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Eu te via, mas não te enxergava

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Quantas coisas passam despercebidas ao longo do dia. 

A janela aberta nos ofertando paisagens e soprando brisas. O passarinho cantando no portão, até que ouvi, mas nem olhei e já esqueci. O café da manhã feito às pressas. Olhando a TV nem percebi que já comi, será que estava bom? Bom, não dá tempo de repetir. O vizinho deu bom dia, mas passei com o vidro fechado e o fone de ouvido alto. 

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Pego o caminho da praia, lembro-me de apreciar no primeiro minuto, depois me perco em pensamentos e acelero. A hora não espera e na fila do elevador ninguém conversa, os olhos estão interessados em outras vidas habitadas em redes sociais.

E lá vamos nós dando início aos likes de cada dia. Estou perdendo o controle, sinto necessidade de pegar o celular e gastar tempo, hipnotizada por esta tela que me diz mais dos outros do que de mim. Faz muito tempo que visitamos a UTI e sempre encontramos alguns pacientes que moram lá. 

E talvez por isso eu via, mas não enxergava algumas coisas. 

Barão de Lucena -  Lana Pinho_-23

Depois de tantas visitas, parando no leito e falando, pela primeira vez eu enxerguei os olhos dela, uma garotinha de uns três anos. Foi em um desses segundos que tudo congela e fiz questão de gastar meu tempo olhando para aqueles olhos, e pela primeira vez nos conectamos. 

Senti vergonha por não ter parado naquele olhar antes. Percebi que ela tem olhos verdes e a pupila dilatada. Da íris à alma. Sim! A partir desse encontro, mesmo sabendo antes que existia vida ali, fui levada para além do que pode ser visto. Uma menina que há muito tempo mora ali, cuja rotina se limita a sentar e deitar, cuja paisagem são outras crianças, muitas paralisadas.

Não tem esconde-esconde, amarelinha, seu rei mandou. 

Pequenina, vou pedir à dona Chica que ela não atire mais o pau no gato, e que seu rei mande o rato parar de roer suas roupas. Que a Bela Adormecida desperte e venha brincar com você. Quem sabe Aladdin empreste o tapete voador para darmos umas voltinhas no País das Maravilhas e, por favor, pequena, não vamos aceitar nenhuma maçã!

Sim, existem pessoas nesse mundo e no encantado que não são tão boas… Precisamos estar atentas. Quando estiver ficando escuro, a gente dorme e sonha e amanhece para sonhar mais. Que a vista da janela lhe oferte sempre arco-íris. E que seus olhos grandes e contadores de histórias estejam sempre brilhando, dizendo tanto de você.

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Prometo não mais passar sem antes enxergar aquela que habita por dentro do olhar. 

E mesmo só nos olhando, é tanta conversa calada, e mesmo sem falar muita coisa, eu sei tanto dela e ela de mim. Pequena, com você aprendi a parar e contemplar; e enxergar e calar dizendo muito. Porque conversa boa também pode ser conversa calada.

Dra Svenza e Dr. Lui,
mais conhecidos como Luciana Pontual e Luciano Pontes,
direto do Hospital da Restauração, em Recife.

As subidas e as descidas de cada dia

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A vida da gente segue como uma escada, penso eu. Às vezes sobe, outras desce, mas geralmente sobe e desce.

E foi numa dessas descidas à UTI, no 2ª andar, que conhecemos um garoto de cabelos compridos, parecidos com os do Alceu Valença. Ele quase não se mexia, com tanto equipamento ligado a seu corpo. Mas uma porta abriu, pelo olho vivo, na chegada da nossa voz falando baixinho no seu ouvido.

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E eis que uma escada surgiu no caminho e, para subir, tivemos que descer. 

Como tudo era desconhecido, fomos devagar para não assustar o menino e, aos poucos, descobrimos como eram boas as dificuldades encontradas em cada degrau. Resolvemos, entre tantas visitas, fazer uma música e, para nossa galgada rotina, ele nos surpreendeu quando dançou com os olhos, num mexido bailante onde todo seu corpo estava conectado, denunciando o desejo de se mover.

A alegria estampava nossos rostos e olhos, que também sorriam. 

Barão de Lucena -  Lana Pinho_-17

O acontecimento virou notícia no setor e era comum fazermos bailes com muita gente ao redor só para ver o menino dançar com a Íris, menina que dizem morar nos olhos. Um dia, depois de descermos alguns degraus, reencontramos ele numa outra cama, com menos equipamentos ligados ao seu corpo.

E para arrepiar os cílios dos olhos, ele ecoou um som com a língua, como se estourasse uma bolha de sabão no ar. A gente parecia criança quando ganha brinquedo novo. E se o garoto tivesse um botão, daríamos play infinitas vezes para ouvir o som de bolha que saía de sua boca. 

Naquele dia, subimos um dos degraus mais bonitos, porque a evolução de um paciente é como a chegada de um presente sem data marcada, uma alegria que não cabe numa caixa e nem precisa de embrulho. Daqueles presentes que todo mundo brinca junto e vai pra casa feliz. 

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Ele já é um dos vocalistas da “Banda Vuó” e o sucesso tem sido tão grande que agora a gente sobe mais degraus do que desce. E com um passo atrás do outro, podemos chegar à Lua. 

Dra Svenza e Dr. Lui,
conhecidos fora dos hospitais como Luciana Pontual e Luciano Pontes,
direto do Hospital da Restauração, em Recife.

Vocês perceberam?

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todos nós, seres humanos, estamos bem apressados. Temos muita coisa pra fazer.

Desejamos que essas “coisas” que tomam nosso tempo gerem algum mérito positivo nas nossas vidas, afinal o tempo está passando mais rápido, né não? 

Isso me fez lembrar da história do J., uma criança de aproximadamente oito anos. O olho do J. brilha. Vocês perceberam? É questão de segundos. Basta olhar pra ele e estar presente. O olhar dele brilha. Quem cuida dele é o pai, que deve ter deixado de lado muita coisa da vida pra cuidar de algo precioso. Nessas horas, a relação do ser humano com o tempo muda. Apressar-se pra ir pra onde? Por que tanta pressa? 

olho de bola de gude

Da porta da enfermaria víamos o pai do menino. Ele acariciava a sua cabeça, cochichava no ouvido e abria um sorriso no canto da boca. A criança permanecia encolhida na cama, deitada de lado, com o olho mirado pra um canto miúdo entre o travesseiro e o lençol. Era assustador o tamanho daquela tristeza, apertada naquele corpo miúdo. Vocês perceberam? 

Mas o seu olho brilhava. Vocês viram? As crianças têm um grande mérito: a verdade. A essência delas não foi tão “retocada” por nós, adultos. E no J., mesmo triste, seu olho brilhava. Descobrimos ali, de forma apressada, assim despejada por quem tem tanto pra fazer, que o garoto iria amputar todos os membros. Ele não queria papo com ninguém.  

- Tudo bem, J. Sei que você não quer muito papo com a gente. Mas só queríamos mostrar pra você uma flor cultivada pelo Dr. Eu_zébio. Ela tem o poder de acordar justamente nessa hora. E quando ela acorda, cresce muito. 

Tiramos uma flor artesanal de dentro do jaleco que, ao ser manuseada, fica de vários tamanhos e cores. O J. virou um pouquinho a cabeça pra ver a flor.
- Olha, hum. E ela é cheirosa. Caramba, cresceu. Olha, tá crescendo!
Ele olhava atentamente pra flor. Seu pai sorria e por isso aumentava as bochechas e apertava os olhos.
- Nossa, J., a flor parou de crescer.
Logo seu pai soprou em direção à flor, que cresceu mais um pouco. 
- Já sei! Ela vai ficar maior se a gente molhar.

Fizemos bolha de sabão e cresceu outro tanto. O menino, sério, calmo, cabelo espetado, seus pés e mãos enfaixados, olhar preto e redondo, olhava pra flor que já tomava todo seu leito.
- Agora precisamos colocar ela pra dormir. João, você sabe colocar flor pra dormir?
Ele virou o rosto e não quis conversa.
- Acho que música é bom. Uma música bem calma. 

olho de bola de gude

Dr. Eu_zébio tocou uma música bem calma e eu, Dr. Marmelo, fui recolhendo a flor para dentro jaleco. A flor adormeceu. A música era tão calma que Eu_zébio também dormiu, encostado na cama do J. Eu “nem percebi”. 

olho de bola de gude

E para a nossa surpresa, o menino apontou o braço em direção ao Dr. Eu_zébio, mostrando que ele tinha adormecido. Logo tirei o paspalho de lá. Na retirada, sua peruca caiu. Já era tarde, J. acabou descobrindo a careca do Dr. Eu_zébio. Da porta da enfermaria a gente via o garoto contorcendo o pescoço pra olhar a nossa saída. Tinha na sua boca um sorriso.

Aquele de cantinho de boca. Seu pai cochichava algo ao seu ouvido. Ele sorria. Bem verdadeiro. Seu olho brilhava.

Dr. Marmelo e Dr. Eu_zébio (Marcelo Oliveira e Fábio Caio)
Hospital da Restauração – Recife

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Se algum dia me vir chorando

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Nem sempre os besteirologistas são queridos à primeira visita.

É preciso, muitas vezes, o tempo da conquista até que os laços de estabeleçam. E esse é o caminho que leva e eleva os encontros aos momentos felizes dentro de um hospital. E como nem tudo é fácil, é preciso persistir e achar, ao menos, uma brecha no meio de um choro imbuído de medo, manha ou outro sentimento de vulnerabilidade de uma criança, por exemplo, para a transformação crescer. 

Naquele dia, a pequena D. chorou bem depois de termos tido a permissão para entrar na enfermaria e de ter nos olhado três vezes. A sua mãe, fonte e porto seguro, não estava ao seu lado e isso agravou a reação. Enquanto ela chorava, as outras crianças esperavam, ávidas, a vez de a brincadeira acontecer com elas. É sempre comum, ao vermos uma reação de choro de uma criança, acreditarmos que não é conveniente nossa presença e partirmos. Nessas situações me pego pensando que sair, desistir, é o caminho mais fácil e previsível.

se algum dia me vir chorando2

Às vezes, claro que não dá para seguir, noutras tem sempre uma chance. E talvez eu acredite sempre na outra chance. É que o meu desejo por dentro e fora da máscara que uso é de ir além, de mudar, de conseguir conectar e estabelecer um canal de comunicação sem desistir tão fácil do encontro só porque tem choro. Isso é um desafio, um risco, um abismo cheio de possibilidades

E foi sem medo de partir o fio, e percebendo que aquele choro era porque ela acreditava que por trás daquela máscara não havia um ser gente, um humano chorão feito ela, que decidi ir além. Enquanto a razão pedia para sair, ir embora, a emoção pedia que arriscasse atravessar o limiar. Assim foi que, ao lado de sua mãe, retiramos o nariz vermelho de palhaço que somos e revelamos o “nosso segredo”. E eis que a fonte secou e o olho brilhou, mas sem rir.

Ela se viu no espelho dos nossos olhos e reconheceu uma criança, mais adulta que ela, e que sabia e queria brincar. 

se algum dia me vir chorando

E assim saímos, sem mais som nenhum de choro, apenas um olhar silencioso e curioso acompanhando nossas ações e brincadeiras com as outras crianças da enfermaria. Se fôssemos embora, desistido dela, o choro não seria alento do desconhecido. Ao menos agora, ela saberá que o mistério está além do que se quer ver e o que se vê é real como ela é. 

E se algum dia me vir chorando, não vá embora e nem desista de mim.

Dr. Lui (Luciano Pontes)
Hospital Barão de Lucena – Recife

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O sonho da mãe do R.

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Ele tem alguns centímetros, uma boca rosada e seus olhos lembram bolas de gude. O sonho da mãe do R. era que ele fosse pra casa. 

o sonho da mae do r_rogerio alves

Pois é, o menino nunca foi pra casa desde que nasceu e sua mãe sempre esteve ao seu lado. Eu (dr. Marmelo) e a dra Tan Tan nos oferecemos pra levá-lo dentro do nosso jaleco, mas a mãe disse que o garoto não podia sair da UTI porque ele não conseguia dormir. “Isso não é problema”, pensamos, a gente sabe cantar música de ninar, ele vai dormir na hora… Mas não bastava apenas a música de ninar, ele tinha que colocar um marca-passo diafragmático que o permitiria, enfim, ir para casa. Custou a chegar! 

E enquanto não chegava, a gente fazia festa no corredor do Hospital Barão de Lucena. Um belo dia, estávamos eu e a Tan Tan em nosso plantão besteirológico, quando avistamos uma médica correndo em nossa direção:

- Gente, vocês já foram ao quarto do R. hoje?
- Não! – respondemos.
- Pois vão, ele vai deixar o hospital pra fazer a cirurgia. Ele conseguiu o marca-passo.

Fomos correndo lá no seu quarto. Antes de abrir a porta, a gente fez alguns sons. Olhamos escondidos pela porta e, quando o vimos, ele já deu um salto da cama e ficou nos esperando de braços abertos. Entramos cantarolando uma música. 

o sonho da mae do r_rogerio alves

- R, ainda nem é carnaval e você já vai pra o bloco. O bloco cirúrgico!

Perguntamos às médicas, enfermeiras, técnicas e mães que acompanhavam a visita se tinham dado banho no menino. Tinha acabado de tomar. Mas não custava nada tomar outro! Cantarolei uma música na minha viola e Tan Tan fez bolhas de sabão que voavam por todo o quarto. O menino não sabia o que fazer. Sua mãe pegava as bolhas na mão e colocava no sovaco do filho. Banho tomado!

Agora vamos ver se ele está girando bem da cabeça. Tirei uma flor gigante do meu bolso e ele fixou o olho nela. Pra onde eu ia com a flor, ele olhava e sua cabeça acompanhava seu olhar. Ou seja, girando bem da cabeça.

- Tudo pronto pra você ir para o bloco cirúrgico, R. Vamos sentir saudade do seu sorriso!

Fomos nos afastando lentamente, o quarto já não estava com a gente, ele mirava nossos passos bem de longe. Chegamos ao final do corredor e ele ainda olhava. Já nem ouvíamos o que era dito dentro do quarto. Vimos sua mãe falar algo no seu ouvido. Logo em seguida, ele coloca a mão na boca e solta um beijo.

Dr. Marmelo e Dra Tan Tan (Marcelo Oliveira e Tamara Lima)
Hospital Barão de Lucena – Recife

Por trás da máscara…

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Dr Micolino

Todos os meses contamos causos que permeiam o universo da Besteirologia, nosso dia a dia no hospital, encontros e desencontros que vivenciamos nos corredores, enfermarias e UTIs. Dessa vez, gostaríamos de compartilhar o momento anterior, o antes, o instante que antecede a Besteirologia. Ou seja, o artista que está por trás daquela que é a menor máscara do mundo: o nariz do palhaço. 

Gostaríamos de compartilhar nossa vivência do “antes” por acreditar que todos temos diversos papéis e nem sempre pensamos na pessoa que está ali por trás, sua história, seus sentimentos, sua vida. Esse pensamento ocorreu ao chegar ao hospital, e eu (Dr. Micolino), ainda sem assumir meu papel besteirológico – apenas uma pessoa comum chegando para realizar o seu trabalho, depois de enfrentar um trânsito nada simpático e de batalhar por uma vaga de estacionamento – pensava que o dia estava apenas começando. 

Eu me dirigia ao hall de entrada do Hospital da Restauração quando me deparei com uma mãe que segurava seu bebê no colo. Um bebezinho lindo! E foi numa fração de segundos que meu olhar cruzou com o olhar do bebê e, como um imã, não paramos mais de olhar um para o outro. Por um instante pensei: “natural, eu sou um palhaço que trabalho com crianças e, bem…”, mas eu estava de cara limpa, nenhuma caracterização que me identificasse com o trabalho que estavas prestes a iniciar. Continuei andando e a troca de olhar não desgrudou. 

A mãe percebeu e comentou:

- Que engraçado, ele ficou olhando… 

A essa altura eu já havia diminuído o ritmo da minha caminhada, pois eu queria mesmo era prolongar aquele instante, tinha uma cumplicidade no olhar daquele bebê, era como se ele percebesse em mim aquilo que de fato sou: um palhaço. Eu me senti verdadeiramente tocado por aquela troca de olhares. Ao voltar meu olhar para a direção que seguia, me deparei com uma técnica de Enfermagem que vinha no sentido oposto ao meu, e ela também percebeu aquela cena. Na verdade acho que muitas pessoas perceberam! E ela então, sorrindo, me disse:

- Até vestido assim as crianças te olham! 

Pois é, até vestido assim! Enquanto o elevador subia, não parei de pensar no que tinha acontecido ali, naqueles longos segundos, “Até vestido assim…”, pensando em quantas pessoas passam por ali, e eu, justo eu, chamei a atenção de uma criança, que sabemos é quem mais sabe olhar verdadeiramente para as pessoas. É como se fosse um raio X, elas enxergam a verdadeira essência de quem somos, e “Até vestido assim…” aquele bebê foi capaz de ver quem realmente sou. Nesse dia trabalhei com um sentimento de orgulho muito grande por ser quem sou… Um palhaço!

Dr. Micolino e Dra Mary En (Marcelino Dias e Enne Marx)
Hospital da Restauração – Recife

Conversa de olhar

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Muitas vezes conseguimos conexões com pacientes que até a família duvida. 

Em uma das visitas à UTI do Instituto da Criança, as besteirologistas Emily e Xaveco Fritza se aproximam do leito de uma garota de 13 anos de idade. Logo a mãe se coloca, explicando que não adianta fazer nada porque ela não se comunica. 

Dra Emily insiste e diz que pode tocar um pouquinho de música. É o que fazem. 

conversa de olhar

Após observar a menina durante a serenata, Xaveco diz que ela se comunica sim:
- Você me acha bonita?, pergunta à menina.

A garota pisca os olhos. 

Xaveco para a mãe:
- Tá vendo? Com olhos ela disse que eu sou linda, maravilhosa e gostosaNão é verdade?, continua, olhando para a menina. 

A garota pisca os olhos novamente, mostrando que gostou da bobagem. A mãe se surpreende e sorri. 

- O que foi?, diz Xaveco para a menina – Ahh! Ela também disse que eu sou muuuito mais bonita que a Emily.  

Menina pisca.

Mas diante da indignação da Emily, Xaveco muda o rumo da prosa dos olhares, colocando-a como sendo uma pessoa apenas “simpática, quando fica de perfil”, deixando a besteirologista satisfeita com o quase elogio. Assim a conversa segue por mais alguns minutos, com a garota respondendo com seu olhar piscante. E a prosa termina com mais música pelo quarto.

conversa de olhar_

Claramente a mãe ficou feliz ao ver sua filha se comunicando, mesmo sendo um assunto completamente estapafúrdio. E pelo menos, naquele momento, o coração daquela pobre mãe se aliviou um pouquinho…

Dra Xaveco Fritza (Val de Carvalho)
Instituto da Criança – São Paulo

Um olhar recém nascido

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Uma das regras da Besteirologia – se é que ela tem regra – é que nós temos que ter nosso olhar sempre aberto para o novo.

Cada dia, cada momento, cada criança, cada “bom dia”, cada rotina, por mais rotineira que seja, temos que sentir tudo como se fosse a primeira vez. Temos que ter memória de peixinho dourado, que depois de três segundos esquece tudo e tudo fica novo de novo! Mas essa lição nós, besteirologistas, não aprendemos em livros. Onde encontrar?  

Eu (Dr. Marmelo) e a Dra. Mary En estudamos um final de semana inteirinho: ela no sábado e eu, no domingo. Aprendemos que a forma com que as crianças pensam, enfrentam seus problemas, nas suas brincadeiras, nas suas reações, nas mudanças de humor, na ingenuidade, o desejo de ter, de jogar, de experimentar, a ignorância do perigo, o desejo de abarcar tudo, seu imaginário e, especialmente, seu olhar para o mundo, é a maneira com que devemos encarar a Besteirologia!

Em um plantão dia desses, eu e Mary En nos deparamos com uma criança de poucos centímetros. Tinha acabado de nascer, estava no bercinho toda enrolada e toda meladinha… Vestígios do parto! Um ser bem frágil… E na Besteirologia, no palhaço, a fragilidade representa uma grande fortaleza!

Sua pele era seda pura, novinha em folha… Novo, tudo novo, a imagem era maravilhosa! Não sabíamos se era menino ou menina, mas quando questionamos, ops, surpresa! O movimento do bebê fez escapulir seu lençol… Era menina! E era tão inédita que não tinha nem nome fixado no leito.

A partir de agora, por alguns anos, o olhar dessa criança será de descobrimento, de curiosidade, olhar o que nunca foi visto o tempo todo. Enquanto a gente cantarolava uma música quase que em sussurro, o bebê desgrudou um olhinho, olhou para o mundo e… Olhou com bastante curiosidade para nós!

Precisa responder onde encontrar nossa fonte de estudos? O olhar da menina observava as coisas com tanta curiosidade que nos levou à nossa própria história, de quando nos sentimos assim, novinhos, despidos de toda e qualquer impureza, sem nada traçado, tudo por vir. Já dizia o filósofo Jostein Gaarder: A única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos é a capacidade de nos admirarmos com as coisas

Os bebês possuem esta capacidade, mas à medida que crescem, a perdem. Deste modo, podemos comparar um filósofo a uma criança: tanto um quanto o outro ainda não se acostumaram com o mundo e não pretendem se acomodar com as coisas.

Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Dra. Mary En (Enne Marx)
IMIP – Recife
Agosto de 2013 

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Rapidinhas do Santa Marcelina

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Fevereiro Fervereiro!  Senhoras e senhouros! Fevereiro começou fervendo! Eu, Dra Pororoca, e o Dr. Charlito, agora besteirologistas do Hospital Santa Marcelina, começamos contamos os fatos do mês:

O silêncio e o olhar 

B., um menino de olhos grandes e suave,s estava sozinho no corredor da Oncologia.

Ao perceber a nossa chegada, ele recuou; encostou-se junto à parede como quem quer ficar ali grudadinho, seguro. Ele tinha medo, estava só, mas também tinha curiosidade, interesse e nos acompanhava somente com o olhar. Em cada quarto que entrávamos, logo aparecia sua cabecinha curiosa na porta, querendo ver, descobrir, entender, mas sempre em silêncio, mantendo a distância segura!

Quando chegamos em seu quarto, onde nosso encontro seria inevitável, experimentamos nossas “pílulas voadoras de limpeza do ambiente” como uma tática de acesso e para nossa surpresa, ao ver uma de nossas bolhas, B. não hesitou e deu um chute, que imediatamente identificamos como um belo gol!

A comemoração foi imediata, ele mesmo se surpreendeu e todos vibraram com o feito. Mas o B. ainda continuava em silêncio, olhando e mantendo a distância segura para poder estabelecer uma relação. Quando saímos da Oncologia, ele, da porta do seu quarto olhava acompanhando nossa saída até o fim, virando o pescoço e esticando os olhinhos para nos ver sumir no corredor. Sempre em profundo silêncio.

….

E na hora do almoço: surpresa! B. estava lá com sua mãe, tinha recebido alta e ia embora pra casa. Seu silêncio agora sorria e até falava. Seja bem ido, menino B.! 

Ai ai ai, ui ui ui 

F., um garotinho da Pediatria estava chorando muito de dor.

Aaaai ai ai, dói muito, lamentava ele entre gritos e lágrimas.

Quando entramos em seu quarto, optamos por entoar o melô do dolorido. Era um tal de “ai ai ai” pra lá, um “ai ai ai pra cá” e no fim: pow!… A Dra Pororoca empolgada com a coreografia acertava em cheio o Dr. Charlito.

E o menino? Ele ria, mas ria tanto que parecia que ia acabar fazendo xixi! E claro, pedia bisDepois de algumas repetições tivemos que suspender o tratamento, porque todo mundo sabe que riso frouxo solta bexiga. Ai ai ai ai ai ai! 

Samba Lelê 

Tem bailarina no Santa Marcelina! S., uma menininha muito esperta, dançou com coreografia e tudo, para quem quisesse ver e ouvir a música Samba Lelê. Foi um espetáculo à luz do dia, com direito a aplausos de pé. Uma palma de salvas para ela!

Bem, senhoras e senhouros, esperamos que tenham apreciado nossas aventuras e que possamos compartilhar mais gostosuras. Que seja doce!

Dra Pororoca (Layla Ruiz)
Dr. Charlito (Ronaldo Aguiar)
Hospital Santa Marcelina – São Paulo
Fevereiro de 2013