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SUS, capítulo 4: o que entra pela porta do hospital é o social

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Nos últimos capítulos desta série SUS, trouxemos dados sobre a saúde no país e a situação agonizante em que se encontra o Hospital Universitário da USP, em São Paulo.

Hoje o foco é outro equipamento de saúde pública: o Hospital Municipal Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha, conhecido como Hospital Municipal do Campo Limpo, onde Doutores da Alegria também atua, todas as terças e quintas-feiras, há 13 anos.

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Um raio-X do hospital

Localizado na região Sul da cidade, o hospital recebe diariamente 1200 pessoas, a maioria dos bairros de Capão Redondo, Jardim Ângela, Jardim São Luiz e cidades vizinhas como Embu, Taboão e Itapecerica da Serra. Referência em traumas e neurocirurgia, atende muitos casos graves e acidentes. 

O hospital tem 27 anos de existência e ocupou um espaço importante na região, que sofria com a inexistência de um hospital de grande porte. Desde 2008, parte da demanda foi absorvida pelo Hospital M"boi Mirim.

foto-hospital-campo-limpofoto: www.fiquemsabendo.com.br

Em 2005, o Campo Limpo passou por sua primeira reforma, que expandiu o número de leitos, além de melhorar as instalações do pronto-socorro, do centro cirúrgico e do centro de imagens. Em 2013, foram reabertas as vagas da UTI, que recebe em média 29 internações por mês e 344 por ano, segundo dados do portal da Prefeitura.

Entre 2013 e 2015, o Hospital do Campo Limpo liderou as reclamações de pacientes, representando 13% do total de reclamações contra os hospitais municipais da capital. E segundo apuração recente do jornal Folha de S.Paulo, toda a verba prevista para a compra de materiais e novos equipamentos (R$ 1,2 milhão) no Campo Limpo está congelada e faltam insumos básicos, como gaze e esparadrapo. 

O Hospital do Campo Limpo é um reflexo da comunidade local.

A região atendida pelo hospital é uma das mais populosas da cidade, com mais de 1,5 milhão de pessoas, grande parte em situação de vulnerabilidade social. Destas, 26% moram nas 237 favelas localizadas entre as subprefeituras do Campo Limpo e do M"boi Mirim.

Além da falta de habitação e saneamento básico, entre os maiores problemas da região se destacam a violência, a mobilidade e a falta de creches e opções de lazer e cultura para crianças e adolescentes. Um complexo quebra-cabeça que em nada contribui para a promoção da saúde.

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“Encontramos muitas crianças acidentadas; uma que caiu da laje, outra que foi atropelada por uma moto, o outro que atropelou a perua escolar que passava na rua, outra que a mãe não quis mais, outro que foi violentado, enfim… Reflexo da dura realidade em que vive a maior parte da população do nosso país., conta a atriz e palhaça Luciana Viacava, que atua ao lado de Vera Abbud neste ano no hospital.

Histórias de bebês e crianças abandonadas são das mais frequentes. Mães muito novas, situações evitáveis, drogas; mas crianças e pais adoráveis e profissionais muito empenhados. Para o ator e palhaço David Tayiu, estar no Hospital do Campo Limpo é se defrontar com o humano de uma forma quase cruel.

“Antes de chegarmos no pronto socorro infantil, passamos por um corredor surreal – ou real em demasia. Lá, os médicos e enfermeiros são super humanos, trabalham por muitos e se envolvem com cada caso, com cada pessoa, compreendem, respeitam e agradecem a nossa presença. Em uma sociedade que falta tudo, principalmente o básico para sobreviver, se sentem frustrados por suas limitações. A impressão que tenho é a de que gostariam não somente de curar a doença, mas a vida daquelas pessoas.”, conta ele. 

Fotografia dos Doutores da Alegria no Hospital do Campo Limpo/SP.

A questão social no Hospital Municipal do Campo Limpo é muito forte e presente. O que entra pela sua porta reflete o abandono a que esta população está submetida, em diversas instâncias, em um local em que o Estado quase se ausenta.

Vera Abbud, que atua há 25 anos em hospitais públicos de São Paulo, sempre faz a mesma pergunta, engasgada na memória de cenas e histórias que se repetem. “Quando atos como esses se repetem incansavelmente numa mesma parcela da cidade durante anos a fio, não está na hora de se perguntar se essa parcela da cidade está sendo bem cuidada, observada e protegida com dignidade pelas autoridades responsáveis?.

Enquanto palhaços, não temos respostas, brincamos com as perguntas. Mas enquanto artistas e membros de uma organização da sociedade civil, temos a responsabilidade de buscar caminhos para uma saúde universal e que vá além da ausência de doença.

Música nos hospitais: arte e tecnologia em favor do cuidar

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Falar de música em hospitais não é novidade. Há muita afinidade entre a arte da música e a arte de cuidar.

Como traz Eliseth Leão, estudiosa do assunto, “em culturas diversas, o médico e o músico são representados por uma mesma imagem ou símbolo. O Imperador Amarelo, na antiga China, é considerado o fundador da Medicina e da música. Na mitologia grega, Apolo simboliza a estreita relação que existe entre a música e a Medicina.”

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Uma reportagem recente da Folha de S.Paulo questiona a ausência de música nas UTIs. “Um aspecto que poucas pessoas param para pensar é o som em um ambiente de UTI. Bipes, alarmes sinalizando que um batimento cardíaco ficou muito baixo ou muito alto. Ou que a oxigenação caiu, um elétrodo saiu do lugar. Também é constante o som da televisão, o som de uma respiração artificial, o som de um choro contido. Enfermeiros e médicos passam plantões, celulares apitam, telefones tocam”, escreve a repórter Camila Appel.

Ela também descreve uma experiência no Hospital da University College, em Londres. Foi organizado um show ao lado do hospital, com transmissão ao vivo aos pacientes através de fones de ouvido e ipads esterilizados.

Práticas inovadoras também vêm surgindo por aqui, com a perspectiva de obter um resultado terapêutico através da música. Em abril, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, se associou ao Spotify (serviço de distribuição de streaming, podcasts e vídeos) para oferecer playlists/seleções musicais especiais para seus pacientes e clientes.

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Há playlists diversas, entre elas para o Serviço de Hemodinâmica, Ressonância Magnética e Banco de Sangue. Os ouvintes são convidados a avaliar a sua experiência ao entrar em contato com a música em momentos determinados, de modo que estudos possam verificar quais aspectos e como a música atua na promoção de bem-estar. A pesquisa é conduzida por Eliseth Leão, com curadoria de pessoas como o Maestro Walter Lourenção, que já regeu a Orquestra Municipal de São Paulo e a OSESP.

Para Doutores da Alegria, a música é facilitadora na construção de relações sensíveis. Ela é base, recheio, fundo, entrelinhas e silêncios. A música faz parte de todos os nossos projetos, desde o ukulelê tocado pelo besteirologista ao lado do leito de uma criança até um cortejo musical com sanfona e bumbo que ressoa pelos corredores da enfermaria. Também está na grade curricular dos nossos cursos e em ações com a Escola de Música do Estado de São Paulo.

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Além das habilidades do palhaço, é fundamental ter bons ouvidos. Não necessariamente ouvidos absolutos, mas ouvidos acurados.

“Pode-se criar algo a partir do som repetitivo que sai de uma máquina que monitora o coração. Claro que a máquina que monitora um coração não é um metrônomo, que pode ser regulado para a música que será tocada, mas podemos ouvir esta pulsação com ouvidos de palhaço, e então cabe preencher a partitura desse monitoramento. Entre um pi e outro, cabe um estalar de língua, uma nota na flauta, um batuque discreto, um acorde de violão ou uma percussão corporal qualquer. Depois dessa experiência, a criança passa a escutar este som ao lado de seu leito, com outros ouvidos, mesmo na ausência dos palhaços”, conta Thais Ferrara, atriz, palhaça e musicista, hoje Diretora de Formação do Doutores da Alegria.

Dentro ou fora dos hospitais, a música conta histórias, emociona, inspira. Ela também serve para abrir canais com a criança que está distante, receosa ou, ainda, deprimida pelas circunstâncias da doença.

“Pode também ser um fundo musical para uma ação que já está acontecendo. Já acompanhamos crianças até o centro cirúrgico, com uma bandinha que abria espaço no “trânsito” pelos corredores do hospital. Já fizemos serenata da janela, para crianças em isolamento, e para enfermeiras no balcão da Enfermagem”, conta Thais. 

Com as novas tecnologias disponíveis, iniciativas como transmissões de música ao vivo e uso de playlists para pacientes certamente alcançarão mais hospitais e farão parte da nossa realidade em um futuro próximo.

Cabe aos profissionais de saúde – e aos besteirologistas, claro – saber como se aproveitar destes recursos para promover algo milenar: a arte de cuidar.

SUS, capítulo 1: o direito que todos temos à saúde

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Ser um hospital de atendimento público é a primeira condição para que Doutores da Alegria desenvolva seu trabalho em um equipamento de saúde. Sim: todos os hospitais que atendemos integram o Sistema Único de Saúde.

O SUS é referência internacional, mas enfrenta diversos problemas – muitos deles acompanhados há décadas pelos artistas que integram esta organização.

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A realidade dos hospitais públicos traz questões sociais muito latentes, que envolvem desde a estrutura familiar das crianças e a escassez de direitos básicos até as condições de trabalho dos profissionais de saúde.

Para tentar entender a abrangência do SUS, que tem apenas 30 anos de existência, trazemos uma série de textos e reflexões a partir da experiência do Doutores da Alegria.

De onde veio o SUS?

Antes de 1988, o sistema de saúde brasileiro atendia somente a quem contribuía para a Previdência Social, em torno de 30 milhões de pessoas. Quem não integrava o mercado de trabalho formal dependia da caridade e da filantropia.

Na década de 70 nasceu o Movimento Sanitarista, formado por médicos e outros profissionais preocupados com a saúde pública e com a melhoria das condições de vida da população. O direito à saúde foi uma conquista que veio em 1988, na Constituição brasileira. Ela reconheceu o acesso universal à saúde, por meio de um Sistema Único de Saúde, como um direito fundamental.

“Saúde é direito de todos e dever do Estado”, diz ela. Assim, todos os brasileiros, independentemente de vínculo empregatício, passaram a ter direito à saúde universal e gratuita, financiada com recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.

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Um dos maiores sistemas de saúde do mundo

Se no início o sistema priorizava a medicina curativa, conceituando saúde meramente como ausência de doença, hoje o SUS atua com atenção integral à saúde, por toda a vida, e define saúde como qualidade de vida.

Em torno de 150 milhões de pessoas são atendidas unicamente pelo SUS em todo o Brasil. Outras 50 milhões possuem planos de saúde e atendimento privado, embora 75% dos procedimentos de alta complexidade sejam realizados no sistema público.

O SUS é referência internacional, um dos maiores sistemas de saúde do mundo, com muitas ilhas de excelência: programas de vacinação (o maior programa gratuito do mundo), transplantes de órgãos, hemocentros, programas de combate à AIDS, serviços de urgência e emergência (SAMU), entre outros.

Com tantas qualidade e progressos em apenas 30 anos, por que a saúde ainda é avaliada como o principal problema dos brasileiros? Você faz ideia? Bem, falamos disso no próximo capítulo…

Pokemon Go nos hospitais – ou como o virtual constrói novas relações

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Muitos tratamentos exigem que a criança hospitalizada faça caminhadas pelos corredores para se recuperar. Levantar da cama, esforçar-se para mexer o corpo, encontrar outras pessoas e respirar novos ares pode contribuir para deixar o hospital mais rápido.

O jogo para celular Pokemon Go, que recentemente chegou ao Brasil, vem incentivando crianças de hospitais mundo afora a deixarem seus leitos em busca de uma boa aventura. Profissionais de saúde e familiares dos pequenos também entram na brincadeira, caçando os bichinhos e tornando o hospital um lugar um pouco menos frio.

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Com base na realidade virtual, o jogador precisa andar e mover seu celular para caçar os bichinhos. “As crianças estão explorando um lugar que, há cinco minutos, talvez elas tivessem medo. Agora elas querem ver cada canto do hospital e aprender sobre ele”, conta J.J Bouchard, profissional da administração do C.S. Mott Children’s Hospital, nos Estados Unidos.

Além do benefício da caminhada, o jogo tem promovido encontros. Segundo o jornal Huffington Post, o pequeno Ralphie, de seis anos, tem transtorno do espectro autista e sente dificuldade em situações sociais. Mas jogar Pokemon Go ajudou-o a conhecer crianças de sua idade pelos corredores.

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Aqui no Brasil, as crianças hospitalizadas vêm fazendo uso do celular há muitos anos para se distrair dos longos momentos de internação. Os palhaços, que traduzem o mundo a partir de uma linguagem própria, entram no jogo, criando uma relação que transita entre o virtual e o real com cada criança. Pokemon Go certamente trará uma nova experiência para as intervenções artísticas.

Até quando o jogo será interessante a ponto de manter os pequenos caminhando não sabemos. E que outras inovações baseadas na realidade virtual surgirão… Também não. O fato é que o mundo virtual não tem fronteiras e pode desassossegar relações humanas, alterando a rotina de locais bastante intocáveis como os hospitais.

O que nos resta é continuar apostando na força dos encontros que dão um empurrãozinho para a recuperação da saúde.

Em 1990

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Nos anos 90, no início do trabalho dos Doutores da Alegria, os hospitais brasileiros tinham uma estrutura diferente do que vemos hoje – não havia, por exemplo, diferenciação entre a ala infantil e a ala adulta.

A proposta de levar um palhaço para dentro do hospital era muito inovadora porque a ideia que as pessoas tinham era a do palhaço de circo, acostumado a lidar com grandes plateias. O que um médico acharia de uma figura como esta entrando em um quarto de uma criança debilitada? Vocês podem imaginar.

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Mas Wellington Nogueira tinha visto o surgimento dessa atividade em Nova York e tinha certeza de que o trabalho traria resultados se o artista fosse inserido no ambiente hospitalar como integrante do quadro profissional – e não como um visitante, com um trabalho pontual em uma data comemorativa.

Foi assim que ele apresentou o “besteirologista”, o palhaço que fazia a paródia do médico, e convenceu as diretorias hospitalares e os profissionais de saúde de que era uma tarefa permanente. 

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No final da década, o Estatuto da Criança e do Adolescente já avançava e garantia direitos como a presença de um acompanhante junto às crianças hospitalizadas. Na mesma época, o Programa Nacional de Humanização trazia novas diretrizes para os hospitais e reconhecia os benefícios da intervenção do palhaço.

Em 1997 Doutores da Alegria recebeu o Prêmio Criança, da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança. Em paralelo, pesquisas comprovavam que a presença contínua do palhaço trazia melhoras ao tratamento médico, além de qualificar as relações humanas naquele ambiente.

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Este cenário tornou o trabalho da ONG reconhecido e muito bem avaliado por diretorias, por profissionais de saúde e principalmente pelo seu público, as crianças!

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Na década seguinte o trabalho se solidificou e Doutores da Alegria ampliou sua atuação. Em 2009 e em 2010 recebeu o Prêmio Cultura e Saúde, iniciativa conjunta dos Ministérios da Cultura e da Saúde.

E hoje, quase 25 anos depois, há mais de 1.000 iniciativas semelhantes espalhadas pelo país e milhares de pessoas buscando a qualificação do trabalho para atuar junto às crianças. Que assim seja!

Existir para…

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O dia a dia de uma organização está pautado por constantes e sucessivas indagações.

Por um lado estamos sempre nos perguntando se o propósito lá do início, em 1991, de levar a alegria do palhaço profissional para os hospitais públicos ainda é a estratégia mais contundente que podemos oferecer para transformar uma situação tão delicada que é a internação hospitalar.

E por outro lado, estamos sempre atentos se estamos conseguindo traduzir os fundamentos da organização – sua missão e estratégias – para a sociedade de maneira clara e possibilitando sua participação.  

Este aval da sociedade para uma organização como Doutores da Alegria é fundamental tanto quanto o impacto em nossos pequenos pacientes. Ela representa também o porquê de nossa existência. Essa dinâmica é o motor de uma associação viva, com finalidade pública, que atua inteiramente financiada por recursos da sociedade: verificar constantemente o impacto social das nossas ações e possibilitar que nossas estratégias sejam entendidas e adotadas pelas pessoas. O que era somente nosso por um instante passa a ter muitos donos. 

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Depois de 24 anos temos muito a celebrar pelos resultados alcançados e muito a exigir de nossa atuação adiante para contribuir por mudanças consistentes de que tanto nosso Brasil precisa. Os feitos estão relacionados ao que temos hoje no país de boas ações e políticas para mudar os hospitais, tendo em vista melhorar a experiência da internação pela ótica do paciente e de como o palhaço contribui para isso. E se no início o palhaço gerava estranhamento e indagação de sua pertinência, tempos depois seu exemplo trouxe diversas atividades para dentro hospital com o objetivo de “humanizar” o ambiente.

Parece muito, mas parece ser muito pouco. 

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Ainda muito falta a fazer pela saúde pública no país. Brasil afora, mesmo nos grandes centros, vemos hospitais estagnados, estruturas de serviço totalmente dissociadas dos valores mínimos de cidadania e direitos básicos. Profissionais desvalorizados, mal remunerados e insuficientes. Espaços físicos de atendimento que não poderiam estar em uso em várias funções públicas, muito menos para cuidar de humanos. 

Mesmo com tanto a comemorar, estamos sentindo um gosto amargo de que nosso país avança a passos muito lentos e isso nos persegue nas reflexões e na busca por soluções que gostaríamos de gerar para todos os hospitais brasileiros. 

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Doutores da Alegria atua no campo subjetivo, quer existir para melhorar as relações entre as pessoas. A ficção e a paródia possibilitam um novo significado ao real. O palhaço, ridículo, nada heroico, procura pela sua existência que não se impõe, que não se faz necessária ou importante, traz esta dimensão do humano que parece que está se esvaindo.

A organização transita pela saúde, pela cultura, pela assistência social. Como o ser, que não pode ser fracionado, também não estamos em um único campo de atuação; da mesma forma que não nos associamos à cura dos sintomas, mas deixamos que o organismo manifeste como está funcionando. 

A arte afeta as relações, nos ensina a pensar e a sentir o que não foi dito ou traduzido. Depois de 24 anos, sabemos que nosso existir não é mais o mesmo. Estamos inquietos, sempre buscando. 

 “A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte…

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer…”

“Comida” (Titãs – Arnaldo Antunes/Sérgio Brito/Marcelo Fromer –  1987)

Luis Vieira da Rocha

Hospital feito casa da gente

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Cada um enxerga o mundo de um jeito.

Uns fingem que veem, mas não falam. Outros usam óculos para ver melhor. Alguns tropeçam quando andam de tanto que ficam admirados com ele. Assim também é com o hospital.  

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Tem uns que acham o lugar uma loucura, outros vão lá raramente, alguns vão e vêm, outros tantos vão e nem vêm.

A gente vive no hospital duas vezes por semana e lá é uma extensão da nossa casa. Comemoramos dias festivos, feriados. Sabemos de um tudo e quase nada, vemos o tempo correr na urgência e muitas vezes sobreviver na nascença.

A gente vive lá como a maioria dos pacientes: o hospital vira segunda casa

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Esse pensamento veio quando nossa paciente, de aproximadamente 7 anos, teve finalmente alta médica e disse uma coisa que ficou na minha cabeça quando perguntamos:

- Você vai sentir falta dos palhaços?
- Claro que vou, né! Aqui tem cachorro, comida boa e palhaço, melhor que lá em casa.  

Ela tem razão. O hospital, lugar de cuidados, vem tentando sempre ampliar o seu olhar, é uma longa busca, como na vida de toda pessoa, mas ao menos se busca. E se não faz, alguém dá um jeito para se fazer.

E é bom quando o hospital não tem cara de hospital, mas que a gente se sinta como se estivesse numa casa, de férias, cuidando da vida como ela pede.

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E para não deixar de falar, vamos contar o sucesso do momento. Quem conhece o D. da UTI, no 3ª andar, sabe do que falamos. Ele vive babando por questões de saúde.

É um desses que fizeram – não porque quiseram – o hospital feito casa. E pela intimidade que temos de longos anos de visitas semanais, o D. tá quase careca de saber sobre nossas besteiras. Mas alegra os seus olhos, pois ele se comunica com eles, pisca mais que pisca-pisca, quando ouve a canção: 

♫♪ Djalma baba baba, baby,
Djalma baba babá
Djalma baba babá
 ♪♫

Dr. Dud Grud (Eduardo Filho) e Dr. Lui (Luciano Pontes)
Hospital Barão de Lucena – Recife

Uma descoberta

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Quando a gente dá de cara com a alegria, não dá pra resistir. Sobe ao peito uma sensação de preenchimento. Às vezes falta o chão.

A alegria, quando vem forte, toma conta do nosso corpo e faz perder a noção do tempo. Leva embora o vazio. Depois, enquanto nos deixa para que outros afetos se apoderem, sai em forma de sorriso, de paz, de vida. Cada um vai descobrindo, ao longo da sua trajetória, onde encontrar fontes de alegria: um abraço de mãe, a garfada na comida preferida, a visão do mar, um beijo, a conquista de um diploma, a lambida do cachorro.

Quando adoecemos, enxergamos na cura da enfermidade a saída para que voltemos a desbravar o mundo e esbarrar em momentos de alegria. Parece que o corpo saudável é condição para isso. Se a doença nos faz permanecer no hospital por mais tempo, tentamos criar explicações que façam sentido – pelo menos pra nós mesmos – do porquê deste martírio.

Afetos tristes e olhares piedosos podem se instalar. A consciência domina qualquer tentativa de escape, de imaginação. Colocamos a nossa reabilitação à mercê do destino.

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Mas… Calma. Não é preciso estar saudável pra sentir alegria. A gente sabe. Requer, talvez, algum esforço para espantar esses afetos tristes e abrir espaço para os encontros. Sim, mais um esforço além de todos aqueles pedidos ao paciente – pelos profissionais de saúde, por nossos parentes e pelo próprio corpo, debilitado e atrás de energia para se recuperar.

Já contamos muitas histórias de pacientes que conseguiram tirar poesia do cotidiano no hospital. Gente que desviou o foco do medo da agulha ou da decepção com a recuperação lenta. Isso não significa que o medo não surgirá segundos antes da injeção, mas traz a descoberta de que a dor é apenas uma parte da experiência no hospital… E, por que não, uma parte da vida?

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Quando a alegria se instala em um corpo em que a saúde encontra resistência, ela potencializa afetos positivos, traz intensidade, faz nossos motores voltarem a funcionar. Restaura, afinal, a ânsia de vida. Depois ela nos abandona, como deve ser, para lembrar de que é preciso ter força para encontrá-la novamente.

No hospital ou fora dele, talvez não seja preciso forçar a barra para encontrar sentido e utilidade naquilo que passamos, ancorando-se em forças sobrenaturais ou ficando à deriva de um destino, mas estar disponível para que os afetos como a alegria nos atinjam e restaurem algo que as crianças sabem bem e que aprendemos com o primeiro respirar, dolorido, dos nossos pulmões recém-nascidos: que a força e a potência de vida estão em nós mesmos.

Fotografia da Dupla Du Circo e Ju Gontijo no Instituto da Criança no Hospital das Clínicas.

Saúde em números

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A saúde vai além do hospital e dos medicamentos. Prepare-se para os números.

Em 2013, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) bateu à porta de milhares de brasileiros para traçar um panorama de como anda a nossa saúde. Na primeira edição da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), divulgada em dezembro do ano passado, foram revelados dados sobre a percepção do estado de saúde, as doenças crônicas não transmissíveis e o estilo de vida.

Nesta segunda edição, a pesquisa avaliou desde planos particulares até coleta de lixo e discriminação no serviço de saúde. E divulgou nesta terça-feira seus resultados.
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fonte: http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2015/06/02/ibge-revela-como-anda-a-saude-do-brasil.htm

Acesso à saúde

30,7 milhões de pessoas procuraram algum atendimento de saúde nas duas semanas anteriores à pesquisa. Entre elas, 97% afirmaram ter conseguido atendimento e 95,3% foram atendidas na primeira vez em que procuraram o serviço. Das pessoas que não conseguiram atendimento na primeira vez, 38,8% alegaram que não havia médico disponível e 32,7% não conseguiram vaga ou pegar senha.

Planos de saúde

27,9% da população possuía algum plano de saúde (médico ou odontológico), sendo 36,9% na região Sudeste, 32,8% no Sul e 30,4% no Centro-Oeste, seguidas de 13,3% na região Norte e 15,5% no Nordeste (15,5%). Na área urbana (31,7%), o percentual de pessoas cobertas por plano de saúde era cerca de cinco vezes superior ao observado na área rural (6,2%).

Saúde da família

Do total, 53,4% dos domicílios estavam cadastrados em Unidades de Saúde da Família, sendo que 17,7% nunca receberam visita de agente comunitário de saúde ou de um membro de equipe de saúde da família, mesmo tendo se registrado há um ano ou mais,

Internação em hospitais

Dos mais de 200 milhões de habitantes no país, 12,1 milhões (6%) ficaram internadas em hospitais por 24 horas ou mais nos últimos 12 meses anteriores à data da entrevista. A regiões que apresentaram proporções um pouco superiores à média nacional foram Sul (7,5%) e Centro-Oeste (7,4%). Entre os casos de internação, tratamento clínico e cirurgia foram os dois tipos de atendimento mais frequentes, sendo 42,4% e 24,2% em estabelecimentos de saúde pública. Em instituições privadas, os pesos se invertem: 29,8% procuraram tratamento clínico e 41,7%, cirurgias.

Discriminação no serviço de saúde

A pesquisa mostrou que 10,6% da população brasileira adulta (15,5 milhões de pessoas) já se sentiram discriminadas na rede de saúde (pública ou privada). A maioria disse ter sido tratada de forma diferenciada por motivos de natureza econômica: 53,9% em função da falta de dinheiro e 52,5% em razão da classe social, entre outros.

Consulta ao dentista

89,1 milhões de pessoas (44,4% da população total) consultaram dentistas nos últimos 12 meses anteriores à data da entrevista. Quanto maior o nível de instrução, mais elevada a proporção, variando de 36,6% (sem instrução ou com fundamental incompleto) a 67,4% (superior completo).

Problemas de saúde

Entre os que deixaram de realizar atividades habituais por motivo de saúde, 8% foram mulheres e 5,9% foram homens. A pesquisa também investigou os motivos de saúde que impediram as pessoas de realizar suas atividades habituais: 17,8% citaram resfriado ou gripe e 10,5% relataram dor nas costas, problema no pescoço ou na nuca.

Dengue

É importante considerar que a pesquisa rodou em 2013, antes de a epidemia de dengue levar o Ministério da Saúde a uma campanha nacional. Naquela época 12,9% da população (25,8 milhões) disseram ter tido dengue alguma vez na vida. As proporções foram maiores que a média nacional nas regiões Norte (20,5%), Nordeste (18,5%) e Centro-Oeste (17,5%). Dos diagnosticados com dengue, a maioria era de mulheres (14,3%), acima da média nacional.

Medicamentos obtidos em rede pública

Pelo menos 6,4 milhões de pessoas (33,2%) fizeram uso de um dos medicamentos receitados no serviço público. Embora não houvesse grande diferença entre as regiões, essa divisão ficou mais clara em relação a cor e grau de instrução: quanto menor o nível de instrução (sem instrução ou fundamental incompleto), mais pessoas de cor parda (41,4%) obtiveram medicamentos. Do total de 19,3 milhões que tiveram medicamento receitado no último atendimento de saúde, 21,9% (4,2 milhões) conseguiram o remédio no Programa Farmácia Popular.

Acidentes e violência

3,1% da população se envolveu em acidente de trânsito com lesões corporais nos últimos 12 meses anteriores à pesquisa, sendo a maioria homens (4,5%) e jovens. Destes, 47% deixaram de trabalhar, estudar e realizar outras atividades, enquanto 15,2% tiveram sequelas ou incapacidades. Em relação à violência, 3,1% das pessoas de 18 anos ou mais sofreram violência ou agressão de alguém conhecido. Nos 12 meses anteriores à realização da entrevista, 3,1% da população feminina com mais de 18 anos (2,5 milhões de mulheres) sofreu agressão física, verbal ou emocional cometida por pessoas que conheciam a vítima.

Saneamento

No Brasil, 60,9% dos domicílios (39,7 milhões) possuem banheiro ou sanitário e esgotamento sanitário por rede geral de esgoto ou pluvial. As regiões revelaram situações diferentes em relação a este indicador: enquanto no Sudeste a proporção foi de 86,3% dos domicílios, na região Norte foi de 15,5%

Coleta de lixo direta

58,2 milhões de unidades domiciliares (89,3% do total) foram atendidos por serviço de coleta de lixo direta. As regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste apresentaram resultados superiores à média nacional, sendo a Sudeste a que registrou a maior proporção (95,7%). As regiões Norte e Nordeste apresentaram resultado inferior à média nacional: 78,8% e 79,1%, respectivamente.

Animais domésticos

A pesquisa estimou que 44,3% dos domicílios do país possuíam pelo menos um cachorro (28,9 milhões de casas). Em relação à presença de gatos, 17,7% dos domicílios do país possuíam pelo menos um, o equivalente a 11,5 milhões. Dentre os domicílios com algum cachorro ou gato, 75,4% (24,9 milhões) deles tiveram todos os animais vacinados contra raiva nos últimos 12 meses.

Com um encontro

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Acordamos todos os dias para fazer a mesma coisa nos hospitais: encontrar pessoas.

A mesma coisa, mas todo dia de um jeito diferente. Encontramos pessoas, ainda sem maquiagem de palhaço, nas escadas e nas recepções. Depois, devidamente paramentados, nos corredores, leitos pediátricos e enfermarias. Ainda mais: nas poltronas ao lado dos leitos, nas bancadas da Enfermagem, por trás dos carrinhos de limpeza.

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No dicionário, ‘encontro’ pode ser ‘juntar-se no mesmo ponto’. Mas também ‘disputar, lutar, opor-se’. Como é que a mesma palavra pode ter significados distintos?

O objetivo do palhaço, no trabalho dos Doutores da Alegria, é estabelecer encontros potentes com as crianças; encontros que perpetuem a alegria e que possam trazer benefícios para a saúde.

Ao abrirmos a porta de um quarto inventamos relações, alcançamos o imaginário, fabulamos. Podemos ser o médico besteirologista pronto para um check-up de miolo mole, mas também podemos ser o que a criança quiser. E podemos, inclusive, levar um ‘não’ e ter de fechar a porta. Ao passar pelo corredor, podemos brincar com a enfermeira e sua bandeja de agulhas fritas, dar sinal para pegar uma carona na cadeira de rodas e também podemos nos despedir de um grande amigo que teve alta.

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com o encontro_nina jacobi

Encontros planejados, ritmados ou encontros casuais, fugazes.

Veja: um encontro pode significar juntar-se no mesmo ponto (a visita regular do palhaço), mas também pode ser uma oposição (um ‘não’, uma despedida). E esses encontros são sempre diferentes, porque para estabelecer relações não é possível reproduzir, por mais que o palhaço tenha gracejos prontos em seu repertório.

É preciso produzir, criar, estar aberto para o que vem do outro – e nesse sentido, o fazer artístico pode ajudar. É dessa criação conjunta e ativa que surge a alegria, a potência de vida. E tudo começa como todo dia… Com um encontro.