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Previsão do tempo

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Nunca dei muito ouvido à moça do tempo. Se ela diz que a previsão é de chuva, eu levo um casaco e deixo o guarda-chuva.

A moça não falou na TV, mas eu sei que estamos passando por uma alta pressão atmosférica. E do jeito que a coisa anda nebulosa, a previsão é de nuvens carregadas com fortes pancadas. Pessoas frias em pleno aquecimento global. Chuva molhando gente completamente seca. Lares que desabam. Cadê minha casa? Não tirem minha vida! 

Olho para o lado e uma coreografia de “mãos para o alto, é um assalto!”. Parem essa música! Crianças fazendo coisas de gente grande. Pais sentados na calçada enquanto seus filhos arrumam o dinheiro da feira. Água no vidro do carro. Falei que não quero! Mas as coisas não vão mesmo do jeito que a gente quer. Nó na garganta, rouca. Sem voz ativa. Sem indiretas. Falo de coração. Saudade do tempo em que brincadeira de criança era na rua e não nas ruas.

Barão de Lucena - Lana Pinho-119

Moça do tempo, que clima é esse? Amanhã quero acordar com o sol brilhando na janela. Tirar o mofo. Regar as plantas e aquecer a alma. 

Os encontros com F. têm sido gotículas de esperança. Sol quando aparece no inverno que a gente quer aproveitar ao máximo. Menina, de 8 anos aproximadamente. Sempre acompanhada de sua mãe, que dessa vez nos chamou: 

- Venham falar com F. Ela vai hoje para sua terceira cirurgia e quer levar um pouco da alegria de vocês. 

Fomos. E nosso papo é totalmente musical. Desde o primeiro dia de encontro ela já foi cantando “Alecrim dourado”. E nesse dia não foi diferente. Ela cantando com um microfone improvisado de seringa, Dr. Lui e eu fazendo o acompanhamento com nossos instrumentos e sua mãe sentada vendo aquela cena que antecedia o momento da cirurgia.

IMIP - Lana Pinho-109

F. estava inteira, sem nem se preocupar em acertar o tom, a letra, essas coisas de adulto. Sua mãe estava aos pedaços, mesmo fingindo que não, essas coisas de mãe. Vi passar um filme nos seus olhos. Um filme do maior amor do mundo. Daquele que de tão grande aperta e dói. 

A moça do tempo não me falou, mas sei que a qualquer momento ia chover naquele olhar.

Luciano Pontes, mais conhecido como Dr. Lui, e Luciana Pontual, a Dra. Svenza,
escrevem do Hospital da Restauração, em Recife.

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Também tem muita coisa boa acontecendo

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Sempre saímos muito pensativos depois de um dia de trabalho no hospital. São várias as reflexões. A última foi sobre ser feliz.

Ser feliz não é questão de não ter problema ou de ter uma vida perfeita. Ou de ter uma vida onde tudo parece ser favorável. Hoje percebo que ser feliz é saber lidar com o que a vida nos oferece, mesmo sendo algo não muito agradável. Até porque, tenho quase certeza, não existe só coisa ruim acontecendo.

Restauração - Lana Pinho-170

Nossa função enquanto besteirologistas é entrar em contato com esse lado saudável da vida. E como é que eu consigo me conectar com o positivo da existência? Poderíamos fazer um pequeno exercício de olhar pra tudo de bom que está acontecendo. O que está surgindo de bom agora na sua vida?

No hospital, por exemplo, tem muita coisa boa acontecendo! Existe uma pessoa que acorda todos os dias pra olhar pra nossa saúde, pessoa que faz nosso almoço, pessoa que pensa nossa dieta, que limpa nosso quarto, que nos dá carinho, que ora pela gente. Pessoa que lava nossa roupa, pessoa que conserta o ar condicionado, pessoa que nos faz rir, profissionais que desenham e pintam com a gente, pessoa que estuda pra nossa cura e mais, mais, mais pessoa pra tudo!

Barão de Lucena - Lana Pinho-49

É muita coisa, né? E muita coisa boa! Então, por que não agradecer mais e pedir menos?

É um grande passo pra uma conexão com um turbilhão de coisas legais e que estão presentes em nossas vidas. A gente sabe que o mar não tá pra peixe. Ôps! A gente sabe ou nos disseram isso? A gente foi lá olhar, tirar nossas próprias conclusões? Hum… Tenho certeza de que muitos de nós nem sequer se deram ao trabalho.

Se alegrar com o simples…

Mas o que fazer com esse lado negativo que muitas vezes nos afoga e nos deixa tristes?

Certa vez, estávamos em um atendimento com uma criança que não andava e que se encontrava há 5 anos morando na UTI. Parece pesado, né? Mas pra esta criança, não era! Ela se alegrava porque a sua cama ia mudar de lugar, ia pra mais perto da janela e, assim, iria conseguir ver o nascer do sol. Ela se alegrava com a chegada dos palhaços, com o carinho dado pela sua mãe, com a nova cor estranha do cabelo da médica, e por aí vai. 

Nesse dia, em uma cadeira de rodas, ela segurava um copo de iogurte. No meio da conversa, ela deixou cair o copo no chão. Fiquei um pouco assustada, tentei segurar o copo e não consegui. Ela olhou pra mim, com o olhar leve e tranquilo, e disse:

- Tem nada não, é que eu sou assim mesmo!

Essa frase ecoou na cabeça. “É que eu sou assim mesmo”. Acho que um bom começo para saber lidar com o que consideramos negativo em nossa vida e aceitar a condição atual.

Restauração - Lana Pinho-118

Se no momento eu estou doente, eu aceito a doença, trago ela pra perto de mim, olho com amor pra ela, sem aversão e entendo que eu não SOU uma doença, mas que ESTOU doente. Começo a entender que além da doença, para qual estou olhando com muito afeto, existe uma possibilidade de coisas acontecendo de positivo bem pertinho. Por exemplo: o sol nasce todos os dias, depois vem a lua, já ouvi várias vezes som de pássaros de dentro do hospital, já vi, de dentro da enfermaria, o vento bater em árvores… 

É uma questão de escolha. Não está nada fora do lugar porque é assim que tinha de ser. No frigir dos ovos, está tudo bem pra menina, está tudo bem pra nós e está tudo bem pra você. Tá tudo certo!

Juliana de Almeida, mais conhecida como Dra. Baju,
e Marcelo Oliveira, o Dr. Marmelo, 
escrevem do Hospital Oswaldo Cruz, em Recife.

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Retrospectiva: 2015 foi assim

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O ano nos reservou histórias e momentos marcantes. Delicados e emocionantes. Raros. Alguns tensos, assustadores. Outros engraçados, transformadores. 

Aqui no Blog os palhaços contaram mais de 100 histórias que os marcaram nos hospitais. Também teve textos reflexivos sobre alegria, saúde, arte… Palavras que compõem o mundo que nos rodeia, e que tem rodado tão rápido. Neste espaço buscamos uma pausa para a leitura, para entregar e dividir com você momentos que nos marcaram. A escrita nos ajuda a manter o passo.

Os melhores momentos de 2015

Saudade de uma internação

Começamos o ano contando sobre a saudade que ficamos de alguns pequenos pacientes que não encontramos mais nos hospitais.

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Obrigado, Sacks!

Em março falamos da revelação do neurologista e escritor Oliver Sacks sobre sua doença. Grande inspiração, para nós, Sacks descobrira um câncer em sua fase terminal. Ele faleceu em agosto, aos 82 anos.

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Um olhar além

A força dos encontros e como eles podem afetar o nosso corpo é a base conceitual do nosso trabalho. Falamos sobre como a alegria ativa o corpo humano e traz benefícios para a saúde. Talvez seja a própria saúde.

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A música me salvou

A arte em forma de música salvou a vida de uma criança. Lançamos a bandeira do acesso à arte como um direito básico e universal, inclusive para as populações mais vulneráveis, como dissidentes de guerras e pacientes em hospitais públicos.

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Imagine um hospital que…

Falamos sobre um experimento que uniu mais de 600 pessoas de nacionalidades diferentes em busca de um sistema de saúde que atenda às necessidades contemporâneas, com novas forças sociais, econômicas, tecnológicas e epidemiológicas.

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Se algum dia me vir chorando

Nem sempre os besteirologistas são queridos à primeira vista. Naquele dia, precisamos ir além da máscara do palhaço pra fazer a pequena paciente acreditar que por trás daquele nariz havia um ser humano que também era chorão.

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Diário de um pequeno rebelde

Em abril contamos sobre um jovem que insistia na agressividade com os palhaços. Talvez ele apenas precisasse de carinho.

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Histórias de mães

Maio foi o mês das mães. Pedimos a elas que contassem histórias especiais com seus filhos em hospitais. Foram 25 histórias que só podiam ser escritas por mães <3

+ > veja a série de histórias

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Quando a vida real invade a ficção

A Dra. Pororoca ficou gravidíssima esse ano. Ela conta como trabalhou em trio, dois adultos e um bebê na barriga.

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Os dois lados da mesma esquina

Contamos sobre um daqueles momentos que nos pegam de calças curtas. A senhora pedia um abraço pois o neto havia partido.

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O fantástico leilão do Mateus

O Mateus é um jovem paciente da UTI Pediátrica do Hospital do Mandaqui que nos conhece há muito tempo. Ele resolveu presentear cada palhaço com algo muito especial.

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leilao do mateus - doutores da alegria

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A doença vale a pena

Será possível encontrar algo de precioso na doença? Algo que a faça valer a pena?

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Uma história sobre o inevitável

O que a iminência da morte pode nos provocar, nos ensinar? Aquela visita nos tocou profundamente.

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Essa nossa dúvida

Que função social o palhaço cumpre hoje nos hospitais públicos? Dia a dia questionamos que outros elementos – no campo objetivo ou no campo dos afetos – merecem a intervenção artística. 

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Quer mais histórias?

Percorra o Blog dos Doutores da Alegria para ver outras histórias sobre o nosso trabalho. E depois nos conte: qual foi sua história preferida em 2015? Em 2016 tem mais!

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Essa nossa dúvida

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Quando decidimos explorar o hospital como palhaços, miramos na figura do médico.

Foi o médico, lá em 1991, que inspirou o personagem “besteirologista”. Nosso figurino recebeu mais uma peça – o suntuoso jaleco, manto da profissão – e itens que parodiavam estetoscópios, termômetros e receituários. Cada artista incorporou o seu besteirologista: Dr. Zinho, Dra. Emily, Dra. Sirena, Dr. Lui e tantos outros.

Palhaços e médicos se colocam a serviço do outro e nutrem-se dos mesmos elementos para suas atuações: olhar, ouvir, compreender necessidades, interagir. O contraste talvez esteja na disposição de cada um – o médico se prepara para o acerto; o palhaço, para o erro.

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Enquanto um erro do médico pode ser fatal, o besteirologista treina para o tropeço, para bater com a cara na porta. É no erro que se constrói graça e cumplicidade. Como pacientes ou meros espectadores, amparamos a sua fragilidade e rimos de suas trapalhadas.

No hospital a perfeição é exigida em cada detalhe. O palhaço ajuda a lidar com a vulnerabilidade da condição humana, com nossos conflitos e dificuldades, atuando para expandir os limites do comportamento.

Fotografia da Dupla Du Circo e Ju Gontijo no Instituto da Criança no Hospital das Clínicas.

O palhaço nos leva a aceitar a dúvida e a hesitação; enquanto esperamos respostas rápidas e salvadoras da figura médica. Dá pra imaginar o peso da profissão, de cada palavra ou esperança dada!

Hoje o nosso trabalho nos hospitais ainda segue a paródia do médico, mesmo que superficialmente. As visitas leito a leito e o jaleco espelham a profissão. Mas dia a dia questionamos que outros elementos – no campo objetivo ou no campo dos afetos – merecem a intervenção artística. Que função social o palhaço cumpre hoje nos hospitais públicos?

o inevitavel

Talvez cada hospital tenha as suas questões. O Instituto da Criança, referência em São Paulo, é diferente do Hospital do Campo Limpo, que é diferente do grande Hospital Barão de Lucena, no Recife, ou do Hospital Santa Maria, que trata pessoas com tuberculose no Rio de Janeiro.

A busca por essa resposta também é motor de diálogos e pesquisas hoje no Doutores da Alegria. Artistas e corpo administrativo pensam juntos. E a reflexão com a sociedade, com quem habita esses lugares públicos, é um passo importante nesta jornada.

Assim como o palhaço, deixemos que a dúvida faça sempre parte do trajeto.

Existir para…

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O dia a dia de uma organização está pautado por constantes e sucessivas indagações.

Por um lado estamos sempre nos perguntando se o propósito lá do início, em 1991, de levar a alegria do palhaço profissional para os hospitais públicos ainda é a estratégia mais contundente que podemos oferecer para transformar uma situação tão delicada que é a internação hospitalar.

E por outro lado, estamos sempre atentos se estamos conseguindo traduzir os fundamentos da organização – sua missão e estratégias – para a sociedade de maneira clara e possibilitando sua participação.  

Este aval da sociedade para uma organização como Doutores da Alegria é fundamental tanto quanto o impacto em nossos pequenos pacientes. Ela representa também o porquê de nossa existência. Essa dinâmica é o motor de uma associação viva, com finalidade pública, que atua inteiramente financiada por recursos da sociedade: verificar constantemente o impacto social das nossas ações e possibilitar que nossas estratégias sejam entendidas e adotadas pelas pessoas. O que era somente nosso por um instante passa a ter muitos donos. 

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Depois de 24 anos temos muito a celebrar pelos resultados alcançados e muito a exigir de nossa atuação adiante para contribuir por mudanças consistentes de que tanto nosso Brasil precisa. Os feitos estão relacionados ao que temos hoje no país de boas ações e políticas para mudar os hospitais, tendo em vista melhorar a experiência da internação pela ótica do paciente e de como o palhaço contribui para isso. E se no início o palhaço gerava estranhamento e indagação de sua pertinência, tempos depois seu exemplo trouxe diversas atividades para dentro hospital com o objetivo de “humanizar” o ambiente.

Parece muito, mas parece ser muito pouco. 

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Ainda muito falta a fazer pela saúde pública no país. Brasil afora, mesmo nos grandes centros, vemos hospitais estagnados, estruturas de serviço totalmente dissociadas dos valores mínimos de cidadania e direitos básicos. Profissionais desvalorizados, mal remunerados e insuficientes. Espaços físicos de atendimento que não poderiam estar em uso em várias funções públicas, muito menos para cuidar de humanos. 

Mesmo com tanto a comemorar, estamos sentindo um gosto amargo de que nosso país avança a passos muito lentos e isso nos persegue nas reflexões e na busca por soluções que gostaríamos de gerar para todos os hospitais brasileiros. 

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Doutores da Alegria atua no campo subjetivo, quer existir para melhorar as relações entre as pessoas. A ficção e a paródia possibilitam um novo significado ao real. O palhaço, ridículo, nada heroico, procura pela sua existência que não se impõe, que não se faz necessária ou importante, traz esta dimensão do humano que parece que está se esvaindo.

A organização transita pela saúde, pela cultura, pela assistência social. Como o ser, que não pode ser fracionado, também não estamos em um único campo de atuação; da mesma forma que não nos associamos à cura dos sintomas, mas deixamos que o organismo manifeste como está funcionando. 

A arte afeta as relações, nos ensina a pensar e a sentir o que não foi dito ou traduzido. Depois de 24 anos, sabemos que nosso existir não é mais o mesmo. Estamos inquietos, sempre buscando. 

 “A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte…

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer…”

“Comida” (Titãs – Arnaldo Antunes/Sérgio Brito/Marcelo Fromer –  1987)

Luis Vieira da Rocha

A doença vale a pena

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Será possível encontrar algo de precioso na doença? Algo que a faça valer a pena?

Quando um mal-estar toma o nosso corpo, imaginamos que nada de bom podemos tirar dele. Parece uma perda de tempo. Se a doença se apossa, faz morada, o hospital se apresenta um refúgio frio do qual queremos nos livrar o mais rápido possível.

Num leito de hospital o tempo demora a passar. Demora. Demora. D e m o r a. Entramos em contato com situações que possivelmente não vivenciaríamos se estivéssemos saudáveis, mergulhados no trabalho, na família, no círculo social, na faculdade, no trânsito, na academia, no supermercado, ufa!

Na doença, as relações são construídas de forma diferente porque nossa percepção está mais sensível. Os sentidos se aguçam e ficamos mais atentos aos afetos que nos atravessam. O encontro com um palhaço pode ter um valor único naquele momento, assim como a palavra de um médico, e podemos nos surpreender com nossas próprias reações: “como fui corajoso!” ou “ainda tenho muito a enfrentar, mas estou consciente disso”.

Fotografia da Dupla Du Circo e Ju Gontijo no Instituto da Criança no Hospital das Clínicas.

A doença nos tira o domínio sobre o tempo, nos tira o escudo, expõe nosso lado mais fraco, nos coloca de joelhos pela vida, e muitas vezes descobrimos quem somos e do que somos capazes quando baixamos a guarda. A doença obriga a viver o presente, devagar e sempre, um passo de cada vez. O enfrentamento pode ser mais fácil se deixarmos de pensar no futuro. É isso mesmo: o futuro carrega dois afetos que podem nos ludibriar – o medo e a esperança. Deixemos que o presente faça o seu trabalho e que estejamos nele de forma íntegra, colocando as expectativas de lado e eternizando cada momento.

Sim, é possível fazer a doença valer a pena. Não se trata de fazer apologia a ela, e sim de afirmá-la, entender que faz parte da caminhada. “Eu estou doente, mas também estou vivo!”.

Viver de forma afirmativa tira o peso e a culpa de nossas costas e nos habilita a encontrar uma maneira de se relacionar de forma diferente com a vida porque, afinal de contas, ela vale a pena em cada suspiro.

Fotografia da Dupla Du Circo e Ju Gontijo no Instituto da Criança no Hospital das Clínicas.

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O que vem antes

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Depois de uma manhã de trabalho, encontrei a mãe de um paciente que lutava há mais de um ano contra o câncer.

Olhava para o seu rosto e só enxergava felicidade porque ela tinha acabado de receber o diagnóstico de que seu filho estava curado. Aproveitamos que estávamos próximos ao restaurante do hospital e, com um copo de suco, brindamos à vida.

Ela começou a relembrar um fato que me deixou pensativo…

Contou que teve um período da internação de seu filho que foi difícil, pois ele estava com a imunidade muito baixa e precisou ficou em isolamento na UTI. Ela tentava animá-lo e ele dizia para deixá-lo quieto porque “ele iria morrer mesmo“. 

o que vem antes (2)

Nesse mesmo dia os besteirologistas apareceram na UTI e foram autorizados a entrar no quarto dele com aventais e máscaras descartáveis. Fizeram um combate de MC’s para ver quem fazia a melhor rima, pois era o que ele sabia fazer de melhor!

Em um curto espaço de tempo, parecia que tudo tinha mudado e aquele garoto aparentemente abatido, “à beira da morte”, agora morria de rir com as rimas atrapalhadas dos palhaços. 

o que vem antes (1)

Depois de ouvir esse relato, tive a noção de que por muitas vezes não damos conta do que acontece minutos antes dentro de um quarto. Isso merece um brinde…

Porque ouvir isso de uma mãe, em mim, também gera vida!

Dr. Mingal (Marcelo Marcon)
Hospital Santa Marcelina – São Paulo

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Quem tem coragem?

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P. é um adolescente tímido e grande. 

Devido ao seu tamanho, tinha alguma dificuldade para se movimentar rapidamente. Em compensação, seu raciocínio e sua inteligência muito rápidos deixavam os besteirologistas a quilômetros e quilômetros de distância… Mesmo assim, lentamente, ele os acompanhava pelos corredores, sem abrir mão da visita exclusiva em seu quarto.

Dia desses, Pinheiro e Juca entraram em seu quarto e ele logo avisou, em tom dramático:

- Tem um tubarão dentro desse banheiro.
- O QUÊ? Um tubarão dentro do banheiro? Mas como ele foi parar aí?
- Não sei. Mas ele está aí. Abra a porta, entre e verá se não é verdade. 

quem tem coragem

A Juca ficou tão assustada com a possibilidade de encontrar um tubarão no banheiro que armou uma confusão no quarto pra criar coragem e entrar, já que o Pinheiro colocou ela à frente pra cumprir tal proeza. 

Cada vez que tentava abrir a porta, um escândalo acontecia. Até uma escada a Juca colocou na porta do banheiro e subiu, pra parecer maior e, talvez, o tubarão ter medo dela! Mas, para a surpresa de todos, foi na mão do Pinheiro que o tubarão apareceu. Um tubarão de luva hospitalar que, com a ajuda do P., tinha até música de fundo.

quem tem coragem

Com o tempo, o assustador tubarão começou a soltar alguns puns e foi murchando no quarto, segundo relatou o Pinheiro. Juca só teve coragem de voltar naquele quarto na semana seguinte, mas o menino não estava lá. Estava no corredor, e dizia que não podia ficar no seu quarto porque tinha uma cobra lá dentro. Por esse motivo incrível, teve a autorização dos besteirologistas para acompanhá-los no trabalho pelo 4º andar do Instituto da Criança.

Naquele mesmo dia, ele teve alta e foi embora. A imaginação solta do P. trouxe uma série de reflexões sobre o nosso trabalho. E aquele quarto vai ficar pra sempre marcado. Quem tem coragem de entrar?

Dra Juca Pinduca e Dr. Pinheiro (Juliana Gontijo e Du Circo)
Instituto da Criança – São Paulo

E a cor importa?

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Nesse último mês eu, Dr. Dus’Cuais, tenho trabalhado com um lenço de bolso.

Este, que é um item de muita elegância entre os homens, trouxe uma pulga atrás da orelha e me deixou muito intrigado.

Estamos no século 21. O mundo todo recebe informações em tempo real, cada dia que passa evoluímos em questões que antes não se falavam, antigamente as mulheres não podiam nem votar e hoje ocupam presidências… Então por que, ainda, dizemos que azul é cor de menino e rosa é de menina?

Pois é, meu lenço de bolso é rosa, e ouvi muitas coisas só por conta de sua cor.

- Huuuum e esse lenço?
- Nossa, lencinho rosa! 

A cor acabou ficando mais importante do que sua utilidade.

a cor importa

Eu, como bom cavalheiro, uso meu lenço para colocar numa poça de lama, para que uma dama possa passar sem sujar os sapatos. Posso “dar tchau” balançando o lenço porque fica muito mais chique do que um “tchau normal” e também posso emprestar meu lenço para alguém que estiver com vazamento de água nos olhos.

Enfim, além de ser algo muito elegante, o lenço também tem várias utilidades. Mas a pergunta que eu te faço é:

- E a cor importa?

Em tempo: dia desses eu e o dr. Chicô aparecemos com uma câmera na cabeça e gravamos nosso dia de trabalho. As imagens ainda estão na edição, mas em breve teremos cenas inéditas do ponto de vista de um besteirologista. Não perca!

Dr. Dus"Cuais (Henrique Rímoli)
Hospital do Mandaqui – São Paulo

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Bateu saudade do encontrão?

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Seis meses após o nosso encontrão – ou 3º Encontro Nacional de Palhaços que Atuam em Hospital – ainda bate saudade.

Encontro Nacional - Luciana Serra

Saudade de compartilhar conhecimentos, experiências e de trocar figurinhas sobre o trabalho no hospital. Pra reviver um pouco do que foi o evento, que reuniu mais de 100 participantes vindos de 13 estados brasileiros, assista ao vídeo que compila cenas dos melhores momentos dos quatro dias de encontro:

E aproveite pra comentar sobre o que ficou para o seu grupo, mudanças que vieram, reflexões… Somos todos ouvidos!