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Espaços de intervenção

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Sempre olhamos para o hospital como um espaço de intervenção. Bem, “intervir”, no âmbito da Medicina, pode ser um procedimento cirúrgico para tratar uma doença. No contexto da arte, entretanto, uma intervenção pode ressignificar uma situação cotidiana, trazer um novo olhar para algo já estabelecido.

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Foi assim que, há 25 anos, Doutores da Alegria escolheu o palhaço como forma de intervenção no hospital. Sua essência questionadora e subversiva quebrou paradigmas em um ambiente pautado pela hierarquia, pela seriedade, pelas regras. E se no início o palhaço gerava estranhamento e indagação sobre sua pertinência, tempos depois inspirou diversas atividades dentro do hospital e foi abraçado pela sociedade, tornando-se ícone do movimento de humanização.

Optamos por estar em locais fronteiriços em que o poder público quase se ausenta. Convivemos diariamente com a doença, a violência em pequenas atitudes, o descaso e o abandono, entre outras tragédias cotidianas – mas também com a cura, com profissionais dedicados, com a superação, com a alegria dos encontros.

Intervir junto a crianças, adolescentes e outros públicos em situação de vulnerabilidade e risco social em hospitais públicos nos fez transitar, como organização, pelos campos da saúde, da cultura e da assistência social. Do lado de fora dos hospitais, ampliamos canais de diálogos reflexivos com a sociedade e investimos em formação e pesquisa.

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Neste caminho, em 2016 Doutores da Alegria trouxe uma nova governança, composta por um diretor presidente e quatro diretores eleitos pelos associados. E uma nova tarefa institucional, que substituiu a nossa missão, propondo a arte como mínimo social, ou seja, como uma das necessidades básicas essenciais para o desenvolvimento digno do ser humano, assim como alimentação, saúde, moradia e educação.

O conceito de mínimo social ainda está sendo digerido pela organização, contudo ele já aponta para um novo espaço de intervenção muito além do ambiente hospitalar: a atuação com políticas públicas em uma perspectiva de construção e garantia de direitos. Assim como há 25 anos, talvez causemos estranhamento e indagações, mas atuar na fronteira também faz parte de nosso ofício.

_texto originalmente publicado no Portal Setor 3

Hospital: lugar de sonho ou realidade?

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Dra Greta e Dr. Valdisney começaram a prestar atenção nos sonhos espalhados pelo Hospital do Mandaqui.

A palavra tem muitos significados: um produto da nossa imaginação, um desejo muito forte, uma ilusão e até um pãozinho fofo com creme dentro. Os estudiosos contam que os sonhos, esses que a gente tem quando dorme, servem para recuperar a saúde do organismo e do cérebro

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O J.M., em seus quase dois meses de internação, teve tempo suficiente para montar um time de futebol com os melhores do mundo, e ele fez isso testando um a um, cada jogador, em seu videogame. Seu sonho sempre foi comandar um time dos sonhos… E foi no campo adversário – o hospital – que ele conseguiu.

O R. e o J. sonharam que podiam ser melhores amigos. Passaram um bom tempo juntos no quarto 306. Seus pais contaram que nesse período compartilharam tantas ideias, conversas, partidas de videogame, histórias e que se identificaram tanto, que o sonho se realizou: viraram amigos de fé. No dia em que R. recebeu alta, mal conseguimos atendê-los, porque tanto R. como J. choravam compulsivamente, e ainda que morassem no mesmo bairro, e seus pais houvessem prometido que os levariam para visitar um ao outro, nenhum deles se conformava com a separação. O hospital acabou sendo palco de uma convivência ímpar.

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Para as mães e pais que acompanham suas crianças, o ambiente hospitalar é esgotante… Pouco sono, apreensão, sofrimento, estresse, afastamento da família. Seu maior sonho é voltar para casa, mas isso não depende deles, como também não depende de nós, besteirologistas… Mas como sempre temos um remédio escondido nos bolsos de nossos jalecos; intervimos para minimizar esta tensão. Nos quartos de internação da Pediatria infalivelmente escutamos o barulhinho do inalador… Tchiiii, tchiiii, tchiii… E é igualzinho ao da panela de pressão. Então propusemos à diretoria do hospital que orientem os médicos a prescreverem inalação com cheirinho de feijão, assim as mães podem sonhar que estão em casa e que a comida já está no fogo, o que as deixaria bem relaxadas. A proposta foi aceita por unanimidade e considerada genial.

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No Mandaqui está também o nosso sonhador mor, o Mateus. Ele nunca havia saído da UTI, seu sonho era ver a lua, e viu. Depois sonhou em ir ao cinema, e foi. Aí começou a sonhar em ser um artista, pintou uma série de quadros, e teve seu vernissage. Hoje ele tem até professor particular de pintura. Mateus sonhou também em escrever um livro; juntou o útil ao agradável e, em parceria com seu professor, produziu um gibi, uma ficção científica, cujos personagens são inspirados em pessoas do hospital. Seu mais recente sonho é lançar seu “livro-gibi” e, quem sabe, transformá-lo em desenho animado para TV. Se vamos sonhar, vamos sonhar grande, né?

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E depois de tantos sonhos, qual será o nosso? O dos besteirologistas do Mandaqui? Bom, há vários… Valdisney sonha o tempo todo em ficar rico, em ter cabelo, em emagrecer e em se parecer com o Brad Pitt; já eu, Greta, sonho em arranjar um marido, em arranjar um marido, em arranjar um marido e em arranjar um marido.

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Mas o que sonhamos juntos? Ah! Nisso não discordamos! Sonhamos em um dia chegar ao hospital e o encontrarmos vazio, absolutamente sem nenhuma criança para ser atendida por não haver mais crianças doentes no mundo…

“Agora eu vou sonhar
Eu vou sonhar maior
E cada sonho meu
Há de criar-se ao meu redor”

Dra Greta Garboreta (Sueli Andrade)
Hospital do Mandaqui – São Paulo

Pokemon Go nos hospitais – ou como o virtual constrói novas relações

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Muitos tratamentos exigem que a criança hospitalizada faça caminhadas pelos corredores para se recuperar. Levantar da cama, esforçar-se para mexer o corpo, encontrar outras pessoas e respirar novos ares pode contribuir para deixar o hospital mais rápido.

O jogo para celular Pokemon Go, que recentemente chegou ao Brasil, vem incentivando crianças de hospitais mundo afora a deixarem seus leitos em busca de uma boa aventura. Profissionais de saúde e familiares dos pequenos também entram na brincadeira, caçando os bichinhos e tornando o hospital um lugar um pouco menos frio.

2(fotos: UMHealthSystem)

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Com base na realidade virtual, o jogador precisa andar e mover seu celular para caçar os bichinhos. “As crianças estão explorando um lugar que, há cinco minutos, talvez elas tivessem medo. Agora elas querem ver cada canto do hospital e aprender sobre ele”, conta J.J Bouchard, profissional da administração do C.S. Mott Children’s Hospital, nos Estados Unidos.

Além do benefício da caminhada, o jogo tem promovido encontros. Segundo o jornal Huffington Post, o pequeno Ralphie, de seis anos, tem transtorno do espectro autista e sente dificuldade em situações sociais. Mas jogar Pokemon Go ajudou-o a conhecer crianças de sua idade pelos corredores.

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Aqui no Brasil, as crianças hospitalizadas vêm fazendo uso do celular há muitos anos para se distrair dos longos momentos de internação. Os palhaços, que traduzem o mundo a partir de uma linguagem própria, entram no jogo, criando uma relação que transita entre o virtual e o real com cada criança. Pokemon Go certamente trará uma nova experiência para as intervenções artísticas.

Até quando o jogo será interessante a ponto de manter os pequenos caminhando não sabemos. E que outras inovações baseadas na realidade virtual surgirão… Também não. O fato é que o mundo virtual não tem fronteiras e pode desassossegar relações humanas, alterando a rotina de locais bastante intocáveis como os hospitais.

O que nos resta é continuar apostando na força dos encontros que dão um empurrãozinho para a recuperação da saúde.

Memórias de um choro dolorido

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A Besteirologia já faz parte do quadro profissional dos hospitais em que atuamos. 

No Instituto da Criança, onde a dupla Emily e Xaveco faz suas visitas, isso é uma realidade, e as duas besteirologistas estão cada vez mais misturadas à equipe médica. Normalmente elas atendem somente antes ou após os procedimentos, mas são acionadas por profissionais de saúde quando preciso.

Em um dia desses, ao chegar à Pediatria, ouvimos gritos e choro no quarto do R., um lindo menino de um ano e quatro meses que, devido ao longo tempo de internação, acabou tendo uma relação muito amorosa conosco. 

Não entramos no quarto por saber que havia um procedimento delicado tomando forma ali. Acontece que a mãe do bebê ouviu a música que tocávamos de mansinho no corredor… E aproveitando uma pausa da enfermeira, pegou R. no colo e o levou até a porta do quarto. Nossos olhares se cruzaram. Percebemos o “pedido de socorro” e nos lembramos de que o bebê costuma se acalmar com as bobisses de Xaveco e Emily.

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Imediatamente entramos em ação, tirando dos bolsos dos jalecos e do nosso repertório quase tudo de que ele gosta. Apesar de muito estressado, claramente ele demonstrou que nos queria por perto. As enfermeiras voltaram, mas não conseguimos nos afastar. Ficamos ali, observando, hora em silêncio dolorido, hora intervindo. E apesar do choro do menino, quando ele encontrava o nosso olhar e nos ouvia, tornava o doloroso e corajoso trabalho das enfermeiras um pouco mais leve. 

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E quando tudo acabou, ele mais calmo, a mãe sem lágrimas nos olhos, deixamos o quarto. Mas aquele dia não foi mais o mesmo… Os gritos ficaram alojados em nossos corações.

Palhaça chora, palhaça sofre, palhaça é gente que ama muita gente.

Dra. Xaveco Fritza (Val de Carvalho)
Instituto da Criança – São Paulo