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Além dos hospitais: uma nova visão sobre o preconceito racial

Nos primeiros capítulos da série sobre o preconceito racial, demos um panorama da sociedade brasileira e trouxemos histórias de pessoas da esfera da organização Doutores da Alegria. 

Hoje, Dia da Consciência Negra, seguimos com uma reflexão histórica e teorias bastante novas que vêm surgindo no meio acadêmico. Que este 20 de novembro seja um dia essencial para que mais pessoas tomem conhecimento de que o preconceito racial não é natural, e sim político, imposto como forma de dominação. E que possamos exigir políticas públicas que o enfrentem. 

eduardo-kobra-mural-grafite-com-limao-06-620x350Parte de mural grafitado por Eduardo Kobra

“Há negros de todas as cores. Existem, porém, muitos negros que não sabem que são negros. Mais do que necessária, a consciência negra é uma condição para impedir que nossa sociedade racista aponte do pior jeito a cor da nossa pele, nossos traços ou nossa origem. Neste país, todo negro é um sobrevivente. Sobrevivemos a toda sorte de adversidade, ao descaso, à violência, à miséria, às doenças, às piores condições de trabalho, aos piores salários, à falta de assistência, à discriminação. Sobrevivemos à escravidão, ao massacre da nossa cultura, à perseguição da nossa religião, a humilhações históricas e cotidianas. Precisamos do Dia da Consciência Negra para que todos os brasileiros possam pensar no país que querem construir. Precisamos deste dia para simplesmente celebrar o orgulho do povo negro: o orgulho de ter sobrevivido!”
Rodney de Oxóssi, antropólogo, escritor e babalorixá que há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e religiões de matriz africana 

Trazendo luz à história africana do ponto de vista dos negros, diversos movimentos e coletivos sociais vêm se mobilizando para exigir políticas públicas que possam frear a discriminação em todas as esferas de poder, sobretudo pautadas na educação de base.

+ leia o capítulo 1 da série: Um retrato do que bate à nossa porta
+ leia o capítulo 2 da série: Um relato sobre uma vida de luta na pele negra

Neste sentido, convidamos o filósofo Ricardo Benedicto, mestre em Filosofia pela PUC-SP e doutor em Educação pela USP, que já esteve em nossa sede em março com a palestra “Reflexões Contemporâneas sobre o Racismo”, para contribuir com a superação de ideias equivocadas sobre o racismo. O objetivo é que este seja corretamente compreendido e enfrentado. 

O racismo como um sistema social,
por Ricardo Matheus Benedicto

“Não é, pois, na sequência de uma evolução dos espíritos que o racismo perde a sua virulência.” Frantz Fanon

A despeito dos excelentes estudos sobre o racismo realizados por Carlos Moore (2007), Racismo e Sociedade, e por Vulindlela Wobogo (2011), Cold Wind For the North, ainda persistem no imaginário dos afro-brasileiros entendimentos equivocados sobre este complexo fenômeno. Este breve texto pretende contribuir para a superação destas concepções com o intuito de que o racismo seja corretamente compreendido e enfrentado.

Antes de tratarmos destas visões errôneas, é preciso definir nosso objeto de análise. De acordo com Moore, o “racismo é um fenômeno eminentemente histórico ligado a conflitos reais ocorridos na história dos povos” (MOORE, 2007, p. 38). Para o etnólogo “desde seu início, na antiguidade, o racismo sempre foi uma realidade social e cultural pautada única e exclusivamente no fenótipo, antes de ser um fenômeno político e econômico pautado na biologia” (MOORE, 2007, p. 22). Já para Wobogo “o racismo branco é o abuso racialmente motivado baseado no reconhecimento do fenótipo ou ancestralidade praticado por brancos/europeus, suas instituições e seus aliados.” (WOBOGO, 2011, p. 23).

Os autores concordam, a despeito das diferenças existentes em suas definições, que o racismo pode ser compreendido como um sistema social estruturado para distribuir privilégios políticos, econômicos, culturais ao grupo racialmente hegemônico. Concordam também que este sistema produz ideologias que, para justificar esta modalidade de dominação, desumanizam o grupo considerado racialmente inferior.

Agora que definimos nosso objeto, podemos tratar dos equívocos mais comuns que ocorrem na análise e compreensão desta chaga que assola a humanidade. O primeiro deles consiste na explicação tradicionalmente aceita sobre origem do racismo. Esta explicação sustenta que o racismo é uma ideologia que nasceu na modernidade com o objetivo de justificar a escravização dos africanos e o imperialismo europeu. Para os defensores desta tese, o racismo teria vindo a luz por causa de razões meramente econômicas ditadas pelo desenvolvimento do capitalismo.

Esta tese, no entanto, não se sustenta, visto que não consegue explicar, por exemplo, algumas sentenças do Rig-Veda – escritas há pelo menos um milênio antes de Cristo –  como as que seguem: “o Indra protegeu seus súditos arianos durante as batalhas, subjugou a gente sem leis para o bem de Manu e conquistou a pele negra”; “você Indra, matador de Vrittra, destruidor das cidades, tem dispersado os dasyu gestados por um ventre negro”; “a cor negra é ímpia” (MOORE, 2007, p. 52). Também não pode explicar a referência abaixo retirada dos escritos dos sábios do Talmude escrita no século VI depois de Cristo: 

E já que você me desrespeitou […] fazendo coisas feias na negrura a noite, os filhos de Canaã nascerão feios e negros! Ademais, porque você torceu a cabeça para ver minha nudez, o cabelo de seus netos será enrolado em carapinhas, e seus olhos vermelhos; outra vez, porque seus lábios ridicularizam a minha má fortuna, os deles incharão; e porque você descuidou da minha nudez, eles andaram nus e seus membros masculinos serão vergonhosamente alongados! Os homens dessa raça serão chamados de negros, seu ancestral Canaã os mandou amar o roubo e a fornicação, se juntar em bandos para odiar os seus senhores e nunca dizer a verdade.* 

* Citação extraída da obra de Elisa Nascimento Pan-Africanismo na América do Sul, São Paulo: Vozes, 1981, p. 26. 

Além do mais, Moore demonstra que a origem do racismo é histórica e não ideológica, ou seja, seu surgimento não está relacionado com o pensamento de um – ou mais –  determinado autor, mas sim com conflitos reais pela posse de recursos ocorridos na história dos povos.

2parte da obra Mulheres Facetadas, de Di Cavalcanti

O segundo equívoco consiste em reduzir o racismo às manifestações discriminatórias que ocorrem no âmbito das relações interpessoais. Esta posição é incorreta, pois, além de confundir os conceitos de racismo e discriminação, ignora ou nega toda estrutura de poder historicamente existente nestes sistemas organizados para distribuir privilégios com base no fenótipo. Além do mais, este entendimento estimula a crença ingênua – ou nem tanto – de que o racismo, entendido não como um sistema social, mas como ato discriminatório praticado apenas por indivíduos, ainda existe por causa de pessoas ignorantes, sem instrução e que, desse modo, tende a desaparecer com o avanço educacional e científico no país.

Para mostrar que esta crença não tem fundamento, basta lembrar que Rui Barbosa[1] e José Veríssimo[2] defenderam a política nacional de branqueamento, que Fernando de Azevedo[3] defendeu e implementou no país um sistema educacional fundamentado na eugenia, que Anísio Teixeira[4] considerava as culturas africanas primitivas e que Darcy Ribeiro[5] considerava que no Brasil nunca houve barreiras de ordem cultural e linguística reforçando, assim, o mito da democracia racial. Estes pensadores, que ao longo da história do país deram sustentação ao sistema de dominação racial – ainda hoje vigente no país[6] – estão longe de serem pessoas ignorantes e sem instrução. Por fim, parece muita ingenuidade acreditar que um fenômeno que surgiu há mais de três milênios tendo, portanto, que se ajustar a diversas mudanças sociais, políticas e econômicas ao longo da história vá simplesmente desaparecer devido ao avanço da educação como se os sistemas educacionais oriundos de sociedades racistas, aqui vale recordar a definição de Wobogo, não estivessem comprometidos com este sistema social. 

Diante destas considerações, é urgente abandonar estas concepções simplistas sobre o racismo afim de que, inspirados nas tradições africanas e afro-brasileiras, possamos organizar instituições econômicas, sociais, culturais e políticas, pois somente desta forma poderemos enfrentar adequadamente o sistema racista vigente.”

O vídeo completo da palestra, que traz argumentos sobre a tese:

Notas de rodapé:
- artigo A Convenção Fatal: Dois Pontos de Vista. In: A Imprensa. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, Vol. XXVI Tomo VII, 1899, p. 94. E seu Discurso pronunciado na sessão cívica de 28 de maio de 1917, no Teatro Municipal. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1999, p. 35-36.

- obra a Educação Nacional Rio de Janeiro: Topbooks; Belo Horizonte: PUC Minas, 2013 e o artigo O País Extraordinário In: Jornal do Comércio, 04 de dezembro de 1899.

- obra Da educação física: o que ela é, o que tem sido e o que deveria ser. São Paulo: Melhoramentos, 1960.e a obra de Jerry Dávila Diploma de Brancura Política Social e Racial no Brasil 1917-1945. São Paulo: UNESP, 2006.

- artigo Educação e unidade nacional. In: Educação no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976, p. 326.

- obra Nossa Escola é uma Calamidade, Rio de Janeiro: Salamandra, 1984, p. 22 e seu artigo A América Latina existe? In: Ensaios Insólitos. Rio de Janeiro: Ludens, 2011.

- Charles Mills em sua obra The Racial Contract escreve: “A supremacia branca é o sistema político não nomeado que fez do mundo moderno o que ele é hoje. Você não encontrará este termo em textos introdutórios ou avançados de teoria política. Um curso padrão de graduação em filosofia começará com Platão e Aristóteles, talvez diga algo sobre Agostinho, Tomás de Aquino e Maquiavel, seguirá em direção a Hobbes, Locke, Mill e Marx, e então termina com Rawls e Nozick. O curso apresentará noções de aristocracia, democracia, absolutismo, liberalismo, governo representativo, socialismo, capitalismo de bem-estar, e libertarianismo. Mas, embora ele cubra mais de dois mil anos do pensamento político ocidental e trate ostensivamente de uma variedade de sistemas políticos, não há menção ao sistema político básico que moldou o mundo nos últimos séculos. E esta omissão não é acidental. Ao contrário, ela reflete o fato de que os livros de referência e os cursos foram escritos e planejados por brancos que tomam seu privilégio racial como natural e não o veem como político, como uma forma de dominação. Ironicamente, o mais importante sistema político da história global recente – o sistema de dominação pelo qual os povos brancos têm historicamente governado e, de certo modo continuam a governar os povos não brancos – não é visto como sistema político (MILLS, 1997, p.1-2).

Referências:

FANON, Frantz. Racismo e Cultura. In: Em Defesa da Revolução Africana. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1980, p. 32-48.

MILLS, Charles W. The Racial Contract. Ithaca: Cornell University Press, 1997.

MOORE, Carlos. Racismo & sociedade: novas bases epistemológicas para entender o racismo. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.

NASCIMENTO, Elisa L. Pan-africanismo na América do Sul: emergência de uma rebelião negra, São Paulo: Selo Negro, 1981.

WOBOGO, Vulindlela. Cold Wind From the North: The Prehistoric European Origin of Racism Explained by Diop’s Two Cradle’s Theory. Charleston: Books on Demand, 2011.

Além dos hospitais: um relato sobre uma vida de luta na pele negra

Tempo de leitura: 6 minuto(s)

Quando optamos por estar em hospitais periféricos, sabíamos que nos depararíamos com uma realidade bem diferente do que encontramos em hospitais privados nos grandes centros urbanos. 

Estas áreas de fronteira são habitadas, em geral, por uma população negra e pobre, destituída de seus direitos básicos. Pessoas que atravessam a cidade, todos os dias, para trabalhar em empregos refutados pela população mais privilegiada. E neste cotidiano sofrem com a discriminação velada, por vezes negada, em função da cor de sua pele. 

HU - Lana Pinho-32

“As diferenças entre brancos e negros estão nas estatísticas sobre educação, saúde, emprego e várias outras áreas, mas em nenhum outro lugar ela é tão clara como na geografia e na distribuição de raças. A casa grande e a senzala seguem firmes e fortes, mas agora aparecem como centro e a periferia”, conta o repórter Rodrigo Bertolotto em matéria especial sobre racismo.

E mesmo alcançando posições de prestígio na sociedade, estas pessoas precisam lutar para reiterar suas conquistas. Dando continuidade à série sobre racismo, convidamos o ator, diretor, dramaturgo e educador Heraldo Firmino, coordenador do Programa de Formação de Palhaço para Jovens da nossa Escola, para falar sobre essa experiência – ou, como ele mesmo diz, “sobre essas marcas profundas, que vão sendo reeditadas na pele todos os dias”. 

Pra quem se interessar pelo tema e pela luta, no próximo dia 11 de novembro, sábado às 15h, Heraldo participa de um evento sobre a presença negra na comicidade no Sesc Santo Amaro, em São Paulo. Mais informações aqui.

heraldo firmino

“A tempo”, por Heraldo Firmino

Neste escrito fui misturando, propositalmente, o que sinto e o que sentimos.
No fim, é um pouco da história dos negros e negras em luta. Por apenas ser, só isso. 

A tempo de perceber, após 50 anos de existência, alguns porquês. A pele negra nos fez e faz passar por tantas coisas cruéis, injustas, desnecessárias, desagradáveis. “Aquilo que não mata, fortalece”. Sim, e deixa mais cascudo, bravo, com raiva, beligerante.

A sensação cotidiana é de estar em um lugar que não lhe pertence ou, pelo menos, que não querem que pertença. De olhar em volta e não se reconhecer ou tentar um reconhecimento onde não há. Ter uma condição ruim normatizada pelo sistema e reproduzida até por aqueles que nos querem bem, mas que também não enxergam. Assim é durante muito tempo, ficamos quietos e muitas vezes aceitando calado o destino, à sombra da sociedade, comendo pelas beiradas e continuando a viver. Viver? 

Durante muito tempo nos enganamos pensando que fazíamos parte, que éramos da turma, que estávamos na onda. Ilusão. A arte, aqui, nos aponta um caminho, nos coloca frente a frente com a situação. Questionei e questiono agora até esta arte. Há algum tempo fui beber na fonte dos derrotados, dos esquecidos, dos de menos valia. O conhecimento em curso me coloca em cheque, convicções caem às pencas, livros lidos agora são uma grande face maquiada que perde a cor, desbota, está bem borrada. É catastrófico por que é tudo o que sei, tudo o que aprendi. Por outro lado, abre um novo mundo de possibilidades. 

Agora, me cabe recuperar este mundo sequestrado de maneira tão vil, deixar emergir dentro de mim o melhor dos dois mundos. Uma tarefa dificílima, já que os meus pares simplesmente ignoram ou, por tão sensíveis que são, estão no máximo empáticos a esta atualização. Não falam, mas percebemos a estranheza com que somos ouvidos, as atitudes, a vontade de falar determinados assuntos e ter sempre uma comparação com alguma situação vivida por outro, como se esta situação tivesse alguma semelhança. Eu percebo que, quanto mais me aprofundo, mais distante vou ficando. É sufocante, não consigo explicar o que é inexplicável, só quem é, sabe. 

Sei que tentar entrar neste mundo pode ser muito dolorido, porque talvez as pessoas sintam um pouquinho do que temos que carregar diariamente. Nunca saberão, mas poderiam tentar, tenho certeza que é mais confortável ser favorável à causa porque, para muitos, é uma questão de princípios. Mas, ao virar a esquina, nossos mundos se separam. Sei que muitos nem estarão com outros como nós. Amanhã, talvez, quando nos encontrarmos em um fraterno abraço de bom dia. 

A tempo, continuo me aprofundando, entendendo que este não é um problema de negros e negras, ele é de toda sociedade. E visto deste lugar, porque tantos soldados apostos, e tão poucos dispostos a ir para o campo de batalha? Cansaço. Acho que a palavra mais apropriada neste momento. Não somos exóticos, aparentamos ter a idade que temos, vivemos nos mesmos espaços que você, mas somos tratados de maneira diferente. Seu olhar condescendente não ajuda, de diferença também não. Tampouco achar que somos iguais perante a sociedade, os governos, as instituições, o mundo. Saiba que não queremos nada, na verdade, só igualdade, só escuta sem interrupção, sem julgamentos. 

A cada esquina que viramos, tem uma pessoa que muda de calçada. Durante o dia, com o sol rachando, as pessoas nos olham passeando com nossa família e logo vem alguém oferecendo comida ou uma roupa velha para nossos filhos. Somos mal atendidos nos restaurantes, seguranças se movimentam e falam no rádio quando entramos em um mercado, banco ou qualquer um destes lugares. Ou somos parados pela polícia, na frente da nossa própria casa, e somos indagados sobre o que estamos fazendo ali. 

Ser tratado como bandido, e ter que fazer o jogo do policial porque não tem ninguém vendo, “ninguém vendo”, e posso ser rapidamente jogado dentro de um camburão porque eles não foram com a minha cara. Desde criança tenho medo da polícia. Fui maltratado naquela época, depois e agora ainda corro este risco e meus filhos também. É um lugar bem ruim de ficar, sempre alerta e sempre alerta mesmo! Dia desses, meu filho foi chamado de negrinho porque olhava uma vitrine, um brinquedo… Um brinquedo… A vontade era de… Ficou no pensamento… O ódio não pode ser a resposta para o ódio. Um gosto amargo fica na boca, quando parece que vai sair, acontece de novo, e de novo, e de novo… 

A tempo, sei que há vinte e cinco séculos esta opressão racista vem sendo construída e que está longe de ter uma solução. A desconstrução vai muito além de querer discutir posições neste momento. Atenção aos fatos, acredito que seja um bom caminho.

Um grande roubo da dignidade, dos afetos, das crenças, da arte, da cultura, das origens. E o que não é extinto, é absorvido sem dar a menor importância aos verdadeiros criadores, coisas banais que foram dadas ao mundo como a filosofia e o início do mundo “civilizado”. As mentes mais brilhantes que já andaram na terra vêm do Egito antigo, e eles eram negros. 

A tempo de perceber a grande alegria de ser, onde ser, com quem ser, sem ser invisível, sem ser vulnerável, ser menosprezado, sem ser julgado pelo fenótipo (aparência). A tempo de olhar nos olhos e ver que alguns (muito poucos) começam a enxergar, e a proximidade cria uma espécie de irmandade que é percebida em uma troca de olhares.

A tempo de perceber que é uma desconstrução difícil, porque o mundo é constituído assim, e que a maioria das pessoas vai achar muito cansativo, dolorido, psicologicamente aterrador, e talvez seja mais simples fingir que não aconteceu, não está acontecendo e não vai acontecer. 

Mas existe a ciência de saber e a escolha de esquecer, e você sabe! Sabe, porque não se importa se seu filho vai à escola “paga” e lá não haverá os filhos da diáspora africana, não se importa de viver num ambiente de trabalho e não ter parceiros de trabalho que tenham pigmentação da pele mais escura que a sua, e também acha normal que, quando eles aparecem, estão na condição de serviçais e são praticamente invisíveis. “Na boa”,um sorriso e bom dia, apenas, não muda muita coisa. Talvez não se importe, porque passou por muitas coisas na vida também e tem muita história triste pra contar. É a vida,e todos passaram por isso, mas ouvir isso não ameniza a falta de dignidade com que somos tratados toda vez em que tentamos contar o que nos acontece diariamente. 

Tem gente brigando por direitos, nós brigando pelo direito de ter direitos. Talvez, pra você ter uma ideia desta condição, pegue algumas dessas histórias tristes e, num exercício de empatia, coloque uma ou duas em todos os dias de sua vida. Talvez, então, comece a entender o que falo. Depois deste exercício, se tiver coragem de fazê-lo, talvez pense: pra viver assim tem que ser forte, determinado, viver um psicológico muito abalado, ter muito medo, vegetar, viver em abuso, sofrer e chorar, chorar muito. Mas um conselho: não chore na frente dos outros, pois vai levar mais porrada. Ser ignorado, preterido, trocado, vendido, explorado, ser objeto, invisível, saco de pancada. Desabafo? Não, constatação de alguém que as lágrimas escolhem por quem cair. Sou filho do acaso, do descuido institucionalizado, do olhar da mediocridade, em nosso simulacro fazemos o jogo de cena, seguimos nossos caminhos e vamos chegando, mas não nos garante nada. Podemos ser destituídos rapidamente dos lugares em que conseguimos chegar. Não foi fácil, não é fácil, não vai ser fácil. 

Os meus são todos, e não é nenhum. Pertenço, não sei. Tanta coisa subtraída que só nos resta seguir em frente e buscar o encontro. E eles acontecem, aos poucos, lentamente, na força e na sutileza. É duro pensar que o tempo está acabando, sinto isso, quero aproveitar mais, mas na minha jornada muitos olham e se identificam. Fiz parecer muralha, fiz parecer porto seguro, fiz parecer segurar tudo com retidão, mas a tempo de perceber que outros vem, como eu vim, e outros virão depois de mim. Vale e faria tudo novamente. Talvez desse mais tempo para mim, talvez! 

UBUNTU! É uma filosofia, fala da grandiosidade do ser humano, do poder matriarcal, da xenofilia, do coletivo. Talvez um caminho para acalmar a alma. O corpo pede dança e quando faz é feliz, quando canta é feliz, quando ama é feliz, quando goza é muito feliz. Corpo que ri muito, que brinca muito, precisa de espaço, cativa, festeja, abraça e beija, que recebe bem, cuida de alguém, eleva a alma, entra em êxtase com som de tambor, que joga capoeira. Erudito e popular? Para nós existe apenas o movimento. E todos esses atributos pertencem a uma cultura, “cultura do ser humano”, não à guerra.

Previsão do tempo

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Nunca dei muito ouvido à moça do tempo. Se ela diz que a previsão é de chuva, eu levo um casaco e deixo o guarda-chuva.

A moça não falou na TV, mas eu sei que estamos passando por uma alta pressão atmosférica. E do jeito que a coisa anda nebulosa, a previsão é de nuvens carregadas com fortes pancadas. Pessoas frias em pleno aquecimento global. Chuva molhando gente completamente seca. Lares que desabam. Cadê minha casa? Não tirem minha vida! 

Olho para o lado e uma coreografia de “mãos para o alto, é um assalto!”. Parem essa música! Crianças fazendo coisas de gente grande. Pais sentados na calçada enquanto seus filhos arrumam o dinheiro da feira. Água no vidro do carro. Falei que não quero! Mas as coisas não vão mesmo do jeito que a gente quer. Nó na garganta, rouca. Sem voz ativa. Sem indiretas. Falo de coração. Saudade do tempo em que brincadeira de criança era na rua e não nas ruas.

Barão de Lucena - Lana Pinho-119

Moça do tempo, que clima é esse? Amanhã quero acordar com o sol brilhando na janela. Tirar o mofo. Regar as plantas e aquecer a alma. 

Os encontros com F. têm sido gotículas de esperança. Sol quando aparece no inverno que a gente quer aproveitar ao máximo. Menina, de 8 anos aproximadamente. Sempre acompanhada de sua mãe, que dessa vez nos chamou: 

- Venham falar com F. Ela vai hoje para sua terceira cirurgia e quer levar um pouco da alegria de vocês. 

Fomos. E nosso papo é totalmente musical. Desde o primeiro dia de encontro ela já foi cantando “Alecrim dourado”. E nesse dia não foi diferente. Ela cantando com um microfone improvisado de seringa, Dr. Lui e eu fazendo o acompanhamento com nossos instrumentos e sua mãe sentada vendo aquela cena que antecedia o momento da cirurgia.

IMIP - Lana Pinho-109

F. estava inteira, sem nem se preocupar em acertar o tom, a letra, essas coisas de adulto. Sua mãe estava aos pedaços, mesmo fingindo que não, essas coisas de mãe. Vi passar um filme nos seus olhos. Um filme do maior amor do mundo. Daquele que de tão grande aperta e dói. 

A moça do tempo não me falou, mas sei que a qualquer momento ia chover naquele olhar.

Luciano Pontes, mais conhecido como Dr. Lui, e Luciana Pontual, a Dra. Svenza,
escrevem do Hospital da Restauração, em Recife.

Também tem muita coisa boa acontecendo

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Sempre saímos muito pensativos depois de um dia de trabalho no hospital. São várias as reflexões. A última foi sobre ser feliz.

Ser feliz não é questão de não ter problema ou de ter uma vida perfeita. Ou de ter uma vida onde tudo parece ser favorável. Hoje percebo que ser feliz é saber lidar com o que a vida nos oferece, mesmo sendo algo não muito agradável. Até porque, tenho quase certeza, não existe só coisa ruim acontecendo.

Restauração - Lana Pinho-170

Nossa função enquanto besteirologistas é entrar em contato com esse lado saudável da vida. E como é que eu consigo me conectar com o positivo da existência? Poderíamos fazer um pequeno exercício de olhar pra tudo de bom que está acontecendo. O que está surgindo de bom agora na sua vida?

No hospital, por exemplo, tem muita coisa boa acontecendo! Existe uma pessoa que acorda todos os dias pra olhar pra nossa saúde, pessoa que faz nosso almoço, pessoa que pensa nossa dieta, que limpa nosso quarto, que nos dá carinho, que ora pela gente. Pessoa que lava nossa roupa, pessoa que conserta o ar condicionado, pessoa que nos faz rir, profissionais que desenham e pintam com a gente, pessoa que estuda pra nossa cura e mais, mais, mais pessoa pra tudo!

Barão de Lucena - Lana Pinho-49

É muita coisa, né? E muita coisa boa! Então, por que não agradecer mais e pedir menos?

É um grande passo pra uma conexão com um turbilhão de coisas legais e que estão presentes em nossas vidas. A gente sabe que o mar não tá pra peixe. Ôps! A gente sabe ou nos disseram isso? A gente foi lá olhar, tirar nossas próprias conclusões? Hum… Tenho certeza de que muitos de nós nem sequer se deram ao trabalho.

Se alegrar com o simples…

Mas o que fazer com esse lado negativo que muitas vezes nos afoga e nos deixa tristes?

Certa vez, estávamos em um atendimento com uma criança que não andava e que se encontrava há 5 anos morando na UTI. Parece pesado, né? Mas pra esta criança, não era! Ela se alegrava porque a sua cama ia mudar de lugar, ia pra mais perto da janela e, assim, iria conseguir ver o nascer do sol. Ela se alegrava com a chegada dos palhaços, com o carinho dado pela sua mãe, com a nova cor estranha do cabelo da médica, e por aí vai. 

Nesse dia, em uma cadeira de rodas, ela segurava um copo de iogurte. No meio da conversa, ela deixou cair o copo no chão. Fiquei um pouco assustada, tentei segurar o copo e não consegui. Ela olhou pra mim, com o olhar leve e tranquilo, e disse:

- Tem nada não, é que eu sou assim mesmo!

Essa frase ecoou na cabeça. “É que eu sou assim mesmo”. Acho que um bom começo para saber lidar com o que consideramos negativo em nossa vida e aceitar a condição atual.

Restauração - Lana Pinho-118

Se no momento eu estou doente, eu aceito a doença, trago ela pra perto de mim, olho com amor pra ela, sem aversão e entendo que eu não SOU uma doença, mas que ESTOU doente. Começo a entender que além da doença, para qual estou olhando com muito afeto, existe uma possibilidade de coisas acontecendo de positivo bem pertinho. Por exemplo: o sol nasce todos os dias, depois vem a lua, já ouvi várias vezes som de pássaros de dentro do hospital, já vi, de dentro da enfermaria, o vento bater em árvores… 

É uma questão de escolha. Não está nada fora do lugar porque é assim que tinha de ser. No frigir dos ovos, está tudo bem pra menina, está tudo bem pra nós e está tudo bem pra você. Tá tudo certo!

Juliana de Almeida, mais conhecida como Dra. Baju,
e Marcelo Oliveira, o Dr. Marmelo, 
escrevem do Hospital Oswaldo Cruz, em Recife.

Retrospectiva: 2015 foi assim

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

O ano nos reservou histórias e momentos marcantes. Delicados e emocionantes. Raros. Alguns tensos, assustadores. Outros engraçados, transformadores. 

Aqui no Blog os palhaços contaram mais de 100 histórias que os marcaram nos hospitais. Também teve textos reflexivos sobre alegria, saúde, arte… Palavras que compõem o mundo que nos rodeia, e que tem rodado tão rápido. Neste espaço buscamos uma pausa para a leitura, para entregar e dividir com você momentos que nos marcaram. A escrita nos ajuda a manter o passo.

Os melhores momentos de 2015

Saudade de uma internação

Começamos o ano contando sobre a saudade que ficamos de alguns pequenos pacientes que não encontramos mais nos hospitais.

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Obrigado, Sacks!

Em março falamos da revelação do neurologista e escritor Oliver Sacks sobre sua doença. Grande inspiração, para nós, Sacks descobrira um câncer em sua fase terminal. Ele faleceu em agosto, aos 82 anos.

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Um olhar além

A força dos encontros e como eles podem afetar o nosso corpo é a base conceitual do nosso trabalho. Falamos sobre como a alegria ativa o corpo humano e traz benefícios para a saúde. Talvez seja a própria saúde.

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A música me salvou

A arte em forma de música salvou a vida de uma criança. Lançamos a bandeira do acesso à arte como um direito básico e universal, inclusive para as populações mais vulneráveis, como dissidentes de guerras e pacientes em hospitais públicos.

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Imagine um hospital que…

Falamos sobre um experimento que uniu mais de 600 pessoas de nacionalidades diferentes em busca de um sistema de saúde que atenda às necessidades contemporâneas, com novas forças sociais, econômicas, tecnológicas e epidemiológicas.

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Se algum dia me vir chorando

Nem sempre os besteirologistas são queridos à primeira vista. Naquele dia, precisamos ir além da máscara do palhaço pra fazer a pequena paciente acreditar que por trás daquele nariz havia um ser humano que também era chorão.

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Diário de um pequeno rebelde

Em abril contamos sobre um jovem que insistia na agressividade com os palhaços. Talvez ele apenas precisasse de carinho.

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Histórias de mães

Maio foi o mês das mães. Pedimos a elas que contassem histórias especiais com seus filhos em hospitais. Foram 25 histórias que só podiam ser escritas por mães <3

+ > veja a série de histórias

Marlene-Riguete

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Quando a vida real invade a ficção

A Dra. Pororoca ficou gravidíssima esse ano. Ela conta como trabalhou em trio, dois adultos e um bebê na barriga.

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Os dois lados da mesma esquina

Contamos sobre um daqueles momentos que nos pegam de calças curtas. A senhora pedia um abraço pois o neto havia partido.

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O fantástico leilão do Mateus

O Mateus é um jovem paciente da UTI Pediátrica do Hospital do Mandaqui que nos conhece há muito tempo. Ele resolveu presentear cada palhaço com algo muito especial.

+ > leia a história 

leilao do mateus - doutores da alegria

leilao do mateus - doutores da alegria

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A doença vale a pena

Será possível encontrar algo de precioso na doença? Algo que a faça valer a pena?

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Uma história sobre o inevitável

O que a iminência da morte pode nos provocar, nos ensinar? Aquela visita nos tocou profundamente.

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Essa nossa dúvida

Que função social o palhaço cumpre hoje nos hospitais públicos? Dia a dia questionamos que outros elementos – no campo objetivo ou no campo dos afetos – merecem a intervenção artística. 

+ > leia a história

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Quer mais histórias?

Percorra o Blog dos Doutores da Alegria para ver outras histórias sobre o nosso trabalho. E depois nos conte: qual foi sua história preferida em 2015? Em 2016 tem mais!

Essa nossa dúvida

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Quando decidimos explorar o hospital como palhaços, miramos na figura do médico.

Foi o médico, lá em 1991, que inspirou o personagem “besteirologista”. Nosso figurino recebeu mais uma peça – o suntuoso jaleco, manto da profissão – e itens que parodiavam estetoscópios, termômetros e receituários. Cada artista incorporou o seu besteirologista: Dr. Zinho, Dra. Emily, Dra. Sirena, Dr. Lui e tantos outros.

Palhaços e médicos se colocam a serviço do outro e nutrem-se dos mesmos elementos para suas atuações: olhar, ouvir, compreender necessidades, interagir. O contraste talvez esteja na disposição de cada um – o médico se prepara para o acerto; o palhaço, para o erro.

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Enquanto um erro do médico pode ser fatal, o besteirologista treina para o tropeço, para bater com a cara na porta. É no erro que se constrói graça e cumplicidade. Como pacientes ou meros espectadores, amparamos a sua fragilidade e rimos de suas trapalhadas.

No hospital a perfeição é exigida em cada detalhe. O palhaço ajuda a lidar com a vulnerabilidade da condição humana, com nossos conflitos e dificuldades, atuando para expandir os limites do comportamento.

Fotografia da Dupla Du Circo e Ju Gontijo no Instituto da Criança no Hospital das Clínicas.

O palhaço nos leva a aceitar a dúvida e a hesitação; enquanto esperamos respostas rápidas e salvadoras da figura médica. Dá pra imaginar o peso da profissão, de cada palavra ou esperança dada!

Hoje o nosso trabalho nos hospitais ainda segue a paródia do médico, mesmo que superficialmente. As visitas leito a leito e o jaleco espelham a profissão. Mas dia a dia questionamos que outros elementos – no campo objetivo ou no campo dos afetos – merecem a intervenção artística. Que função social o palhaço cumpre hoje nos hospitais públicos?

o inevitavel

Talvez cada hospital tenha as suas questões. O Instituto da Criança, referência em São Paulo, é diferente do Hospital do Campo Limpo, que é diferente do grande Hospital Barão de Lucena, no Recife, ou do Hospital Santa Maria, que trata pessoas com tuberculose no Rio de Janeiro.

A busca por essa resposta também é motor de diálogos e pesquisas hoje no Doutores da Alegria. Artistas e corpo administrativo pensam juntos. E a reflexão com a sociedade, com quem habita esses lugares públicos, é um passo importante nesta jornada.

Assim como o palhaço, deixemos que a dúvida faça sempre parte do trajeto.

Existir para…

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O dia a dia de uma organização está pautado por constantes e sucessivas indagações.

Por um lado estamos sempre nos perguntando se o propósito lá do início, em 1991, de levar a alegria do palhaço profissional para os hospitais públicos ainda é a estratégia mais contundente que podemos oferecer para transformar uma situação tão delicada que é a internação hospitalar.

E por outro lado, estamos sempre atentos se estamos conseguindo traduzir os fundamentos da organização – sua missão e estratégias – para a sociedade de maneira clara e possibilitando sua participação.  

Este aval da sociedade para uma organização como Doutores da Alegria é fundamental tanto quanto o impacto em nossos pequenos pacientes. Ela representa também o porquê de nossa existência. Essa dinâmica é o motor de uma associação viva, com finalidade pública, que atua inteiramente financiada por recursos da sociedade: verificar constantemente o impacto social das nossas ações e possibilitar que nossas estratégias sejam entendidas e adotadas pelas pessoas. O que era somente nosso por um instante passa a ter muitos donos. 

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Depois de 24 anos temos muito a celebrar pelos resultados alcançados e muito a exigir de nossa atuação adiante para contribuir por mudanças consistentes de que tanto nosso Brasil precisa. Os feitos estão relacionados ao que temos hoje no país de boas ações e políticas para mudar os hospitais, tendo em vista melhorar a experiência da internação pela ótica do paciente e de como o palhaço contribui para isso. E se no início o palhaço gerava estranhamento e indagação de sua pertinência, tempos depois seu exemplo trouxe diversas atividades para dentro hospital com o objetivo de “humanizar” o ambiente.

Parece muito, mas parece ser muito pouco. 

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Ainda muito falta a fazer pela saúde pública no país. Brasil afora, mesmo nos grandes centros, vemos hospitais estagnados, estruturas de serviço totalmente dissociadas dos valores mínimos de cidadania e direitos básicos. Profissionais desvalorizados, mal remunerados e insuficientes. Espaços físicos de atendimento que não poderiam estar em uso em várias funções públicas, muito menos para cuidar de humanos. 

Mesmo com tanto a comemorar, estamos sentindo um gosto amargo de que nosso país avança a passos muito lentos e isso nos persegue nas reflexões e na busca por soluções que gostaríamos de gerar para todos os hospitais brasileiros. 

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Doutores da Alegria atua no campo subjetivo, quer existir para melhorar as relações entre as pessoas. A ficção e a paródia possibilitam um novo significado ao real. O palhaço, ridículo, nada heroico, procura pela sua existência que não se impõe, que não se faz necessária ou importante, traz esta dimensão do humano que parece que está se esvaindo.

A organização transita pela saúde, pela cultura, pela assistência social. Como o ser, que não pode ser fracionado, também não estamos em um único campo de atuação; da mesma forma que não nos associamos à cura dos sintomas, mas deixamos que o organismo manifeste como está funcionando. 

A arte afeta as relações, nos ensina a pensar e a sentir o que não foi dito ou traduzido. Depois de 24 anos, sabemos que nosso existir não é mais o mesmo. Estamos inquietos, sempre buscando. 

 “A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte…

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer…”

“Comida” (Titãs – Arnaldo Antunes/Sérgio Brito/Marcelo Fromer –  1987)

Luis Vieira da Rocha

A doença vale a pena

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Será possível encontrar algo de precioso na doença? Algo que a faça valer a pena?

Quando um mal-estar toma o nosso corpo, imaginamos que nada de bom podemos tirar dele. Parece uma perda de tempo. Se a doença se apossa, faz morada, o hospital se apresenta um refúgio frio do qual queremos nos livrar o mais rápido possível.

Num leito de hospital o tempo demora a passar. Demora. Demora. D e m o r a. Entramos em contato com situações que possivelmente não vivenciaríamos se estivéssemos saudáveis, mergulhados no trabalho, na família, no círculo social, na faculdade, no trânsito, na academia, no supermercado, ufa!

Na doença, as relações são construídas de forma diferente porque nossa percepção está mais sensível. Os sentidos se aguçam e ficamos mais atentos aos afetos que nos atravessam. O encontro com um palhaço pode ter um valor único naquele momento, assim como a palavra de um médico, e podemos nos surpreender com nossas próprias reações: “como fui corajoso!” ou “ainda tenho muito a enfrentar, mas estou consciente disso”.

Fotografia da Dupla Du Circo e Ju Gontijo no Instituto da Criança no Hospital das Clínicas.

A doença nos tira o domínio sobre o tempo, nos tira o escudo, expõe nosso lado mais fraco, nos coloca de joelhos pela vida, e muitas vezes descobrimos quem somos e do que somos capazes quando baixamos a guarda. A doença obriga a viver o presente, devagar e sempre, um passo de cada vez. O enfrentamento pode ser mais fácil se deixarmos de pensar no futuro. É isso mesmo: o futuro carrega dois afetos que podem nos ludibriar – o medo e a esperança. Deixemos que o presente faça o seu trabalho e que estejamos nele de forma íntegra, colocando as expectativas de lado e eternizando cada momento.

Sim, é possível fazer a doença valer a pena. Não se trata de fazer apologia a ela, e sim de afirmá-la, entender que faz parte da caminhada. “Eu estou doente, mas também estou vivo!”.

Viver de forma afirmativa tira o peso e a culpa de nossas costas e nos habilita a encontrar uma maneira de se relacionar de forma diferente com a vida porque, afinal de contas, ela vale a pena em cada suspiro.

Fotografia da Dupla Du Circo e Ju Gontijo no Instituto da Criança no Hospital das Clínicas.

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O que vem antes

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Depois de uma manhã de trabalho, encontrei a mãe de um paciente que lutava há mais de um ano contra o câncer.

Olhava para o seu rosto e só enxergava felicidade porque ela tinha acabado de receber o diagnóstico de que seu filho estava curado. Aproveitamos que estávamos próximos ao restaurante do hospital e, com um copo de suco, brindamos à vida.

Ela começou a relembrar um fato que me deixou pensativo…

Contou que teve um período da internação de seu filho que foi difícil, pois ele estava com a imunidade muito baixa e precisou ficou em isolamento na UTI. Ela tentava animá-lo e ele dizia para deixá-lo quieto porque “ele iria morrer mesmo“. 

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Nesse mesmo dia os besteirologistas apareceram na UTI e foram autorizados a entrar no quarto dele com aventais e máscaras descartáveis. Fizeram um combate de MC’s para ver quem fazia a melhor rima, pois era o que ele sabia fazer de melhor!

Em um curto espaço de tempo, parecia que tudo tinha mudado e aquele garoto aparentemente abatido, “à beira da morte”, agora morria de rir com as rimas atrapalhadas dos palhaços. 

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Depois de ouvir esse relato, tive a noção de que por muitas vezes não damos conta do que acontece minutos antes dentro de um quarto. Isso merece um brinde…

Porque ouvir isso de uma mãe, em mim, também gera vida!

Dr. Mingal (Marcelo Marcon)
Hospital Santa Marcelina – São Paulo

Quem tem coragem?

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P. é um adolescente tímido e grande. 

Devido ao seu tamanho, tinha alguma dificuldade para se movimentar rapidamente. Em compensação, seu raciocínio e sua inteligência muito rápidos deixavam os besteirologistas a quilômetros e quilômetros de distância… Mesmo assim, lentamente, ele os acompanhava pelos corredores, sem abrir mão da visita exclusiva em seu quarto.

Dia desses, Pinheiro e Juca entraram em seu quarto e ele logo avisou, em tom dramático:

- Tem um tubarão dentro desse banheiro.
- O QUÊ? Um tubarão dentro do banheiro? Mas como ele foi parar aí?
- Não sei. Mas ele está aí. Abra a porta, entre e verá se não é verdade. 

quem tem coragem

A Juca ficou tão assustada com a possibilidade de encontrar um tubarão no banheiro que armou uma confusão no quarto pra criar coragem e entrar, já que o Pinheiro colocou ela à frente pra cumprir tal proeza. 

Cada vez que tentava abrir a porta, um escândalo acontecia. Até uma escada a Juca colocou na porta do banheiro e subiu, pra parecer maior e, talvez, o tubarão ter medo dela! Mas, para a surpresa de todos, foi na mão do Pinheiro que o tubarão apareceu. Um tubarão de luva hospitalar que, com a ajuda do P., tinha até música de fundo.

quem tem coragem

Com o tempo, o assustador tubarão começou a soltar alguns puns e foi murchando no quarto, segundo relatou o Pinheiro. Juca só teve coragem de voltar naquele quarto na semana seguinte, mas o menino não estava lá. Estava no corredor, e dizia que não podia ficar no seu quarto porque tinha uma cobra lá dentro. Por esse motivo incrível, teve a autorização dos besteirologistas para acompanhá-los no trabalho pelo 4º andar do Instituto da Criança.

Naquele mesmo dia, ele teve alta e foi embora. A imaginação solta do P. trouxe uma série de reflexões sobre o nosso trabalho. E aquele quarto vai ficar pra sempre marcado. Quem tem coragem de entrar?

Dra Juca Pinduca e Dr. Pinheiro (Juliana Gontijo e Du Circo)
Instituto da Criança – São Paulo