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O luto e o que vem antes

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No final do ano passado, alguns artistas do Doutores da Alegria foram convidados para um grupo de luto de um hospital onde atuamos.

Grupos de luto são espaços de acolhimento para pessoas que perderam entes queridos. São reuniões, muitas vezes conduzidas por voluntários com uma equipe multidisciplinar do hospital, em que se fala sobre morte, sobre luto, sobre saudade, sobre tristeza.

E também sobre vida. Sobre lembranças. Sobre recomeços.

Naquela ocasião, os parentes relataram lembranças que têm de seus filhos com os palhaços, o que nos emocionou muito. “Lembramos de todas as crianças com os relatos e víamos naqueles rostos não pessoas que perderam, que passaram por uma tragédia, mas as pessoas mais fortes que já conhecemos, pessoas que provaram a vida até as últimas consequências e sobreviveram! E que se ajudam mutuamente, com muito carinho!”, conta David Tayiu, um dos artistas-palhaços.

Fotografia dos Doutores da Alegria no Hospital do Campo Limpo/SP.

Falar sobre a morte pode ser difícil para muita gente. Em um artigo desta semana no jornal inglês The Guardian, o terapeuta Johannes Klabbers traz um sensível relato sobre consolar uma pessoa que está próxima da morte. Reproduzimos um trecho:

“Embora eu conheça médicos excepcionais e enfermeiras que podem e falam com os pacientes sobre a sua morte iminente, é algo que muitos não se sentem qualificados para fazer. Aprendi que consolar uma pessoa gravemente doente é algo que quase qualquer um pode fazer, qualquer que seja sua fé – ou falta dela. Você não precisa de uma qualificação especial, ou de um crachá, ou permissão de uma figura de autoridade, sobrenatural ou não, apenas sua humanidade e determinação.

Muitas vezes a nossa ansiedade sobre dizer ou fazer a “coisa errada” nos leva a decidir não visitar alguém. Oferecer estar lá para alguém, mesmo que eles recusem – e eles podem – nunca está errado. Estar lá significa dar a sua atenção à pessoa, não à sua doença, e concentrar-se em ouvir, não em se preocupar com o que dizer.

Você precisará aceitar que a pessoa pode não querer discutir sua tristeza e medos – pelo menos no início. Eles podem querer falar sobre futebol ou o mais recente episódio de uma série. Ou eles podem apenas precisar de alguém para sentar com eles em silêncio. Você pode se sentir desconfortável ou angustiado, mas seu trabalho é aceitar o seu desconforto e pensar além dele. Você pode mostrar tristeza, mas não sobrecarregá-los com sua dor.”

Aqui no Brasil, um grupo de mulheres que viveram o luto se uniu em 2014 para criar, com a ajuda de financiamento coletivo, a plataforma Vamos falar sobre o luto?. O projeto é um convite para quebrar o tabu, com relatos diversos – um canal de inspiração e de informação para quem vive o luto e também para quem deseja ajudar.

Iniciativas como essas abrem caminho para uma reflexão mais consciente sobre a morte.

E trazem um espaço acolhedor, seja ele real ou virtual, para que pessoas se conectem em busca de um recomeço para suas vidas.

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Os dois lados da mesma esquina

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Lado 1.

Estávamos Dra. Greta Garboreta e eu, Dr. Zequim Bonito, prestes a encerrar nossa rotina de trabalho. Estávamos virando a esquina do último corredor que nos levaria de volta à salinha onde nos desfazemos de nossas personalidades de palhaço para voltarmos a ser gente normal, se é que gente normal existe.

dois lados

Antes de virar a esquina do último corredor, as moças da recepção pediram uma foto. 

Clique, clique, flash e lá estávamos nós registrados em mais um celular. Ou então em uma página de Facebook, onde seremos uma foto compartilhada, curtida, comentada, criticada, ridicularizada, insultada, venerada, ou simplesmente ignorada. E assim a vida segue seu fluxo. 

Lado 2.

Depois da foto estávamos, agora sim, prestes a encerrar nossa rotina de trabalho. 

- Palhacinho! Palhacinho!, ouvimos de longe.  

Vimos logo de cara que a solicitação era de outro teor. Teria sido tão melhor se fosse apenas mais uma foto. Mas não era. A mulher que nos chamava estava aos prantos. Ela saíra desnorteada do elevador, acompanhada por familiares, todos visivelmente muito abatidos. 

Começava ali um daqueles momentos que nos pegam de calça curta. Não era a primeira vez que acontecia. Já vivemos situações parecidas em outros hospitais, com outros familiares, com outros palhaços e, com mais ou menos traquejo, a cada vez que tal situação aconteceu tivemos que lidar com o vazio que invariavelmente ela nos impõe. O indizível vazio que a finitude nos reserva.

- Palhacinho, o meu neto morreu! 

Houve um silêncio.

- Palhacinho, o meu neto morreu! O meu neto. Vocês conheceram ele, lembra? 

Nós já sabíamos da notícia. Tínhamos estado na UTI no começo de nosso dia de trabalho, antes da chegada dos pais e acompanhantes. Naquela hora, só estavam presentes na UTI os profissionais da equipe de saúde cujos semblantes também estampavam as sequelas do vazio

dois lados

O caso do menino era grave. O nome complicado da doença, sua complexidade e agravantes não tinham a menor importância naquele momento. Para aquela avó, ali, agora, só existia o vazio e o mais que justificado descontrole emocional que ele causa, sobretudo quando esse vazio é deixado pela ausência de uma criança.

- Palhacinho, me dá um abraço! 

Houve outro silêncio, desconcertante. 

De repente, diante dessa solicitação concreta, extraída com inacreditável força e nitidez daquele turbilhão de dor, o vazio foi momentaneamente rompido. Com um gesto simples e sincero nosso abraço foi dado, partilhado com aquela avó. Não falamos nada. Nada de que lembramos, pelo menos. Só ouvimos.

- Obrigado, palhacinho. 

E depois voltaram os prantos, o turbilhão de dor e, se a vida seguir seu fluxo, o começo do luto.

dois lados

Dr. Zequim Bonito (Nereu Afonso)
Hospital do Grajaú – São Paulo

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