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Dizem que as despedidas são momentos difíceis. E pelo menos para mim são mesmo.

Mas há vezes que não temos nem a chance de nos despedirmos e, quando chegamos no outro dia de visita, as crianças já ganharam alta e só nos resta a lembrança do que vivemos. Neste mês alguns pacientes tiveram alta e não conseguimos dar “tchau”.

E acho que foi melhor assim. Eu não saberia o que falar. É o momento em que você tem quase certeza de que não vai mais ver a pessoa e tem um misto de sentimentos egoístas de querer vê-la mais uma vez.

Instituto da criança - Lana Pinho-68

Só que o hospital não é o melhor lugar para encontrar os amigos, né? Rsrs.

Uma que teve alta e nos deixou este mês foi a J., garota doce e de uma imaginação incrível. Lembro-me do dia que ela disse pra gente pegar um avião pra voar perto de Deus e poder conversar com ele. Disse também que Deus não existia até ele criar ele mesmo – meio confuso, mas faz sentido.

Dia desses eu e a Vera Abbud estávamos passando nos setores de cara limpa (quer dizer, sem estar de palhaço) e a chefe da Enfermagem perguntou se iríamos fazer a visita de palhaço naquele dia, pois J. estava perguntando sobre nós desde a hora em que acordou. Nós nos olhamos e decidimos fazer a visita, mesmo sem maquiagem. A pequena enxergava apenas vultos, e o que importava pra ela era nossa presença, e não a roupa ou a maquiagem.

Tereza Gontijo, nossa colega Dra Guadalupe, já tratou deste tema aqui. Ela lembra que no Instituto da Criança quase sempre encontramos as mesmas crianças, pois são alas de tratamento contínuo. E nas internações, costumamos acompanhar uma mesma família por longos períodos. 

Instituto da criança - Lana Pinho-177

“Assim, quando começamos o dia de trabalho, já temos uma ideia das crianças que vamos encontrar pelo caminho e, de certa maneira, já esperamos por esse encontro.”, conta ela “Com cada paciente desenvolvemos uma profunda relação de intimidade e contamos encontrá-las para saber como estão naquele dia e continuar as histórias que iniciamos há dias, semanas ou meses atrás. Temos muita saudade dos nossos encontros, mas como sentir saudade de uma internação hospitalar?” 

+ leia aqui: Saudade de uma internação

Bem, quando chegamos e esses pequenos já receberam alta é um misto de alegria e saudade. Alegria porque, claro, eles não estão mais no hospital; e a saudade é das bobeiras que vivemos. É egoísta, eu sei, mas a potência do encontro entre crianças e palhaços nos levam a estes sentimentos.

Henrique Rìmoli, conhecido como Dr. Dus"Cuais, escreve do Instituto da Criança, São Paulo.