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Dois palhaços fora de campo

“Fora de campo” é uma expressão que decidi usar para exemplificar um dos casos vividos esse mês no Hospital M"boi Mirim.

À primeira vista, é possível que a expressão “fora de campo” nos remeta ao jargão esportivo. Se pensarmos no futebol, por exemplo, podemos imaginar a bola fora de campo, um jogador fora de campo, a torcida fora de campo.

Em todos esses exemplos, aquilo que está fora de campo não está apto a participar diretamente da decisão dos acontecimentos ou, em poucas palavras, não está em jogo.

Doutores da Alegria - M_Boi Mirim - Créditos para Nego Júnior © 2018 - IMG_4239

Mas tem outro conceito de “fora de campo” que nos será mais útil para contar o que aconteceu no hospital. É a noção utilizada pelo cinema. Nos filmes, “fora de campo” é o que não é visível aos olhos do espectador, é o que não aparece em seu campo de visão. É o que não está na tela.

No cinema, ao contrário do esporte, muitas vezes aquilo que não está na tela está de fato em jogo e contribui para o avanço da trama tanto quanto o que aparece na tela.

Lembrem-se do “tam-tam, tam-tam” do filme Tubarão.

A imagem da tela poderia ser a de uma praia tranquila, mas a simples evocação das notas do contrabaixo já fazia com que sentíssemos a presença do monstruoso peixe, mesmo ele ainda não estando na imagem! 

Doutores da Alegria - M_Boi Mirim - Créditos para Nego Júnior © 2018 - IMG_4467

Lembrem também dos filmes policiais, daquelas cenas clássicas onde um detetive particular persegue um bandido que se escondeu em um galpão escuro e abandonado… De repente, passamos a acompanhar a cena apenas do ponto de vista do detetive e o bandido não está mais em nosso campo de visão. Ele está fora de campo, escondido do detetive e de nós!

E é justamente essa sua ausência que faz o suspense aumentar. Nessa situação, qualquer som é suficiente para gelar nosso coração, mesmo com o bandido fora de campo.

E aí vocês perguntam: o que isso tudo tem a ver com a Pediatria do M"boi Mirim?

Tudo, eu responderia. Ou, para ser mais modesto, eu diria que a noção do “fora de campo” foi muito bem-vinda quando tentávamos estabelecer uma relação com uma garota de 4 anos.

Deitada sob os lençóis, ela já tinha deixado claro que não queria nos ver. Bem antes de nos aproximarmos, a menina já pedira à mãe para fechar a cortina. A mãe atendeu à menina e fechou a cortina quase que por completo. Elas ficaram do lado de dentro e nós (Dra. Manela e Dr. Zequim) do lado de fora.

Doutores da Alegria - M_Boi Mirim - Créditos para Nego Júnior © 2018 - IMG_4166

O leito ficava no fundo do quarto, encostado na janela. E foi justamente através do reflexo da janela que avistamos a menina deitada em sua cama. Para a menina, o único elemento perceptível de nossas presenças era, naquele momento, o som de nossas vozes.

De resto, nós estávamos fora de seu campo de visão. Continuamos então explorando nossa fala e fragmentos de música.

Monitorávamos sua reação pelo reflexo da janela.

Ela largou a chupeta e se sentou. Algo havia lhe incitado a curiosidade. Apostamos nessa pista e ousamos deslizar uma de nossas mãos pelo curto espaço que restava entre a cortina e a janela.

A curiosidade aumentou. Colocamos outra mão. Ela hesitou. Então tiramos uma das mãos. Ela pareceu se decepcionar. Voltamos com a segunda mão. E também com a terceira.
E finalmente com quatro mãos invadindo suavemente seu espaço privado.
Uma dança entre as mãos se insinuou.

De fora, acompanhávamos pelo reflexo o que se passava dentro. A menina olhava para sua mãe como se pedisse autorização para gostar, ou como se dissesse: “mãe, você está vendo o que eu estou vendo?”.

De repente, um de nossos pés apareceu embaixo da cortina. A menina se inclinou para vê-lo. A essa altura, o “fora de campo” já era parcial, mas ainda necessário para manter a confiança e o interesse da menina. Entoamos uma música. Mais pés surgiram por baixo da cortina. Um sapateado foi tomando forma, um pouco atrapalhado e pisoteado no início, mas cadenciado no final.

Doutores da Alegria - M_Boi Mirim - Créditos para Nego Júnior © 2018 - IMG_4669

A menina bateu palmas acompanhando o ritmo dos passos.

Ao final do sapateado, nossos pés, novamente atrapalhados e pisoteados, foram se retirando. Nossas mãos fazem tchau. Deixamos o “boxe” sem sequer ter entrado nele de corpo inteiro. Foi uma intervenção realizada tão-somente com nossos pés, mãos e vozes. Mais nada.

Seria mais bonito dizer que ela nos acenou um “tchau” em resposta, mas, se não me engano, ela simplesmente colocou a chupeta na boca e voltou à posição deitada. A mãe voltou às palavras cruzadas.

Partimos.

Para elas, agora estávamos definitivamente “fora de campo”. Com um pouco de sorte, habitaremos suas memórias durante um tempo. Talvez nem isso. Mas não importa.

O que conta é o que aconteceu no aqui e agora do quarto: nossa aceitação da resistência da menina para somente em seguida elaborarmos uma resposta a essa mesma resistência.

Uma resposta enviesada, indireta, que sai de campo para que o jogo entre em campo indiretamente, com sutileza, para daí avançar e, quem sabe, emocionar. 

Nereu Afonso, conhecido como Dr. Zequim Bonito, escreve do Hospital do M"boi Mirim, em São Paulo.

O São Joãozinho e a festa dentro do hospital

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Festejar o São João nos hospitais, junto a crianças, seus pais e profissionais de saúde, não é só uma celebração. Pra gente, também é uma forma de levar a cultura popular brasileira, que tem suas raízes nas festas de rua, para quem está hospitalizado.

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Ao passar pelos corredores das enfermarias com trajes caipiras e fazendo música ao vivo, com ajuda da sanfona e da zabumba, os palhaços convidam as pessoas para saírem dos quartos e se relacionarem.

Para cantarem, dançarem. E, principalmente, para olharem o hospital de outra forma – não como um espaço frio e sisudo, e sim como um ambiente de acolhimento e de relações.

São Joãozinho do Doutores da Alegria

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No Recife, a companhia de Dudu do Acordeon (ou “São Foneiro”!) deu o tom da festa, que culminou com a apresentação de um cordel.

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Em São Paulo, o cortejo formado por dez artistas contou com uma quermesse e um show de calouros em pleno hospital. E no Rio de Janeiro, a música foi a principal atração, com a presença do grupo Conexão do Bem e músicos da Orquestra Voadora, da Sinfônica Ambulante e do Grupo Milongas.

E depois de passar por dezoito hospitais públicos, temos uma certeza: a festa do hospital não perde em nada pra festa da rua.

O que você carrega no seu vazio?

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

O vazio existe? Tenho a impressão de que não.

No trabalho, nós, palhaços, aprendemos a trabalhar o vazio. É o que acontece muitas vezes na porta de uma Enfermaria, por exemplo, pois não dá pra saber o que está por vir. Cada encontro é único – igual à cada pessoa – e é preciso estar, simplesmente, aberto. 

Acontece que isso não é nada fácil. De repente, estamos ali, parados, sem acontecer patavina e todos estão nos olhando, esperando que algo aconteça.

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Às vezes, o estímulo vem de dentro da Enfermaria, por meio da criança, de seu acompanhante ou de quem quer que seja que esteja ali naquela hora. Outras vezes, somos nós que levamos alguma proposta. E, outras vezes, aparece o vazio. Ao longo dos treinamentos e da prática, entendemos que esse vazio também faz parte do nosso exercício e é precioso ao trabalho.

É o vazio que nos faz dar espaço às surpresas, ao risco, ao novo. E, por isso mesmo, ele nos dá um pouco de medo porque é como estar de olhos vendados e, ainda assim, dar o próximo passo. Por outro lado, o vazio também nos fortalece, pois vamos ganhando confiança à medida em que nos aventuramos nele. Pode dar tudo errado – e a gente sobrevive. E também pode dar muito certo, e é uma delícia. Nas duas formas, ganhamos. 

A questão é que esse vazio não me parece nada oco. Ele tá preenchido de alguma coisa.

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Quando não, de algumas coisas. Se ele está ali, está ocupando algum lugar no espaço, ainda que não o vejamos, concorda? Entrar na enfermaria do M. é tudo isso pra mim. Mesmo cada vez mais debilitado, a sua disponibilidade se agiganta diante da minha limitação.

- M., a gente pode tocar uma música pra você?

Ele responde que sim, articulando pouco a sua fala e com um volume que faz o encontro ser ali, bem de pertinho com ele, campo de muita intimidade. Continuo:

- Você quer que a gente toque aquela ou a outra?
- Aquela.

Tocamos uma música e, no fim, ele disse “Miau!”, resposta de grande reflexo para a canção Atirei o pau no gato, mas que muitos se intimidam de dar. Ele não. 

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Acho que M. tem uns oito anos e, diante dele, me sinto zerada, sem saber fazer nada. Mas cheia de coisa dentro.

Os físicos, astrofísicos e tantos outros sabidos deverão falar de coisas como oxigênio, gases, partículas, etc. Eu, Baju – doutora em Besteirologia – tô falando de algo que não se pode medir. Talvez seja assim: cada um sabe o que carrega no seu vazio. 

Juliana de Almeida, conhecida como Dra. Baju,
escreve do Hospital Universitário Oswaldo Cruz e Procape, no Recife.

Doenças graves, reações surpreendentes

Tempo de leitura: 3 minuto(s)

O Instituto da Criança tem uma dinâmica diferente dos outros hospitais que atuamos. Enquanto nos outros temos a sazonalidade das doenças, um período de distúrbios intestinais e outro de problemas pulmonares, no ICr temos uma gama de processos que desconhecemos.

Nos outros hospitais o mais impactante é a situação social das crianças, no ICr é a gravidade das doenças. Muitas vezes não sabemos avaliar, ficamos com muitas dúvidas sobre o estado geral delas e às vezes, por não ter informação suficiente, subestimamos seu estado. Mas neste mês tivemos boas surpresas e quero contar algumas delas.

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Um olhar diz muita coisa

O B. fica sempre na cama, com movimentos reduzidos. Não é muito reativo, mexe os olhos, mas não fala. Ele tem uma deformação na coluna e uma traqueostomia. 

Já tínhamos entrado em seu quarto antes, mas por conta de um procedimento, apenas fizemos algumas bolhas de sabão e saímos. No outro dia estava dormindo. No terceiro dia, eu e Dr. Dus’Cuais entramos e ele começou a olhar para o violão.

- Quer uma música?, pergunto.

Ele faz um “não” com a cabeça. Tiro o violão da frente e ele olha para um bolso. Mostro o que está no bolso e ele faz outro não. Olha para outro bolso. Mostro o que tem lá. Não! B. olha de novo para o bolso e depois para o teto, repetidas vezes. Entendo que são as bolhas. 

Quando as tiro do bolso, ele abre um sorriso. Faz “sim” com a cabeça. Assim que soltamos bolhas, seus braços, lentamente, levantam para tentar agarrar algumas, com certa descoordenação. Ao pegar umas delas, abre um sorriso inesperado.

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Para mim foi tudo inesperado, pois naquele momento se revelou que ele tinha plena cognição, que se comunica, que se mexe. Da nossa primeira avaliação, bem equivocada, ele deu um salto. 

Pisca pra ela!

Na UTI outra surpresa. Entramos e uma mãe nos chamou:

- Vem ver a G.! Toca pra ela. Ela adora música. 

A menina estava imóvel, com os olhos prostrados. Ficamos na dúvida se estava sedada. Tocamos um pouco, a G. se contorceu e virou para o lado da mãe.

- É dor. Mas ela adora música, né filha? Pode continuar.

Continuamos. E a menina permaneceu com os olhos fixados em nós. A mãe de novo:

- Fala, G., que você gostou. Se você gostou pisca pra eles.

E a menina, que até então não tinha reagido, nos olhou e piscou pra gente.

- Pisca você pra ela, ela entende!, pediu a mãe.

Piscamos. Ela novamente piscou de volta. Demos tchau e nova piscadinha. Surpreendente de novo. O que parecia uma mãe querendo palhaços mais que a filha, pois a princípio a G. não parecia consciente, era uma mãe extremamente atenta com a filha. 

Uma palavra inesperada

O outro é o A., que tem uma cirurgia enorme na cabeça. E uma mãe e uma vó muito carinhosas, espetaculares e presentes. Da primeira vez, não parecia que ele seria tão reativo, mas a vó pediu para tocarmos, pois antes de adoecer o menino tocava violino.

Quando ouviu a música, seus olhos arregalaram e um sorriso torto saiu. 

Aos poucos, os assuntos foram aumentando. Ele adora Star Wars, Toy Story e seu quarto é cheio de bonecos dessas duas histórias. Dr. Dus’Cuais fez aparecer e desaparecer um monte de coisa no quarto e o A. fez cara de surpresa, abriu a boca e colocou a mão na frente, numa reação sincera de espanto. Adorou a mágica.

Em nosso último encontro, numa brincadeira entre os palhaços, perguntei se o Dr. Sandoval estava tirando uma com a minha cara. E ele, pela primeira vez, falou bem claramente, em apoio ao Sandoval:

- Não! 

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Bate-papo

E por fim a J., que é uma menina que não vê.

No quarto dela sempre conversamos muito e é das coisas mais interessantes conversar com crianças seguindo seu raciocínio. O assunto era Deus. Algo como:

-  Quem fez você tão bonita?, perguntamos.
-  Meu pai e minha mãe.
-  E quem será que me fez?
-  Ora, foi Deus!
-  E quem será que fez Deus? O pais Deus e a mães Deus?
-  Claro que não! Deus fez ele mesmo!
-  Mas como se ele não existia?
-  Deus fez ele antes de ele existir, oras! 

Estamos tentando entender até hoje.

Vera Abbud, mais conhecida como Dra. Emily, escreve do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Posso fazer um ultra som?

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Na nossa primeira semana de trabalho, no começo do ano, conhecemos um garoto. Foi um encontro rápido e potente.

Eu (Dr. Lui) e o Dr. Marmelo entramos na enfermaria. Tinha uns leitos vazios e outros ocupados por crianças que dormiam. O lugar não tinha muita luz, mas a que tinha era suficiente pra deixar o ambiente visível. Paramos na porta, fitamos toda a enfermaria e vimos que apenas um leito tinha acompanhante, pois as mães e pais das crianças tinham ido almoçar. Fomos direto para lá.

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Lá estavam sua mãe e uma técnica de Enfermagem. A mãe ajudava a técnica com os seus afazeres e a técnica arrumava o soro da criança, que estava de olhos fechados, deitado. O menino tem aproximadamente 8 anos, vive no mundinho dele, como toda criança. E este mundo é bem próximo do mundo do palhaço, onde nada é o que é, as coisas são o que a gente quiser.

Eu tenho um violão. Posso fazer um ultra som?, perguntou o Marmelo com voz suave.

Pra quem não sabe ainda, o nosso “ultra som” nada tem a ver com o exame de imagem. Na Besteirologia, ultra som é um diagnóstico feito com música. A mãe e a técnica deram um sorriso de canto de boca, autorizando a gente a cantarolar a música. Dr. Lui logo perguntou se podia ajudar e sacou do bolso um triângulo de cor prata.

- Estou pronto!, disse o Lui.

Dr. Marmelo arrumou o jaleco, organizou a calça, o cabelo, apoiou a perna, testou a voz, reorganizou o jaleco, foi para onde tinha luz, desistiu, voltou, deu calor, pegou novamente o violão, coçou o nariz…

- E essa música é pra hoje?, perguntou a mãe.

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Começamos a cantar. Não saiam palavras, apenas sons da nossa boca: vogais, sílabas, pa, pipa, teca, pi ri pi… O menino abriu um sorrisão daqueles. E elas – a mãe e a técnica se juntaram no riso.

- Olha, ele riu!, falou a mãe.
- Nunca vi esse menino dar uma risada…, confirmou a técnica.

Pronto, mais um ultra som com diagnóstico positivo.

Marcelo Oliveira (Dr. Marmelo) e Luciano Pontes (Dr. Lui) escrevem do Hospital da Restauração, no Recife.

Um encontro de culturas no hospital

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Estávamos na pediatria, que fica no 3º andar do hospital, subindo as escadas, virando à esquerda, quando encontramos duas angolanas, uma mãe e sua filha de dois anos.

A filha adorou a música que eu, Dr. Mané, e Dr. Mingal tocávamos no quarto.

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- Ela gosta muito de música! Costumo cantar para ela…, disse a mãe.

Pedimos então uma palhinha, mas a mãe disse que só sabia músicas de Angola. 
- Tipo o kuduro?, perguntou Dr. Mingal.
- Sim!, riu a mãe.
- Canta pra mim que eu sei dançar o kuduro!, pediu o besteirologista. 

Kuduro é um gênero musical e um gênero de dança que surgiu em Angola. É um ritmo influenciado por outros gêneros como kizomba, semba, reggae, afro house e rap. E então ficou assim: a mãe cantava com a filha, eu ajudava com a melodia e o Dr. Mingal dançava o kuduro com toda a sua malemolência.

A demonstração estava tão boa que muitos pacientes de outros quartos foram ver o que estava acontecendo ali. Um grande encontro de culturas.

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Ao final da música, sob aplausos e risos de todos, a menina olhou para o besteirologista balançando a cabeça.

- Não é assim, Mingal! Você não sabe dançar!
- Então como é?
, perguntou ele. 

E a menininha mostrou a dança da sua Angola ao som da mãe, que cantava rindo e chorando. Uma cena daquelas realmente inesquecíveis.

Márcio Douglas, conhecido como Dr. Mané Pereira, escreve do Hospital Santa Marcelina, em São Paulo

Nos embalos de um sono no ambulatório

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- Alguém para a Besteirologia? O senhor é paciente? É pra Besteirologia? 

Entramos no ambulatório lotado mandando essas perguntas em voz alta para que todos escutassem, evitando que alguém perdesse a consulta. Foi quando vimos, na primeira fila de cadeiras, mãe e filha encostadinhas, cabeça com cabeça, dormindo sono profundo.

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Imediatamente baixamos o volume e passamos a pedir o mais absoluto silêncio para todas as pessoas ali sentadas. Fomos passando pelas dorminhocas pé ante pé, com muito controle e cuidado para não acordá-las. E quanto mais nos esforçávamos para fazer esse caminho em silêncio, mais riam de nós; e sempre precisávamos parar para reprimir aquela bagunça inaceitável com gestos, olhares, acenos de mãos e até ameaças de jogar o sapato. E… BIIIIIPPPPPP!!!!! 

Sim, no meio de nossos esforços hercúleos para não fazer barulho, a TV que mostra a senha apitou um silvo que despertaria até um elefante. E como se um fosse pouco, a TV resolveu fazer dois. BIIIIIPPPPPP!!!!! Para o nosso absoluto desespero, quanto mais pedíamos silêncio, mais o sinal tocava. A filha seguiu dormindo, mas a mãe logo acordou.

Todos ali testemunharam que não tivemos culpa alguma! Quando tentamos explicar àquela senhora que não fomos nós que a acordamos, e sim o famigerado bipe, ninguém se prontificou a nos defender. Resultado: eu, Dra. Monalisa, tive que voltar e tentar fazê-la dormir de novo. Entoei um “nana neném” e, gentilmente, cerrei as pálpebras daquela mãe com dois dedos da minha mão direita. Pronto, já dormiu de novo. 

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Mas era só eu retirar o dedo de cima dos olhos e parar de cantar que ela acordava. Dr. Dud Grud tentou explicar que não podíamos ficar ali o dia inteiro, que havia mais duas alas pra gente atender, que ela tratasse de dormir logo, mas foi em vão.

Percebemos, então, um rapazinho de uns doze anos sentado logo na fila de trás.
- Ei, você tá ocupado? Vem aqui ajudar a gente. Senta aqui do lado e fica balançando ela assim, tá? Agora canta: Nana neném…
- Ah, não… EU NÃO VOU CANTAR!

Como assim, não vai cantar? Custava nada! A propósito, foi só ele começar o balancinho cadenciado que a mãe voltou a fechar os olhos e se encostou… Mas ainda era preciso encontrar alguém que soubesse cantar. Saímos procurando:
- Você sabe cantar? Por favor, a gente precisa terminar o plantão e o menino ali não sabe cantar. Opa, não para de balançar! Moço, o senhor pode cantar pra ela dormir?  

Até que uma senhorinha parou a conversa com a sua acompanhante, se peneirou toda na cadeira, nos encarou e disse:
- Eu sei cantar Agnaldo Timóteo.

Nessa hora o rapaz, sem parar de balançar, arregalou os olhos e girou a cabeça para trás para ver quem dividiria com ele a função de pôr aquela senhora para dormir. Ora, que ajuda bem-vinda!
- Canto aqui? Agora?
- Sim, agora mesmo, pra ela poder voltar a dormir. Olha lá na primeira fila. 

Nós nos ajoelhamos aos pés da senhora, que cantou “Os verdes campos de minha terra”. Mas ela não cantou acanhada, não. Cantou dando uns “dó de peito” que faria inveja a qualquer Pavarotti! Cantou se doando mesmo, sabe?

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Foi aí que nossa alma pairou dois segundinhos acima do corpo só para apreciar esse quadro. A senhora, na quarta fila de cadeiras, cantando a plenos pulmões uma música para ninar uma mãe sentada lá na primeira fila. O rapaz, sentado ao lado da dorminhoca, balançava o seu ombro, enquanto ela se mantinha de olhos fechados recebendo aquele carinho e aquela música.

Eu e Dr. Dud Grud ajoelhados, só admirando a cantora e, ao mesmo tempo, incentivando o rapaz a não parar sua tarefa. Os demais presentes olhando tudo atentamente. Ninguém se conhecia naquele salão, aquelas pessoas todas estavam ali antes de chegarmos e talvez saíssem sem se olhar nos olhos.

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O que te faz levantar da cama? O que te faz sair de casa? 

Naquele dia, tivemos certeza de que saímos de casa só para chegar naquele ambulatório e encontrar uma senhorinha para cantar uma música, para que um garoto embalasse uma mãe que precisava dormir. Embora eles nunca tivessem se visto antes. Ninguém gastou sequer um real e, tampouco, se teve motivo para temer a pessoa que estava ao lado. 

Greyce Braga, conhecida como Dra. Monalisa, escreve do Hospital Barão de Lucena, no Recife.

Só tínhamos olhos para ela

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Difícil não estarmos no foco. Duas figuras de nariz circulando no hospital: foco. Logo todo mundo para, olha, comenta, puxa assunto, foge, fecha a cara e por aí vai.

Estamos acostumados com essa forma de chamar a atenção. Nos setores onde atendemos, a maioria está à nossa espera; só alguns desavisados, como pacientes, pais ou profissionais novos, é que têm um pequeno susto ao se deparar conosco.

Mas R. não pareceu se assustar em nosso primeiro encontro. 

A pedido de algumas técnicas e estudantes, que estavam reunidos no posto de Enfermagem da Pediatria do Procape, tocamos o bolero “Quizás, Quizás, Quizás”. Temos usado bastante essa música, criando e absorvendo novas situações cômicas para a nossa performance. Então, motivados pelo sucesso dessa atuação, começamos o som. 

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Só que todos os olhares mudaram de direção, olhavam para o corredor.
 Ali estava R., dançando. Ela deve ter em torno dos 13 anos. Estava lá, bailando sozinha, de olhos fechados, com um sorriso no rosto e visivelmente envolvida pela música. De repente, o hall ficou cheio de gente, todos olhando para a menina. Nós nos olhamos e entendemos que não cabia e nem tinha mais razão de ser a nossa gag (piada) da música.

O foco era todo dela

Dr. Marmelo convidou-a duas vezes pra se aproximar e balançar com ele, mas ela negava com o dedinho, afastava-se um pouco. Tudo isso dançando! E ela foi sumindo pelo corredor, a música chegou ao fim e todo mundo aplaudiu.

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R. parou, chorou, colocou as duas mãos no peito e fez reverência a todos nós. Sua mãe, com simpatia, levou-a de volta pro quarto. Nós ficamos ali, inundados e gratos. 

Juliana de Almeida, mais conhecida como Dra. Baju,
escreve do Hospital universitário Oswaldo Cruz, em Recife.

Música nos hospitais: arte e tecnologia em favor do cuidar

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Falar de música em hospitais não é novidade. Há muita afinidade entre a arte da música e a arte de cuidar.

Como traz Eliseth Leão, estudiosa do assunto, “em culturas diversas, o médico e o músico são representados por uma mesma imagem ou símbolo. O Imperador Amarelo, na antiga China, é considerado o fundador da Medicina e da música. Na mitologia grega, Apolo simboliza a estreita relação que existe entre a música e a Medicina.”

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Uma reportagem recente da Folha de S.Paulo questiona a ausência de música nas UTIs. “Um aspecto que poucas pessoas param para pensar é o som em um ambiente de UTI. Bipes, alarmes sinalizando que um batimento cardíaco ficou muito baixo ou muito alto. Ou que a oxigenação caiu, um elétrodo saiu do lugar. Também é constante o som da televisão, o som de uma respiração artificial, o som de um choro contido. Enfermeiros e médicos passam plantões, celulares apitam, telefones tocam”, escreve a repórter Camila Appel.

Ela também descreve uma experiência no Hospital da University College, em Londres. Foi organizado um show ao lado do hospital, com transmissão ao vivo aos pacientes através de fones de ouvido e ipads esterilizados.

Práticas inovadoras também vêm surgindo por aqui, com a perspectiva de obter um resultado terapêutico através da música. Em abril, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, se associou ao Spotify (serviço de distribuição de streaming, podcasts e vídeos) para oferecer playlists/seleções musicais especiais para seus pacientes e clientes.

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Há playlists diversas, entre elas para o Serviço de Hemodinâmica, Ressonância Magnética e Banco de Sangue. Os ouvintes são convidados a avaliar a sua experiência ao entrar em contato com a música em momentos determinados, de modo que estudos possam verificar quais aspectos e como a música atua na promoção de bem-estar. A pesquisa é conduzida por Eliseth Leão, com curadoria de pessoas como o Maestro Walter Lourenção, que já regeu a Orquestra Municipal de São Paulo e a OSESP.

Para Doutores da Alegria, a música é facilitadora na construção de relações sensíveis. Ela é base, recheio, fundo, entrelinhas e silêncios. A música faz parte de todos os nossos projetos, desde o ukulelê tocado pelo besteirologista ao lado do leito de uma criança até um cortejo musical com sanfona e bumbo que ressoa pelos corredores da enfermaria. Também está na grade curricular dos nossos cursos e em ações com a Escola de Música do Estado de São Paulo.

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Além das habilidades do palhaço, é fundamental ter bons ouvidos. Não necessariamente ouvidos absolutos, mas ouvidos acurados.

“Pode-se criar algo a partir do som repetitivo que sai de uma máquina que monitora o coração. Claro que a máquina que monitora um coração não é um metrônomo, que pode ser regulado para a música que será tocada, mas podemos ouvir esta pulsação com ouvidos de palhaço, e então cabe preencher a partitura desse monitoramento. Entre um pi e outro, cabe um estalar de língua, uma nota na flauta, um batuque discreto, um acorde de violão ou uma percussão corporal qualquer. Depois dessa experiência, a criança passa a escutar este som ao lado de seu leito, com outros ouvidos, mesmo na ausência dos palhaços”, conta Thais Ferrara, atriz, palhaça e musicista, hoje Diretora de Formação do Doutores da Alegria.

Dentro ou fora dos hospitais, a música conta histórias, emociona, inspira. Ela também serve para abrir canais com a criança que está distante, receosa ou, ainda, deprimida pelas circunstâncias da doença.

“Pode também ser um fundo musical para uma ação que já está acontecendo. Já acompanhamos crianças até o centro cirúrgico, com uma bandinha que abria espaço no “trânsito” pelos corredores do hospital. Já fizemos serenata da janela, para crianças em isolamento, e para enfermeiras no balcão da Enfermagem”, conta Thais. 

Com as novas tecnologias disponíveis, iniciativas como transmissões de música ao vivo e uso de playlists para pacientes certamente alcançarão mais hospitais e farão parte da nossa realidade em um futuro próximo.

Cabe aos profissionais de saúde – e aos besteirologistas, claro – saber como se aproveitar destes recursos para promover algo milenar: a arte de cuidar.

As subidas e as descidas de cada dia

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A vida da gente segue como uma escada, penso eu. Às vezes sobe, outras desce, mas geralmente sobe e desce.

E foi numa dessas descidas à UTI, no 2ª andar, que conhecemos um garoto de cabelos compridos, parecidos com os do Alceu Valença. Ele quase não se mexia, com tanto equipamento ligado a seu corpo. Mas uma porta abriu, pelo olho vivo, na chegada da nossa voz falando baixinho no seu ouvido.

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E eis que uma escada surgiu no caminho e, para subir, tivemos que descer. 

Como tudo era desconhecido, fomos devagar para não assustar o menino e, aos poucos, descobrimos como eram boas as dificuldades encontradas em cada degrau. Resolvemos, entre tantas visitas, fazer uma música e, para nossa galgada rotina, ele nos surpreendeu quando dançou com os olhos, num mexido bailante onde todo seu corpo estava conectado, denunciando o desejo de se mover.

A alegria estampava nossos rostos e olhos, que também sorriam. 

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O acontecimento virou notícia no setor e era comum fazermos bailes com muita gente ao redor só para ver o menino dançar com a Íris, menina que dizem morar nos olhos. Um dia, depois de descermos alguns degraus, reencontramos ele numa outra cama, com menos equipamentos ligados ao seu corpo.

E para arrepiar os cílios dos olhos, ele ecoou um som com a língua, como se estourasse uma bolha de sabão no ar. A gente parecia criança quando ganha brinquedo novo. E se o garoto tivesse um botão, daríamos play infinitas vezes para ouvir o som de bolha que saía de sua boca. 

Naquele dia, subimos um dos degraus mais bonitos, porque a evolução de um paciente é como a chegada de um presente sem data marcada, uma alegria que não cabe numa caixa e nem precisa de embrulho. Daqueles presentes que todo mundo brinca junto e vai pra casa feliz. 

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Ele já é um dos vocalistas da “Banda Vuó” e o sucesso tem sido tão grande que agora a gente sobe mais degraus do que desce. E com um passo atrás do outro, podemos chegar à Lua. 

Dra Svenza e Dr. Lui,
conhecidos fora dos hospitais como Luciana Pontual e Luciano Pontes,
direto do Hospital da Restauração, em Recife.