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Todo dia ela faz tudo sempre… Igual?

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Toda segunda e quarta trabalhamos no Instituto da Criança, em São Paulo.

Como este hospital é muito grande e complexo, temos dois itinerários diferentes, com duas duplas de palhaços. Ou seja, somos quatro palhaços dentro das veias pulsantes deste hospital no coração da cidade.

Meio pessoa, meio palhaço 

Pela manhã, chegamos e cumprimentamos as moças que ficam na recepção e vamos para uma salinha onde ficam nosso figurino, maquiagem e utensílios médicos besteirológicos. Entenda-se por isso instrumentos musicais, bolhas de sabão e outros objetos inusitados como galinha de plástico, máquina fotográfica de brinquedo, flores de tecido e até uma calçola tamanho GG furada.

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Fotografia dos Doutores da Alegria no Hospital do Campo Limpo/SP.

Já neste meio tempo, que leva em média meia hora, encontramos muitas pessoas e nos relacionamos com cada uma delas, seja por um aceno ou um bom papo matinal com os mais chegados. E isso ainda em processo, meio “pessoa gente”, meio palhaços. 

PS, enfermaria, UTI…

Depois, já totalmente caracterizados como Dr. Dadúvida e Dra. Pororoca, partimos rumo ao Pronto Socorro. Muitos amigos por lá, equipe calorosa. Em alguns dias cheio de pacientes, médicos, residentes, enfermeiros e outros profissionais; em outros o movimento e a intensidade estão mais brandos e até certa tranquilidade paira no ar. A verdade é que, na maioria das vezes, até o corredor vira lugar para maca e paciente

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De lá, seguimos de elevador para o terceiro andar, na ala destinada aos convênios. Outro ambiente, outra arquitetura, outra disposição de quartos e pacientes. Outros parceiros, parceiras. Começamos com nossa conversa sobre o número de pacientes no dia, o que se repete em cada novo ambiente que chegamos, e especificidades sobre os quartos. Logo partimos para uma prosa mais pessoal, um comentário sobre o penteado novo de uma enfermeira, uma brincadeira com a moça da limpeza, e assim começamos os atendimentos. 

Subimos um lance de escada e no quarto andar temos a Enfermaria. Farra garantida com os profissionais de lá… Encontramos enfermeira que samba, enfermeiro sorridente e cantor, pacientes que ficam bastante tempo no hospital e, por conta disso, acabamos construindo muitas e muitas histórias juntos. São sempre 21 crianças internadas, o máximo que pode acontecer é terem 20, mas sempre com alguém por chegar. 

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De lá, no mesmo quarto andar, partimos para a temida e gelada (sim, lá é muito frio!) UTI. Ali soam apitos e outros sons, deixando uma música permanente no ar. Mas por baixo da seriedade e gravidade do ambiente, encontramos espaço para o olhar e a delicadeza, e até por que não dizer, para a bobeira. Saindo da UTI pegamos carona no elevador e voltamos para a salinha onde tudo começou. 

Toda segunda e quarta

Uma jornada diária, como tantos outros profissionais fazem naquele complexo-complexo-hospitalar. Risadas, lágrimas, tristeza, esperança, cansaço, mal humor, amor, dor, espanto, desdém, compaixão, afeto, raiva, doença, saúde, vida e morte.

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Toda segunda e quarta o mesmo itinerário, toda segunda e quarta conhecemos pessoas novas, toda segunda e quarta reencontramos pessoas. Toda segunda e quarta. Ou quarta e segunda, como bem gostamos de lembrar. Tudo sempre igual, mas cada dia, um dia diferente.

Dra. Pororoca, mais conhecida como Layla Ruiz,
escreve do Instituto da Criança, em São Paulo.

Um sentido chamado sensibilidade

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Já faz um tempo que conhecemos a L. Ela tem a visão bem fraca, só enxerga muito de perto. Mas tem uma sensibilidade muito forte.

Em nossos primeiros encontros, já percebemos o quanto ela gosta de palhaço. Ela tocou nossos narizes, nossos sapatos, tudo o que tínhamos nos bolsos. Um fantoche de dedo, cartas de baralho mágica, bolas de cristal e até minha cartola de malabarismo voadora. Ela soube exatamente quem éramos: Dr. Pinheiro e Dra Greta.

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De um tempo para cá, ela esteve internada e temos nos encontrado direto. Sempre que chegamos o pai ou a mãe perguntam se ela sabe quem chegou.

- DOUTORES DA ALEGRIA!, ela grita.

Perto de completar seis anos, L. é uma criança encantadora, conversa melhor que muito adulto. Dia desses chegamos ao seu quarto e a encontramos brincando com uma residente do hospital. Entramos na brincadeira: L. pegava o fogãozinho de brinquedo, a cama e os móveis e me passava, dizendo:

- Pega para você sentir como é!

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Ao final do dia, passamos pelo corredor e lá estavam elas, juntas novamente. E dessa vez dançando valsa… Isso nos emocionou! Na última semana, quando chegamos ao quarto, L. estava saindo com outra criança em direção ao andar da Quimioterapia.

- Vamos juntos!, disse ela, pegando em minha mão.

E eu fui como seu guia, um sentimento de parceria e confiança que ganhamos com o tempo, a cada visita, a cada encontro.

Dr. Pinheiro,
mais conhecido como Du Circo,
direto do Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, em São Paulo.

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Não é só uma fantasia

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Existe uma demanda muito grande por orientação e formação. São dezenas de e-mails diários, ligações, mensagens no Facebook, visitas à nossa sede. 

Grande parte daqueles que se aventuram a usar a máscara do palhaço não sabem como se vestir, maquiar e o que fazer quando chegam ao hospital. Normalmente fazem distribuição de balas, bexigas, revistas infantis e bolhas de sabão.

O palhaço, nesse contexto, vira uma “fantasia”, e não um estado de espírito, uma personagem.

Achamos in-crí-vel que as pessoas entendam que é preciso, sim, o mínimo de entendimento da arte do palhaço para se arriscar em um lugar como o hospital. 

Tentando atender a estes pedidos-quase-súplicas criamos em 2007 o programa Palhaços em Rede. Funciona assim: Doutores da Alegria promove encontros e oficinas que disseminam o conhecimento que obtivemos em 22 anos à frente deste trabalho. Também há um fórum on-line para o encontro dos grupos e um espaço no site em que é possível encontrar grupos em todas as regiões do Brasil.

É desta forma que ampliamos o nosso trabalho na horizontal, sem precisar ter uma franquia dos Doutores da Alegria em cada Estado.

O programa também estimula os grupos a terem sua própria identidade e seu meio de obter recursos. Segundo Raul Figueiredo, tutor do programa, é uma forma de contribuirmos na formação de uma nova cultura, de um novo profissional de saúde, inspirado na figura humanizada do palhaço, com seus erros e defeitos. “Afinal de contas, como diz o ditado: ERRAR É HUMANO Mas no hospital ERRAR é sinônimo de incompetência… Daí que esse paradoxo fica interessante e cria um bom jogo entre o palhaço e o médico, o que resulta na sátira feita pelos besteirologistas.”, conta ele.

Tem coisa mais “errada” que um palhaço se achar médico e se especializar em Besteirologia?

A cada dois anos acontece um grande encontro nacional de palhaços em atuam em hospitais. Outras informações sobre encontros e oficinas do Palhaços em Rede podem ser obtidas pelo e-mail rede@doutoresdaalegria.org.br. Toda a receita obtida com a formação é destinada à manutenção das atividades da organização. Saiba mais.

Os nossos grandes mestres

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Nesses meses tivemos muitos encontros e desencontros com um paciente e pequeno amigo que arrumamos no Hospital Santa Marcelina. Os encontros acontecem quando nos encontramos, claro, e os desencontros nos dias em que o garoto vai ao hospital para tratamento e não estamos por lá – nós estamos de plantão por lá às terças e quintas-feiras.

R. deve ter uns 9 ou 10 anos e adora tocar nos nossos objetos besteirológicos. Ele é fanático por chocalhos e pelo barulho das buzinas e do pandeiro. Está sempre está com seu avô, que é muito presente e participativo nas nossas visitas… Tá, às vezes ele aproveita para dar uma escapada para tomar um café ou um pouco de sol quando estamos por lá. E o menino não nos deixa sair do quarto.

R. passou por grandes cirurgias para a retirada de um tumor na cabeça e, há alguns meses, perdeu a visão. O mais incrível é que ele não perdeu a sua energia e a alegria de viver. Adora rir e fazer palhaçadas ou repetições dos nossos jogos, que só conhece pelos sons.

Sou fã dele. Fico admirado em ver como a doença pode atingir o corpo de uma criança – no caso, o cérebro- e esta, com muita força de viver, não deixa que a enfermidade atinja sua sua mente. Não deixa que atrapalhe sua alegria.

E é por isso que sempre dizemos que as crianças são os nossos grandes mestres.

Du Circo (Dr. Pinheiro)
Márcio Douglas (Dr. Mané Pereira)
Hospital Santa Marcelina
julho de 2011

Uma pausa

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Demos uma “sumida” do hospital nesse final do mês de setembro… mas foi por uma boa causa! Todos os anos, os Doutores da Alegria se encontram com um mestre da palhaçaria mundial para aprofundar os conhecimentos besteirológicos.

Neste ano tivemos um encontro com o grande, ilmo, exmo, mestre, doutor, senhor, professor, orientador, inglês e é claro, palhaço: Norman Taylor! Norman se formou na escola de Jacques Lecoq (França) e se tornou professor de improvisação da escola Lassaâd (Bélgica). Ele viaja pelo mundo pra dar aulas e veio até São Paulo especialmente pra trabalhar conosco. Que honra!

Como todo grande mestre, Norman adaptou seu curso pra nós – brasileiros e palhaços – e com grande generosidade e técnica intensa, nos ajudou na observação e investigação do movimento humano, assim como no aperfeiçoamento do nosso jogo teatral. Ficamos dez dias trabalhando com ele e esperamos que o resultado desse encontro seja percebido por nossas crianças.

A pausa para a escuta

Também agora em setembro, antes do encontro com o mestre, tivemos um dia de “ouvidoria” no Hospital do Campo Limpo, como vocês podem ver abaixo.

A experiência de ouvidores das crianças, acompanhantes, profissionais de saúde e mais quem quisesse falar com a gente foi muito bacana! Fomos “todos ouvidos”.  Descobrimos , por exemplo, que o maior problema dos pacientes do hospital é mesmo o de bilhete único, pois a grande maioria das crianças repetiram a mesma coisa:

Eu quero ir embora pra minha casa!

Também ouvimos outras preciosidades nesse dia:

Eu tô preso no poste…  (criança com o soro no braço)

Tô com sede, fome e não quero tomar banho!

A enfermeira Shizuko tá brava hoje… (dito por um médico)

As grandes reivindicações:

Por que só existe descanso médico e não descanso pra enfermagem?

Queremos chuveiro quente!

E finalmente, alguém que viu o Dr. Charlito com aquelas pequenas orelhas apropriadas pro dia de trabalho:

Vai pro otorrino, palhaço!

E o Charlito respondeu:

Pra quê? Eu não to rino de nada! Tô levando isso tudo aqui muito a sério.

Dra. Juca Pinduca (Juliana Gontijo)
Dr. Charlito (Ronaldo Aguiar)
Hospital do Campo Limpo
setembro de 2011