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Só tínhamos olhos para ela

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Difícil não estarmos no foco. Duas figuras de nariz circulando no hospital: foco. Logo todo mundo para, olha, comenta, puxa assunto, foge, fecha a cara e por aí vai.

Estamos acostumados com essa forma de chamar a atenção. Nos setores onde atendemos, a maioria está à nossa espera; só alguns desavisados, como pacientes, pais ou profissionais novos, é que têm um pequeno susto ao se deparar conosco.

Mas R. não pareceu se assustar em nosso primeiro encontro. 

A pedido de algumas técnicas e estudantes, que estavam reunidos no posto de Enfermagem da Pediatria do Procape, tocamos o bolero “Quizás, Quizás, Quizás”. Temos usado bastante essa música, criando e absorvendo novas situações cômicas para a nossa performance. Então, motivados pelo sucesso dessa atuação, começamos o som. 

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Só que todos os olhares mudaram de direção, olhavam para o corredor.
 Ali estava R., dançando. Ela deve ter em torno dos 13 anos. Estava lá, bailando sozinha, de olhos fechados, com um sorriso no rosto e visivelmente envolvida pela música. De repente, o hall ficou cheio de gente, todos olhando para a menina. Nós nos olhamos e entendemos que não cabia e nem tinha mais razão de ser a nossa gag (piada) da música.

O foco era todo dela

Dr. Marmelo convidou-a duas vezes pra se aproximar e balançar com ele, mas ela negava com o dedinho, afastava-se um pouco. Tudo isso dançando! E ela foi sumindo pelo corredor, a música chegou ao fim e todo mundo aplaudiu.

Barão de Lucena - Lana Pinho-145

R. parou, chorou, colocou as duas mãos no peito e fez reverência a todos nós. Sua mãe, com simpatia, levou-a de volta pro quarto. Nós ficamos ali, inundados e gratos. 

Juliana de Almeida, mais conhecida como Dra. Baju,
escreve do Hospital universitário Oswaldo Cruz, em Recife.

Música nos hospitais: arte e tecnologia em favor do cuidar

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Falar de música em hospitais não é novidade. Há muita afinidade entre a arte da música e a arte de cuidar.

Como traz Eliseth Leão, estudiosa do assunto, “em culturas diversas, o médico e o músico são representados por uma mesma imagem ou símbolo. O Imperador Amarelo, na antiga China, é considerado o fundador da Medicina e da música. Na mitologia grega, Apolo simboliza a estreita relação que existe entre a música e a Medicina.”

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Uma reportagem recente da Folha de S.Paulo questiona a ausência de música nas UTIs. “Um aspecto que poucas pessoas param para pensar é o som em um ambiente de UTI. Bipes, alarmes sinalizando que um batimento cardíaco ficou muito baixo ou muito alto. Ou que a oxigenação caiu, um elétrodo saiu do lugar. Também é constante o som da televisão, o som de uma respiração artificial, o som de um choro contido. Enfermeiros e médicos passam plantões, celulares apitam, telefones tocam”, escreve a repórter Camila Appel.

Ela também descreve uma experiência no Hospital da University College, em Londres. Foi organizado um show ao lado do hospital, com transmissão ao vivo aos pacientes através de fones de ouvido e ipads esterilizados.

Práticas inovadoras também vêm surgindo por aqui, com a perspectiva de obter um resultado terapêutico através da música. Em abril, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, se associou ao Spotify (serviço de distribuição de streaming, podcasts e vídeos) para oferecer playlists/seleções musicais especiais para seus pacientes e clientes.

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Há playlists diversas, entre elas para o Serviço de Hemodinâmica, Ressonância Magnética e Banco de Sangue. Os ouvintes são convidados a avaliar a sua experiência ao entrar em contato com a música em momentos determinados, de modo que estudos possam verificar quais aspectos e como a música atua na promoção de bem-estar. A pesquisa é conduzida por Eliseth Leão, com curadoria de pessoas como o Maestro Walter Lourenção, que já regeu a Orquestra Municipal de São Paulo e a OSESP.

Para Doutores da Alegria, a música é facilitadora na construção de relações sensíveis. Ela é base, recheio, fundo, entrelinhas e silêncios. A música faz parte de todos os nossos projetos, desde o ukulelê tocado pelo besteirologista ao lado do leito de uma criança até um cortejo musical com sanfona e bumbo que ressoa pelos corredores da enfermaria. Também está na grade curricular dos nossos cursos e em ações com a Escola de Música do Estado de São Paulo.

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Além das habilidades do palhaço, é fundamental ter bons ouvidos. Não necessariamente ouvidos absolutos, mas ouvidos acurados.

“Pode-se criar algo a partir do som repetitivo que sai de uma máquina que monitora o coração. Claro que a máquina que monitora um coração não é um metrônomo, que pode ser regulado para a música que será tocada, mas podemos ouvir esta pulsação com ouvidos de palhaço, e então cabe preencher a partitura desse monitoramento. Entre um pi e outro, cabe um estalar de língua, uma nota na flauta, um batuque discreto, um acorde de violão ou uma percussão corporal qualquer. Depois dessa experiência, a criança passa a escutar este som ao lado de seu leito, com outros ouvidos, mesmo na ausência dos palhaços”, conta Thais Ferrara, atriz, palhaça e musicista, hoje Diretora de Formação do Doutores da Alegria.

Dentro ou fora dos hospitais, a música conta histórias, emociona, inspira. Ela também serve para abrir canais com a criança que está distante, receosa ou, ainda, deprimida pelas circunstâncias da doença.

“Pode também ser um fundo musical para uma ação que já está acontecendo. Já acompanhamos crianças até o centro cirúrgico, com uma bandinha que abria espaço no “trânsito” pelos corredores do hospital. Já fizemos serenata da janela, para crianças em isolamento, e para enfermeiras no balcão da Enfermagem”, conta Thais. 

Com as novas tecnologias disponíveis, iniciativas como transmissões de música ao vivo e uso de playlists para pacientes certamente alcançarão mais hospitais e farão parte da nossa realidade em um futuro próximo.

Cabe aos profissionais de saúde – e aos besteirologistas, claro – saber como se aproveitar destes recursos para promover algo milenar: a arte de cuidar.

As subidas e as descidas de cada dia

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A vida da gente segue como uma escada, penso eu. Às vezes sobe, outras desce, mas geralmente sobe e desce.

E foi numa dessas descidas à UTI, no 2ª andar, que conhecemos um garoto de cabelos compridos, parecidos com os do Alceu Valença. Ele quase não se mexia, com tanto equipamento ligado a seu corpo. Mas uma porta abriu, pelo olho vivo, na chegada da nossa voz falando baixinho no seu ouvido.

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E eis que uma escada surgiu no caminho e, para subir, tivemos que descer. 

Como tudo era desconhecido, fomos devagar para não assustar o menino e, aos poucos, descobrimos como eram boas as dificuldades encontradas em cada degrau. Resolvemos, entre tantas visitas, fazer uma música e, para nossa galgada rotina, ele nos surpreendeu quando dançou com os olhos, num mexido bailante onde todo seu corpo estava conectado, denunciando o desejo de se mover.

A alegria estampava nossos rostos e olhos, que também sorriam. 

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O acontecimento virou notícia no setor e era comum fazermos bailes com muita gente ao redor só para ver o menino dançar com a Íris, menina que dizem morar nos olhos. Um dia, depois de descermos alguns degraus, reencontramos ele numa outra cama, com menos equipamentos ligados ao seu corpo.

E para arrepiar os cílios dos olhos, ele ecoou um som com a língua, como se estourasse uma bolha de sabão no ar. A gente parecia criança quando ganha brinquedo novo. E se o garoto tivesse um botão, daríamos play infinitas vezes para ouvir o som de bolha que saía de sua boca. 

Naquele dia, subimos um dos degraus mais bonitos, porque a evolução de um paciente é como a chegada de um presente sem data marcada, uma alegria que não cabe numa caixa e nem precisa de embrulho. Daqueles presentes que todo mundo brinca junto e vai pra casa feliz. 

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Ele já é um dos vocalistas da “Banda Vuó” e o sucesso tem sido tão grande que agora a gente sobe mais degraus do que desce. E com um passo atrás do outro, podemos chegar à Lua. 

Dra Svenza e Dr. Lui,
conhecidos fora dos hospitais como Luciana Pontual e Luciano Pontes,
direto do Hospital da Restauração, em Recife.

Música ao pé da chinela

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Toda semana eu (Dra Tan Tan) e o Dr. Lui criamos pequenas canções com letras improvisadas de acordo com as pessoas e os acontecimentos.

Dia desses encontramos a dona Maria, mãe de uma pequena paciente. Toda a vez que ela nos vê, ri muito e se esconde. Lui percebeu esse movimento e começou a levar junto comigo o seguinte improviso: 

Ô, dona Maria, não se avexe não
O que eu quero é conquistar o seu coração

Ô, dona Maria, tu és muito linda
Quando você passa agita as minhas lombrigas

Ô, dona Maria, esse seu sorrisinho é tão bonitinho
Então se levante e vem dançar comigo um pouquinho!

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Dona Maria se levantou dando risada. Mas ao invés de dançar, como pedia a música, pegou suas chinelas e nos ameaçou!

Corremos muito rápido com medo da chinelada! E a pequena ficou muito contente em ver a sua mãe sendo homenageada por nós… E também por fazer daquele momento silencioso um momento de alegria e diversão

Afinal de contas, quem é que não gosta de uma música animada no pé da chinela, ops, do ouvido?

Dra Tan Tan – Tamara Floriano
IMIP – Recife

Na escuta!

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Nós, os palhaços, costumamos usar bastante essa palavra: estado. Esse estado do qual estamos falando não é o geográfico, não é o estado de Pernambuco, nem do Pará, é aquela coisa de sentir-se presente, autêntico e num estado de prontidão.

Os seguranças do hospital, por exemplo, vivem nessa disposição. E os daqui do Hospital Barão de Lucena, no Recife, nos ensinam muito sobre isso. 

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Estar sempre alerta é uma das condições para o palhaço existir. Em nossa mochila devemos carregar sempre estas palavras: olhar, escuta e percepção. Imaginem os seguranças! Pensamos que eles devem ter uma enciclopédia vasta sobre essas disciplinas. Mas tem uma delas que nos enche de curiosidade: A Língua do Q! 

Os seguranças dominam esse idioma e falam com muita rapidez, tamanha fluência. Dr. Micolino, por estar à minha frente em algumas séries, já entende um pouquinho. Eu, Dra Baju, entendo meio pouquinho. E, assim, a gente vai enriquecendo o nosso vocabulário. Conseguimos aprender três siglas da Língua do Q: QAP, QSL e QTO

QAP – na escuta!
QSL – entendido, ok!
QTO – banheiro! 

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Sempre que nos encontramos com nossos amigos seguranças, aproveitamos pra praticar. Eu e Micolino nos empolgamos tanto que escrevemos uma música em homenagem a eles: 

QSL, na escuta!
Positivo e operante
QAP, QTO
Você parece a minha vó!

E caímos todos na risada! 

Dra. Baju (Juliana de Almeida)
Hospital Barão de Lucena – Recife

Lembrança de uma ala adulta

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Aconteceu mês passado, durante o São Joãozinho. Passávamos pelas alas do Hospital do Campo Limpo em um cortejo musical. Nove palhaços-cangaceiros, instrumentos musicais, forró no pé.

Fomos abordados por uma médica com um pedido: que fôssemos à ala adultaTratava-se de um adolescente que estava com muita dor, em cuidados paliativos. Topamos.

E passamos por áreas nunca antes adentradas, como o PS adulto. O que de início era só uma visita a uma ala desconhecida virou um belo encontro com pessoas diversas!

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Desbravamos grandes enfermarias com muitos leitos e procura daqui, entra ali, chegamos ao leito do adolescente. Estava separado em um quarto pequeno, bem estreito. Eu, Dra Manela, entrei primeiro. Com dificuldade para chegar ao outro lado da cama, me virei de lado e cheguei até a cabeceira da cama.

Lá estava ele. Cheguei até seus olhos. Cumprimentei, me apresentei e disse que estava muito feliz de poder conhecê-lo. Percebi que ele não falava, pois estava com traqueostomia e a mobilidade não era a usual. O menino foi se comunicando à sua maneira, arregalava os olhos.

Fui chamando palhaço por palhaço e aquele quarto minúsculo de repente estava tomado por besteirologistas! E mais sanfona, violino, zabumba, triângulo, viola… Perguntei se ele gostaria de escutar uma música e ele mostrou que sim. Estávamos prontos para começar a cantar quando fui interrompida:

- Cuidado! A Manela pode soltar um pum aqui dentro!

Ele sorriu. Disse a ele que era invenção dos colegas e que não ligasse para o que falavam. Mantendo contato visual, reiniciei a música. E lá veio outro se aproximando do campo de visão do garoto.

- É verdade, a Manela sempre faz isso antes de cantar!

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E foi assim: cada palhaço entrava no campo de visão do rapaz e falava que era a mais pura verdade… E cada vez que outro entrava, piorava a minha situação, dizendo coisas horríveis a meu respeito! Acabou que difamaram a minha vida, e então me despedi dizendo que não era mais possível ficar mais ali. Ele gostou, era nítido.

Ao sairmos do quarto mantive contato sonoro com ele, pois sabia que ele não conseguiria se virar para nos ver, e disse ao grupo que agora estava aliviada pois acabara de soltar meu pum e, ufa, poderíamos cantar! E lá de fora cantamos e saímos ao som do Xodó do mestre Gonzagão. Coisa boa!

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Foi emocionante ver do lado de for a equipe nos agradecendo por mais essa! Coisas que vêm de dentro emocionam mesmo. Não sabia que meu pum emocionava tanto assim!

Dra Manela (Paola Musatti)
Hospital Municipal do Campo Limpo – São Paulo

Banda Calypso Nervoso

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Todo mundo sabe que o hospital já não é mais aquele. Hoje em dia, diversas ações fazem parte da recuperação dos pacientes.

Além da visita dos besteirologistas, os pacientes recebem contadores de histórias, cachorro e até gente famosa.

E fofoca vai e fofoca vem, quem apareceu para uma visita tsunâmica foi a Banda Calypso Nervoso, com Svenzaelma e Chimbinhagrud desmentindo tudo que a mídia vem dizendo sobre separação do casal.

svenzaelma e chimbinhagrud

A verdade, contaram, é que a vocalista seguirá carreira solo e que eles estão à procura de uma substituta para o seu lugar. O resto é fofoca! 

A presença deles causou muito rebuliço. As pessoas não se aguentavam e caíam no ritmo! E teve até competição de dança! O grande momento veio ao som do aclamado sucesso nacional “Cavalo Manco”:

“Um passinho pra frente
Um passinho pra trás
Mexendo os ombrinhos
E bate-cabelo!”

Pra quem não conhece, o tal bate-cabelo é aquela velha jogada de cabelos de frente pra trás. Teve candidata que batia cabelo e fazia pose de ballet clássico, de Carmem Miranda, teve até quem ficasse tonta.

No final a decisão foi difícil… Mas podemos afirmar que houve empate técnico entre todas as participantes de plantão! Ufa! 

Dr. Dud Grud (Eduardo Filho)
Hospital Barão de Lucena – Recife

A Besteirologia é essencial

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Os besteirologistas já fazem parte do quadro profissional de muitos hospitais pelo mundo. 

O seu trabalho é essencial para qualificar as relações ali e para manter a energia sempre em alta. As fotos abaixo mostram dez momentos em que a Besteirologia se provou fundamental na rotina hospitalar.

1. A Besteirologia faz o tempo passar mais rápido nas salas de espera

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2. Os recém-nascidos aquecem os ouvidinhos com canções especiais

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3. A cadeira de rodas sai buzinando e rodopiando pelos corredores com pacientes e palhaços 

passeio de cadeira 

 

4. A injeção dói menos com a técnica besteirológica de segurar a mão de um amigo

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5. Corredores se transformam em salões de dança para aliviar as tensões

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6. Os palhaços aplicam o selfie para guardar recordações de seus pacientes queridos

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7. A Besteirologia facilita o trabalho dos demais profissionais do hospital

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8. O carnaval também é comemorado por quem está hospitalizado

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9. Amizades longas e duradouras podem nascer no hospital

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10. A alegria pode extrapolar o hospital e invadir as ruas, provando que não tem contraindicação!

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Nada de novo

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Quetamina & Midazolan, nome de dois medicamentos. Foi assim que fomos tratados pela equipe da UTI depois de termos acalmado, ao som de canto e violão, a pequenina e irritadíssima M. 

Não é para menos: ela estava toda furada e conectada com fios ao longo do seu pequeno corpo. Médicos e enfermeiras tentavam concluir um procedimento enquanto a criança se debatia (ou se defendia, se preferirmos) diante de tamanho incômodo e dor.

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Nós não fizemos nada de novo. Apenas tocamos e, com isso, talvez tenhamos oferecido um contraste ou uma alternativa dissonante do que reinava no ambiente naquele momento. Como disse, nada de novo.

Mas a cada vez que esse contraste resulta em uma reação positiva, voltamos a concluir que há realmente algo de potente nessa manifestação super antiga do ser humano chamada arte

Em outro quarto, o contraste foi oferecido de uma paciente a outra. G., com seus 11 anos, vendo sua pequena colega de quarto abatida e ressabiada diante da dupla de palhaços, regeu a interação de cabo a rabo.

– Toquem uma música aí, por favor.
(tocamos)
– Não, uma mais animada.
(tocamos outra)
– Mais suave, palhaços.
(mudamos o ritmo)
– Essa tá ótima! 

baila comigo

Então G. puxou a colega de quarto, que tinha a metade de sua altura, e delicadamente fez uma sequência de passos de dança, aos quais a coleguinha respondeu e embarcou com total engajamento. Foram vários minutos de giros, piruetas, abraços, conduções de um extremo bom gosto e cuidado. 

Novamente não fizemos nada de novo… Ou talvez sim.

Reaprendemos a observar, a servir, a simplesmente acompanhar musicalmente o protagonismo de duas crianças que, em profunda solidariedade, transformaram, por alguns instantes, o corredor do hospital em salão de baile sincero, amoroso e comovente para os pais e demais presentes.

Dr. Zequim Bonito (Nereu Afonso)
Hospital Geral do Grajaú – São Paulo

Hospital feito casa da gente

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Cada um enxerga o mundo de um jeito.

Uns fingem que veem, mas não falam. Outros usam óculos para ver melhor. Alguns tropeçam quando andam de tanto que ficam admirados com ele. Assim também é com o hospital.  

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Tem uns que acham o lugar uma loucura, outros vão lá raramente, alguns vão e vêm, outros tantos vão e nem vêm.

A gente vive no hospital duas vezes por semana e lá é uma extensão da nossa casa. Comemoramos dias festivos, feriados. Sabemos de um tudo e quase nada, vemos o tempo correr na urgência e muitas vezes sobreviver na nascença.

A gente vive lá como a maioria dos pacientes: o hospital vira segunda casa

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Esse pensamento veio quando nossa paciente, de aproximadamente 7 anos, teve finalmente alta médica e disse uma coisa que ficou na minha cabeça quando perguntamos:

- Você vai sentir falta dos palhaços?
- Claro que vou, né! Aqui tem cachorro, comida boa e palhaço, melhor que lá em casa.  

Ela tem razão. O hospital, lugar de cuidados, vem tentando sempre ampliar o seu olhar, é uma longa busca, como na vida de toda pessoa, mas ao menos se busca. E se não faz, alguém dá um jeito para se fazer.

E é bom quando o hospital não tem cara de hospital, mas que a gente se sinta como se estivesse numa casa, de férias, cuidando da vida como ela pede.

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E para não deixar de falar, vamos contar o sucesso do momento. Quem conhece o D. da UTI, no 3ª andar, sabe do que falamos. Ele vive babando por questões de saúde.

É um desses que fizeram – não porque quiseram – o hospital feito casa. E pela intimidade que temos de longos anos de visitas semanais, o D. tá quase careca de saber sobre nossas besteiras. Mas alegra os seus olhos, pois ele se comunica com eles, pisca mais que pisca-pisca, quando ouve a canção: 

♫♪ Djalma baba baba, baby,
Djalma baba babá
Djalma baba babá
 ♪♫

Dr. Dud Grud (Eduardo Filho) e Dr. Lui (Luciano Pontes)
Hospital Barão de Lucena – Recife