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É rampa, túnel ou passarela?

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O Hospital Santa Marcelina, que fica na região de Itaquera, é bem grande. São escadas, elevadores, quartos, escritórios, alas, enfermarias, parte externa, banheiros, refeitório e muito mais.

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Nós, os besteirologistas da vez, percorremos bastante estes caminhos, sempre espalhando dúvidas e uma certa dose de confusão. Mas também prestamos serviços bastante inúteis, como, por exemplo, ensinar às pessoas como se deve chamar o elevador.

Tolinhos os que pensam que basta apertar um botão. Mostramos que chamando o aparelho pelo nome, em alto e bom som, ele chega bem mais rápido: ELEVADOOOR! Sim, pode gritar a plenos pulmões, e perceba você também a diferença. 

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E um detalhe não menos importante tem gerado um certo clima de discórdia entre nós: qual o nome correto para denominar uma “coisa” de concreto que liga o edifício onde existe a enfermaria pediátrica e uma das entradas do hospital?

- É rampa!, diz Dr. Cavaco com certeza absoluta.
- Nada disso, é túnel!, diz Dra. Pororoca com absoluta certeza.
- Tá na cara que é uma passarela…, responde Dr. Dadúvida com dúvida nenhuma.
- É rampa.
- Túnel.
- Passarela.
- Rampa!
- Túnel!
- Passarela!
- Rampaaaaaaaaaa!
- Túnelllllll!
- Passarelaaaaaa! 

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Por favor, dê uma olhada na foto acima e ajude este trio a chegar a alguma conclusão, mesmo que isto não tenha a menor importância em sua vida. Para você, caro leitor: é rampa, túnel ou passarela? 

Dra. Pororoca (é túnel), Dr. Dadúvida (é passarela) e Dr. Cavaco (é rampa) escrevem do Hospital Santa Marcelina, em São Paulo.

As três principais tendências em saúde para 2018

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Enquanto fazemos uma pausa no trabalho dos hospitais neste início de ano, pesquisamos o que nos aguarda em 2018 no campo da saúde.

Já falamos sobre o salto de qualidade técnica da Medicina nos últimos anos, que teve a tecnologia e os avanços científicos a seu favor. Também colocamos na mesa os dilemas envolvendo o sistema único de saúde no Brasil, um dos únicos no planeta que se coloca à disposição para toda a sua população.

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Pois bem: segundo especialistas em saúde, o ano de 2017 foi marcado por crises na área ao mesmo tempo em que trouxe transformações que devem continuar nos próximos anos. Vejamos então as três tendências em saúde importantes apontadas por eles para 2018:

Avanços tecnológicos relacionados à longevidade

O número de pessoas acima dos 60 anos no Brasil, hoje em 12,5%, deverá quase triplicar até 2050, ultrapassando a média mundial, de acordo com o Relatório Mundial de Saúde e Envelhecimento. Essa realidade vem trazendo uma mudança no perfil de óbitos: as maiores causas de mortalidade no país são doenças cardiovasculares (33%), câncer (20%) e mortes violentas (13%).

O avanço tecnológico já permitiu o desenvolvimento da robótica da Medicina, trouxe qualidade e nitidez a exames de imagens e tornou as cirurgias mais assertivas. Agora, com foco na longevidade, vem trazendo respostas e novos medicamentos para doenças crônicas e degenerativas como o Alzheimer, a esclerose múltipla e o câncer, além de estudar por que envelhecemos e como retardar esse processo.

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Para Frank Pok, chefe de tecnologia no conglomerado farmacêutico AstraZeneca, “será a tecnologia dentro da sua casa, e não aquela em hospitais, que mudará a forma como lidamos com saúde”. Segundo ele, dados obtidos graças a sensores, smartphones e outros produtos podem ser uma fonte poderosa na mão de cientistas e a digitalização vai nos preparar para novos tratamentos, terapias e, claro, para prevenção

Foco na prevenção, diagnóstico precoce e a recuperação da saúde

Cuidar das pessoas antes de precisarem de hospitalização deixou de ser um ideal e vem se tornando uma prática. A preocupação com a saúde está cada vez mais evidente, ainda que mais fortemente entre as classes sociais mais ricas, e se manifesta por meio da alimentação, da atividade física e de hábitos saudáveis.

Recuperar a saúde significa mais qualidade para uma vida cada vez mais longeva. Para os hospitais, o tratamento crônico implica em maiores custos de assistência, e por isso a Medicina preventiva ganha espaço no trabalho e nos investimentos das operadoras de saúde e das empresas.

E o consumo de bens e serviços de saúde só cresce. Segundo levantamento do IBGE divulgado em 2017, as despesas nesta área oscilaram entre 18,5% e 19,6% do total do consumo do governo, entre 2010 e 2015. Já no caso das famílias, as despesas com consumo de bens e serviços de saúde passaram de 7,3% do total de seu consumo, em 2010, para 8,2%, em 2015.

Melhorar a experiência de internação

É certo que durante a internação há um distanciamento do cotidiano e de tudo que nos cerca – objetos, cheiros, hábitos, bichos de estimação, familiares. “Intimidade, identidade, controle sobre a vida, quase tudo vai pro espaço.”, como lembra Soraya Saide, atriz e palhaça do Doutores da Alegria.

Mas muitos hospitais já cruzaram a fronteira de locais frios e sisudos, em que a autoridade do médico e a necessidade de regras e padrões ficam acima de qualquer outra percepção. Se antes acreditava-se que ter qualidade exigia custos elevados e retorno improvável, hoje é claro que somente por meio dela é que as instituições atingirão sua sustentabilidade financeira e perenidade. Isso inclui investimento na formação dos profissionais e nas condições estruturais dos hospitais.

E ações de humanização e práticas artísticas elevam a percepção da qualidade de internação. Alguns exemplos disso são as obras de arte dispostas em todos os corredores do Chelsea and Westminster Hospital, brinquedotecas bem articuladas com as pediatrias e a presença permanente de palhaços profissionais.

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Bem, e se a contribuição do Doutores da Alegria para a saúde envolve melhorar a experiência de internação, ficamos à espreita para saber como estas outras tendências vão impactar no dia a dia de hospitais públicos. Muitos ainda enxergam um grande abismo entre o futuro que se apresenta e as condições presentes, agravadas pela falta de recursos para manter o básico com qualidade.

Que venha 2018!

O médico mudou. E, bem, o palhaço também.

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Lá pelos anos 90, quem tinha maior autoridade e prestígio dentro de um hospital era o médico. O profissional era o detentor do conhecimento, em seu julgamento e em suas mãos repousavam o destino de muitos. A seriedade era quase que lhe imposta, uma vez que qualquer erro podia lhe custar uma vida.

Foi neste cenário que surgiu o Doutor da Alegria, sujeito com um jaleco cheio de cacarecos, uma aparência questionável, entendido de Besteirologia, sem autoridade nenhuma e fadado ao erro. A ideia era justamente contrapor a autoridade médica, trazendo um novo olhar para as relações e a hierarquia dentro de um ambiente em que a saúde e a doença caminham juntas.

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Pois bem. Quem acompanha a rotina de um hospital hoje, quase 30 anos depois, sabe que o poder da figura médica perdeu fôlego, apesar de histórias recentes como esta.

O oncologista Drauzio Varella ajuda a entender pra quem está do lado de fora: “A lógica de mercado invadiu o sistema de saúde. Administradores alheios à profissão trouxeram palavras de ordem às quais [nós, médicos] não estávamos habituados: produtividade, racionalização da mão de obra, economia de escala, lucratividade, fusões, corporações, capital de risco.”

Em um artigo para a Folha de S.Paulo sobre os últimos 50 anos da Medicina no país, Drauzio conta como a figura médica foi absorvida pela indústria e pelo avanço da ciência. Se, por um lado, o profissional testemunhou um salto de qualidade técnica da medicina, por outro “o desinteresse dos colegas frustrados com os salários e as condições de trabalho fizeram perder parte do prestígio que tínhamos na sociedade”, escreve ele. O artigo inteiro pode ser lido aqui.

Os meios de comunicação modernos, que trazem conteúdo à ponta do dedo, abriram as portas do conhecimento para o paciente de hoje, que é muito mais informado que há 50 anos. “Os médicos que nos precederam transmitiam mensagens de saúde ao encontrar as pessoas nas ruas, nas praças, nas festas da comunidade. As praças de hoje são as estações de rádio, os canais de televisão, o Facebook, o Google, o YouTube e os sites da internet. Muitos dos que nos introduziram na profissão eram médicos autoritários, que impunham suas condutas sem levar em conta as idiossincrasias individuais.”, conta Drauzio Varella.

E se a função do médico moderno é a de trazer alternativas para que o paciente possa decidir – sim, ele mesmo! – sobre qual delas se adapta melhor às suas necessidades e desejos particulares, qual seria a função do palhaço que atua no hospital?

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Contrapor a figura de um médico empoderado parece não fazer mais sentido. Em muitos relatos neste Blog fica clara a parceria que o palhaço estabelece com o médico, como nesta história em que a equipe de saúde pediu aos palhaços que dessem a tão almejada alta hospitalar a uma criança. Ou nesta organização, em que palhaços são autorizados a acompanhar procedimentos cirúrgicos, reduzindo o estresse e facilitando o diagnóstico pela equipe médica.

A aliança entre médicos e palhaços que atuam de maneira profissional foi conquistada aos poucos, com profundo respeito aos saberes de cada um.

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E se na nova ordem o paciente deixou de ser o centro das atenções no sistema de saúde, como bem lembra Drauzio, para médicos e palhaços ele continua sendo a razão pela qual decidimos entrar pelas portas de hospitais todos os dias. Com jalecos ou cacarecos, com diagnósticos difíceis ou sorrisos inesperados.

SUS, capítulo 4: o que entra pela porta do hospital é o social

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Nos últimos capítulos desta série SUS, trouxemos dados sobre a saúde no país e a situação agonizante em que se encontra o Hospital Universitário da USP, em São Paulo.

Hoje o foco é outro equipamento de saúde pública: o Hospital Municipal Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha, conhecido como Hospital Municipal do Campo Limpo, onde Doutores da Alegria também atua, todas as terças e quintas-feiras, há 13 anos.

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Um raio-X do hospital

Localizado na região Sul da cidade, o hospital recebe diariamente 1200 pessoas, a maioria dos bairros de Capão Redondo, Jardim Ângela, Jardim São Luiz e cidades vizinhas como Embu, Taboão e Itapecerica da Serra. Referência em traumas e neurocirurgia, atende muitos casos graves e acidentes. 

O hospital tem 27 anos de existência e ocupou um espaço importante na região, que sofria com a inexistência de um hospital de grande porte. Desde 2008, parte da demanda foi absorvida pelo Hospital M"boi Mirim.

foto-hospital-campo-limpofoto: www.fiquemsabendo.com.br

Em 2005, o Campo Limpo passou por sua primeira reforma, que expandiu o número de leitos, além de melhorar as instalações do pronto-socorro, do centro cirúrgico e do centro de imagens. Em 2013, foram reabertas as vagas da UTI, que recebe em média 29 internações por mês e 344 por ano, segundo dados do portal da Prefeitura.

Entre 2013 e 2015, o Hospital do Campo Limpo liderou as reclamações de pacientes, representando 13% do total de reclamações contra os hospitais municipais da capital. E segundo apuração recente do jornal Folha de S.Paulo, toda a verba prevista para a compra de materiais e novos equipamentos (R$ 1,2 milhão) no Campo Limpo está congelada e faltam insumos básicos, como gaze e esparadrapo. 

O Hospital do Campo Limpo é um reflexo da comunidade local.

A região atendida pelo hospital é uma das mais populosas da cidade, com mais de 1,5 milhão de pessoas, grande parte em situação de vulnerabilidade social. Destas, 26% moram nas 237 favelas localizadas entre as subprefeituras do Campo Limpo e do M"boi Mirim.

Além da falta de habitação e saneamento básico, entre os maiores problemas da região se destacam a violência, a mobilidade e a falta de creches e opções de lazer e cultura para crianças e adolescentes. Um complexo quebra-cabeça que em nada contribui para a promoção da saúde.

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“Encontramos muitas crianças acidentadas; uma que caiu da laje, outra que foi atropelada por uma moto, o outro que atropelou a perua escolar que passava na rua, outra que a mãe não quis mais, outro que foi violentado, enfim… Reflexo da dura realidade em que vive a maior parte da população do nosso país., conta a atriz e palhaça Luciana Viacava, que atua ao lado de Vera Abbud neste ano no hospital.

Histórias de bebês e crianças abandonadas são das mais frequentes. Mães muito novas, situações evitáveis, drogas; mas crianças e pais adoráveis e profissionais muito empenhados. Para o ator e palhaço David Tayiu, estar no Hospital do Campo Limpo é se defrontar com o humano de uma forma quase cruel.

“Antes de chegarmos no pronto socorro infantil, passamos por um corredor surreal – ou real em demasia. Lá, os médicos e enfermeiros são super humanos, trabalham por muitos e se envolvem com cada caso, com cada pessoa, compreendem, respeitam e agradecem a nossa presença. Em uma sociedade que falta tudo, principalmente o básico para sobreviver, se sentem frustrados por suas limitações. A impressão que tenho é a de que gostariam não somente de curar a doença, mas a vida daquelas pessoas.”, conta ele. 

Fotografia dos Doutores da Alegria no Hospital do Campo Limpo/SP.

A questão social no Hospital Municipal do Campo Limpo é muito forte e presente. O que entra pela sua porta reflete o abandono a que esta população está submetida, em diversas instâncias, em um local em que o Estado quase se ausenta.

Vera Abbud, que atua há 25 anos em hospitais públicos de São Paulo, sempre faz a mesma pergunta, engasgada na memória de cenas e histórias que se repetem. “Quando atos como esses se repetem incansavelmente numa mesma parcela da cidade durante anos a fio, não está na hora de se perguntar se essa parcela da cidade está sendo bem cuidada, observada e protegida com dignidade pelas autoridades responsáveis?.

Enquanto palhaços, não temos respostas, brincamos com as perguntas. Mas enquanto artistas e membros de uma organização da sociedade civil, temos a responsabilidade de buscar caminhos para uma saúde universal e que vá além da ausência de doença.

Porque hospital também é lugar de arte

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A aproximação entre o universo hospitalar e o campo artístico caminha a passos largos. Parte da ideia de que o corpo humano busca saúde absorvendo diversos estímulos sensoriais.

O palhaço, com sua linguagem própria, é nossa primeira referência. Há 25 anos sabemos que sua atuação reflete na saúde das crianças e na qualidade das relações dentro do hospital.

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Mas também já falamos aqui sobre o Chelsea and Westminster Hospital (o hospital museu, com diversas obras de arte) e sobre a organização Vital Arts, que reúne artistas para pintarem hospitais.

Listamos abaixo algumas outras experiências que aconteceram recentemente e ilustram essa aproximação:

Novos ares

O Instituto da Criança, em São Paulo, recebeu mais de cem reproduções de obras do artista plástico Gustavo Rosa. A ala de diálise do hospital ficou repleta de quadros, em tamanhos grandes, que enchem o olhar de crianças, acompanhantes e profissionais de saúde.

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Todos os dias as crianças comentam algo novo que descobriram nas paredes do hospital! Agora temos um andar colorido e divertido, de onde não param de sair piadas e brincadeiras. E nem preciso dizer que adoramos isso!”, conta Juliana Gontijo, atriz do Doutores da Alegria.

Dou-lhe três…

O Hospital do Mandaqui, em São Paulo, recebeu um leilão de quadros de Mateus Alves, paciente da UTI. Ele pintou, com a boca, os palhaços do Doutores da Alegria. Ele vem aprimorando sua técnica com aulas de pintura oferecidas voluntariamente pelo professor Paulo Ferrari.

Nem só bebês nascem nos hospitais

No Rio de Janeiro, espetáculos nascem nos hospitais. E só depois vão para os palcos – com os artistas e companhias que atuam no projeto Plateias Hospitalares.

Um belo exemplo é “GameShow”, criado pelo grupo Conexão do Bem especialmente para o Hospital Santa Maria, onde pessoas que tratam de tuberculose ficam afastadas em alas de um prédio alto. O espetáculo tem a estrutura de um programa de auditório, no qual a plateia é convidada a participar ativamente, e o desenrolar das cenas e seus desfechos dependem da participação dos pacientes.

Veja outros espetáculos que nasceram nos hospitais.

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Ala cultural

As alas do antigo hospital Vila Anglo Brasileira (1955-90), em São Paulo, deram vida a um espaço cultural. Comprado e reformado recentemente, o local virou sala de ensaio, de criação e palco para apresentações diversas.

“A reforma, porém, não escondeu o histórico do prédio. Os cômodos, alguns com parte dos tijolos aparentes, guardam a cara do antigo hospital, com luzes da sala de cirurgia e alguns objetos antigos (como jarras de medicamentos) expostos”, traz a reportagem do jornal Folha de S.Paulo.

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Sem títulofonte: Folha de S.Paulo 

Que outras aproximações entre arte e saúde seriam possíveis? Seguimos descobrindo.

Hospital feito casa da gente

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Cada um enxerga o mundo de um jeito.

Uns fingem que veem, mas não falam. Outros usam óculos para ver melhor. Alguns tropeçam quando andam de tanto que ficam admirados com ele. Assim também é com o hospital.  

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Tem uns que acham o lugar uma loucura, outros vão lá raramente, alguns vão e vêm, outros tantos vão e nem vêm.

A gente vive no hospital duas vezes por semana e lá é uma extensão da nossa casa. Comemoramos dias festivos, feriados. Sabemos de um tudo e quase nada, vemos o tempo correr na urgência e muitas vezes sobreviver na nascença.

A gente vive lá como a maioria dos pacientes: o hospital vira segunda casa

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Esse pensamento veio quando nossa paciente, de aproximadamente 7 anos, teve finalmente alta médica e disse uma coisa que ficou na minha cabeça quando perguntamos:

- Você vai sentir falta dos palhaços?
- Claro que vou, né! Aqui tem cachorro, comida boa e palhaço, melhor que lá em casa.  

Ela tem razão. O hospital, lugar de cuidados, vem tentando sempre ampliar o seu olhar, é uma longa busca, como na vida de toda pessoa, mas ao menos se busca. E se não faz, alguém dá um jeito para se fazer.

E é bom quando o hospital não tem cara de hospital, mas que a gente se sinta como se estivesse numa casa, de férias, cuidando da vida como ela pede.

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E para não deixar de falar, vamos contar o sucesso do momento. Quem conhece o D. da UTI, no 3ª andar, sabe do que falamos. Ele vive babando por questões de saúde.

É um desses que fizeram – não porque quiseram – o hospital feito casa. E pela intimidade que temos de longos anos de visitas semanais, o D. tá quase careca de saber sobre nossas besteiras. Mas alegra os seus olhos, pois ele se comunica com eles, pisca mais que pisca-pisca, quando ouve a canção: 

♫♪ Djalma baba baba, baby,
Djalma baba babá
Djalma baba babá
 ♪♫

Dr. Dud Grud (Eduardo Filho) e Dr. Lui (Luciano Pontes)
Hospital Barão de Lucena – Recife

Pra prestar atenção

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Em nossa rotina diária no hospital, algumas coisas podem deixar de ser vistas. 

Os besteirologistas Dud Grud e Lui fizeram uma lista pra gente prestar mais atenção na próxima vez que formos ao hospital. Tome nota!

#1 Um olhar curioso de quem acabou de chegar

Porque chegar no hospital e dar de cara com um palhaço pode trazer um novo significado para sua estadia.

seis momentos

 

#2 Um riso discreto sem gargalhar

Sim, tem paciente que só ri pela boca do estômago!

seis momentos 

 

#3 Uma médica que pede um encaixe numa consulta a um besteirologista no ambulatório

Esses médicos estão sempre um passo atrás no quesito exames besteirológicos: verificação de miolo mole, de língua de sogra, de água no joelho…

seis momentos

 

#4 A enfermeira chamando o próximo paciente, dançando ao som da música de um ultrassom

Tem coisa melhor que um ultrassom ao vivo no hospital? Eita sonzera!

seis momentos 

 

#5 Uma lágrima suspensa nos olhos depois de uma injeção

Ui! A gente sabe que dói.

seis momentos

 

#6 Uma risada dobrada de bebê

Porque além de olhinhos conquistadores, bochechas rosadas e uma careca reluzente, os bebês ainda gargalham! <3

seis momentos

E se você tiver mais alguma memória pra acrescentar à lista, escreve aí!

Imagine um hospital que…

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Muitas conversas sobre o futuro dos hospitais vêm se dando ao redor do mundo. Aqui no Brasil, fóruns e congressos discutem novas maneiras de acolher pacientes, abordagens além-médicas para tratar doenças e formas de abrigar a crescente população idosa na sociedade. Mas talvez as conversas ainda aconteçam muito a portas fechadas, sem envolver vozes da comunidade, como os profissionais de saúde, os pacientes e ONGs que atuam no setor.

Uma organização quis virar a mesa, inverter os papéis. Em 2013, conduziu um experimento com pessoas de todo o mundo, abrindo um diálogo global sobre o papel dos hospitais no século 21. O Institute For The Future, localizado no Vale do Silício (Califórnia), atua com a missão de ajudar empresas e organizações a construir os futuros que desejam, prevendo tendências e comportamentos.

No experimento com hospitais, desenvolveram um jogo dinâmico e envolveram 637 pessoas de diferentes nacionalidades para, juntas, reinventarem um sistema de saúde que atenda às necessidades contemporâneas, com novas forças sociais, econômicas, tecnológicas e epidemiológicas.

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Como foi esse jogo?

Com duração total de 24 horas, o jogo consistia em um vídeo inicial com a proposta e três desafios partindo do pressuposto de que o modelo atual de hospital é insustentável e precisa de reinvenção. Os participantes precisavam repensar e discutir três problemáticas (abaixo) utilizando respostas curtas, de no máximo 140 caracteres.

 Os desafios…

+ dificuldades enfrentadas por departamentos de emergência
+ hospital como centro de bem-estar da comunidade, não apenas lugar para tratar doenças
+ papel que o hospital pode desempenhar para diminuir a lacuna entre as descobertas científicas e melhores resultados na saúde

E os resultados, quais foram?

Foram geradas 4.528 ideias! O Institute For The Future reuniu as mais expressivas e inspiradoras em um documento, disponibilizado em inglês em seu site (aqui, ó).

Eles destacam a ideia comum de ter hospitais menores que ofereçam serviços de cuidados atrelados a ferramentas digitais. Seria preciso reaproveitar os espaços físicos existentes, pensar as qualificações da sua força de trabalho e as estratégias para, de fato, conectar-se às comunidades locais. Muito inspirador! Outras percepções surgiram, como essas:

“Hospitais devem ser o epicentro de atendimento de urgências, mas não o único foco de um sistema de cuidados de saúde.”

“Poderiam tornar-se lugares que recolhem histórias de saúde, em vez de apenas coletar relatos de doença. Um lugar para falar, um lugar para ouvir.”

Depois do relatório inicial, a organização analisa mais profundamente todas as ideias, ameaças e oportunidades que surgiram do jogo. Um trabalho denso!

Imagine esse exercício sendo proposto em cada hospital pelo país. Uma construção coletiva com ideias de pacientes, médicos, um fórum aberto”, idealiza um dos jogadores. E nós também!

Doutores da Alegria bate na tecla de que o hospital precisa ser enxergado como um local em se respire vida e saúde; e que, portanto, pode ser habitado pela arte em suas mais diversas formas. O palhaço, a música, o teatro, a dança, a poesia… Todas essas manifestações artísticas afetam as relações, nos ensinam a pensar e a sentir o que não é dito ou traduzido de outra forma.

Diversos hospitais pelo mundo estão mudando seus interiores com este pensamento. Seria esse o primeiro pequeno passo para o hospital do futuro? 

“A música me salvou”

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No sudeste asiático tem um país que enfrenta problemas parecidos com os nossos. Lá, organizações sociais atuam em conjunto com o governo na tentativa de prover os direitos humanos mais básicos, como acesso à saúde e saneamento básico. O país foi classificado, ano passado, como um dos mais corruptos do mundo, e o índice de desenvolvimento humano o apresenta como mediano, ocupando a 136º posição (o Brasil fica em 79º).

O Camboja tem hoje pouco mais de 15 milhões de habitantes. Em sua história traz um regime autoritário e uma guerra devastadora que dizimaram grande parte de sua população, incluindo-se aí mais de 80% dos seus artistas e músicos. Arn Chorn-Pond, que era apenas uma criança quando a guerra bateu à sua porta, sobreviveu a ela através da música. Ele tocava flauta, entre outros instrumentos típicos, para manter soldados entretidos. “A música é a razão pela qual estou vivo hoje“, diz ele. Sua história é contada (em inglês) no jornal The Guardian de hoje. 

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Hoje, aos quase 50 anos, Arn Chorn-Pond é um ativista e dedica sua vida para preservar a herança cultural do Camboja. Ele criou, em 1998, a organização Cambodian Living Arts (CLA) que atua para transformar o país por meio da arte, reconectando artistas sobreviventes, oferecendo formação e programas para a comunidade. A CLA também promove um salário justo para os artistas do país. 

O ativista tem certeza de que a arte tem um poder transformador e o governo atual vem abrindo portas para a implementação de políticas culturais. “Hospitais são importantes para curar as pessoas fisicamente“, acredita Pond, “mas acho que a arte restaura a identidade, restaura a dignidade. Podemos unir as pessoas em harmonia, em paz.”

Semelhanças e diferenças à parte entre Camboja e Brasil, a arte é universal, seu entendimento ultrapassa fronteiras. A música salvou a vida de Pond e teceu sua bela trajetória. Doutores da Alegria busca melhorar a qualidade da saúde por meio de intervenções artísticas, fincando a bandeira de que o acesso à arte também precisa ser encarado como um direito básico e universal, inclusive para as populações mais vulneráveis, como dissidentes de guerras e pacientes em hospitais públicos.

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Você conhece uma história de alguém cuja vida foi transformada pela arte?  

O nosso caldeirão de emoções

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“Ninguém no hospital espera a visita de um palhaço, ninguém está lá para isso. Uma pessoa hospitalizada está distanciada de seu cotidiano e de tudo que a cerca – objetos, cheiros, hábitos, bichos de estimação, familiares. Intimidade, identidade, controle sobre a vida, quase tudo vai pro espaço.”
 

A frase acima, de Soraya Saide para o livro Boca Larga, ilustra o sentimento que muitas crianças vivenciam quando estão internadas ou passam um longo período hospitalizadas. O brincar fica de lado e exames, avaliações, injeções e conversas sérias tomam seu cotidiano. Dependendo do tempo de internação, as visitas se tornam raras e os acompanhantes, cansados e preocupados com a situação, não têm paciência – ou cabeça – para dar a atenção devida à criança. 

Lugar de urgências, emergências, contingências, o hospital quase que exige que a imaginação seja deixada de lado. Os profissionais precisam dar conta da demanda como podem; as pessoas, fragilizadas e desacreditadas do sistema de saúde público, exigem esforços da equipe. Apesar de parecer um ambiente frio e sisudo, o hospital é um caldeirão de emoções.

E daí surge o palhaço, montado no semblante de médico besteirologista, e ocupa espaços absolutamente esquecidos: o espaço do erro, o espaço do humanidade, o espaço da imaginação, o espaço da dúvida. Ele desperta na criança, que ali recebe a outorga de paciente (e não de agente!), o desejo genuíno de brincar, sempre apoiado na sua permissão para seguir adiante. Sim, é ela quem decide!

Apesar de comprovar empiricamente ali, no dia a dia de trabalho, descobrimos por meio de pesquisas que as visitas influenciam muito na relação das crianças com o próprio tratamento. Dá uma olhada:

Pesquisa Instituto Fonte | 2008

Brincar e sair das nossas zonas de conforto – de atitude e de pensamento! – modificam não só o nosso comportamento como também todo o ambiente. Não é preciso ser sisudo pra ser sério, não é mesmo?

Durante as visitas, acompanhantes, médicos, enfermeiros, seguranças também entram no jogo. Esses encontros dão potência para seguir o dia com mais leveza, com mais alegria, e provam que apesar da situação, é preciso encontrar o lado saudável da vida, o lado que nos conecta com o outro, que nos potencializa para fazer melhores escolhas. E essas escolhas podem ser um sorriso, uma escuta mais presente, uma decisão em conjunto.