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A cidade e o feminino, por uma jovem artista

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Todos os dias, pouco mais de 20 jovens circulam pela nossa sede, em São Paulo.

Pela manhã, têm aulas de palhaço: aprendem, praticam, refletem, trocam experiências. De tarde, alguns se vão. Outros permanecem e continuam o treino: arriscam um instrumento musical ou um devoram um livro

Uma destas jovens é a Jéssica Ferreira, que mantém a prática da escrita com um olhar muito sensível, crítico e poético.

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Cidade e Feminino

“Olha lá. Sentada no banco da praça, perdeu a dignidade, coitada. Olha lá, se despindo na praça do centro, colocando pra fora peito, bunda, sujeira, calor, grito de quem tá calada faz tempo. Olha lá, olho perdido olhando pra nada, olhando pra tudo. Olha a angústia, olha. Vê? Deixo a minha dor, deixo a voz, deixo história interrompida. Deu tudo que tinha, se deu e deu alma, deu corpo, deu pro tempo, deu pra esse, deu pra aquele, deu pra rua, deu pra nunca mais se ter. Mulher perdida na praça sem roupa, esse olhar você não aguenta. Agora tá dançando, olha lá. Bota a mordaça.

Na esquina, amontoada com saco, bolsa, roupa, pombo, passado, fome e caderno e caneta na mão desenhando o labirinto perdido há tempo. Desenhando passado, desenhando história desenhando luta e grito e dor, de quem foi, mas não é mais. Concentração na ponta da caneta, concentração no toque do papel, ignora a multidão que passa, e passa. E ela? Ela fica. Ela tá aqui esperando o outro dia chegar. Não. Ela tá aqui desenhando labirinto, ela tá aqui agora, só agora. Mulher na rua, fedida, perdida, desenhando labirinto, a se organizar. Êta.

Jogada em qualquer canto da cidade, jogada no papelão da carne, da carne que come, da carne que deita no papelão da carne, que se aquece no papelão da carne, que mija no papelão da carne. Sentada com a criança no colo, peito de fora, peito que amamenta e que homem não tem. Homem não alimenta. Cabelo desgrenhado, corpo suado, sujo. Mão estendida, olhar selvagem. Criança pequena, moleque que vai crescer moleque já tá no mundo, moleque com fome. Olha lá, se desenhando os muros bem na frente do moleque.

A cidade é amontoado, é amontoado de coisa e acúmulo, acúmulo de coisas, de capital, de sujeira, de lágrima seca, de palavra não dita. Então diz pra mim, diz pra mim no meio disso tudo, diz que você me respeita, diz que você me vê, que me reconhece. Diz que vai me deixar andar, diz que vai me deixar falar, diz que não vai ser escroto, diz que não vai pisar na cabeça dela quando ela estender a mão. A cidade engole e abriga, ao mesmo tempo. Protege e expõe, mas não defende.”

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Há oito anos, só sei que nada sei

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Quase oito anos de Besteirologia separam este relatório dos dias atuais.

É que a Dra Lola Brígida, que fez curso de Medicina por telefone e é especialista em alopatia, alôpávó e alôpámãe, escreveu o texto em 2009, quando trabalhava no Hospital Santa Marcelina, na zona leste paulistana.

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E como recordar é viver, entre outros clichês, nada melhor que reviver sua descoberta no campo da ciência íntima, psicológica e neurológica. Com vocês: Só sei que nada sei”

Só sei que nada sei

Já dizia o filósofo: Só sei que nada sei. Mas o que é o saber?
Saber ou não saber, eis a questão.
E a questão sempre antecede a boa resposta.
Uma boa resposta depende muito do tamanho do buraco que se tem no pensamento.
O pensamento parece uma coisa à toa, mas a gente voa quando começa a pensar.
Voar, voar, subir, subir. Tudo que sobe, desce. Na descida, escorreguei. Escorregando bati a cabeça.

A cabeça é a parte superior do corpo dos animais bípedes onde se situam normalmente o encéfalo e os órgãos dos sentidos da visão, audição, olfação e gustação.
A gustação muitas vezes causa água na boca. A boca não pensa; mastiga e beija.
Beijar é o ato de tocar com os lábios alguém ou alguma coisa fazendo uma leve sucção.
Sucção é o ato ou efeito de sugar. Sugar é o verbo preferido dos políticos corruptos.
Não se deixe corromper, já dizia minha avó.

Minha avó fazia um delicioso bolo de chocolate. O chocolate é o alimento preferido das mulheres na TPM.
A TPM já causou muitos divórcios. O divórcio é bom para quem quer trocar de marido.
Um marido é um namorado aposentado. A aposentadoria é o descanso de quem pode.
Quem pode, pode; quem não pode se sacode.

Sacudindo o corpo a moleza vai embora. Eu fui embora, meu amor chorou.
O choro é o alívio da dor. A dor possui quatro aspectos essenciais: localização, periodicidade, tipo e intensidade.
Intensidade é substantivo feminino singular. Singular é sinônimo de único. Único é o sapato do Doutor Mané.
O Doutor Mané foi pego pela carrocinha. A carrocinha leva cachorros abandonados ou semelhantes seres para a gaiola.
A Gaiola das Loucas é um filme que eu não vi.

Eu não vi o sapo na beira do rio de camisa verde morrendo de frio.
Frio é o clima que tem feito lá pras bandas de Itaquera.
Itaquera é um vocábulo tupi guarani. Ou tupi guaraná. O Guaraná Jesus é cor de rosa.
Rosa é a flor do amor. O amor é tudo o que sei e o que eu não sei.
Saber ou não saber. E chego à dura conclusão, meus coléguas:
Só sei que nada sei.  

Com essas humildes palavras pretendo ter provado a vocês a complexidade do complexo neuro psicológico de natureza íntima de um ser que possui não muito mais que dois neurônios em sua caixola. 

Dra Lola Brígida (Luciana Viavaca)
Hospital Santa Marcelina – São Paulo

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Flores e beija-flores

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Tem coisas que ouvimos que tocam tão fundo que parece que foi a gente que pensou!

Os hospitais que tratam crianças com câncer não podem ser percebidos somente pela crueldade da doença, pela dor que a perda nos gera com cada criança que vira estrela, cada criança que se cura; mas também pela poesia que permeia toda essa realidade e nos dá cada vez mais ganas de continuar.

Fotografia dos Doutores da Alegria no Hospital do Campo Limpo/SP.

Poesia que vemos na importância consciente de cada pessoa que cruzamos nos corredores do hospital, nos escritórios, na cozinha, nos consultórios, nas portarias. O olhar dessas pessoas está lotado de poesia!

Tem poesia também num parceiro de trabalho que se emociona quando uma mãe chora na UTI pelo simples fato de estarmos ali. Ele, mais do que ninguém, sabe que a nossa cirurgia é poética.

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Palavras têm que fazer sentido e, cotidianamente, ficamos presos na obrigação do sentido das palavras e atropelamos o silêncio que fala muito.

Crianças são passarinhos! Crianças somos flores!

A pequena C. desabrocha como a flor mais linda quando nos vê, viramos clorofila! M. me poetizou num fato lindo, um acontecimento histórico, mas ainda é segredo e não posso dizer, se você olhar nos meus olhos e nos do Dr. De Derson você descobre… Palavras estimulam a curiosidade. O silêncio revela.

Às vezes passamos montados em cavalos de nuvens, às vezes como uma bateria de escola de samba. Temos que perceber com muita delicadeza esse universo poético.

“O mundo está um caos” ouvimos, lemos e assistimos num barulho ensurdecedor, diariamente. Precisamos descobrir silêncios ativos para transformar a nossa vontade e realidade de um mundo mais poético e simples!

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Precisamos aprender a ver a vida como a K., que desafia todas as dores quando se abre para sorrir, e contagia sua mãe, que jamais vai desistir de lutar, mesmo sem o uso das palavras.

O mundo está triste com terrorismos, doenças, ganâncias políticas…

Sejamos o antídoto, sejamos mais poesia!

Dr. Daduvida (David Tayiu) 
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo

De lá pra cá

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Às vezes queria ver, tocar e acariciar o tempo. Essa bola flutuante no espaço chamada planeta Terra parece que está girando mais rápido…

Trabalhei no Hospital da Restauração em 2012. Agora, três anos depois, volto a fazer visitas na companhia do Dr. Eu_zébio. 

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De lá pra cá, muita coisa aconteceu. Vi o tempo passar nos vigilantes, nas batas dos médicos, nos sapatos dos técnicos, na brinquedoteca, no olhar da copeira, na voz que sai do elevador indicando o andar. E para completar, tem muito celular, que os pacientes teimam em ligar, achando assim que vão nos mirar. Não sabem eles que estão deixando pra depois o nosso singelo olhar, isso teimei pra acreditar!

Ah, as pessoas passam, vão e vem! O tempo as faz caminhar. Umas foram pra casa, outras mudaram de estado, umas viraram borboleta. Outras ficaram aqui, mas o tempo também ficou com elas. 

Vi o tempo em mim também. Estou de barba e já apareceu um fio de cabelo branco. Minhas roupas também encolheram. É que fui crescendo, crescendo e quando vi…  Já o Dr. Eu, nem sequer um fio apareceu na sua cabeça. Ah, mas sua careca tá mais iluminada!

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A pequena E., criança que conhecemos desde que tinha 2 anos, hoje está com cinco. Muita coisa mudou na vida dela. Ela agora está falando e virou chefe da “gangue da UTI”. Também mudou de leito. Está mais próxima da janela, e de lá observa toda a avenida, cheia de pessoas apressadas. É que vivem sem tempo. A E. também ganhou um carrão e uma motorista particular – uma cadeira de rodas que serve pra sua locomoção pelo hospital.

Seu cabelo está maior, seus dentes de leite tomaram toda a boca. Também ganhou um senso muito bom pra moda! Vive falando que as roupas do Dr. Eu estão folgadas. Também não gosta que ninguém chore perto dela, logo sai da sua boca o comando:
- Engole o choro!

Por sinal, nunca vi uma lágrima dela. Revelou pra gente que está de namorico com dois pacientes da UTI do Hospital da Restauração, mas que eles ainda não sabem… E eu, Dr. Marmelo, continuo encalhado buscando um amor que faça marmelada e dance uma boa lambada!

E se a gente atrasa, perde o tempo de vista, a pequena E. reclama:
- Onde vocês estavam?

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Com o tempo ela foi aprendendo os dias de nossa visita, que são todas as segundas e quartas-feiras do mês. Bom, querida E., o tempo passa pra todos nós e com ele vem nossas mudanças… Olhando hoje para o hospital, você, eu (Marmelo) e Dr. Eu, me vem à cabeça um poema de um grande escritor português, Fernando Pessoa: 

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas,
que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado,
para sempre, à margem de nós mesmos.”

Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

Da criança que ele é


As besteirologistas Xaveco Fritza e Juca Pinduca foram alertadas sobre um caso delicado na Pediatria do Hospital do Mandaqui.

O menino D., de treze anos, estava internado. Por causa de um acerto de contas entre traficantes, ele apanhou e levou tiros na perna. Ele trouxe consigo todo o peso da tragédia de sua vida, não somente pelo estado clínico que se encontrava, mas principalmente pelo linguajar, com muitas frases obscenas, palavrões e ameaças.

Munidas de música, poesia e bobagens, as palhaças entraram em seu quarto, que estava bastante pesado para as outras três crianças, mais ou menos da mesma idade, juntamente com seus acompanhantes.  Todos apavorados com a situação.

As duas sabiam que atrás daquela fúria existia um olhar de criança escondido. Esta era a única certeza que elas tinham e com isso trabalharam. Após muitas palavras de recusa, D. se escondeu nas cobertas. Até que… 

Ei! E aquela gaita nas costas dela? – perguntou ele para a Dra. Xaveco, que logo respondeu:

Não é gaita, é um acordeon. Uma sanfona… Quer ver?

Posso tocar?, disse ele.

Você sabe? 

E ele, orgulhoso demais para dizer que não sabia: Sei!

A besteirologista então propôs um teste e disse que, se ele passasse, poderia tocar no forró junto com elas. Ele achou o absurdo engraçado, esboçando pela primeira vez um sorrisoA Dra. Pinduca entregou a ele o acordeon e ajudou com os acordes. O menino se entregou totalmente à curiosidade daquele som. Após saciar a sua vontade, como criança inquieta que é, disse que queria tocar o outro instrumento. 

Esta é uma clarineta. Você não pode tocar porque tem de colocar a boca aqui e eu já fiz isso, entendeu? Podemos fazer uma serenata se você aplaudir no final. Topa? 

Diante da promessa de aplausos, elas prepararam um pequeno palco com as escadinhas da cama e tocaram como se estivessem em um grande concerto. E estavam mesmo… Quando a música terminou, todos aplaudiram, inclusive o menino!

Exageradamente emocionadas com o suposto sucesso do concerto, as besteirologistas distribuíram autógrafos nos seus bloquinhos coloridos com frases absurdas, porém amorosas. Antes de sair do quarto, a Dra. Xaveco viu o menino arrancando um pedaço de esparadrapo do seu curativo. 

O que você está fazendo?, perguntou ela.

Quero colar essa lembrança aqui na cama, disse olhando o pequeno papel com muito carinho. Apesar de todo o contexto social que o embalara, D. era uma criança envolvida em um momento de sonho e poesia.

Dra. Xaveco Fritza (Val de Carvalho)
Dra. Dona Juca Pinduca (Juliana Gontijo)
Hospital do Mandaqui – São Paulo
Março de 2013