BLOG
 

A solidão e as lembranças que carregamos

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Nesta semana uma senhorinha internada me perguntou: Como é uma UTI? Eu nunca vi”.

A pergunta transparecia o medo de em breve precisar ir a esse lugar. A UTI nunca vista e, provavelmente, imaginada como um lugar frio e silencioso. Sobretudo, a senhorinha tinha medo da solidão, de ficar sem a família. Medo de não ter quem segure sua mão, como dizia Clarice Lispector. 

IMIP - Lana Pinho-121

Tentei acalmá-la: falei dos profissionais que sempre estão lá, monitorando os pacientes. Falei que a todo tempo passa um médico pra lá, uma enfermeira pra cá, uma auxiliar de limpeza que recolhe coisas enquanto canta uma música. Não sei se essa informação confortou aquele coração amedrontado, porque apesar de todas as pessoas que circulam por lá, o que ela queria mesmo era saber se ao acordar na UTI veria um rosto conhecido, que ajudasse a lembrar do quintal de sua casa, do baile que frequentou na adolescência, do cheiro do bolo assado dos sábados, do aconchego dos amigos, do carinho de sua mãe. 

Coisas boas de lembrar. Lembranças que também curam.

Eu não pude falar para aquela senhorinha, naquele momento, de duas crianças que por hora moram na UTI do Hospital Barão de Lucena. Dois bebês de alguns meses de vida. Estão na UTI, mas não há quem venha lembrá-los de outros dias mais propícios, porque não há ninguém que os acompanhe. Eles não têm família.

Barão de Lucena - Lana Pinho-142

Com apenas alguns meses de vida, já estão naquele lugar onde a senhorinha de cabelo branco tem medo de ir. Um berço ao lado do outro. Dois bebês de origens distintas, que se encontraram nesse ponto de interseção da vida: companheiros da mesma UTI pediátrica. Sozinhos. 

Colocamos o nariz vermelho, vestimos o jaleco branco onde se lê “Doutores da Alegria”, entramos na UTI, cantamos e dançamos para aquelas duas pessoinhas. Será que se sentem sozinhos? Automaticamente, por reflexo, seguro a mão de um deles por um momento. Enquanto cantamos, seus olhos seguem nossos movimentos, vemos uma mãozinha se erguer no berço tentando agarrar um instrumento percussivo, depois ao lado uma cabecinha se vira para seguir o som da música – percebe quando vamos mais pra longe, quando chegamos mais pra perto.

Eles também têm medo? Procuro olhá-los nos olhos.

IMIP - Lana Pinho-56

Nesse momento alguém começa a filmar a reação dos pequenos. Médicos e enfermeiras se acercam e os chamam pelos nomes – há muita afetividade ali. Sentimos o tempo sobrelevar e parar, para que duas palhaças sejam os “rostos conhecidos” daqueles pequenos.

Nós, duas palhaças, desejamos com nosso ofício, lembrá-los dos muitos dias propícios, que ainda virão.

Desejamos que eles não sintam medo, nem solidão, nem tristeza, ou qualquer dessas coisas-de-gente-grande-que-não-são-coisas-de-criança. Desejamos tanto que eles lembrem o quintal da casa que terão, o baile que ainda frequentarão, o aconchego dos futuros amigos e os bolos quentes nos dias de chuva. Nós somos apenas duas bobas e não sabemos se tudo que desejamos acontece. É por isso que seguimos desejando até agora.  

“Receba o mundo sem medo,
pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados
e nós mesmos também incompreensíveis”
Clarice Lispector 

Dra. Monalisa, mais conhecida como Greyce Braga,
escreve do Hospital Barão de Lucena, no Recife.
 

Você também pode gostar:

É Querida, é?

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

De volta aos atendimentos do IMIP, passávamos pela praça interna quando, de repente, uma senhora gritou:

- Mary En!

Imediatamente a reconheci, tanto ela quanto a sua filha, que agora está muito maior, e para minha surpresa não é mais tímida. Medi o meu tamanho com o dela e logo constatamos que eu parei de crescer e ela não!

Também reencontrei um paciente muito querido, que, assim como a outra paciente, cresceu tanto, mas tanto que já passou de mim. Eu, claro, fiquei muito feliz quando o vi (mas nem tanto por eu ter parado de crescer!) e fiz questão de apresentá-lo para a dra. Baju, que, de pronto, tocou uma linda música de reencontros. Ao voltar para casa, refleti sobre as vitórias da vida e sobre o quanto as crianças são vitoriosas. 

e querida e

Baju também guarda algumas recordações felizes de reencontro no IMIP e compartilha algo que, acredito, acontece com todos nós:

Para um palhaço, ser lembrado por alguém (criança, mãe, pai, enfermeira, auxiliar de enfermagem, ascensorista, médico, etc.) é algo que toca bem no coração. Mas, vamos combinar que isso não é só coisa de palhaço, né? Ou vai me dizer que seu peito não enche de alegria quando uma pessoa lhe diz Fulana perguntou por você?

Palhaço gosta de ser amado e é assim que a gente se sente quando fica sabendo dessas coisas: totalmente acolhidos. Aqui no IMIP, eu e o Dr. Micolino tivemos a oportunidade de experimentar e inaugurar o nosso trabalho na Pediatria Geral, em 2011. Depois desses anos todos, eis que estávamos nos dirigindo para o prédio da Oncologia e uma senhora me interrompe a caminhada:

- Ei, Baju, não vai mais lá no 3º andar, não, é? 

e querida e

Durou uns três segundos, mas, internamente, vasculhei o meu HD cerebral e fiz uma viagem de quatro anos pelo túnel do tempo até devolver:
- Você é a Querida, é?

E a senhora respondeu sorrindo:
- É! 

“Querida” é a filha dela que, na época, tinha 4 anos e ganhou esse codinome quando, numa “disputa” comigo, a pequena respondeu:
- Eu também uso batom, querida!

Boas lembranças, bons reencontros.

Dra. Baju (Juliana de Almeida) e Dra. Mary En (Enne Marx)
Instituto de Medicina Integral Prof. Fernandes Figueira – Recife

Melhores momentos de 2013

Muitas histórias passaram aqui pelo Blog neste ano. São encontros que vivenciamos nos hospitais – e fora deles – e que compartilhamos aqui. Resgatamos os melhores momentos de 2013 e convidamos você para dividir a pipoca conosco!

Abrimos o ano com o relato do Bloco do Miolinho Mole. Quatro dias percorrendo quatro hospitais sob o sol de mais de 30 graus do Recife. Fantasias a postos, marchinhas na ponta da língua. O bloco pede passagem!

Em maio homenageamos as mamães que encontramos nos hospitais. Ficamos sempre impressionados com a fibra dessas mulheres-mães, que  dariam qualquer coisa para estar no lugar dos filhos.

Outro grande momento foi a expedição que fizemos, a convite de uma organização internacional, para explorar novas formas de atuação e buscar inspirações. Talvez o maior trunfo da jornada tenha sido conhecer o Chelsea and Westminster Health Charity, hospital museu (sim, certificado como museu!) em Londres.

Uma das histórias mais comentadas aqui no Blog foi a do menino que chorava muito durante a intervenção de uma enfermeira. “Você pode chorar um pouquinho aqui para mim?”, perguntamos a ele. É que lá em casa acabou a água e meu peixe está sem água no aquário!” 

No meio do ano foi inaugurada a nova UTI infantil do Hospital Municipal do Campo Limpo. E descobrimos que ela já abriga bebês que já são protagonistas de histórias de arrepiar a alma. Fica a pergunta: quando atos como esses se repetem incansavelmente numa mesma parcela da cidade durante anos a fio, não está na hora de se perguntar se essa parcela da cidade está sendo bem cuidada, observada e protegida com dignidade pelas autoridades responsáveis?

Uma das regras da Besteirologia – se é que ela tem regra – é que nós temos que ter nosso olhar sempre aberto para o novo. Temos que sentir tudo como se fosse a primeira vez. Mas essa lição nós não aprendemos em livros. Onde encontramos? Veja aqui!

Falamos também sobre o psiquiatra Flavio Falcone, que levou a figura do palhaço para um lugar nada comumFanfarrone, como é chamado, aborda usuários de crack no centro de São Paulo com o propósito de ganhar a sua confiança e convencê-los a iniciar um tratamento que possa livrá-los de uma das drogas mais consumidas no país. 

A música sempre nos acompanha! Quem lembra do garotinho que, sedado, esboçou uma linda reação enquanto tocávamos pra ele? Emocionante!

Outra boa história foi a da menina que tinha alergia a látex. Não sei se você já observou, mas os nossos narizes vermelhos, redondos e macios são feitos de látex! O que fazer…? Tiramos o nariz e entramos em seu quarto. Olha o que aconteceu!

Em setembro realizamos, pela primeira vez, um cortejo dentro das enfermarias do Hospital Santa Maria, no Rio de Janeiro, que abriga pessoas com tuberculose, doença contagiosa. Com máscaras e sem nariz, entramos. E para nossa surpresa, descobrimos uma realidade bastante diferente do que imaginávamos.

Em novembro a organização do evento ONG BRASIL 2013 nos convidou para participar de uma mesa de bate-papo sobre o cenário da humanização da saúde no país. Por trás de todas as ações que são feitas nos hospitais, existe um trabalho de bastidores que inclui muita pesquisa, formação e gestão para garantir a qualidade do que é entregue lá na ponta. Humanização? Também se fala aqui. 

E no final do ano, durante uma visita rotineira, uma garota nos fez um pedido muito especial. Ela não queria presentes, ela queria uma doação de medula óssea. Aproveitamos pra falar sobre o assunto!

E pra fechar o ano, uma história que nos tirou da zona de conforto. Quando recebemos o telefonema da enfermeira naquele domingo pela manhã, mal imaginávamos o que nos aguardava no Instituto de Tratamento do Câncer Infantil… Até onde vai o jogo de palhaço? Até onde podemos chegar?

 

Foram mais de 80 histórias publicadas neste ano – umas com final feliz, outras nem tanto. Para nós, palhaços, o mais importante são os encontros e as memórias que ficam destes momentos. Obrigado a cada criança, a cada pai, mãe e vovôs e a cada profissional de saúde que nos permitiu entrar em sua vida. Já são 22 anos de histórias pra contar.

Ano que vem tem mais! Obrigado, obrigado!