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Congresso Internacional de Palhaços em Hospital: estivemos lá

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A intervenção do palhaço no hospital sob a ótica da cultura, da saúde e da ciência foi o tema discutido em um congresso internacional na cidade de Viena, na Áustria.

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O Health Clowning International Meeting, organizado neste ano pela Red Noses Clowndoctors, aconteceu nos dias 4, 5 e 6 de abril e conseguiu atrair organizações (gestores e artistas) do mundo inteiro, além de profissionais de saúde e pesquisadores – 400 pessoas de 50 países trocaram experiências em um empolgante encontro.

As pautas foram as diferenças e semelhanças entre as intervenções de palhaço mundo afora, as ações do ponto de vista dos pacientes, o papel do palhaço na sociedade, o estudo científico da intervenção e os desafios que as organizações devem enfrentar no futuro.

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Nossos diretores Daiane Carina, Ronaldo Aguiar e Thais Ferrara representaram Doutores da Alegria na companhia da psicóloga e pesquisadora Morgana Masetti. A equipe participou das plenárias, com assuntos diversos e de interesse comum, das sessões paralelas com apresentações de temas específicos e também das oficinas práticas.

Thais Ferrara apresentou a Escola dos Doutores da Alegria em uma sessão sobre modelos de educação e profissionalização. Apresentar a nova governança da associação Doutores da Alegria ficou sob a responsabilidade de Daiane Carina.

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Morgana Masetti falou sobre as mais recentes pesquisas sobre o palhaço na saúde. Já Ronaldo Aguiar conduziu uma oficina cujo tema foi o corpo cômico dentro do hospital.

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O criador do movimento – o ator americano Michael Christensen, fundador do The Clown Care Unit – também esteve presente: “Isso aqui supera todas as minhas expectativas! Sou muito grato e orgulhoso pelo que nosso movimento se tornou. Este é apenas o começo de algo muito maior, já que o humor pode ser benéfico para muitas áreas fora do ambiente hospitalar.”, expressou ele.

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A convergência entre arte, saúde e ciência se deu nas falas de profissionais de saúde, que dividiram o palco com artistas. Dr. Peter Ahlburg, anestesista do Hospital da Universidade de Aarhus, vê os palhaços como colegas e os consulta regularmente antes de cirurgias na Pediatria. “O aspecto psicológico, emocional, infelizmente, é frequentemente negligenciado no cotidiano do hospital. Médicos e cuidadores não têm tempo e também o conhecimento para isso. Essa é mais uma das razões pelas quais sou muito grato por meus colegas palhaços, pois eles me ajudam e permitem que eu me concentre mais em meu trabalho, criando uma atmosfera relaxada que tem um efeito positivo sobre todos os envolvidos.”, disse ele.

Outra questão levantada foi o impacto do trabalho, assunto de relevância para doadores, patrocinadores, instituições e para a sociedade que apoia as causas. Essa é a razão pela qual mais e mais organizações estão entrando no campo científico e alguns resultados foram compartilhados por Morgana Masetti e pesquisadoras que constituem um núcleo internacional de pesquisa (Itália, Portugal e Brasil).

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O tom austríaco se fez presente pela precisão dos horários em cada evento, o que foi temperado com leveza e bom humor, principalmente pelo mestre de cerimônias, extremamente sério e divertido, e as intervenções de três palhaças.

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Além do encontro, um cabaré de palhaços de vários países e um jantar imperial contribuíram para estreitar os laços entre os participantes. Neste último, os convidados aguardavam por um imperador que “não chegava” e, durante a espera, cada organização era convidada a trazer uma lembrança de seu país para a autoridade.

Doutores da Alegria entrou ao som do kazoo, com duas sombrinhas de frevo: Ronaldo e Daiane dançavam, enquanto Thais comandava o kazoo e Morgana levava uma tiara com nosso miolo mole em sua cabeça – que acabou ficando, claro, com o mestre de cerimônias.

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De volta ao Brasil, a equipe ficou com a missão de preparar um documento com as principais conclusões do encontro, que será apresentado em breve.

E, assim como no encontro realizado há dois anos em Portugal, voltamos convictos de que Doutores da Alegria é uma organização forte e referenciada mundialmente, com uma enorme responsabilidade em função disso.

| fotos: Jakob Polacsek, Angelika Goldmann e Luis Harmer |

Um papo cabeça sobre arte e saúde no hospital

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Foi ainda sob os efeitos do calor de 38 graus, em uma rua estreita do Rio de Janeiro, próxima à famosa Escadaria Selarón, que trinta pessoas toparam se encontrar para um bate papo sobre arte e saúde.

Quem conduziu o encontro “Reflexões sobre saúde no mundo contemporâneo” foi a psicóloga hospitalar Morgana Masetti. Há mais de 20 anos pesquisando a arte – especificamente a palhaçaria – no ambiente hospitalar, Morgana trouxe reflexões em torno do entendimento que a sociedade tem sobre doenças contemporâneas, a constante medicalização dos sintomas e o papel da arte inserido na saúde.

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“Hoje, o mal estar social vem sendo tratado como um mal estar individual. Problemas que seriam tratados como coletivos são tratados como pessoais.”, disse. Ela deu o exemplo da situação de violência no Rio de Janeiro, que é um mal estar social gerador de emoções como o medo. O combate muitas vezes se dá no nível individual, com o uso de medicamentos como calmantes.

Esta medicalização de sintomas individuais vem amparada pela catalogação de doenças como as enfermidades do vazio: depressão, insônia, ansiedade. Para cada doença, um bocado de remédios que controlam emoções e desequilíbrios próprios do ser humano. Morgana refletiu ainda sobre as imposições que a sociedade delega ao “eu” como, por exemplo, a obrigatoriedade de se buscar a felicidade e compartilhar isso com seus conhecidos.

Neste sentido, o sintoma pode ser visto como um lugar de resistência, um ponto de interrogação à sociedade terapêutica. A doença e a tristeza, que fazem parte da experiência humana, começam a ser vistas como desnecessárias na humanidade. Elas tentam ser silenciadas. Os sintomas falam alguma coisa da minha ligação com o mundo, e eles precisam ser entendidos, não silenciados.”, explica ela.

Escutar e intervir

A plateia levantou questões como a importância da escuta, principalmente por parte do profissional de saúde. Dio Jaime, palhaço da Cia Sapato Velho, contribuiu: “A escuta é fundamental, porque senão você não escuta a criança que não quer brincar. Você prepara um monte de coisas, músicas, mágicas, e encontra um médico que ganha mal, que perdeu uma criança naquela noite. Você pode piorar o ambiente.”, disse ele.

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Ao focar no trabalho de artistas como os palhaços do Doutores da Alegria, Morgana Masetti reforçou a possibilidade de a arte estabelecer vínculos no hospital. “O artista cria uma linguagem para afetos que pedem passagem, fazendo com que o imaginário possa circular novamente. E isso gera uma mobilidade em relações que já estão estabelecidas. Posso brincar dentro de um hospital, estabelecer outra linha histórica, outra realidade que ajude o paciente a atravessar o que está passando., diz a psicóloga.

O papel do artista no hospital foi outro tema relevante. Caberia à classe artística rever sua intervenção neste ambiente, tendo a clareza de que o trabalho não precisa ter como proposta a busca pela felicidade, uma vez que esta pode ser um gatilho para as enfermidades do vazio.

Eliane Fernandes, da Secretaria Municipal de Saúde, trouxe a perspectiva do gestor hospitalar: “Hoje muitos projetos chegam ao hospital sem objetivo, sem metodologia. Eu valorizo o trabalho com afetos, com memórias; não somente alegria. É preciso uma conduta pra entrar em um hospital”, reforçou.

Após a palestra, os participantes abordaram práticas ligadas à intervenção do Doutores da Alegria. No Rio de Janeiro, a organização atua por meio do projeto Plateias Hospitalares, abrindo espaço para que artistas de rua e de palco possam intervir em hospitais públicos.

Entre a ciência e o coração

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Em um artigo da Revista Brasileiros, o médico patologista Paulo Saldiva traçou um histórico de como a figura do médico foi retratada pelo olhar das artes visuais e do cinema.

Rockwell ou Kildare representavam médicos humanos, desprovidos de ambição, com total comprometimento aos seus pacientes. Segui com o Dr. Frankenstein, de James Whale, que em 1931 retratou o temor do poder da medicina (coincidindo com as primeiras cirurgias torácicas e cardíacas), onde o médico era punido pela sua própria criatura, ao tentar ousar interferir com a vida e a morte.

Nos anos 1970 e 1980, os médicos descem mais um degrau. Ou fazem parte de corporações inescrupulosas que, ao lançar substâncias tóxicas no esgoto, fazem surgir um jacaré gigante a aterrorizar Nova Iorque (imprudência) ou médicos cínicos, como os que Roger Altman descreveu em Mash, incapazes de se compadecer dos pacientes mesmo em meio a uma guerra pavorosa. Terminei finalmente com o Dr. House, exemplo de médico tecnicamente brilhante, mas incapaz de enxergar o doente que sofre e sim valoriza apenas a doença.” (trecho do artigo)

Pois bem: o médico também foi a nossa inspiração quando iniciamos a atuação nos hospitais, em 1991. Os palhaços faziam uma paródia, vestindo-se com um jaleco cheio de cacarecos e distribuindo exames fictícios pelas alas infantis, sempre sob um pseudônimo engraçado – Dr. Zinho, Dr. Ado, Dra Juca Pinduca… Até uma especialidade foi criada: a Besteirologia.

+ saiba mais sobre a paródia do palhaço

“Entre os profissionais hospitalares, o médico é visto como personagem revestido de muito poder, crítica e racionalidade. Seu poder – consolidado ao longo da história e de difícil revisão – emana justamente das decisões cruciais que toma. O palhaço, por sua vez, é visto como alguém que desafia as evidências dos fatos, a ordem médica instituída e instiga a repensar atitudes”, conta a psicóloga Morgana Masetti no livro “Boas Misturas, A Ética da Alegria no Contexto Hospitalar”.

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É fato que a atuação dos palhaços ganhou outros contornos no hospital, indo além da paródia e se moldando à realidade do novo século.

Nas escolas de Medicina, onde Doutores da Alegria também atua formando estudantes para uma nova atitude, é comum o questionamento apresentado pelo próprio Saldiva: os médicos, ao ganharem em ciência, perdem em coração? E também é evidente a busca por uma combinação entre ambos, ou seja, a formação de médicos altamente capacitados e sensíveis à condição humana.

Hoje, 25 anos depois da primeira intervenção de um besteirologista, nos perguntamos se a paródia ainda é válida e que outras ordens instaladas o palhaço pode subverter nos hospitais.

Primeira mesa do Encontro Nacional discute o palhaço e traz tendências

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Centenas de pessoas deixaram o feriado de lado para refletir e praticar o palhaço em três dias de encontro propostos por Doutores da Alegria.

O 4º Encontro Nacional de Palhaços que Atuam em Hospital teve início ontem, dia 12 de novembro, e segue até o dia 14 em São Paulo. Na programação há mesas de discussão, oficinas e intervenções artísticas para grupos de todo o Brasil que usam a máscara do palhaço para atuar em hospitais.

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Neste encontro vamos discutir o compromisso com o trabalho, sua profissionalização e como formar uma rede engajada”, conta Raul Figueiredo, tutor do programa Palhaços em Rede. Ele introduziu o primeiro dia de debates com a mesa “Contexto e tendências da ação do palhaço na atualidade”.

A psicóloga e pesquisadora Morgana Masetti trouxe reflexões que estão sendo debatidas mundo afora. falou sobre doenças do mundo atual, felicidade e relações afetivas. “A doença e a tristeza, que fazem parte da experiência humana, começam a ser vistas como desnecessárias na humanidade. Elas tentam ser silenciadas. Os sintomas falam alguma coisa da minha ligação com o mundo, e eles precisam ser entendidos, não silenciados.

Morgana também trouxe a ideia do palhaço como meio, não um fim. “O palhaço ativa algo em mim que me faz querer chegar em algum lugar. Como trabalhar essa energia que o palhaço mobiliza em mim?”, questionou ela.

A discussão seguiu com Thais Ferrara, diretora artística do Doutores da Alegria, que falou sobre humanização e sua trajetória até virar política pública. “O palhaço virou ícone da humanização, mas quando decidimos entrar no hospital, nossa proposta era completamente artística, humanização sequer passava pela cabeça. Com o passar dos anos nosso objetivo artístico foi sendo colocado a serviço da humanização”, conta ela.

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“A humanização se pautou no movimento feminista, quando a saúde da mulher veio à tona e começaram a ser criados programas como mãe canguru, hospital da criança, aleitamento materno, alojamento conjunto. Com o tempo entenderam que era preciso democratizar as práticas, dialogar com o paciente e, principalmente, partir da gestão”, finalizou.

A seguir Daiane Carina apresentou um dos temas mais importantes do encontro: o novo marco regulatório, que regulamenta, traz regras e obrigações às organizações do terceiro setor.

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“A lei surgiu por uma convergência de fatores: ausência de uma lei especifica para regular o setor, falta de planejamento, monitoramento, ausência de dados sistematizados e pouca capacitação”, conta ela. O principal objetivo do marco é dar mais transparência para as parcerias realizadas com o governo – algo que teve evidência em 2007, durante a CPI das ONGs.

Segundo Daiane, o terceiro setor já alcança 5% do PIB brasileiro e tem migrado do assistencialismo para um campo profissional. “Para prestar um serviço para pessoas em situação de vulnerabilidade social, será preciso se constituir como organização e ter um diagnóstico da realidade onde você vai atuar, ter planejamento e indicadores das suas ações”, conta ela.

A mesa encerrou com Nando Bolognesi, que esteve no elenco do Doutores da Alegria por cinco anos e trouxe um olhar para a função social do palhaço. “O palhaço tem uma capacidade de se disfarçar e de se apresentar como uma figura diferente do que é, um tipo difícil de identificar porque a primeira camada que aparece é a camada fofa, simpática, confiável, mas o palhaço é subversivo, é político, e isso não é uma opção, é uma condição”, conta ele.

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A manhã encerrou com uma intervenção surpresa do palhaço Klaus, criado por Márcio Douglas, do elenco do Doutores da Alegria. Ele provocou os participantes, trazendo uma versão diferente da máscara do palhaço.

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Você pode segurar minha galinha?

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Vez em quando sempre é bom refletir sobre a essência do nosso trabalho. Uma história antiga habita nosso imaginário e faz parte do rol de grandes encontros e momentos que vivenciamos nos hospitais.

O trecho abaixo faz parte do livro “Boas Misturas – A ética da alegria no contexto hospitalar” (Editora Palas Athena – 2003), de Morgana Masetti, seguido de breve consideração da autora. Leia com calma e guarde uns minutinhos depois para pensar sobre o assunto – se quiser deixar um comentário pra gente com seu pensamento, melhor ainda. Vamos compartilhar saberes.

Trata-se de uma história contada pela artista Vera Abbud, a integrante mais antiga dos Doutores da Alegria, ainda em ação como a dra. Emily.

“Quando se aproximava da porta da UTI, depois de cumprir seu trabalho de manhã na enfermaria infantil, a besteirologista dra. Emily viu Maria, a mãe de Denise, uma menina que ficara internada muito anos por causa de um problema renal.

Sabia que seria um encontro difícil… A menina morrera no dia anterior e seu pai, transtornado pela dor, se suicidara ao receber a notícia. Ele e a esposa, de tanto conviver com a equipe do hospital, tinham concentrado seus afetos ali naquele ambiente, dentro da UTI onde a criança era tratada. Tão presentes e íntimos, eles viraram ajudantes de palhaços.

No trajeto que separava uma da outra, a dra. Emily pensava na dor de Maria. Sem tocar no assunto, a mãe informou que precisava falar com o médico. Já tentara contato via interfone, sem sucesso. Pedira, então, para duas enfermeiras e mesmo assim não obteve resposta. A dra. Emily prometeu ajudá-la:

- Eu vou chamar o dr. João.

- Mas você volta – insistiu a mãe – porque eu já pedi para várias pessoas que entraram aí e ninguém me dá retorno.

- Olha, eu vou deixar minha galinha aqui de refém, para provar que eu vou voltar – disse Emily, tirando a ave de plástico de sua “maleta médica”.

Sem saber explicar por que, a dra. Emily sentiu e constatou que o gesto, tão simples e inesperado diante da situação, deixou Maria confiante de seu retorno. Assim, entrou na UTI à procura do dr. João.

Soube que ele estava na sala de descanso e foi até lá. No caminho, pensava no grande carinho que tinha por ele, uma pessoa muito especial, muito ligada a seus pacientes. Ele se envolvia de tal maneira que chegou a adotar uma criança de quem cuidara, abandonada no hospital pela mãe.

Ao chegar à porta do aposento, a Dra. Emily pediu permissão para entrar e o encontrou sentado à mesa, ao lado da bicama, com o semblante de quem está arrasado.

- Dr. João, a mãe da Denise pediu-me para dizer que precisa falar com o senhor.

Ele mal conseguia articular as palavras. Respondeu, com voz triste:
- Mas a criança… ela… morreu.

Dra. Emily compreendeu, naquele exato momento, que ele mesmo ainda estava tentando se apropriar do que tinha acontecido. Mergulhado em sua própria dor, ele não conseguiria olhar para a mãe da pequena paciente. Nem argumentou, apenas se despediu e fez o caminho de volta, pensando em como contaria para Maria o que estava acontecendo. Mas, para sua surpresa, ela já não estava mais ali, fora embora levando a galinha de plástico.

Tempos depois, a dra. Emily a encontrou, pois de vez em quando ela ainda visitava a equipe, com a qual mantinha forte ligação. Maria lhe disse então que, inexplicavelmente, o fato de receber a galinha de plástico como refém fez com que ficasse mais tranquila e decidisse ir embora para casa. Ela sabia o quanto aquela figura era valiosa para a dra. Emily, por ter vivenciado muitas brincadeiras e “rotinas médicas” envolvendo sua filha.

Voce pode segurar minha galinha - Luciana Serra

Como pode uma galinha de plástico desempenhar um papel tão importante nessa situação? Parece incrível, aos olhos da razão, que isso possa ocorrer. Qualquer profissional que tentasse responder à necessidade daquela mãe, procuraria um arsenal de palavras (ainda que mentalmente, sem expressá-las) capazes de acalmar um pouco sua dor. Simples ilusão humana. O gesto de deixar algo de grande valor para Emily gerou de imediato um espaço de confiança. É desse ponto de partida que se constrói o trabalho dos Doutores da Alegria.”

Obrigado, até o próximo Encontro!

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Depois de quatro dias de imersão no Encontro Nacional de Palhaços que Atuam em Hospital, é hora de voltar pra casa. 

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O evento trouxe muita reflexão, debates e oficinas de orientação para participantes que vieram de todos os cantos do país. A ideia era discutir o trabalho dentro do hospital e a qualidade do que é levado para os pacientes. Raul Figueiredo (dr. Lambada), tutor do programa Palhaços em Rede e um dos idealizadores do Encontro, conta um pouco do que aconteceu por lá:

- veja o resumo do primeiro dia
- veja o resumo do segundo dia
- veja o resumo do terceiro dia

“É com muita alegria que escrevo para agradecer a todos que participaram do 3º Encontro Nacional de Palhaços que Atuam em Hospital e contar um pouco o que aconteceu nos quatro dias de evento, no meio do feriado da consciência negra! Creio que esse encontro abriu a consciência de muita gente para uma nova realidade, do que se espera e se exige para continuarmos atuando nos hospitais com potência e qualidade. 

Parabéns a toda equipe de profissionais dos Doutores da Alegria, das diversas áreas, que atuou na produção; aos artistas formadores que deram as oficinas de habilidades – música, jogo, improviso e mágica, assim como a oficina institucional – e aos palhaços que atuaram na Roda Besteirológica. Um agradecimento especial à Mirna e à toda a equipe do Liceu Santa Cruz, que abriu as portas, janelas, armários, geladeiras e ainda estendeu um tapete vermelho para nos receber com carinho e respeito durante todo o evento. 

Uma alegria receber mais de 100 participantes vindos de 13 estados brasileiros: Acre, Alagoas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo representados por 40 grupos: Anjos da Alegria, Arte Cura, Atos & Palhaços, Cia ETC & Clown, Circulo do Riso, Cirurgiões da Alegria, Compartilhando Riso, Clown Fusão, Doutores + Palhaços, Doutores da Pá Virada, Doutores do Coração, Doutores Sorriso, Doutorzinhos, Dr. Vascão, Esparatrapo, Esquadrão da Alegria, Expresso Riso, Fisioterapia com Alegria, G-Palhaços, Gema da Alegria, Hospitalhaços, Instituto Ha Ha Ha, Medicômicos, Narizes de Plantão, Núcleo Artístico GEMA, O olhar do Palhaço, Operação Alegrarte, Operação Arco Íris, Palhaços de Plantão, Palhamédicos, Plantão Sorriso, Presente da Alegria, Projeto Sorrir, Raros da Alegria, Sopradores da Alegria, Sorriso de  Plantão, SOS Alegria, Terapeutas do Sorriso, Trupe da Saúde, Trupe d"Alegria e Viver de Rir.

Agradeço aos nossos convidados médicos: Dra Maria Aparecida Basile e Dr. Luiz Fernando Lopes, e ao filósofo Emílio Terron por abrilhantarem nossas discussões com reflexões sobre o cuidar. Como eu me cuido para entrar no hospital, como cuidar do meu paciente, dos seus acompanhantes e dos profissionais que atuam conosco lado a lado nos corredores, salas de espera e nos quartos… 

Ao Wellington Nogueira e à Morgana Masetti por nos colocarem na linha do tempo e mostrar a importância do que estamos construindo; de qual palhaço somos representantes, temos uma linhagem e em que modelo de hospital atuamos? Como inserir o palhaço no movimento de humanização sem banalizar suas atribuições questionadoras e reflexivas? Como responder artisticamente às provocações que passamos e enfrentamos em nossos atendimentos hospitalares? 

Por fim, aos apoiadores, patrocinadores e aos ouvintes que acompanharam as mesas de discussão, palestras e cabarés! 

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Na abertura do evento tivemos a Roda Besteirológica dos Doutores da Alegria com cenas que saíram dos quartos de hospital e chegaram ao palco. Participaram Marcelo Marcon e Nilson Rodrigues (Dr. Mingal e Dr. Chicô) com Aula de Besteirologia, Layla Ruiz e Raul Figueiredo (Dra. Pororoca e Dr. Lambada) com Firuliru e Asa Branca, Val de Carvalho e Sueli Andrade (Dra. Xaveco e Dra. Greta) com Boneca Tayná, Wellington Nogueira (Dr. Zinho) com Ora, Bolhas!, Márcio Douglas e Du Circo (Dr. Mané e Dr. Pinheiro) com Atendimento – Encontro da Criança e novamente Raul Figueiredo e Val de Carvalho com Trilhares, relembrando uma cena criada em 2006 pela dupla. 

Na segunda noite de cabaré recebemos cenas de diversos grupos que participaram do evento: Eliseu Pereira (Dr. Gaguelho, Cirurgiões da Alegria) com Leôncio, o Gato Louco, Dênis Menezes e Annelise Caneo (Délcio Garapa e Arlinda Pestana, Cirurgiões da Alegria) com Música Havaiana, Sem Nome da dupla Bruno e Micheli Madalozo (Esparadrapo e Tibúrcia, Doutores Palhaços), Bruno Mancuso (Pelúcia, Trupe da Saúde) com Carlinhos Ganha um Ferrorama e várias cenas do Espetáculo Vitamina com os palhaços da Trupe da Saúde. Também nos divertimos com uma dublagem de Alex Mazzanti (Xurumi, Operação Arco Íris) e Renato Garcia (Dr. Gracinha, Gema da Alegria) nos apresentou a canção da bailarina.

Na terceira noite recebemos os artistas do documentário Circo Paraki e sua diretora Priscila Jácomo, que apresentou brilhantemente seus convidados: Pepin e Florzita, Loren e Marília de Dirceu. Que noite incrível tivemos, não? Quem ficou até o final e participou da conversa com certeza entendeu que o palhaço é a alma do circo e fez com que assumíssemos um forte compromisso com esse ofício… Emocionantes os depoimentos do quarteto e o respeito com a plateia. Tiramos o chapéu e aplaudimos de pé!

O Encontro só aconteceu nesse formato por que a rede de palhaços que atuam em hospitais atendeu à nossa provocação para discutir este ofício e contribuiu com questões que os impedem de realizar um trabalho melhor. Juntos pudemos trazer profissionais que nos ajudaram a pensar numa forma de construir um modelo de atuação visando a criação de uma nova profissão, para que em breve ouçamos nossos filhos e netos nos comunicarem que irão prestar vestibular para a faculdade de Besteirologia! 

A Escola dos Doutores da Alegria preparou as oficinas e o conteúdo tendo em vista as necessidades apresentadas na enquete realizada no grupo do Facebook do programa Palhaços em Rede. O que vimos foi um amadurecimento nas discussões e a compreensão do que nos propomos a fazer. A questão sobre quem começou primeiro – Michael Christensen ou Patch Adams – foi esclarecedora para que os participantes entendessem a real diferença entre um palhaço que faz a paródia do médico e o médico que se veste de palhaço. Para um, o palhaço é um fim, uma meta, um objetivo na vida; para o outro, um meio, uma ferramenta para acessar seu paciente. Não basta o amor ao próximo, é necessário estudar… Patch estudou por vários anos a Medicina antes de vestir-se de palhaço… Ele conhece o lugar onde vai atuar… 

O hospital não é um lugar qualquer. Precisamos estar preparados para enfrentar os desafios propostos lá dentro tanto nas questões da saúde como nas questões artísticas, quando nos propomos a vestir a máscara do palhaço, pois ela também requer estudo, assim como vestir a máscara do médico. Parece que isso ficou claro para os participantes! A importância em estudar e aprimorar o conhecimento: “Quem somos, o que fazemos e onde atuamos?”

Vamos fortalecer essa rede com nossas discussões, apontamentos de filósofos, artistas, profissionais da saúde e da nossa sociedade! Foi lindo, tocante, reflexivo, divertido, exaustivo, conflitante, confiante, empolgante, emocionante, relaxante e elegante! Enfim, foi o que deveria ser!

E tudo isso foi filmado pelo Sérgio Nogueira, da Bamboo, acompanhado da sua fiel escudeira Pietra, e o registro fotográfico ficou a cargo da querida Nina Jacobi.

Saímos satisfeitos desse terceiro encontro e deixamos uma provocação para os participantes:

Inspirados em tudo o que vivemos e desfrutamos nesses quatro dias, o que vocês acreditam que possam fazer de imediato já na próxima visita ao hospital? 

No meio do caminho tinha um palhaço…
Tinha um palhaço no meio do caminho
E agora José? Para onde ele vai?
Qual será seu fim?
Qual o meio para chegar a esse fim? 

Daqui a dois anos tem mais! Que em 2015 possam acontecer fóruns regionais conduzidos pelos grupos da rede para que em 2016 as discussões sejam ainda mais esclarecedoras. Que o comprometimento com o trabalho seja um valor alcançado por todos.”

Conferência na Itália discute o trabalho

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Nos dias 17 e 18 de outubro, a Itália sedia uma conferência de palhaços que atuam em alas pediátricas. Doutores da Alegria estará representado no evento pela psicóloga Morgana Masetti, que contribuiu com a organização e desenvolve pesquisas relacionadas a este trabalho.

Mais de 50 palestrantes estarão na Conferência Internacional Sobre o Palhaço em Hospital Pediátrico para falar sobre o que há de mais recente na área em termos de atuação, pesquisa e formação. São esperados médicos, psicólogos, enfermeiros e artistas de diversos países, como Brasil, Israel, Portugal, Estados Unidos, Holanda, França e Índia.  

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Segundo a organização do evento, serão apresentados estudos sobre o uso da linguagem do palhaço para reduzir a ansiedade pré-operatória e os seus efeitos durante procedimentos invasivos em pacientes submetidos à quimioterapia.

Entre os convidados está Michael Christensen, artista pioneiro que inseriu o trabalho do palhaço em hospitais de Nova Iorque nos anos 80 e inspirou diversas iniciativas mundo afora. Morgana falará sobre o trabalho dos Doutores da Alegria e sobre questionamentos e reflexões que permeiam a atividade. Fala também sobre o papel da pesquisa dentro das organizações e sobre a experiência da Escola dos Doutores da Alegria, que hoje é referência na pesquisa e na disseminação da linguagem do palhaço a partir da experiência nos hospitais.

Conferência internacional recebe trabalhos científicos

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Em outubro acontece na Itália a primeira Conferência Internacional Sobre o Palhaço em Hospital Pediátrico com a ideia de promover a reflexão na pesquisa e no treinamento.

Doutores da Alegria estará representado no evento pela psicóloga Morgana Masetti, que trabalha junto à organização e desenvolve pesquisas relacionadas a este trabalho. Além de integrar a comissão organizadora, ela fará uma apresentação sobre a ONG e sobre as pesquisas que vem conduzindo por meio do Healthcare Clown Research International Network (HCRIN)*.

No encontro de dois dias serão debatidos temas como o treinamento contínuo e a supervisão, os limites entre o papel artístico e o papel terapêutico, evidências clínicas que as pesquisas mundiais trouxeram até o momento, entre outros. A programação completa do evento será disponibilizada em breve no site da conferência.

Apresentação de trabalhos científicos

O comitê organizador convida para o envio de propostas de apresentações orais e pôsteres. É preciso enviar trabalhos científicos até o dia 8 de junho de 2014. As instruções de envio e demais contatos estão no link a seguir: http://www.meyer.it/lay_not.php?IDNotizia=8554&IDCategoria=919. 

* O HCRIN é uma união de projetos de vários hospitais europeus que tem por objetivo gerar conhecimento (por meio de publicações acadêmicas, principalmente) que colabore com a atuação artística do palhaço no hospital e que construa pontes com a área da saúde.

Bom humor é bom

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Nem todo mundo sabe, mas o foco do trabalho dos Doutores da Alegria é artístico e não possui fins terapêuticos. Apesar disso, alguns resultados atestam a transformação do ambiente hospitalar a partir do encontro da criança com o besteirologista. Mas como a gente percebe o impacto do bom humor na recuperação de pacientes?

De duas maneiras principais: na observação diária e por meio de pesquisas (veja mais abaixo).

Entre outros resultados, já comprovamos que:

- uma criança mais alegre e animada colabora e responde melhor ao tratamento;
- o bom humor pode ajudar o paciente a se relacionar com o tratamento, com os profissionais e com os desafios da doença de uma maneira mais rica em possibilidades;
- ao passar por uma situação de internação, o bom humor traz a oportunidade de reflexão acerca de novas formas de viver a vida a partir da cura.

Para Wellington Nogueira, fundador dos Doutores da Alegria, “o bom humor pode nos lembrar que existe vida ANTES da morte”.

E fora dos hospitais? Qual a importância do humor no dia a dia?

Ah, ele influencia em nossas escolhas! Você escolhe o que te tira ou não do sério e não se deixa abater facilmente, demonstrando uma atitude mais otimista e esperançosa frente aos obstáculos. Para nos ajudar a manter o bom humor, Wellington dá algumas dicas:

“Em primeiro lugar, respirar, sempre, porque esse simples ato já nos relaxa e oxigena; respirar fundo e expelir o ar devagar é uma ótima forma de relaxamento. Nos hospitais, aprendi a enxergar que além da doença existe um lado saudável na criança que pode ser estimulado. Podemos fazer a mesma coisa e nos agarrar ao que está bom: posso estar no trânsito e escolher ficar amargurado ou ouvir uma música agradável, pensar em algo bom que me aconteceu e até mesmo planejar algo para fazer quando sair do trânsito!

Enquanto existe vida, existe sempre a oportunidade para pensarmos nesse lado mais saudável. Ter consciência de que temos essa escolha já nos faz mais fortes! Se nos posicionarmos como vítimas do tempo e do mundo, assim seremos; se fizermos a escolha pela saúde e pela alegria genuína, colheremos os frutos também.”

Como você faz para manter o bom humor no seu cotidiano?

* Sobre as pesquisas: Doutores da Alegria tem a pesquisa em seu DNA. Como organização da sociedade civil, tem a responsabilidade de prestar contas do impacto social de seu trabalho. O primeiro registro com os resultados do impacto do programa de visitas foi realizado com a publicação “Soluções de Palhaços”, de Morgana Masetti, que apresenta, dentre contos que misturam ficção e realidade, resultados da pesquisa qualitativa aplicada junto às crianças hospitalizadas, seus pais e profissionais de saúde. Em 2008 apresentamos resultados de uma pesquisa realizada junto ao Instituto Fonte com profissionais de saúde de hospitais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em 2013 uma nova pesquisa realizada no Recife trouxe resultados semelhantes.

Um espaço para acolher sentidos

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

por Morgana Masetti, coordenadora de pesquisa dos Doutores da Alegria

Morgana Masetti

Em 1998 Doutores da Alegria começou a trabalhar em parceria com profissionais de saúde também em sala de aula. Desde então nos perguntamos: o que temos para compartilhar com esse público?

Ao longo do tempo fomos percebendo que nosso trabalho de formação estava cada vez mais a serviço das coisas sutis, acontecimentos que são descartados no dia a dia ou dados como certos. Fomos descobrindo a importância dos espaços que privam a linguagem verbal e que instalam espaços de silêncio, de ações simples, do prazer de brincar.

Este ano, por meio da Escola dos Doutores da Alegria, estamos entrando formalmente na universidade em conjunto com o MadAlegria,  grupo de estudantes de diversas áreas da Faculdade de Medicina da USP que vão para o hospital de palhaços.

De uma maneira ou de outra, esses e outros vários grupos de estudantes da área da saúde no Brasil estão fincando bandeira em um desejo importante: atravessar a universidade por uma outra experiência de aprendizado, diversa da que encontram, em geral,  em sala de aula: uma experiência de sentidos. Sentidos físicos (olhar, ouvir, tocar) e também sentidos imaginários para a vivência de doença e cura.

A Medicina é, antes de tudo, um espaço através do qual podemos tecer nosso imaginário sobre  experiências ligadas à vida, à morte, ao sofrimento e às perdas. Olhar, escuta e tocar fazem circular este imaginário e também o dom da cura, um processo que envolve técnica e magia, que jamais se revela por mais que a ciência construa modelos para isso.

A estrutura de funcionamento atual da Medicina dificulta a circulação deste imaginário social. A formação médica valoriza prioritariamente a técnica, a relação de sintomas e saberes. Tudo o que não pode ser nomeado dentro desta estrutura de funcionamento não diz respeito à formação deste profissional.

Um curso de palhaço dentro da universidade de Medicina insere a possibilidade de fazer circular afetos e sentidos sobre este universo. É um espaço que trabalha na contramão do que estes jovens irão aprender, recoloca a magia no processo do imaginário médico. Isto não é pouco, pode ser um passo importante para a Medicina do futuro.

Mais belo ainda: parte do desejo destes jovens , talvez um desejo difícil de nomear, que aparece através da máscara do palhaço, mas que fala da possibilidade de colocá-los em contato com um futuro profissional  mais próximo do imaginário deles sobre a arte de cuidar.