Além dos hospitais: um relato sobre uma vida de luta na pele negra

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Quando optamos por estar em hospitais periféricos, sabíamos que nos depararíamos com uma realidade bem diferente do que encontramos em hospitais privados nos grandes centros urbanos. 

Estas áreas de fronteira são habitadas, em geral, por uma população negra e pobre, destituída de seus direitos básicos. Pessoas que atravessam a cidade, todos os dias, para trabalhar em empregos refutados pela população mais privilegiada. E neste cotidiano sofrem com a discriminação velada, por vezes negada, em função da cor de sua pele. 

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“As diferenças entre brancos e negros estão nas estatísticas sobre educação, saúde, emprego e várias outras áreas, mas em nenhum outro lugar ela é tão clara como na geografia e na distribuição de raças. A casa grande e a senzala seguem firmes e fortes, mas agora aparecem como centro e a periferia”, conta o repórter Rodrigo Bertolotto em matéria especial sobre racismo.

E mesmo alcançando posições de prestígio na sociedade, estas pessoas precisam lutar para reiterar suas conquistas. Dando continuidade à série sobre racismo, convidamos o ator, diretor, dramaturgo e educador Heraldo Firmino, coordenador do Programa de Formação de Palhaço para Jovens da nossa Escola, para falar sobre essa experiência – ou, como ele mesmo diz, “sobre essas marcas profundas, que vão sendo reeditadas na pele todos os dias”. 

Pra quem se interessar pelo tema e pela luta, no próximo dia 11 de novembro, sábado às 15h, Heraldo participa de um evento sobre a presença negra na comicidade no Sesc Santo Amaro, em São Paulo. Mais informações aqui.

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“A tempo”, por Heraldo Firmino

Neste escrito fui misturando, propositalmente, o que sinto e o que sentimos.
No fim, é um pouco da história dos negros e negras em luta. Por apenas ser, só isso. 

A tempo de perceber, após 50 anos de existência, alguns porquês. A pele negra nos fez e faz passar por tantas coisas cruéis, injustas, desnecessárias, desagradáveis. “Aquilo que não mata, fortalece”. Sim, e deixa mais cascudo, bravo, com raiva, beligerante.

A sensação cotidiana é de estar em um lugar que não lhe pertence ou, pelo menos, que não querem que pertença. De olhar em volta e não se reconhecer ou tentar um reconhecimento onde não há. Ter uma condição ruim normatizada pelo sistema e reproduzida até por aqueles que nos querem bem, mas que também não enxergam. Assim é durante muito tempo, ficamos quietos e muitas vezes aceitando calado o destino, à sombra da sociedade, comendo pelas beiradas e continuando a viver. Viver? 

Durante muito tempo nos enganamos pensando que fazíamos parte, que éramos da turma, que estávamos na onda. Ilusão. A arte, aqui, nos aponta um caminho, nos coloca frente a frente com a situação. Questionei e questiono agora até esta arte. Há algum tempo fui beber na fonte dos derrotados, dos esquecidos, dos de menos valia. O conhecimento em curso me coloca em cheque, convicções caem às pencas, livros lidos agora são uma grande face maquiada que perde a cor, desbota, está bem borrada. É catastrófico por que é tudo o que sei, tudo o que aprendi. Por outro lado, abre um novo mundo de possibilidades. 

Agora, me cabe recuperar este mundo sequestrado de maneira tão vil, deixar emergir dentro de mim o melhor dos dois mundos. Uma tarefa dificílima, já que os meus pares simplesmente ignoram ou, por tão sensíveis que são, estão no máximo empáticos a esta atualização. Não falam, mas percebemos a estranheza com que somos ouvidos, as atitudes, a vontade de falar determinados assuntos e ter sempre uma comparação com alguma situação vivida por outro, como se esta situação tivesse alguma semelhança. Eu percebo que, quanto mais me aprofundo, mais distante vou ficando. É sufocante, não consigo explicar o que é inexplicável, só quem é, sabe. 

Sei que tentar entrar neste mundo pode ser muito dolorido, porque talvez as pessoas sintam um pouquinho do que temos que carregar diariamente. Nunca saberão, mas poderiam tentar, tenho certeza que é mais confortável ser favorável à causa porque, para muitos, é uma questão de princípios. Mas, ao virar a esquina, nossos mundos se separam. Sei que muitos nem estarão com outros como nós. Amanhã, talvez, quando nos encontrarmos em um fraterno abraço de bom dia. 

A tempo, continuo me aprofundando, entendendo que este não é um problema de negros e negras, ele é de toda sociedade. E visto deste lugar, porque tantos soldados apostos, e tão poucos dispostos a ir para o campo de batalha? Cansaço. Acho que a palavra mais apropriada neste momento. Não somos exóticos, aparentamos ter a idade que temos, vivemos nos mesmos espaços que você, mas somos tratados de maneira diferente. Seu olhar condescendente não ajuda, de diferença também não. Tampouco achar que somos iguais perante a sociedade, os governos, as instituições, o mundo. Saiba que não queremos nada, na verdade, só igualdade, só escuta sem interrupção, sem julgamentos. 

A cada esquina que viramos, tem uma pessoa que muda de calçada. Durante o dia, com o sol rachando, as pessoas nos olham passeando com nossa família e logo vem alguém oferecendo comida ou uma roupa velha para nossos filhos. Somos mal atendidos nos restaurantes, seguranças se movimentam e falam no rádio quando entramos em um mercado, banco ou qualquer um destes lugares. Ou somos parados pela polícia, na frente da nossa própria casa, e somos indagados sobre o que estamos fazendo ali. 

Ser tratado como bandido, e ter que fazer o jogo do policial porque não tem ninguém vendo, “ninguém vendo”, e posso ser rapidamente jogado dentro de um camburão porque eles não foram com a minha cara. Desde criança tenho medo da polícia. Fui maltratado naquela época, depois e agora ainda corro este risco e meus filhos também. É um lugar bem ruim de ficar, sempre alerta e sempre alerta mesmo! Dia desses, meu filho foi chamado de negrinho porque olhava uma vitrine, um brinquedo… Um brinquedo… A vontade era de… Ficou no pensamento… O ódio não pode ser a resposta para o ódio. Um gosto amargo fica na boca, quando parece que vai sair, acontece de novo, e de novo, e de novo… 

A tempo, sei que há vinte e cinco séculos esta opressão racista vem sendo construída e que está longe de ter uma solução. A desconstrução vai muito além de querer discutir posições neste momento. Atenção aos fatos, acredito que seja um bom caminho.

Um grande roubo da dignidade, dos afetos, das crenças, da arte, da cultura, das origens. E o que não é extinto, é absorvido sem dar a menor importância aos verdadeiros criadores, coisas banais que foram dadas ao mundo como a filosofia e o início do mundo “civilizado”. As mentes mais brilhantes que já andaram na terra vêm do Egito antigo, e eles eram negros. 

A tempo de perceber a grande alegria de ser, onde ser, com quem ser, sem ser invisível, sem ser vulnerável, ser menosprezado, sem ser julgado pelo fenótipo (aparência). A tempo de olhar nos olhos e ver que alguns (muito poucos) começam a enxergar, e a proximidade cria uma espécie de irmandade que é percebida em uma troca de olhares.

A tempo de perceber que é uma desconstrução difícil, porque o mundo é constituído assim, e que a maioria das pessoas vai achar muito cansativo, dolorido, psicologicamente aterrador, e talvez seja mais simples fingir que não aconteceu, não está acontecendo e não vai acontecer. 

Mas existe a ciência de saber e a escolha de esquecer, e você sabe! Sabe, porque não se importa se seu filho vai à escola “paga” e lá não haverá os filhos da diáspora africana, não se importa de viver num ambiente de trabalho e não ter parceiros de trabalho que tenham pigmentação da pele mais escura que a sua, e também acha normal que, quando eles aparecem, estão na condição de serviçais e são praticamente invisíveis. “Na boa”,um sorriso e bom dia, apenas, não muda muita coisa. Talvez não se importe, porque passou por muitas coisas na vida também e tem muita história triste pra contar. É a vida,e todos passaram por isso, mas ouvir isso não ameniza a falta de dignidade com que somos tratados toda vez em que tentamos contar o que nos acontece diariamente. 

Tem gente brigando por direitos, nós brigando pelo direito de ter direitos. Talvez, pra você ter uma ideia desta condição, pegue algumas dessas histórias tristes e, num exercício de empatia, coloque uma ou duas em todos os dias de sua vida. Talvez, então, comece a entender o que falo. Depois deste exercício, se tiver coragem de fazê-lo, talvez pense: pra viver assim tem que ser forte, determinado, viver um psicológico muito abalado, ter muito medo, vegetar, viver em abuso, sofrer e chorar, chorar muito. Mas um conselho: não chore na frente dos outros, pois vai levar mais porrada. Ser ignorado, preterido, trocado, vendido, explorado, ser objeto, invisível, saco de pancada. Desabafo? Não, constatação de alguém que as lágrimas escolhem por quem cair. Sou filho do acaso, do descuido institucionalizado, do olhar da mediocridade, em nosso simulacro fazemos o jogo de cena, seguimos nossos caminhos e vamos chegando, mas não nos garante nada. Podemos ser destituídos rapidamente dos lugares em que conseguimos chegar. Não foi fácil, não é fácil, não vai ser fácil. 

Os meus são todos, e não é nenhum. Pertenço, não sei. Tanta coisa subtraída que só nos resta seguir em frente e buscar o encontro. E eles acontecem, aos poucos, lentamente, na força e na sutileza. É duro pensar que o tempo está acabando, sinto isso, quero aproveitar mais, mas na minha jornada muitos olham e se identificam. Fiz parecer muralha, fiz parecer porto seguro, fiz parecer segurar tudo com retidão, mas a tempo de perceber que outros vem, como eu vim, e outros virão depois de mim. Vale e faria tudo novamente. Talvez desse mais tempo para mim, talvez! 

UBUNTU! É uma filosofia, fala da grandiosidade do ser humano, do poder matriarcal, da xenofilia, do coletivo. Talvez um caminho para acalmar a alma. O corpo pede dança e quando faz é feliz, quando canta é feliz, quando ama é feliz, quando goza é muito feliz. Corpo que ri muito, que brinca muito, precisa de espaço, cativa, festeja, abraça e beija, que recebe bem, cuida de alguém, eleva a alma, entra em êxtase com som de tambor, que joga capoeira. Erudito e popular? Para nós existe apenas o movimento. E todos esses atributos pertencem a uma cultura, “cultura do ser humano”, não à guerra.

Além dos hospitais: um retrato do que bate à nossa porta

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O que entra pela porta de um hospital público é o reflexo da comunidade. Falta de saneamento básico, descuido com a alimentação, poucos espaços de lazer, violência doméstica, sexual, de identidade, intelectual: está tudo ali. 

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E o que entra pela porta da sede do Doutores da Alegria, há precisamente 14 anos, também é um retrato da cidade de São Paulo. 

Todos os dias, pouco mais de 20 jovens de diversos cantos desta metrópole se encontram aqui para ter aulas profissionalizantes de palhaço. O curso é gratuito e focado em jovens com o sonho de ganhar o mundo com seu nariz vermelho. Adolescentes, quase adultos, que não têm garantidos os direitos mais básicos nas comunidades em que vivem, mas apostam numa formação de qualidade e na arte como seu ofício. 

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E se o que entra pelo hospital se torna matéria prima para o palhaço besteirologista, o que entra pela porta da nossa sede é alimento para Doutores da Alegria enquanto instituição. Pois bem, um destes estudantes trouxe uma experiência que faz parte da rotina de jovens e pobres da periferia: uma abordagem policial. Eis o seu relato: 

“Hoje fui abordado pela polícia e tinha tudo pra ser uma enquadro “normal”
Perguntou onde eu moro, onde trabalho e o que estava fazendo ali.
Respondi tudo da melhor forma possível
O policial me revistou, revistou minha mochila deixou uma zona.
Até que ele pediu para ver meu celular e pediu para eu desbloquear para que ele visse em que nome o iMei do celular estava.
Perguntou de quem era o celular 
Eu disse que era meu 
Ele perguntou quem me deu já que eu não trabalho 
(Pobre e preto de iPhone é uma ofensa)
Eu disse que comprei
Ele perguntou como
Eu tive que explicar que trabalhei 
Perguntou em que loja eu comprei
Eu disse que comprei de um amigo
Ele insinuou que meu amigo roubou e foi para o carro 
Chegando lá ele viu que o celular não foi eu que comprei, que foi comprado por outra pessoa 
Foi em minha direção pegou meu punho de uma forma grosseira e ignorante ao ponto de fazer meu relógio sair do pulso
Ele pisou no meu relógio ao ponto de quebrar e arranhar 
Me colocou no porta mala da viatura disse que eu iria para delegacia 
Eu implorei perguntando se eu poderia ligar ou mandar msg para a pessoa que comprou. 
Ele disse para eu mandar msg na frente dele
Eu mandei meu amigo respondeu rapidamente 
O policial foi para o rádio e confirmou o cpf 
Depois de um tempo ele me liberou como se nada tivesse acontecido. 
Meu relógio quebrado não era meu maior problema. 
O problema é que amanhã vou passar nessa rua novamente e sei como vou ser lembrado por aquelas pessoas que viram.”
 

É sabido que jovens e negros são as principais vítimas de violência no país. 

O Brasil registrou*, em 2015, quase 60 mil homicídios. Foram 60 mil assassinatos em um ano. Os homens jovens (15 a 29 anos) continuam sendo as principais vítimas: mais de 92% dos homicídios representam essa parcela da população. A cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras, sendo que os negros possuem 23,5% mais chances de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças, já descontados os efeitos da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência.

[* dados do Atlas da Violência 2017, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. ]

Os números e casos como o deste estudante ilustram uma realidade que às vezes esquecemos ou tentamos fingir que não está ali, mas que bate à porta todos os dias. A violência contra a população jovem e negra cria marcas profundas que vão sendo reeditadas na sua pele todos os dias. A situação é ainda agravante para as mulheres negras, que sofrem com o racismo e com o machismo em nossa sociedade.

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A história do Brasil é carregada de violência contra a população negra, desde a violência que foi socialmente aceita, como a escravidão e as políticas de branqueamento da população (a serem tratadas no próximo capítulo), até a violência implícita que se dá através do preconceito racial. Negros ocupam os maiores bolsões de pobreza do país, são maioria nas penitenciárias e sofrem por não ter representatividade. 

A nossa sociedade precisa agir de maneira efetiva para diminuir estas pequenas e grandes tragédias. Movimentos sociais e coletivos se mobilizam para exigir políticas públicas para frear a discriminação em todas as esferas de poder, sobretudo pautadas na educação de base, trazendo luz à história africana do ponto de vista dos negros. 

A arte é outro campo que pode contribuir com este movimento, desconstruindo conceitos e questionando a visão eurocêntrica. A Escola dos Doutores da Alegria se ocupa em formar artistas engajados, com capacidade de ler a realidade em que estão inseridos e propor uma intervenção crítica. 

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E se inspirar políticas públicas é nosso dever como organização, é preciso beber da fonte de movimentos sociais e dialogar com estes jovens. O caminho para uma sociedade responsável e de relações saudáveis já bate à porta de todos nós.

Doutores recomenda: A Deus Dará, espetáculo de ex-alunos da Escola

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Tão especial quanto indicar espetáculos de artistas do elenco do Doutores da Alegria é recomendar espetáculos com alunos formados pela nossa Escola. 

Jovens artistas que enveredaram pelo caminho da arte do palhaço e levam suas criações a espaços pela cidade. Quatro deles, formados pelo Programa de Formação de Palhaço para Jovens, integram o Grupo Manada e apresentam neste mês a peça A Deus Dará.

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O mote é um mundo devastado pela guerra, onde três palhaços sobreviventes celebram o ano novo dentro de um bunker, no subsolo de um deserto. Entre as tentativas frustradas de realizar uma festa no limite da precariedade, variando do cômico ao trágico, surgem reflexões sobre a desesperança, a ingenuidade, a sobrevivência e a pequenez humana.

A Deus Dará é apresentado de 5 a 13 de agosto, sábado às 21h e domingo às 19h, na Cia do Pássaro – Voo e Teatro (Rua Álvaro de Carvalho, 177 – Centro, São Paulo). O ingresso custa R$ 20 e a classificação é 14 anos.

Mais informações em 
https://www.facebook.com/events/141772079741075
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A cidade e o feminino, por uma jovem artista

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Todos os dias, pouco mais de 20 jovens circulam pela nossa sede, em São Paulo.

Pela manhã, têm aulas de palhaço: aprendem, praticam, refletem, trocam experiências. De tarde, alguns se vão. Outros permanecem e continuam o treino: arriscam um instrumento musical ou um devoram um livro

Uma destas jovens é a Jéssica Ferreira, que mantém a prática da escrita com um olhar muito sensível, crítico e poético.

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Cidade e Feminino

“Olha lá. Sentada no banco da praça, perdeu a dignidade, coitada. Olha lá, se despindo na praça do centro, colocando pra fora peito, bunda, sujeira, calor, grito de quem tá calada faz tempo. Olha lá, olho perdido olhando pra nada, olhando pra tudo. Olha a angústia, olha. Vê? Deixo a minha dor, deixo a voz, deixo história interrompida. Deu tudo que tinha, se deu e deu alma, deu corpo, deu pro tempo, deu pra esse, deu pra aquele, deu pra rua, deu pra nunca mais se ter. Mulher perdida na praça sem roupa, esse olhar você não aguenta. Agora tá dançando, olha lá. Bota a mordaça.

Na esquina, amontoada com saco, bolsa, roupa, pombo, passado, fome e caderno e caneta na mão desenhando o labirinto perdido há tempo. Desenhando passado, desenhando história desenhando luta e grito e dor, de quem foi, mas não é mais. Concentração na ponta da caneta, concentração no toque do papel, ignora a multidão que passa, e passa. E ela? Ela fica. Ela tá aqui esperando o outro dia chegar. Não. Ela tá aqui desenhando labirinto, ela tá aqui agora, só agora. Mulher na rua, fedida, perdida, desenhando labirinto, a se organizar. Êta.

Jogada em qualquer canto da cidade, jogada no papelão da carne, da carne que come, da carne que deita no papelão da carne, que se aquece no papelão da carne, que mija no papelão da carne. Sentada com a criança no colo, peito de fora, peito que amamenta e que homem não tem. Homem não alimenta. Cabelo desgrenhado, corpo suado, sujo. Mão estendida, olhar selvagem. Criança pequena, moleque que vai crescer moleque já tá no mundo, moleque com fome. Olha lá, se desenhando os muros bem na frente do moleque.

A cidade é amontoado, é amontoado de coisa e acúmulo, acúmulo de coisas, de capital, de sujeira, de lágrima seca, de palavra não dita. Então diz pra mim, diz pra mim no meio disso tudo, diz que você me respeita, diz que você me vê, que me reconhece. Diz que vai me deixar andar, diz que vai me deixar falar, diz que não vai ser escroto, diz que não vai pisar na cabeça dela quando ela estender a mão. A cidade engole e abriga, ao mesmo tempo. Protege e expõe, mas não defende.”

Eles chegaram

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A semana começou com a sede dos Doutores da Alegria cheia. Cheia de jovens de vários cantos, de olhares curiosos.

Vinte e cinco pessoas que decidiram que, pelos próximos dois anos, dissecarão a linguagem do palhaço, aprendendo sobre cada peculiaridade dessa figura. Os ingressantes no Programa de Formação de Palhaço para Jovens têm entre 17 e 23 anos e foram selecionados em um longo processo, que envolveu análise de currículo, oficinas práticas e visitas de assistentes sociais (este último por se tratar de um projeto destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade social).

Eles foram recebidos por ex-alunos do programa, que fizeram questão de dedicar sua manhã para a recepção dos novatos. E o que aconteceu? Veja só:

Bem-vindos

Os palhaços formados se espalharam pelas ruas, indicando o caminho até a nossa sede.

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Senta que lá vem história

Uma conversa de abertura do curso. De onde viemos? Pra onde vamos? O coordenador do projeto, Heraldo Firmino, explica tudo.

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Aula trote

Os novatos acreditam que estão participando de uma aula séria quando, na verdade, se trata de uma brincadeira. Olhares atentos, desconfiados. Quem comandou tudo foi Edgard Tenório, assistente da Escola.

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Os ex-alunos reaparecem e novamente dão as boas-vindas. 

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E começa uma divertida gincana entre eles, uma oportunidade pra se conhecerem da melhor forma: brincando!

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Apadrinhamento

Cada novato foi apadrinhado por um ex-aluno. Rolaram presentinhos e muitos conselhos.

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Queridos alunos, que estes sejam anos especiais pra vocês! Bora estudar!

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Enfim, formados

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24 jovens são agora artistas com formação na linguagem do palhaço. Palhaços profissionais.  

E eles saem da Escola dos Doutores da Alegria, após dois anos intensos de formação, para ganhar o mundo. Além da técnica, esses jovens trazem uma bagagem crítica e reflexiva essencial para o pensamento artístico. Foram mais de 1.800 horas de aulas diárias na sede da ONG.

Assim como as cinco turmas anteriores, os jovens do Programa de Formação de Palhaço para Jovens continuam conosco em um terceiro ano de acompanhamento. Tão perto, tão longe.

Na última semana, seus familiares foram convidados para uma noite emocionante em nossa sede, celebrando a sua formatura. Os festejos começaram com uma divertida apresentação dos formadores da Escola, que acompanharam toda a trajetória dos alunos.

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Logo após, Wellington Nogueira, fundador da ONG, falou brevemente seguido de Heraldo Firmino e Daiane Barbieri, coordenadores do programa. Todos destacaram a importância de uma profissão como a do palhaço.

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“Hoje temos a alegria de colocar mais uma turma no caminho lindo que é a arte. Lindo e ao mesmo tempo muito sério, porque como diz o filósofo, quanto maior o conhecimento, maior a responsabilidade… Dividimos muitas coisas nestes dias em sala de aula e muitas vezes fora dela e somos hoje, e posso dizer com muito orgulho, colegas de trabalho! Unidos por um pensamento que nos faz seguir adiante! Hoje fechamos um ciclo e olhamos pra frente carregando tudo que foi conquistado até aqui”, iniciou Heraldo Firmino sob os olhares atentos e emocionados da plateia.

“Jovens palhaços, aprendemos muito com vocês, muito mesmo! Dividimos uma vasta beleza de olhares, compartilhamos paixões e mistérios imperfeitos. O palhaço é recheado de tudo o que se possa imaginar, sua lógica desafia a lógica vigente porque questiona o que todo mundo julga estar correto e aponta outro olhar. Quero agradecer aos pais, familiares e amigos por confiar seus filhos ao nosso convívio, por acreditar no sonho deles e, mesmo às vezes não concordando, respeitar, pois no fundo o que qualquer pai e mãe querem para seus filhos é que sejam felizes. Por que nossos filhos não podem querer uma coisa diferente pra sua vida? Podem e devem!”, finalizou.

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O aluno Guilherme Wander fez um belo discurso em nome da sexta turma. O texto foi escrito pela também formanda Fernanda Lopes. Ele relembrou momentos marcantes do curso, agradeceu aos formadores e mostrou ansiedade pelo que vem pela frente.

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Antes da entrega dos canudos, houve a exibição de alguns vídeos feitos pelos próprios alunos, além de um filme especial sobre a circulação do espetáculo “Enfim, sãos” produzido pela formadora Roberta Calza.

A noite terminou com os jovens artistas devidamente diplomados e prontos para encararem o mundo sob a lente do palhaço. Veja as melhores fotos da formatura.

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Viva! E que venha a nova turma!

Sobre uma única roda

Você sabe que objeto é este?

É um monociclo! 

Os monociclos são muito utilizados em apresentações artísticas que envolvem o equilibrismo. Para apresentar o objeto aos alunos do Programa de Formação de Jovens, o professor Du Circo convidou o amigo, malabarista, palhaço (e maratonista!) Cafi Otta.

Cafi iniciou seu aprendizado aos 10 anos de idade na oficina de circo do Festival de Inverno da UFMG, em Belo Horizonte. Aos 15, entrou para o curso de circo do grupo Acrobático Fratelli, onde aprimorou técnicas de malabares, monociclo, equilibrismo, acrobacia, pirâmides e verticais. Ele já trabalhou com alguns dos mais importantes grupos do Brasil, como o Circodélico e o Nau de Ícaros, e hoje vem desenvolvendo um trabalho autoral com o Grupo Namakaca.

Segundo ele, o treino, o equilíbrio e a força física são importantes para se manter em cima de um monociclo. No início é preciso se ancorar nas paredes pra não cair, mas com o tempo é possível percorrer pequenos trechos e até fazer malabarismos em cima da roda. Os jovens do programa dispõem de dois monociclos para treinarem durante o curso.

Cafi também é maratonista, percorrendo provas com seu monociclo. Sim, ele corre 42 km em cima de uma roda! Entre outras, já participou da Maratona de Düsseldorf, na Alemanha, e da Maratona do Sol da Meia Noite, na Noruega.

Mais informações sobre o Cafi em www.facebook.com/monociclosemfronteiras.

Homenagem ao circo: aula com o mestre

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Raul Hernando Robayo – ou Pepin, seu nome de palhaço – nasceu no México, foi criado na Colômbia e reside no Brasil há quarenta anos. “Fiquei quatro anos nos Estados Unidos e um ano no Canadá. Em circo, logicamente, Graças a Deus!”

Raul veio à Escola dos Doutores da Alegria para ministrar uma série de aulas especiais com os recém-formados do Programa de Formação de Palhaço para Jovens.

O mestre ensinou diversas técnicas tradicionais do circo para a garotada, que já está atuando profissionalmente em companhias artísticas. Veja os melhores momentos:

Importante lembrar que o programa tem uma metodologia única com duração de três anos e atualmente é o único curso gratuito de longa duração na linguagem do palhaço do Brasil. O programa não se destina a formar jovens para ingresso no elenco do hospital.

Homenagem ao circo

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Na semana que comemora o Dia do Circo, preparamos uma série de posts com algumas figuras ilustres para falar sobre o circo. A maioria das pessoas conhece a figura do palhaço pelo circo, e não é por menos: foi lá que ele se popularizou.

Respeitável público! Senhoras e senhores, crianças de todas as idades! 

No dia 27 de março é comemorado o Dia do Circo! A data é uma homenagem ao palhaço brasileiro Piolin, que nasceu no dia 27 de março de 1897, em Ribeirão Preto. Ele era considerado o “rei dos palhaços” no país. 

Eu, Roger Querubin, também sou palhaço, e vivo debaixo de uma lona de circo desde que apareci pela primeira vez no mundo. Meus primeiros passos foram no picadeiro do Circo Spacial,  e nesse mesmo picadeiro aprendi que sempre que cair… É preciso levantar, porque o show tem que continuar! 

Trabalhei com vários palhaços – alguns famosos, outros nem tanto – que foram fonte de inspiração. Na busca por mais conhecimento passei pela vida acadêmica, e, logo em seguida, ingressei em outra jornada. Uma jornada que “talvez” eu já deveria ter passado anos atrás, mas como no circo os ensinamentos não são escritos e sim falados, passados de geração em geração, pode ser que alguma geração minha não tenha repassado direito…

Então eu busquei os Doutores da Alegria para me ensinar, e também para “aprender” comigo. [O Roger participou do Programa de Formação de Palhaço para Jovens de 2011 a 2013] 

Hoje posso dizer que faço parte de duas famílias: a família do Circo Spacial e a família dos Doutores da Alegria! Ah, já ia me esquecendo! Com meus amigos que também saíram do curso formei a Trupe La"Cuna de Variedades, e estamos na busca de preencher espaços com nossas vivências e conhecimentos adquiridos até aqui. 

A jornada é longa, e com certeza vou encontrar muitas pedras no caminho, mas hoje posso falar sem sombra de dúvida que me sinto preparado para o show. E se eu cair, vou me levantar, afinal, o show tem que continuar!”

Viva o Dia do Circo, Viva o circo brasileiro! 

Roger Querubin