Por trás de cada caso que encontramos em um hospital

Se, por um lado, esse começo de ano ainda não apresentou um elevado número de casos respiratórios no hospital, por outro não deixou de nos impressionar com a variedade de diagnósticos.

Da “banal” fratura de uma perna, devido às intensas brincadeiras nas férias, até as tentativas de suicídio mais consequentes, eu e Dra. Manela já fomos apresentados a diferentes quadros clínicos. Também não faltaram atendimentos a casos sociais e, infelizmente, a constatação de um óbito e o consequente desespero da mãe na Observação Infantil.

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Listados assim, friamente, esses casos parecem representar apenas uma mostra, desprovida de empatia, do que encontraremos ao longo do ano no Hospital M"boi Mirim, em São Paulo. Mas atrás, e para além da frieza dessa listagem, lembramos que cada caso é por nós encarado em sua singularidade. Se eles se inserem em um panorama estatístico, eles também se inserem em um panorama afetivo ao qual somos fortemente sensíveis.

Se nossa profissão, o palhaço, ensina a nos proteger de certos impactos emocionais, ela também – e paradoxalmente – nos ensina a viver profundamente cada um desses impactos a fim de que a arte e, sobretudo, a humanidade sejam reveladas por tais experiências.

É assim que uma tentativa de suicídio por parte de uma adolescente, o abuso sexual sofrido por uma criança ou a morte precoce de um bebê reverberam em nós tanto quanto – ou certamente mais do que – os eventuais sorrisos conquistados.

E é através dessas experiências que oscilam entre a conquista e a perda que tentamos crescer dentro de nosso ofício.

Nereu Afonso, conhecido como Dr. Zequim Bonito, 
escreve do Hospital M"boi Mirim, em São Paulo.

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A solidão e as lembranças que carregamos

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Nesta semana uma senhorinha internada me perguntou: Como é uma UTI? Eu nunca vi”.

A pergunta transparecia o medo de em breve precisar ir a esse lugar. A UTI nunca vista e, provavelmente, imaginada como um lugar frio e silencioso. Sobretudo, a senhorinha tinha medo da solidão, de ficar sem a família. Medo de não ter quem segure sua mão, como dizia Clarice Lispector. 

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Tentei acalmá-la: falei dos profissionais que sempre estão lá, monitorando os pacientes. Falei que a todo tempo passa um médico pra lá, uma enfermeira pra cá, uma auxiliar de limpeza que recolhe coisas enquanto canta uma música. Não sei se essa informação confortou aquele coração amedrontado, porque apesar de todas as pessoas que circulam por lá, o que ela queria mesmo era saber se ao acordar na UTI veria um rosto conhecido, que ajudasse a lembrar do quintal de sua casa, do baile que frequentou na adolescência, do cheiro do bolo assado dos sábados, do aconchego dos amigos, do carinho de sua mãe. 

Coisas boas de lembrar. Lembranças que também curam.

Eu não pude falar para aquela senhorinha, naquele momento, de duas crianças que por hora moram na UTI do Hospital Barão de Lucena. Dois bebês de alguns meses de vida. Estão na UTI, mas não há quem venha lembrá-los de outros dias mais propícios, porque não há ninguém que os acompanhe. Eles não têm família.

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Com apenas alguns meses de vida, já estão naquele lugar onde a senhorinha de cabelo branco tem medo de ir. Um berço ao lado do outro. Dois bebês de origens distintas, que se encontraram nesse ponto de interseção da vida: companheiros da mesma UTI pediátrica. Sozinhos. 

Colocamos o nariz vermelho, vestimos o jaleco branco onde se lê “Doutores da Alegria”, entramos na UTI, cantamos e dançamos para aquelas duas pessoinhas. Será que se sentem sozinhos? Automaticamente, por reflexo, seguro a mão de um deles por um momento. Enquanto cantamos, seus olhos seguem nossos movimentos, vemos uma mãozinha se erguer no berço tentando agarrar um instrumento percussivo, depois ao lado uma cabecinha se vira para seguir o som da música – percebe quando vamos mais pra longe, quando chegamos mais pra perto.

Eles também têm medo? Procuro olhá-los nos olhos.

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Nesse momento alguém começa a filmar a reação dos pequenos. Médicos e enfermeiras se acercam e os chamam pelos nomes – há muita afetividade ali. Sentimos o tempo sobrelevar e parar, para que duas palhaças sejam os “rostos conhecidos” daqueles pequenos.

Nós, duas palhaças, desejamos com nosso ofício, lembrá-los dos muitos dias propícios, que ainda virão.

Desejamos que eles não sintam medo, nem solidão, nem tristeza, ou qualquer dessas coisas-de-gente-grande-que-não-são-coisas-de-criança. Desejamos tanto que eles lembrem o quintal da casa que terão, o baile que ainda frequentarão, o aconchego dos futuros amigos e os bolos quentes nos dias de chuva. Nós somos apenas duas bobas e não sabemos se tudo que desejamos acontece. É por isso que seguimos desejando até agora.  

“Receba o mundo sem medo,
pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados
e nós mesmos também incompreensíveis”
Clarice Lispector 

Dra. Monalisa, mais conhecida como Greyce Braga,
escreve do Hospital Barão de Lucena, no Recife.