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Espaços de intervenção

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Sempre olhamos para o hospital como um espaço de intervenção. Bem, “intervir”, no âmbito da Medicina, pode ser um procedimento cirúrgico para tratar uma doença. No contexto da arte, entretanto, uma intervenção pode ressignificar uma situação cotidiana, trazer um novo olhar para algo já estabelecido.

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Foi assim que, há 25 anos, Doutores da Alegria escolheu o palhaço como forma de intervenção no hospital. Sua essência questionadora e subversiva quebrou paradigmas em um ambiente pautado pela hierarquia, pela seriedade, pelas regras. E se no início o palhaço gerava estranhamento e indagação sobre sua pertinência, tempos depois inspirou diversas atividades dentro do hospital e foi abraçado pela sociedade, tornando-se ícone do movimento de humanização.

Optamos por estar em locais fronteiriços em que o poder público quase se ausenta. Convivemos diariamente com a doença, a violência em pequenas atitudes, o descaso e o abandono, entre outras tragédias cotidianas – mas também com a cura, com profissionais dedicados, com a superação, com a alegria dos encontros.

Intervir junto a crianças, adolescentes e outros públicos em situação de vulnerabilidade e risco social em hospitais públicos nos fez transitar, como organização, pelos campos da saúde, da cultura e da assistência social. Do lado de fora dos hospitais, ampliamos canais de diálogos reflexivos com a sociedade e investimos em formação e pesquisa.

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Neste caminho, em 2016 Doutores da Alegria trouxe uma nova governança, composta por um diretor presidente e quatro diretores eleitos pelos associados. E uma nova tarefa institucional, que substituiu a nossa missão, propondo a arte como mínimo social, ou seja, como uma das necessidades básicas essenciais para o desenvolvimento digno do ser humano, assim como alimentação, saúde, moradia e educação.

O conceito de mínimo social ainda está sendo digerido pela organização, contudo ele já aponta para um novo espaço de intervenção muito além do ambiente hospitalar: a atuação com políticas públicas em uma perspectiva de construção e garantia de direitos. Assim como há 25 anos, talvez causemos estranhamento e indagações, mas atuar na fronteira também faz parte de nosso ofício.

_texto originalmente publicado no Portal Setor 3

Quando não há nada a fazer

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Não diga a pacientes com câncer o que eles deveriam estar fazendo para se curar.

Essa foi a ideia desenvolvida pelo jornalista Steven Thrasher em seu artigo desta semana no jornal britânico The Guardian. A partir de experiências pessoais, em sua família e com amigos, ele fala sobre conselhos e recomendações pseudocientíficas que as pessoas recebiam durante o tratamento.

“Ela não sabia que se tomasse suco de limão todos os dias poderia acabar com as células cancerígenas? Que se assistisse ao documentário O milagre de Gerson ficaria bem? Que se estivesse disposta a tomar vitaminas, ou comer comida crua, ou fazer ioga, ou olhar para o lado positivo das coisas sua doença iria embora?”

Thrasher acredita que esses conselhos, “curas simplistas, não comprovadas ou fantásticas”, são um ato de violência. Os procedimentos médicos modernos é que realmente contribuem com o tratamento do câncer. Ao recomendar o que uma pessoa com doente deve fazer, “você está dizendo: eu não deixaria isso acontecer comigo do jeito que você está deixando acontecer com você – uma maneira  sorrateira e prejudicial de lidar com seu próprio medo da morte”.

O conselho do jornalista – sim, Thrasher se permite oferecer um – é para apenas confiar em si mesmo no desconhecido. “Uma das últimas e mais assustadoras lições que aprendi com minha irmã em seus dias finais foi a importância de estar com ela mesmo quando não havia nada para dizer ou fazer. É aterrorizante estar com um ente querido e admitir que você é impotente para impedir sua morte, mas pode ser o mais poderoso, tranquilo e amoroso presente que você pode dar.”

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Sem dúvida, é uma bela reflexão. Ao entrar em um quarto e encontrar uma criança acamada, não é a tarefa do palhaço compadecer o sofrimento alheio, sentir pena, e alimentado por este sentimento oferecer recomendações ao tratamento. Entramos pela possibilidade de que em nosso encontro experimentemos verdadeiramente a alegria – através de uma conversa, de uma troca de olhares, de uma história criada em conjunto, de um esbarrão na porta. Conselho, só se for besteirológico.

E quando a doença arrebata, muitas vezes somos chamados pelas crianças, pelos familiares ou pelos profissionais de saúde. E ali, no quarto ou na UTI, a máscara do palhaço pode cair e não há nada a dizer ou fazer, como aprendeu dolorosamente Steven Thrasher.

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Obrigado, Sacks

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Foi no domingo que Oliver Sacks nos deixou.

O neurologista e escritor britânico morreu aos 82 anos em Greenwich Village, próximo a seus familiares e amigos. Há alguns meses, ele havia revelado em um artigo para o The New York Times sobre o câncer em sua fase terminal. “Devo decidir como viver os meses que me restam. Tenho de vivê-los da maneira mais rica, intensa e produtiva que conseguir”, disse ele.

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oliver sackssfonte: oliversacks.com

O médico ficou mundialmente conhecido por seu trabalho científico e também por sua desenvoltura como poeta, descrevendo em seus livros experiências pessoais e clínicas que extravasaram para o cinema. O médico recebia mais de 10 mil cartas por ano.

O homem que confundiu sua mulher com um chapéu” (1985) e “Tempo de despertar” (1990) contribuíram com sua fama. O primeiro aborda histórias de pacientes com deficiências cerebrais que preservaram a imaginação e deram vida a uma identidade moral própria. Em “Tempo de despertar”, Sacks conta sua experiência com pacientes que sofriam de encefalite letárgica e da administração de um remédio de uso controverso capaz de tirar brevemente os doentes de seus estados catatônicos.

O médico também escreveu “Enxaqueca” (1970), “A ilha dos daltônicos” (1997), “Vendo vozes” (1998) e “Alucinações musicais” (2007), além de sua autobiografia “Sempre em movimento – Uma vida”, publicada em abril deste ano. Ainda estão previstos artigos dele para esta semana em jornais internacionais.

A obra de Sacks foi inspiração para a peça “O homem que fala, dos Doutores da Alegria, e trouxe aos artistas um terreno fértil para suas inquietações. As esquetes da peça foram baseadas nas histórias reais do livro “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu” dentro da linguagem do palhaço, mas sem a presença do nariz vermelho.

Além de todas as suas contribuições, ele deixa como legado a Oliver Sacks Foundation, organização devotada a contribuir com o desenvolvimento do cérebro humano e da mente por meio da narrativa não-ficcional e de histórias de pacientes.

Vá em paz, Sacks! E obrigado.

Empatia e a capacidade de ouvir o outro

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A prática da Medicina tem por motivação inicial a relação entre o médico e o paciente. Essa conexão envolve acolhimento, confiança e empatia.

No dicionário, empatia significa “a capacidade psicológica para sentir o que sentiria outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela”. Neste caso, antipatia seria um distanciamento e indiferença do médico em relação ao paciente, e foco exclusivo na doença.

A Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM – Unicamp) vem desenvolvendo um projeto de pesquisa que propõe a empatia para melhorar a relação médico-paciente, uma vez que se constatou que a maioria dos alunos do último ano não se sentia à vontade com seus pacientes.

“A faculdade dá conhecimento técnico, mas não ensina a ser médico, a lidar com pessoas, a essência da profissão”, conta o coordenador do projeto, Marco Antonio de Carvalho Filho, que notou uma tendência de perda da empatia durante o curso de graduação em Medicina.

O projeto caminha em direção a uma Medicina mais humanizada e abrange novas práticas em sala de aula: simulação de consultas com casos clínicos complexos, debates reflexivos e treinamento de habilidades interpessoais e de comunicação.

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“O processo pedagógico é baseado no reforço positivo, não sendo raro os alunos se emocionarem durante a intervenção. Para alunos e professores, a atividade resgata a motivação inicial que os levou a escolher a profissão”, conta Carvalho Filho.

A proposta vai ao encontro dos esforços da ONG Doutores da Alegria. A faculdade propõe o ensino da empatia para seus jovens alunos, enquanto Doutores utiliza a arte para qualificar as relações nos hospitais. Ambos acreditam que a capacidade de ouvir o paciente é uma das peças chaves da empatia – assim, médico e palhaço se colocam a serviço do outro.

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Mais de 500 alunos já passaram pelo projeto, que foi analisado pelo médico e pesquisador Marcelo Schweller em sua tese de doutorado. A pesquisa de Schweller, que envolveu diversas práticas, constatou que 94% dos estudantes acharam que a capacidade de ouvir o paciente estava melhor. 

E foi além: 91% acreditam que a capacidade de ouvir outra pessoa também está melhor…

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Alunos de Medicina conhecem projeto Plateias Hospitalares

Pra quem não sabe, o Plateias Hospitalares existe desde 2009 no Estado do Rio de Janeiro e convida grupos artísticos locais para se apresentarem nos hospitais. É uma forma de encarar o ambiente hospitalar como se fosse um teatro mesmo, com diversas apresentações artísticas abertas à comunidade. E é aberto mesmo: a comunidade ao redor dos hospitais vai sempre assistir.

Os alunos foram junto com a médica e professora Elizabeth Clarkson e se dividiram em duas partes para acompanhar o cortejo do Bando de Palhaços pelas enfermarias do hospital. Segundo Elizabeth, “temos uma preocupação em desconstruir a imagem do médico tradicional que só prescreve remédio e lida com a doença. Durante a apresentação do Plateias Hospitalares, vimos, na prática, como a arte pode lidar com a saúde. E é importante que eles levem essa percepção para a vida profissional.”

Amanhã, 11 de abril, começa a nova rodada de apresentações nos hospitais do Estado. Acompanhe.

Um espaço para acolher sentidos

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por Morgana Masetti, coordenadora de pesquisa dos Doutores da Alegria

Morgana Masetti

Em 1998 Doutores da Alegria começou a trabalhar em parceria com profissionais de saúde também em sala de aula. Desde então nos perguntamos: o que temos para compartilhar com esse público?

Ao longo do tempo fomos percebendo que nosso trabalho de formação estava cada vez mais a serviço das coisas sutis, acontecimentos que são descartados no dia a dia ou dados como certos. Fomos descobrindo a importância dos espaços que privam a linguagem verbal e que instalam espaços de silêncio, de ações simples, do prazer de brincar.

Este ano, por meio da Escola dos Doutores da Alegria, estamos entrando formalmente na universidade em conjunto com o MadAlegria,  grupo de estudantes de diversas áreas da Faculdade de Medicina da USP que vão para o hospital de palhaços.

De uma maneira ou de outra, esses e outros vários grupos de estudantes da área da saúde no Brasil estão fincando bandeira em um desejo importante: atravessar a universidade por uma outra experiência de aprendizado, diversa da que encontram, em geral,  em sala de aula: uma experiência de sentidos. Sentidos físicos (olhar, ouvir, tocar) e também sentidos imaginários para a vivência de doença e cura.

A Medicina é, antes de tudo, um espaço através do qual podemos tecer nosso imaginário sobre  experiências ligadas à vida, à morte, ao sofrimento e às perdas. Olhar, escuta e tocar fazem circular este imaginário e também o dom da cura, um processo que envolve técnica e magia, que jamais se revela por mais que a ciência construa modelos para isso.

A estrutura de funcionamento atual da Medicina dificulta a circulação deste imaginário social. A formação médica valoriza prioritariamente a técnica, a relação de sintomas e saberes. Tudo o que não pode ser nomeado dentro desta estrutura de funcionamento não diz respeito à formação deste profissional.

Um curso de palhaço dentro da universidade de Medicina insere a possibilidade de fazer circular afetos e sentidos sobre este universo. É um espaço que trabalha na contramão do que estes jovens irão aprender, recoloca a magia no processo do imaginário médico. Isto não é pouco, pode ser um passo importante para a Medicina do futuro.

Mais belo ainda: parte do desejo destes jovens , talvez um desejo difícil de nomear, que aparece através da máscara do palhaço, mas que fala da possibilidade de colocá-los em contato com um futuro profissional  mais próximo do imaginário deles sobre a arte de cuidar.

Estratégias particulares para a perda

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Muita coisa aconteceu em novembro, mas vamos lá, tentemos ser justos, senão com tudo o que nos ocorreu, pelo menos com aquilo que mais nos marcou.

E o que nos marca sempre é o óbito.

Como na pediatria do Hospital do Grajaú a morte não é tão frequente (ainda bem!), a cada vez que ela dá suas caras, ela espanta. E, pelo jeito, sua presença não toca somente a nós, mas toca com relativa profundidade outros profissionais que com ela se deparam mais habitualmente.

Diante disso, resolvemos investigar.

Partimos em busca de respostas à seguinte pergunta: “Como você, no seu trabalho, lida com a morte de um paciente?”.

As respostas nos pareceram as mais sinceras possíveis. Ficamos sensibilizados pela disponibilidade de alguns profissionais da saúde dedicarem uns poucos minutos de seus plantões para refletirem junto com uma dupla de palhaços os problemas relativos a esse evento inexorável que nos diz respeito a todos.

Percebemos que, se por um lado, todos os profissionais são altamente treinados a lidar com a morte de um ponto de vista técnico e que estão mais do que familiarizados com os protocolos médicos relativos ao óbito, por outro lado, segundo eles mesmos, pouca – ou nenhuma – reflexão acerca da perda, da partida, do luto e de tudo o que cerca o tema da morte é estimulada nos cursos de Medicina, de Enfermagem… e nem nos hospitais.

Constatamos que cada qual inventa suas estratégias individuais para lidar com as eventuais emoções que a perda de um paciente possa causar.

Médicos, enfermeiros, auxiliares, fisioterapeutas nos disseram comovidamente coisas do tipo: “Estou triste porque tem uma paciente que vai morrer hoje”; “Éramos tão apegados a um paciente que, quando ele morreu, nos aconselharam consultar a psicóloga”; “Por estatística, eu sei que no meu setor perderei 20% dos meus pacientes”; “Sou sensível às perdas, mas tomo cuidado com o assédio dos familiares, caso contrário me arrancam pedaços”; “Quando eu era jovem, só pensávamos em salvar, salvar, salvar, e era uma questão de honra entregar todos pacientes vivos na passagem de plantão”…

Uma coisa é certa: emoções nos atravessam independente da profissão que exercemos, afinal somos todos de carne e osso. Podemos ser mais ou menos resistentes, mais ou menos blindados pela carcaça do tempo, mas no final das contas somos todos humanos, portanto, sensíveis. E é justamente essa sensibilidade que nem sempre parece ser levada em conta no nosso treinamento profissional.

Nós mesmos, artistas dos Doutores da Alegria, nos deparamos com tal lacuna de formação e informação. Então, aos poucos, com nossos meios, tentamos criar em nossas reuniões o tempo e o espaço para que tal sensibilidade viesse à tona. A palavra aberta e a escuta franca sobre o assunto geram certa cumplicidade, amparo e – por que não? - alívio dentro do grupo. Outras vezes encontramos uma solução provisória ao transformarmos artisticamente nossas inquietações sobre a morte em cenas que mostramos nos teatros.

Outras vezes ainda, é através de relatórios como este que dividimos nossas apreensões e descobertas.

Nereu Afonso (Dr. Zequim Bonito)
Vera Abbud (Dra. Emily)
Hospital do Grajaú