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O espetáculo que criou um hospital dos nossos sonhos

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Chegamos ao final da temporada de estreia do Numvaiduê, o espetáculo de comemoração dos 25 anos de Doutores da Alegria. 

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Ficamos em cartaz em setembro e outubro no Teatro Eva Herz, em São Paulo, com 11 palhaços em cena. Foram dois meses de apresentação com, felizmente, casa lotada.

Além disso, passamos por dois meses de intensa criação e ensaios. E, antes disso, muito tempo para conseguirmos apoios e projetos para que o espetáculo saísse do papel para as nossas cabeças. 

Confesso a vocês que algumas vezes tive receio da estreia.

O processo de criação requer tempo e muitas coisas criadas são descartadas no produto final, um trabalho de abandono do ego de cada um dos palhaços, um eterno pensar no bem de um todo, e não só no individual. Aliás, fiquei muito feliz com o produto que resultou desse trabalho. Reflete e muito, na minha opinião, o que fazemos no hospital.

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Em nosso trabalho pontual, deixamos a graça de lado, algumas vezes, para vivermos momentos graciosos, onde o que interessa não é o riso por si só, mas um riso que possui qualidade na relação com o outro. No teatro, apresentamos para 200 pessoas e, no hospital, muitas vezes apenas para paciente e mãe.

A arte ajudando a entender a vida, em Bora.ai/Estadão
- Doutores voltam ao palco com elenco impecável, em Revista Crescer
- Numvaiduê, em Revista Veja
- Doutores da Alegria é indicação de críticos infantis, em Folha 

Como transportar esse encontro do leito para o palco? 

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Essa era a minha apreensão e acredito que de todos que participaram do processo. Como representar 25 anos de trabalho de todos os palhaços que já passaram pela instituição Doutores da Alegria? Como transportar para o palco as nuances das mudanças de 25 anos de trabalho? A delicadeza, o poético e o gracioso juntos, sem cair no piegas…? 

Acredito que conseguimos. No palco, saímos um pouco da graça do picadeiro, sem desvalorizá-la, e habitamos a graça hospitalar. Sensível, sem pressa, cuidadosa, com olhar apurado e música. 

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O hospital está lá: em cada seringa, garrote, máscara, luva, enfermaria, berçário, sala de espera…

Por sinal, como retratar uma sala de espera de hospital de uma forma leve, poética e teatral? Eu e Dr. Zequim nos trocamos todas as segundas e quartas em uma salinha colada à “triagem”, onde costumamos falar que se tivéssemos um botão de invisibilidade para passar por lá seria sensacional!

Sabemos que as pessoas que lá estão talvez não queiram nem ver uma dupla de seres estranhos. Dor e apreensão imperam no ar. E respeitamos isso, sem nunca desrespeitar quem tem interesse naquela dupla que por lá passa. Isso requer uma escuta e um olhar apurado e treinado para isso e, principalmente, calma.

Mas não só calma. Todos os dias visitamos as alas que passaremos antes de nos caracterizarmos. Isso nos permite saber se a “triagem” está cheia, vazia, confusa, violenta… E acredito que em Numvaiduê, a presença da “sala de espera” e/ou “triagem” é fundamental. E lá está ela, em duas cenas! 

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E não tem como deixar de agradecer a todos do Hospital M’boi Mirim que foram nos ver no teatro: médicos, enfermeiros, pessoas da Administração e muitos outros setores. Aos que não puderam ir, não se sintam tristes, pois foram muito bem representados.

E bem, há de haver uma nova temporada ano que vem!

Duico Vasconcelos, conhecido como Dr. Pysthollinnha,
escreve do Hospital do M"boi Mirim, em São Paulo.

O que é ser enfermeira

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Andei pensando muito sobre algumas semelhanças entre os palhaços e os profissionais de Enfermagem. 

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Enfermeiros e enfermeiras enfrentam batalhas intensas no seu dia a dia e nem sempre saem ilesos. E não digo só fisicamente, mas digo da alma e do coração.

Tem um poema muito lindo do grande mestre palhaço Picolino (Roger Avanzi) que diz o que é ser palhaço. Resolvi fazer uma homenagem aos profissionais de saúde, então mudei e adaptei algumas palavras. Depois de pronto, dei uma olhada novamente e me espantei com a semelhança dessas duas profissões tão distintas em alguns aspectos…

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Não vou dizer mais nada, esse poema vai falar por mim. Aliás, por vocês. 

Peço licença poética pois às vezes algumas palavras não rimam. Espero que gostem, pois é de coração e admiração! Ah, quero dedicá-lo à minha esposa enfermeira, Íris Lima.

 

“Eu quero explicar a vocês
O que é ser uma Enfermeira
O que é ser o que eu sou
E fazer isso o que eu faço
Ser Enfermeira é saber distribuir
Cuidados e bom humor
E com esforço auxiliar
O paciente espectador

Muita gente diz Enfermeira
Quando quer chamar alguém
E esse nome pronunciam
Com escárnio e desdém

E ao ouvir esta palavra
Outros sentem até pavor
Como se Enfermeira fosse
Criatura inferior

Mas de uma coisa fiquem certos
Para ser uma boa enfermeira
É preciso alma forte
E também nervos de aço

E além de tudo é preciso
Ter um grande coração
Para sentir isso o que eu sinto
Grande amor à profissão

   

A Enfermeira também tem
Suas noites de vigília
Pois lá na sua casa
Ela tem a sua família

Enfermeira, meus amigos,
Não é nenhum repelente
Enfermeira não é bicho
Enfermeira também é gente

Falo isso em meu nome
E em nome de outros enfermeiros e enfermeiras
Que muitas vezes trabalham
Com a alma em pedaços

Ser enfermeira
É saber disfarçar a própria dor
É saber sempre esconder
Que também é sofredor

Porque se a Enfermeira está sofrendo
Ninguém deve perceber
Pois a enfermeira nem tem
O direito de sofrer”

 

  

 

Sandro Fontes, mais conhecido como Dr. Sandoval,
escreve do Instituto da Criança, em São Paulo.

Quem tem medo de palhaço?

De vez em quando encontramos com alguém que tem medo de palhaço. 

N., uma adolescente de 13 anos internada no Hospital M"boi Mirim, tem medo de palhaço. Quando isso acontece, levamos em consideração a coulrofobia (sim, esse é o termo para quem tem um medo irracional de palhaço) e nos afastamos imediatamente.

Em boa parte dos casos, esse afastamento nos impede de interagir com os demais pacientes do quarto. Mas o caso dela foi levemente diferente. Vendo ou intuindo que os demais pacientes estavam, ao contrário dela, atraídos por nossas figuras, N. solucionou momentaneamente a questão escondendo-se inteiramente debaixo das camadas de lençóis e cobertores de sua cama.

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Não tivemos, portanto, que abandonar o quarto. Imaginamos que essa tolerância parcial dela em relação à nossa presença abriria caminho para que, em nossa segunda visita, pudéssemos incluí-la em nossa intervenção. Nada feito. Eu e Dr. Pistolinha aplicamos nossa besteirologia em toda a criançada do quarto, menos nela, que novamente parecia melhor acolhida – e protegida – sob as cobertas.

Na terceira visita, algo mudaria. Após nosso bate-papo de “cara limpa” com a equipe de saúde, vimos N. na brinquedoteca, acompanhada de sua mãe e das brinquedistas. Como sempre, ali da porta cumprimentamos a todos, e por todos fomos cumprimentados. Todos nos disseram “bom dia”, inclusive a menina. Será que ela não nos reconheceu?, nos perguntamos. 

– Eu sei quem são vocês, disse ela.
– Sabe? E não tem medo?
– Assim de cara limpa, não.
– Podemos entrar, então?
– Claro.

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E os quinze minutos seguintes se desenrolaram pacificamente sem que a sombra da fobia de N. pairasse no ar. A adolescente nos explicou que tem medo quando estamos maquiados, mesmo reconhecendo que as maquiagens são mínimas. Ela conseguiu abordar o tema do medo sem constrangimento. Disse que às vezes até ria embaixo das cobertas, mas que era impossível nos encarar como palhaços. 

Acontece que aquela visita, de cara limpa na brinquedoteca, aos poucos foi se tornando uma intervenção palhacesca. Mesmo vestidos “à paisana”, nossa interação tornou-se cômica e, a partir das reações da menina e dos demais presentes, nos comportamos como verdadeiros palhaços… Sem maquiagem… Sem nariz vermelho… E sem jaleco branco. Tudo isso foi tacitamente aceito e retribuído por risos e provocações. Saímos com uma sensação de “missão cumprida”, ou ao menos de “missão bem contornada”. 

Evidentemente, pensávamos com afinco em como seriam os encontros dali a pouco com a menina agora que já tínhamos quebrado o gelo e, mais do que isso, nos aproximado com certa profundidade de suas fobias. A única diferença é que agora estávamos como palhaços “oficiais”, maquiados e vestidos como tais. Enfim, um detalhe, concordam?

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Não sei como vocês imaginam que foi nosso encontro dessa vez. Um encontro entre coulrofóbicos e palhaços. Inusitado? Tenso? Descontraído? Indiferente? Hilário? Bem, não houve encontro. 

Assim que ouviu nossas vozes, nossos instrumentos musicais e nossas figuras de palhaço despontando no corredor, N. foi para debaixo das cobertas. Nos perguntamos, com certa decepção, se nosso contato prévio, de cara limpa, de nada tinha adiantado. Certamente adiantou para aquele momento franco e saudável na brinquedoteca. Provavelmente não se estendeu, como imaginávamos em um cenário ideal, para o momento posterior, de palhaço. 

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Da decepção passamos à resignação e, quem sabe, até mesmo à motivação. Afinal, estamos longe de atuar em cenários ideais. E mais uma vez aprendemos ao constatar que a fobia dos outros, por mais estranha que nos possa parecer, deve ser encarada com respeito e observação apurada. Não estamos tratando de questões racionais, lógicas e previsíveis. A menina nos ensinou isso. 

Nosso papel, se não é o de diminuir tal sofrimento, é, ao menos, o de não aumentá-lo. Ficamos longe delas. E de longe pensamos em como somos complexos, todos: ela, nós, você e eu.

Nereu Afonso, mais conhecido como Dr. Zequim Bonito,
atua no Hospital M"boi Mirim, em São Paulo.

E nossos jalecos se cruzaram

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Prepara o lencinho que lá vem declaração de amor <3

Sandro Fontes, mais conhecido como Dr Sandoval, homenageia Val de Carvalho, a Dra Xaveco. Ambos têm uma trajetória de iniciação de palhaço no circo e, depois de tantos anos trabalhando nos hospitais, finalmente formaram uma dupla para atuar durante todo o ano no Instituto da Criança, em São Paulo.

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Val de Carvalho foi uma das primeiras palhaças do país. E Sandro, que faz a declaração abaixo, aprendeu seu ofício no circo.

Fico muito feliz mesmo de estar compartilhando meu jaleco com você, Val. Temos uma trajetória em comum – o circo e a paixão pelo palhaço – e agora estamos juntos levando tudo isso para o hospital.

Vou aproveitar cada instante com você, pois temos muito para jogar, trocar, dividir, inspirar e emocionar, pois você, parceira, é uma grande MESTRA, de letra maiúscula mesmo, umas das maiores referências de São Paulo, quiçá do Brasil. 

Obrigado por nossos caminhos se cruzarem! Sinto no coração um misto de bobeira, orgulho, admiração, seriedade, respeito e muito amor quando estou atuando com você. Eu sei que você é manteiga derretida igualzinha a mim, que já tô até molhando o teclado do computador… 

Amor, carinho e respeito são coisas que estão fazendo falta nos últimos tempos. Por isso me declaro aqui, para que possamos continuar inspirando as pessoas a fazer coisas boas e simples. E essa é uma das inúmeras missões de um artista, não é? 

Pode parecer cafona, mas como você adora música, essa é pra você:

“Eu tenho tanto pra lhe falar ♪♫
Mas com palavras não sei dizer
Como é grande o meu amor por você
E não ha nada pra comparar
Para poder lhe explicar
Como é grande o meu amor por você”
 ♫♪

Tenho certeza que vai ser um ano de trabalho muito feliz… Para nós e nossos pacientes.

Um beijo do seu parceiro, 

Dr. Sandoval (Sandro Fontes)”

As pequenas tragédias e a vida do lado de fora

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Assim como a vida do lado de fora, a vida dentro de um hospital é repleta de pequenas tragédias.

Uma médica conta que certa vez dois vizinhos, amigos, brigaram e um deles deu um tiro no outro. Foi levado ao pronto socorro. Pouco depois o outro vizinho também chegou ao hospital, pois tinha ficado nervoso e enfartou. Os dois passaram um bom tempo na emergência, um ao lado do outro.

Na Grécia Antiga, as tragédias eram textos teatrais que nasciam das paixões humanas. Eram capazes de transmitir ao público as sensações vividas pelas personagens.

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Uma agulha que não encontra a veia, a despedida de um colega de quarto, uma criança enfrentando doença de gente grande. Somos capazes de sentir na pele.

Para um palhaço, as pequenas tragédias entram como alimento nos motores da criação, do improviso. Ele tem plena abertura para o que chega. Tudo o que acontece à volta do palhaço é considerado por ele, tudo pode ser ressignificado. As dificuldades são reconhecidas, transpostas e transformadas – nada é minimizado. E é com esse estado de espírito que o trabalho flui, trazendo contornos à realidade do hospital.

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Mas também há tragédias grandes. Tragédias que vêm do lado de fora.

Anas al-Basha era um sírio de 24 anos que atuava como palhaço em Aleppo. Ele era voluntário da organização não governamental síria Space of Hope e se apresentava para as crianças em meio ao cerco da cidade. Foi morto num ataque aéreo.

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“Ele se recusou a sair da cidade para continuar o trabalho como voluntário para ajudar os civis, dar presentes e esperança às crianças”, escreveu Mahmoud al-Basha, irmão de Anas. Assim como milhares de palhaços em zonas de conflito, Anas fazia da tragédia seu alimento. E, infelizmente, por ela foi consumido.

Nos últimos dias temos visto cenas e pedidos de socorro de crianças desta guerra. Sem muito poder fazer, a não ser clamar por uma decisão política que suspenda o reforço bélico das tropas, sentimos na pele.

Sentimos muito. E seguimos enfrentando, munidos de arte e humanidade, as pequenas tragédias do dia a dia.

O riso já foi proibido. E agora, o que é?

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Palhaços são freqüentemente apontados como profissionais do riso.

Fazer rir… Bem, seria como bater uma meta. Talvez isso remonte ao bobo da corte, ancestral do palhaço, cujo ofício era entreter o rei e sua corte. Mas o riso tomou muitas formas e significados ao longo da história da humanidade, sempre associado à cultura local.

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Na Idade Média, o riso era controlado, excluído dos ritos oficiais. As autoridades, os religiosos e os senhores feudais defendiam a seriedade como atributo da cultura oficial. Rir era quase proibido, era “coisa de bruxa”!

Rir era subversivo, era um ato de rebeldia, uma característica essencial da cultura popular – e, por isso, vulgarizado. Havia espaços para o riso: festas populares, carnavais de rua, becos… Era um bom remédio contra a opressão e um canal de expressão de liberdade. 

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Durante o Renascimento, o riso toma outras proporções, entra na grande literatura – como em Shakespeare –, trazendo concepções a respeito do homem, da história, dos problemas universais que afligiam a humanidade. Surge como humor, ironia, sarcasmo.

Para Mikhail Bakhtin, o riso é um instrumento de combate ao autoritarismo, à intolerância e à falsa moral da sociedade. Bakhtin também fala da paródia… E aqui voltamos ao palhaço!

A paródia é uma releitura, uma reinterpretação cômica que usa da ironia para subverter a ordem pré-estabelecida, fazendo uma sátira da realidade. Quando o palhaço entrou nos hospitais, lá nos anos 90, fazia uma paródia da figura médica: o Doutor da Alegria.

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Era um sujeito com um jaleco cheio de cacarecos, uma aparência questionável, entendido de Besteirologia, sem autoridade nenhuma e fadado ao erro. Uma releitura do médico.

Para os pequenos pacientes, uma incrível brincadeira que quase sempre terminava com o besteirologista se dando mal. Isso quebrava a resistência à figura médica e tornava a experiência no hospital menos tensa. O riso transformava as relações entre as pessoas em um ambiente duro como o hospital.

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Atualmente há muitos estudos sobre o riso e sua função na sociedade pós-moderna. Qual seria, hoje, o lugar e a função do riso no hospital?

Sim, continuamos nos questionando se a paródia se mantém ou vem dando lugar a outras formas de manifestação social. O que você acha?

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Primeira mesa do Encontro Nacional discute o palhaço e traz tendências

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Centenas de pessoas deixaram o feriado de lado para refletir e praticar o palhaço em três dias de encontro propostos por Doutores da Alegria.

O 4º Encontro Nacional de Palhaços que Atuam em Hospital teve início ontem, dia 12 de novembro, e segue até o dia 14 em São Paulo. Na programação há mesas de discussão, oficinas e intervenções artísticas para grupos de todo o Brasil que usam a máscara do palhaço para atuar em hospitais.

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Neste encontro vamos discutir o compromisso com o trabalho, sua profissionalização e como formar uma rede engajada”, conta Raul Figueiredo, tutor do programa Palhaços em Rede. Ele introduziu o primeiro dia de debates com a mesa “Contexto e tendências da ação do palhaço na atualidade”.

A psicóloga e pesquisadora Morgana Masetti trouxe reflexões que estão sendo debatidas mundo afora. falou sobre doenças do mundo atual, felicidade e relações afetivas. “A doença e a tristeza, que fazem parte da experiência humana, começam a ser vistas como desnecessárias na humanidade. Elas tentam ser silenciadas. Os sintomas falam alguma coisa da minha ligação com o mundo, e eles precisam ser entendidos, não silenciados.

Morgana também trouxe a ideia do palhaço como meio, não um fim. “O palhaço ativa algo em mim que me faz querer chegar em algum lugar. Como trabalhar essa energia que o palhaço mobiliza em mim?”, questionou ela.

A discussão seguiu com Thais Ferrara, diretora artística do Doutores da Alegria, que falou sobre humanização e sua trajetória até virar política pública. “O palhaço virou ícone da humanização, mas quando decidimos entrar no hospital, nossa proposta era completamente artística, humanização sequer passava pela cabeça. Com o passar dos anos nosso objetivo artístico foi sendo colocado a serviço da humanização”, conta ela.

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“A humanização se pautou no movimento feminista, quando a saúde da mulher veio à tona e começaram a ser criados programas como mãe canguru, hospital da criança, aleitamento materno, alojamento conjunto. Com o tempo entenderam que era preciso democratizar as práticas, dialogar com o paciente e, principalmente, partir da gestão”, finalizou.

A seguir Daiane Carina apresentou um dos temas mais importantes do encontro: o novo marco regulatório, que regulamenta, traz regras e obrigações às organizações do terceiro setor.

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“A lei surgiu por uma convergência de fatores: ausência de uma lei especifica para regular o setor, falta de planejamento, monitoramento, ausência de dados sistematizados e pouca capacitação”, conta ela. O principal objetivo do marco é dar mais transparência para as parcerias realizadas com o governo – algo que teve evidência em 2007, durante a CPI das ONGs.

Segundo Daiane, o terceiro setor já alcança 5% do PIB brasileiro e tem migrado do assistencialismo para um campo profissional. “Para prestar um serviço para pessoas em situação de vulnerabilidade social, será preciso se constituir como organização e ter um diagnóstico da realidade onde você vai atuar, ter planejamento e indicadores das suas ações”, conta ela.

A mesa encerrou com Nando Bolognesi, que esteve no elenco do Doutores da Alegria por cinco anos e trouxe um olhar para a função social do palhaço. “O palhaço tem uma capacidade de se disfarçar e de se apresentar como uma figura diferente do que é, um tipo difícil de identificar porque a primeira camada que aparece é a camada fofa, simpática, confiável, mas o palhaço é subversivo, é político, e isso não é uma opção, é uma condição”, conta ele.

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A manhã encerrou com uma intervenção surpresa do palhaço Klaus, criado por Márcio Douglas, do elenco do Doutores da Alegria. Ele provocou os participantes, trazendo uma versão diferente da máscara do palhaço.

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Eles chegaram

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A semana começou com a sede dos Doutores da Alegria cheia. Cheia de jovens de vários cantos, de olhares curiosos.

Vinte e cinco pessoas que decidiram que, pelos próximos dois anos, dissecarão a linguagem do palhaço, aprendendo sobre cada peculiaridade dessa figura. Os ingressantes no Programa de Formação de Palhaço para Jovens têm entre 17 e 23 anos e foram selecionados em um longo processo, que envolveu análise de currículo, oficinas práticas e visitas de assistentes sociais (este último por se tratar de um projeto destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade social).

Eles foram recebidos por ex-alunos do programa, que fizeram questão de dedicar sua manhã para a recepção dos novatos. E o que aconteceu? Veja só:

Bem-vindos

Os palhaços formados se espalharam pelas ruas, indicando o caminho até a nossa sede.

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Senta que lá vem história

Uma conversa de abertura do curso. De onde viemos? Pra onde vamos? O coordenador do projeto, Heraldo Firmino, explica tudo.

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Aula trote

Os novatos acreditam que estão participando de uma aula séria quando, na verdade, se trata de uma brincadeira. Olhares atentos, desconfiados. Quem comandou tudo foi Edgard Tenório, assistente da Escola.

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Os ex-alunos reaparecem e novamente dão as boas-vindas. 

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E começa uma divertida gincana entre eles, uma oportunidade pra se conhecerem da melhor forma: brincando!

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Apadrinhamento

Cada novato foi apadrinhado por um ex-aluno. Rolaram presentinhos e muitos conselhos.

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Queridos alunos, que estes sejam anos especiais pra vocês! Bora estudar!

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Doutores recomenda: Antes do dia clarear no Espaço Parlapatões

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Diz a lenda que depois da meia noite não se pisa no picadeiro do circo!

É que o lugar é reservado aos ancestrais circenses para que possam fazer seus espetáculos…

Com base nessa tradição, os artistas David Taiyu e Sandro Fontes, integrantes do elenco do Doutores da Alegria, trazem ao palco pela Cia 2dois a história de dois homens que silenciosamente invadem um grande circo antigo na calada da noite, revelando o universo mágico dos palhaços e uma forte relação de amizade.

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O espetáculo Antes do Dia Clarear traz para a cena reprises, truques e segredos dos antigos palhaços de circo, sua ingenuidade e música para adultos e crianças. Reflete sobre as diferenças e conflitos com muita graça, beleza e poesia e traz diversas gags e esquetes musicais, com trilha sonora assinada por Fernando Escrich e músicas de Nino Rota, compositor dos filmes de Federico Fellini.

O espetáculo está em cartaz em fevereiro no Espaço Parlapatões, em São Paulo. As apresentações ocorrem aos sábados e domingos (até 28/02) com ingressos a R$ 30 e R 15 (meia entrada).

Doutores recomenda!

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SERVIÇO

Antes do Dia Clarear
De 13 a 28 de fevereiro, sábados e domingos às 17h
Espaço Parlapatões | Praça Franklin Roosevelt, 158 – Consolação – São Paulo
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia entrada) no ingressorapido.com.br ou na bilheteria
Elenco: David Taiyu e Sandro Fontes (Cia 2dois)
Direção: Fernando Escrich e Ronaldo Aguiar
Trilha sonora: Fernando Escrich com músicas de Nino Rota
Duração: 55 minutos

Enfim, formados

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24 jovens são agora artistas com formação na linguagem do palhaço. Palhaços profissionais.  

E eles saem da Escola dos Doutores da Alegria, após dois anos intensos de formação, para ganhar o mundo. Além da técnica, esses jovens trazem uma bagagem crítica e reflexiva essencial para o pensamento artístico. Foram mais de 1.800 horas de aulas diárias na sede da ONG.

Assim como as cinco turmas anteriores, os jovens do Programa de Formação de Palhaço para Jovens continuam conosco em um terceiro ano de acompanhamento. Tão perto, tão longe.

Na última semana, seus familiares foram convidados para uma noite emocionante em nossa sede, celebrando a sua formatura. Os festejos começaram com uma divertida apresentação dos formadores da Escola, que acompanharam toda a trajetória dos alunos.

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Logo após, Wellington Nogueira, fundador da ONG, falou brevemente seguido de Heraldo Firmino e Daiane Barbieri, coordenadores do programa. Todos destacaram a importância de uma profissão como a do palhaço.

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“Hoje temos a alegria de colocar mais uma turma no caminho lindo que é a arte. Lindo e ao mesmo tempo muito sério, porque como diz o filósofo, quanto maior o conhecimento, maior a responsabilidade… Dividimos muitas coisas nestes dias em sala de aula e muitas vezes fora dela e somos hoje, e posso dizer com muito orgulho, colegas de trabalho! Unidos por um pensamento que nos faz seguir adiante! Hoje fechamos um ciclo e olhamos pra frente carregando tudo que foi conquistado até aqui”, iniciou Heraldo Firmino sob os olhares atentos e emocionados da plateia.

“Jovens palhaços, aprendemos muito com vocês, muito mesmo! Dividimos uma vasta beleza de olhares, compartilhamos paixões e mistérios imperfeitos. O palhaço é recheado de tudo o que se possa imaginar, sua lógica desafia a lógica vigente porque questiona o que todo mundo julga estar correto e aponta outro olhar. Quero agradecer aos pais, familiares e amigos por confiar seus filhos ao nosso convívio, por acreditar no sonho deles e, mesmo às vezes não concordando, respeitar, pois no fundo o que qualquer pai e mãe querem para seus filhos é que sejam felizes. Por que nossos filhos não podem querer uma coisa diferente pra sua vida? Podem e devem!”, finalizou.

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O aluno Guilherme Wander fez um belo discurso em nome da sexta turma. O texto foi escrito pela também formanda Fernanda Lopes. Ele relembrou momentos marcantes do curso, agradeceu aos formadores e mostrou ansiedade pelo que vem pela frente.

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Antes da entrega dos canudos, houve a exibição de alguns vídeos feitos pelos próprios alunos, além de um filme especial sobre a circulação do espetáculo “Enfim, sãos” produzido pela formadora Roberta Calza.

A noite terminou com os jovens artistas devidamente diplomados e prontos para encararem o mundo sob a lente do palhaço. Veja as melhores fotos da formatura.

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Viva! E que venha a nova turma!