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Um sentido chamado sensibilidade

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Já faz um tempo que conhecemos a L. Ela tem a visão bem fraca, só enxerga muito de perto. Mas tem uma sensibilidade muito forte.

Em nossos primeiros encontros, já percebemos o quanto ela gosta de palhaço. Ela tocou nossos narizes, nossos sapatos, tudo o que tínhamos nos bolsos. Um fantoche de dedo, cartas de baralho mágica, bolas de cristal e até minha cartola de malabarismo voadora. Ela soube exatamente quem éramos: Dr. Pinheiro e Dra Greta.

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De um tempo para cá, ela esteve internada e temos nos encontrado direto. Sempre que chegamos o pai ou a mãe perguntam se ela sabe quem chegou.

- DOUTORES DA ALEGRIA!, ela grita.

Perto de completar seis anos, L. é uma criança encantadora, conversa melhor que muito adulto. Dia desses chegamos ao seu quarto e a encontramos brincando com uma residente do hospital. Entramos na brincadeira: L. pegava o fogãozinho de brinquedo, a cama e os móveis e me passava, dizendo:

- Pega para você sentir como é!

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Ao final do dia, passamos pelo corredor e lá estavam elas, juntas novamente. E dessa vez dançando valsa… Isso nos emocionou! Na última semana, quando chegamos ao quarto, L. estava saindo com outra criança em direção ao andar da Quimioterapia.

- Vamos juntos!, disse ela, pegando em minha mão.

E eu fui como seu guia, um sentimento de parceria e confiança que ganhamos com o tempo, a cada visita, a cada encontro.

Dr. Pinheiro,
mais conhecido como Du Circo,
direto do Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, em São Paulo.

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Os olhos mais felizes do mundo!

Dia desses entramos na UTI e  M. estava dormindo. Quando sua mãe nos viu, seus olhos começaram a marejar, marejar, e de repente, transbordaram em um mar de lágrimas.

Por um instante ficamos sem saber o que fazer nem o que dizer, mas ao ver que  o menino apenas dormia, falei: você está emocionada, então vamos aproveitar e aguar a nossa florzinha?.  entregamos a ela uma florzinha de plástico. Como ela continuava chorando, toquei em seu ombro e falei: mas olha, ele está bem… Ao que ela, com a voz embargada, respondeu: ele não está enxergando.

Silêncio.

Difícil escutar uma notícia dessas a respeito de um paciente nosso. Afinal, o M., com seus lindos olhos esverdeados, sempre nos olha com grande curiosidade, é um ótimo jogador, daqueles que nos inspira em nossa jornada de besteirologistas.

Bem, o silêncio não podia durar a vida inteira e eu, meio lá e meio cá, disse: humm, deve ter sido alguma complicação né… mas ele vai ficar bem. Olha, fica com a flor e vai aguando ela, na próxima visita a gente vê se funcionou. Fomos embora.

Na visita seguinte, encontramos a mãe na entrada da pediatria, com os olhos brilhando e muito feliz. Ela nos disse: “O M. está esperando vocês! Na minha cabeça passou um pensamento voando: ah, ele deve ter melhorado. Quando entramos na enfermaria, ele estava sentado e já sorrindo, nos viu!

Uau, M. estava enxergando de novo!! E ainda tinha uma historinha pra contar pra gente. Ele contou que aconteceu uma catástrofe, a florzinha que deixamos tinha caído justo no… seu cocô! A sua mãe até pensou em lavá-la, mas ele não deixou! Ora, para ele, sua mãe e nós, a florzinha acabou cumprindo o seu papel, e o que importava agora era a felicidade enorme nos olhos de sua mãe e a alegria de M. vendo tudo de novo!

Na última visita, ele foi logo avisando: Eu estou de alta. Perguntamos: Ué, quem deu alta, sem a nossa autorização?, O Dr. Pedrosa, respondeu. Então complementamos a alta, colocando um adesivo colorido em sua testa, nos despedimos e fomos embora felizes da vida! 

Dra. Mary En (Enne Marx)

Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)

IMIP – Recife

Julho de 2013

 

 

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Um sorriso ali

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No mês de maio desenvolvemos uma pesquisa em labobotório que deu o que falar nos quatro cantos do Hospital Barão de Lucena.

A partir de estudos besteirológicos preparamos um coquetel de comprimidos que tem mil e uma utilidades. É uma junção do famoso “Buscopão” (para quem gosta de buscar pão na padaria), da “Dipirona” (para quem quer dar uma pirada) e do “Paraocetamol” (Para ocê que tá mole).

Enfim, é um coquetel muito energizante. Receitamos nossa invenção para muitos pacientes, mas até agora ninguém quis usufruir dessa grande descoberta…

Saímos pelos corredores anunciando:

Comprem, comprem, compremidos!

Até de graça nós tentamos vender e não tivemos sucesso. Desconfiamos que isso aconteça porque o coquetel é do tamanho de um melão e ainda não encontramos ninguém com a garganta tão larga para engoli-lo, já que para que o mesmo faça efeito, deve ser engolido inteiro e sem água.

E foi procurando um possível comprador que entramos no quarto de M., uma garotinha de 5 anos que estava chorando quando chegamos.  Tentamos interagir e a mãe dela nos disse que ela não enxergava quase nada. Desistimos do contato visual e tentamos conversar com ela. Mas a mãe disse que M. não entendia pois é autista.

Insistimos e começamos a cantar. O choro foi diminuindo, o corpo dela ficando mais relaxado e então tiramos uma lanterna do bolso. Quando aproximamos a lanterna, M. ficou surpresa e conseguiu ver a luz. Fomos cantando, fazendo movimentos com as lanternas e M. tentando pegar. Uma deliciosa brincadeira! Pronto, M. começou a sorrir e iluminou todo o quarto… Missão cumprida!

Dr. Cavaco (Anderson Machado)
Dra. Tan Tan (Tamara Lima)
Hospital Barão de Lucena (PE)
Maio de 2012

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O desassossego da organização

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Luis Vieira da Rocha, diretor executivo dos Doutores da Alegria, escreveu sobre o futuro que nos aguarda a partir da nossa maioridade (21 anos). Veja abaixo o depoimento dele que também fez parte do Balanço 2011.

Luis Vieira da Rocha

“Doutores da Alegria assumiu o compromisso de promover a ética da alegria por meio da arte, possibilitando seu acesso à sociedade como um direito social.

Escolhemos levar a experiência da alegria para os ambientes que carecem de uma mudança na qualidade nas relações. Essa missão só teve sentido com o apoio da sociedade, compartilhando esse desafio e se realizando, também como agente, nessa concretização. O engajamento é amplo, inclusive de artistas comprometidos como desenvolvimento da arte e seu impacto social.

Em 21 anos de existência, amadurecemos nossa prática e ampliamos nossas ações para além dos hospitais: compartilhamos o conhecimento por meio de programas de formação, criações artísticas, diálogos com a sociedade; orientamos grupos semelhantes para um movimento artístico mais engajado, com base em nossos valores;  ampliamos o acesso de pacientes à arte de qualidade local; e, a partir da experiência inicial nos hospitais, traduzimos em arte acessível à comunidade, ou seja, ninguém precisa ficar hospitalizado para conhecer os Doutores da Alegria e conhecer a leitura que fazem dos contextos hospitalares.

Mesmo com tantos avanços na vida de uma organização é sempre necessário rever seus compromissos. O tempo e as conquistas nos cobram. Aqui tratamos de uma “outra arte” que é gerir um importante patrimônio social e aplicar cada vez melhor os recursos a nós confiados, escolhendo os caminhos que trarão os melhores resultados nessa tarefa de construção de uma cultura de alegria.

O caminho de maturidade dos 21 anos nos exige isso. Em 2011, durante três dias, reunimos toda a nossa equipe – artistas, técnicos e representantes das áreas da Saúde, Cultura e Educação para um grande encontro que chamamos de Conferência de Busca de Futuro. Nela olhamos dentro e fora. Conferimos, uns com outros, vários pontos de vista. Analisamos tendências, necessidades sociais. Revimos o ponto de partida da instituição. Identificamos mais uma vez nossos desejos e vocação para o debate de novas possibilidades para os próximos anos.

Esse foi um belo e primeiro pontapé que demos no nosso traseiro…

Quando tudo parecia estar organizado – maturidade artística, uma estrutura organizacional com áreas complementares – surge mais uma inquietação:
a de contribuir para um futuro onde a alegria seja um valor na nossa sociedade.

Esse desassossego em que nos encontramos, para a construção de uma nova visão, é da natureza do artista e de uma organização que concluiu uma grande etapa. Agora o desafio parece ser maior do que o começo, mais do que a garantir a presença de uma dupla de palhaços profissionais num hospital,
coisa totalmente estranha à realidade de duas décadas atrás.

Ao olharmos para o início, a possibilidade de ver palhaços profissionais atuando no hospital era como uma visão, um futuro a ser conquistado. Hoje é a nossa realidade. Com a maioridade, temos o desafio de nos reinventar, descobrir o futuro que nos aguarda. E nos aguardem!

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