quem acredite que as crianças são seres desprovidos de inteligência e incapazes de compreender o mundo. Pois não sabem que o riso é produto de um senso e de uma inteligência crítica? Ah, se nossas crianças fossem estimuladas a rir e gargalhar desde seus primeiros meses e anos de vida, que adultos não se tornariam, não é? E que mundo não compartilharíamos…

Dra Guadalupe (Tereza Gontijo) e Dra Pororoca (Layla Ruiz)
Instituto da Criança – São Paulo

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Lágrimas de saudade… Antecipada!

Dia desses, ao entrar em um quarto bem enfeitado e cheio de brinquedos, de um menino muito sorridente e de olhos bem vivos, filho de pais e neto de vó bem animados, os besteirologistas Greta e Pistolinha conheceram JP. Todas as visitas ao menino eram regadas a muita música e muita dança. 

- Dr. Pistolinha, toca aquela! – ele sempre pedia ao entrarmos no quarto. 

O aniversário do menino se aproximava, e como nós não estaríamos no hospital naquele dia, demos os parabéns adiantados e nos desculpamos por não podermos participar da festa. A mãe do menino disse que guardaria um pedaço de bolo.

Na visita pós aniversário, Greta já chegou perguntando:

Greta: Cadê o bolo?
JP: Está guardado!
Greta:Onde?
JP:Na minha barriga! 

Tomamos o maior bolo! É que ele disse que na geladeira iria estragar… Os outros encontros foram sempre muito divertidos.

Então chegou o dia em que Greta e Pistolinha foram pegos de surpresa! Quando JP recebeu alta, o que se esperava era uma alegria sem par. E foi o que partiu dos besteirologistas ao receberem a notícia. Fizeram uma verdadeira festa para ele! 

Pistolinha tocou a sua música preferida, Greta dançou, ele quis sair do quarto e no corredor fez um duo com o palhaço, tocando sua guitarra invisível. Greta ficou tão contente que o presenteou com seu “tubarão de luva” que tanto o impressionava quando ela perseguia seu parceiro. Enfim, foi uma linda despedida regada a abraços, risadas e muitas fotos. Depois disso, um simples tchau seria suficiente.

Mas não foi o que aconteceu.

Assim que a dupla foi se distanciando pelo corredor, aquela carinha que nos observava partindo foi se contraindo e dela brotaram lágrimas. Quando terminaram o trabalho naquele setor, os besteirologistas resolveram voltar ao quarto do menino e ele ainda chorava. A mãe lhes disse: 

- Ele não consegue parar de chorar, disse que queria ficar mais um tempo no hospital para poder continuar a vê-los. 

Então eles entenderam que aquelas eram as lágrimas de uma “saudade antecipada”. E não era preciso nenhum exame besteirológico para descobrir isso.

Dra. Greta Garboreta (Sueli Andrade)
Dr. Pistolinha (Duico Vasconcelos)
Instituto da Criança – São Paulo
Outubro de 2013 

Quando se entra no jogo

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Quando conhecemos o F. saiu, pela primeira vez do meu bolso, o passarinho colorido de crochê que eu trouxe de uma viagem. O dedoche ainda não tinha nome e a ideia que veio na hora foi batizá-lo com o mesmo nome do menino. Descobrimos que o passarinho gostava de soltar beijos e, de repente, soltou um… bem, fez um cocô na cabeça do Dr. Marmelo! O F. deu muitas risadas com o feito e esse foi o nosso primeiro encontro.

Em outro dia, o passarinho foi novamente o elo entre nós e o menino, que nos aprontou uma grande surpresa. Mesmo com muita dificuldade em falar por conta da traqueostomia, F. tinha pedido à enfermeira pra colocar um “cocozinho” em sua mão. Quando chegamos, a enfermeira falou:

F., não vai mostrar a surpresa?

Ele abriu a mão e mostrou um pedacinho de silicone em formato redondinho.

É o cocô do passarinho! - bradou a enfermeira.

Nós nos olhamos e ficamos felizes com a surpresa, pois o menino estava entrando no jogo conosco. E ao brincar, a verdade de quem brinca é tão de verdade que a gente acredita nela e se diverte muito!

No terceiro encontro com o F., estávamos tocando e cantando música. Ele remexeu o corpo num gingado tão impressionante pra quem está assim, deitado, com tubos, que ficamos todos boquiabertos. A Dra Solange veio ver de perto e depois as enfermeiras foram chegando pra ver, todas comemorando muito o fato de ele estar dançando. E ele se sentiu todo importante com o seu progresso, ou simplesmente por ter, naquele instante, um prazer tão grande que é dançar.

Dra. Mary Enn (Enne Marx)
Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira – Recife
Fevereiro de 2013

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Rapidinhas do Santa Marcelina

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Fevereiro Fervereiro!  Senhoras e senhouros! Fevereiro começou fervendo! Eu, Dra Pororoca, e o Dr. Charlito, agora besteirologistas do Hospital Santa Marcelina, começamos contamos os fatos do mês:

O silêncio e o olhar 

B., um menino de olhos grandes e suave,s estava sozinho no corredor da Oncologia.

Ao perceber a nossa chegada, ele recuou; encostou-se junto à parede como quem quer ficar ali grudadinho, seguro. Ele tinha medo, estava só, mas também tinha curiosidade, interesse e nos acompanhava somente com o olhar. Em cada quarto que entrávamos, logo aparecia sua cabecinha curiosa na porta, querendo ver, descobrir, entender, mas sempre em silêncio, mantendo a distância segura!

Quando chegamos em seu quarto, onde nosso encontro seria inevitável, experimentamos nossas “pílulas voadoras de limpeza do ambiente” como uma tática de acesso e para nossa surpresa, ao ver uma de nossas bolhas, B. não hesitou e deu um chute, que imediatamente identificamos como um belo gol!

A comemoração foi imediata, ele mesmo se surpreendeu e todos vibraram com o feito. Mas o B. ainda continuava em silêncio, olhando e mantendo a distância segura para poder estabelecer uma relação. Quando saímos da Oncologia, ele, da porta do seu quarto olhava acompanhando nossa saída até o fim, virando o pescoço e esticando os olhinhos para nos ver sumir no corredor. Sempre em profundo silêncio.

….

E na hora do almoço: surpresa! B. estava lá com sua mãe, tinha recebido alta e ia embora pra casa. Seu silêncio agora sorria e até falava. Seja bem ido, menino B.! 

Ai ai ai, ui ui ui 

F., um garotinho da Pediatria estava chorando muito de dor.

Aaaai ai ai, dói muito, lamentava ele entre gritos e lágrimas.

Quando entramos em seu quarto, optamos por entoar o melô do dolorido. Era um tal de “ai ai ai” pra lá, um “ai ai ai pra cá” e no fim: pow!… A Dra Pororoca empolgada com a coreografia acertava em cheio o Dr. Charlito.

E o menino? Ele ria, mas ria tanto que parecia que ia acabar fazendo xixi! E claro, pedia bisDepois de algumas repetições tivemos que suspender o tratamento, porque todo mundo sabe que riso frouxo solta bexiga. Ai ai ai ai ai ai! 

Samba Lelê 

Tem bailarina no Santa Marcelina! S., uma menininha muito esperta, dançou com coreografia e tudo, para quem quisesse ver e ouvir a música Samba Lelê. Foi um espetáculo à luz do dia, com direito a aplausos de pé. Uma palma de salvas para ela!

Bem, senhoras e senhouros, esperamos que tenham apreciado nossas aventuras e que possamos compartilhar mais gostosuras. Que seja doce!

Dra Pororoca (Layla Ruiz)
Dr. Charlito (Ronaldo Aguiar)
Hospital Santa Marcelina – São Paulo
Fevereiro de 2013